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Suprimento Semanal VII
Para combater o tédio do fim da semana, indicamos um livro, um filme e um disco para você não ter desculpa de que não tem nada para fazer quando estiver passando Faustão. Simbora.
O livro
O avesso das coisas (Carlos Drummond de Andrade)
Esqueça as crônicas de Luis Fernando Verissimo, ideal mesmo para se ler na escola e nas filas é esse livro do Drummond. Que ele é gênio, ninguém tem coragem de negar, mas existe alguns fachos de luz divina compiladas no meio dessas frases. Explico: “O avesso das coisas”, publicado pela Record, é um livro só de frases, sobre os mais diversos assuntos. Ele muito humildemente explica no prefácio que não tratam-se de máximas, e sim de mínimas. Que não tem a pretensão de soar sábio, mas que aqueles dizeres são fruto da experiência de vida. E são mesmo. Algumas frases são impagáveis, a ponto de você querer roubá-las e dizer que foi você quem as fez. É o meu atual livro de cabeceira e estou lendo muito aos poucos, para não acabar o encanto muito rápido, pois trata-se de, infelizmente, um livro curto.
O disco
Jobim Sinfônico (OSESP)
Para amantes de música instrumental e de Antonio Carlos Jobim, taí um pote de ouro. Esse disco da Biscoito Fino, além de ser lindo, é um tapa na cara de quem diz que Tom Jobim só fazia Bossa Nova. O repertório vai da Bossa aos seus trabalhos sinfônicos pouquíssimos conhecidos, como por exemplo, as músicas da Alvorada, que fez quando Brasília estava sendo construída. Guiada pela batuta do maestro Roberto Minczuk e pela direção de Mario Adnet e Paulo Jobim, o filho do homem, a OSESP – Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo - dá um show nas 23 faixas desse CD duplo. Trazem, como participação especial em algumas faixas, a voz de Milton Nascimento, Maucha Adnet e Muiza Adnet. Sabe aquela pergunta idiota, aquela que se você só pudesse levar cinco discos para uma ilha deserta? Esse, certamente, seria um dos meus cinco.
Veja abaixa a minha faixa preferida, a “Quebra Pedra”, que fecha a “Gabriela”:
O filme
Nuovo Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore)
Um dos maiores expoentes do cinema italiano, “Nuovo Cinema Paradiso” é um filme que precisa ser visto por todos os amantes da arte. Até porque funciona como uma espécie de ode ao cinema. A história se passa em Sicília, e seu protagonista é o molequinho Totó, que encontra no pequenino cinema local uma enorme paixão. E assim começa a se aproximar de Alfredo, o irritado mas amável projecionista, a fim de aprender a arte de ser projetor. Toda essa história vem em formato de lembrança quando Totó, já adulto e cineasta de sucesso, recebe a notícia de morte de Alfredo. A partir disso ele se lembra da infância, do primeiro amor, de suas amizades, das pessoas caricatas daquela cidadezinha. Fico até um pouco encabulado de falar desse filme e não conseguir passar ao leitor o quão grande e emocionante ele é. Isso tudo sem contar que a trilha sonora é do (g)Ennio Morricone. Assista, e se você não gostar, eu te devolvo o dinheiro da locação (gente pelo amor de deus foi só um modo de falar).
Por trás da música – Sabiá
O ano era o emblemático 1968. O Brasil vivia a parte mais darkside e underground de sua ditadura militar. A música popular, a chamada MPB, estava em alta, e os seus festivais eram a grande atração geral. Seus festivais eram disputadíssimos, e justamente num deles é que se passa a história dessa música – a minha preferida entre todas desse mundo, diga-se de passagem.
Sabiá
Compositores: Chico Buarque e Tom Jobim
Intérprete: Chico Buarque
Ano: 1968
Disco: Coletânea Não vai passar vol. 4
Sabiá, na verdade, já existia fazia um tempo. Tom Jobim a tinha composto no piano, instrumental mesmo, e num primeiro momento foi batizada de “Gávea”. Depois, foi conhecer Chico Buarque quando seu amigo Aloísio de Oliveira os apresentou, num encontro do apartamento do maestro. Chico, ainda tímido, mostrou o seu “Pedro pedreiro”, e Tom gostou. Os dois se aproximaram e assim começou a parceria. Primeiro com “Retrato em branco e preto”, depois com “Pois é”, e, finalmente, “Sabiá”. Inscreveram a canção no III Festival Internacional da Canção, promovido pela ainda novata Rede Globo. Chico, descrente de uma possível aprovação, até porque a música realmente não tem clima de festival, foi viajar para o exterior.
Foram defender a música as meninas Cynara e Cybele, ambas do Quarteto em Cy. Como o festival era internacional, primeiro havia uma etapa de classificação entre as músicas brasileiras, e daí, as selecionadas iriam concorrer em outra noite com as músicas dos outros países. Essa primeira eliminatória, no Maracanãzinho, Tom enfrentou sozinho, pois Chico ainda estava em Veneza. A rival de “Sabiá” era “Pra não dizer que não falei das flores”, ou simplesmente “Caminhando” (mais fácil, né), de Geraldo Vandré. Sua letra era totalmente panfletária, de rimas fáceis pela pretensão de se tornar um hino de resistência aos militares. E realmente se tornou – era a preferida pelo público, que a entoava a plenos pulmões desafiando os milicos.
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiáVou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o diaVou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecerVou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiá
Debaixo de uma sonoríssima onda de vaias, foi anunciado que “Sabiá” havia vencido a etapa nacional, e, portanto, seria a representante brasileira na outra fase do festival. Há quem diga que os militares não permitiram que a música de Vandré vencesse, prevendo uma possível euforia entre a oposição. Não se sabe se é verdade, mas de um jeito ou do outro, Tom Jobim, enquanto dirigia de volta para sua casa, chegou a encostar o carro para chorar. A vaia tinha sido mais forte que a que soterrou Caetano Veloso com a sua “É proibido proibir”, algumas semanas antes. Depois, Tom enviou a Chico um telegrama, que foi interpretado como uma brincadeira – típica do parceiro.
Chico regressou a tempo de pegar a finalíssima do FIC, e os dois autores foram representar sua música, dando uma força para Cynara e Cybele. Esta última etapa, “Sabiá” também venceu – mas não mais abafada por tantas vaias, mas ainda assim por diversas críticas. Alegavam que era uma composição fora do contexto social da época, até alienada. Poucas pessoas viram beleza e, inclusive, crítica ao exílio na música. Ao longo do tempo, ela foi interpretada por diversos artistas, como Elis Regina, Clara Nunes, MPB-4 e até Frank Sinatra, em uma versão em inglês feita por Tom.
Escolhi dois vídeos para ilustrar a postagem. O primeiro foi gravado para um especial da Band, na casa de Tom, com o coro dos parentes e amigos. O segundo é um “antes e depois”, com imagens do festival de 1968 mescladas ao programa “Chico & Caetano”. Gosto mais do primeiro.
Por trás da música – Chega de mágoa
Em 1985, enquanto a Ditadura Militar estava capengando, o Nordeste sofreu um grande problema em relação à chuva. Mas não porque faltou, pelo contrário: a região foi inundada, varrida por grandes enchentes que deixaram milhares de desabrigados. Uma turma musical, ainda muito unido pelo espírito da Diretas Já, juntou seus vocais para gravar um LP com duas músicas. De um lado, “Chega de mágoa”, e de outro, “Seca d’água”. Espelhados no “USA for Africa”, o projeto do We are the world, todo o dinheiro arrecadado com as vendas do compacto seria destinado às vítimas nordestinas.
Chega de mágoa
Compositores: Vários
Intérprete: Vários
Ano: 1985
Disco: Nordeste Já
A música, quem fez, foi Gilberto Gil. A letra teve participação do próprio Gil, do Chico Buarque, Milton Nascimento, Fagner e Erasmo Carlos, mas decidiram que seria divulgado como “criação coletiva”. Ao todo participaram 155 músicos, entre cantores e instrumentistas, em três sessões de gravação na Barra da Tijuca. Os arranjos e a regência ficaram por conta de Dori Caymmi, filho ilustre do mestre Dorival. A Caixa Econômica patrocinou a tiragem inicial de 500 discos.
Sem muitos problemas, pois todos decidiram que os destaques da gravação deveria ficar com os nomes mais populares do momento, foram escalados Tom Jobim, Rita Lee, Milton Nascimento, Gal Costa, Djavan, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Fagner, Elba Ramalho, Gonzaguinha, Caetano Veloso, Simone, Chico Buarque, Fafá de Belém, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Elizeth Cardoso, Paula Toller do Kid Abelha, Roger do Ultraje a Rigor e Tim Maia.
Veja o clipe:
A introdução, feita por Milton e o piano do maestro soberano Tom Jobim, é, na verdade, palavras de Tancredo Neves, num discurso otimista que anunciava o fim da ditadura. Depois, entram o coro e os artistas já citados aqui. Interessante dizer que a Elizeth Cardoso foi escalada para representar a velha guarda, enquanto a dupla Paula & Roger representava a nova geração musical brazuca. Apesar de ser talvez o maior encontro da música popular brasileira, não deu muito certo. A crítica dizia que as vozes estavam muito desencontradas, o que dificultava no entendimento da letra. E também não pegou muito no povão, tanto é que uma música desse naipe não era para estar esquecida.
“Nós não vamos nos dispersar
Juntos, é tão bom saber
Que passado o tormento
Será nosso esse chão”
Água, dona da vida
Ouve essa prece tão comovida
Chega, brinca na fonte
Desce do monte, vem como amiga
Te quero água de beber
Um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero orvalho toda manhã
Terra, olha essa terra
Raça valente, gente sofrida
Chama, tem que ter feira
Tem que ter festa, vamos pra vida
Te quero terra pra plantar
Te quero verde
Te quero casa pra morar
Te quero rede
Depois da chuva o Sol da manhã
Chega de mágoa
Chega de tanto penar
Canto e o nosso canto
Joga no tempo uma semente
Gente, olha essa gente
Olha essa gente, olha essa gente
Te quero água de beber
Um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero terra pra plantar
Te quero verde, hum
Te quero casa pra morar
Te quero rede
Depois da chuva o Sol da manhã
Canto e o nosso canto
Joga no tempo uma semente
Gente (quero te ver crescer bonita)
Olha essa gente (quero te ver crescer feliz)
Olha essa gente (olha essa terra, olha essa gente)
Olha essa gente (Gente pra ser feliz, feliz)
Te quero água de beber
Um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero terra pra plantar
Te quero verde
Te quero casa pra morar
Te quero rede
Depois da chuva o Sol da manhã
Chega de mágoa
Chega de tanto penar
Chega de mágoa
Chega de tanto penar
Nelson Motta conta em sua biografia do Tim Maia, que este ofereceu bebida e drogas pra turma no estúdio. Elizeth Cardoso ficou incomodada e recusou: “Tirem esse elefante daqui!”.
É interessante, pra quem gosta, assistir ao clipe e ir tentando reconhecer os artistas. No entanto, segue a lista completa de pessoas envolvidas no projeto e me diz se é pouca bosta:
Aizik, Alceu, Alceu Valença, Alcione, Alves, Amelinha, Antônio Carlos, Aquiles (MPB-4), Baby Consuelo, Bebeto, Belchior, Beth Carvalho, Bussler, Caetano Veloso, Camarão, Carlinhos Vergueiro, Carlão, Celso Fonseca, Charlot, Chico Buarque, Cláudio Nucci, Cristina, Cristovam Bastos, Dadi, Daltro de Almeida, Dinorah (as gatas), Dorinha Tapajós, Dori Caymmi, Ednardo, Edu, Edu Lobo, Eduardo Dusek, Elba Ramalho, Elifas Andreato, Elisete Cardoso, Elza Soares, Emilinha Borba, Eunydice, Erasmo Carlos, Fafá de Belém, Faini, Fátima Guedes, Fernando Brant, Gal Costa, George Israel, Geraldo Azevedo, Gereba, Gilberto Gil, Golden Boys, Gonzaguinha, Guilherme Arantes, Ivan Lins, Jamil, Jacques Morelembaum, Joana, João Mário Linhares, João do Vale, José Luiz, Joyce, Kleiton e Kledir, Kid Vinil, Lana, Leoni, Leo Jaime, Lúcio Alves, Luiz Avellar, Luiz Carlos, Luiz Carlos da Vila, Luiz Duarte, Luiz Gonzaga, Luiz Melodia, Lulu Santos, Magro (MPB-4), Malard, Manassés, Maria Bethânia, Marina, Marlene, Martinho da Vila, Marçal, Maurício Tapajós, Mauro Duarte, Mazola, Miguel Denilson, Mirabô, Miltinho (MPB-4), Milton Banana, Milton Nascimento, Milton Araújo, Miúcha, Moraes Moreira, Olívia Byington, Olívia Hime, O Quarteto, Paulinho da Viola, Patativa do Assaré, Paula Toller, Pareschi, Penteado, Perrotta, Perrottão, Pepeu Gomes, Raimundo Fagner, Rafael Rabello, Reinaldo Arias, Ricardo Magno, Rita Lee, Roberto de Carvalho, Roberto Carlos, Roberto Ribeiro, Roberto Teixeira, Rosane Guedes, Roger (Ultraje a Rigor), Rosemary, Rubão, Rui (MPB-4), Sandra de Sá, Sérgio Ricardo, Simone, Sílvio Cézar, Sueli Costa, Stephani, Tânia Alves, Tavito, Teo Lima, Telma, Telma Costa, Terezinha de Jesus, Tim Maia, Tom Jobim, Tunai, Verônica Sabino, Vilma Nascimento, Virgílio, Yura, Wagner Tiso, Walter, Zenilda, Zé da Flauta, Zé Ramalho, Zé Renato, Zizi Possi.
Ufa. Sentiu o time?
Fonte:
Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia (Nelson Motta)
20 duplas da música brasileira
Comecei tentando escalar dez duplas essenciais à música brasileira. Não consegui. Fui pra quinze. Não deu também. Fechei com vinte. Vinte parcerias bem sucedidas que não podem passar em branco para quem gosta de música. Tentei ser versátil, mas antes de mais nada gostaria de deixar claro alguns pontos: existe, além dessas vinte, inúmeras outras que eu gostaria de incluir aqui – quem sabe numa segunda postagem. Não está em ordem de preferência. E o intuito não é escolher os melhores compositores brasileiros, até porque não sou louco o suficiente para eleger alguns entre tantas feras.
Vou indicar alguns destaques entre as composições das duplas e, para não carregar muito a página, conto com sua astúcia para jogar os nomes que te despertarem curiosidade no YouTube. Vamos lá.
1. Tom Jobim e Vinicius de Moraes
A união entre Tom e Vinicius talvez seja um dos melhores casamentos da MPB. Lamento quando ouço que Tom Jobim e Vinicius de Moraes são compositores de Bossa Nova. Extremamente versáteis, compositores desse naipe não podem ser presos a um movimento musical.
Destaques: Se todos fossem iguais a você. Eu sei que vou te amar. Sem você. Modinha. Insensatez. Água de beber. Eu não existo sem você. Estrada branca. É preciso dizer adeus. A felicidade.
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2. Chico Buarque e Edu Lobo
Chico tem em Edu seu mais constante parceiro, e vice-versa. Juntos, têm mais ou menos quarenta parcerias, todas, com exceção de duas, feitas por encomenda para alguma peça teatral. “O grande circo místico“, “O corsário do rei” e “Cambaio” são algumas peças que levam a trilha sonora assinada pela dupla. É um desses encontros raros, de perfeita simetria entre letra e música. Edu diz que jamais teve que alterar uma de suas notas para que as palavras de Chico se encaixassem melhor.
Destaques: A história de Lily Braun. Choro Bandido. A moça do sonho. Beatriz. Cantiga de acordar. Ciranda da bailarina. Ode aos ratos. Sobre todas as coisas. Valsa brasileira. Veneta.
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3. Noel Rosa e Vadico
Noel Rosa, expoente máximo do samba, e Vadico, pianista, têm um trabalho interessante: juntos, fizeram poucas músicas. Mas extremamente preciosas. Não é por menos que são lembrados como uma das mais felizes parcerias da música brasileira.
Destaques: Conversa de botequim. Cem mil réis. Feitio de oração. Feitiço da Vila. Tarzan, o filho do alfaiate. Provei. Pra que mentir?.
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4. Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira
Luiz Gonzaga, o rei do baião, teve entre seus vários parceiros um que merece ocupar um degrau acima dos demais: Humberto Teixeira. Embora sejam lembrados somente por “Asa branca”, a parceria rendeu outros trabalhos louváveis que valem a pena ser escutados para quem gosta de um ritmo mais nordestino, mais animado.
Destaques: Asa branca. Assum preto. Baião. Baião de dois. Légua tirana. Qui nem jiló. Respeita Januário.
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5. Chico Buarque e Francis Hime
Francis (esquerda) e Chico (direita) se aproximaram muito durante a década de 70. Além de parceiros em composições, Francis atuou como arranjador dos discos de Chico dessa época. Alguns apontam os arranjos de Francis como os melhores da obra de Chico. Juntos, compuseram quase 20 músicas, entre elas estão alguns clássicos da MPB.
Destaques: Vai passar. Meu caro amigo. Pivete. Quadrilha. Trocando em miúdos. Atrás da porta. Passaredo.
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6. Caetano Veloso e Gilberto Gil
Para representar o Tropicalismo aqui na lista, nada mais justo que Caetano e Gil. No fatídico ano de 1968, revolucionaram o cenário cultural brasileiro incorporando elementos estrangeiros, como a guitarra, em suas composições.
Destaques: Divino maravilhoso. Haiti. Panis et circenses. Desde que o samba é samba. Cinema novo. Dada. Batmacumba.
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7. Raul Seixas e Paulo Coelho
Esqueça o que você ouviu falar por aí dos livros do Paulo Coelho. Estamos falando de um letrista que junto de Raul Seixas, compôs várias pérolas do rock brazuca. Muitos dizem que Paulo Coelho se aproveitava do talento e da fama de Raul, mas, independente do que cada um fazia nas composições, as que nasceram desse encontro merecem destaque em nosso cenário musical.
Destaques: Al Capone. As minas do Rei Salomão. Como vovó já dizia. Eu nasci há dez mil anos atrás. Gitá. Medo da chuva. Meu amigo Pedro. Não pare na pista. Rock do diabo. Sociedade alternativa.
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8. Rita Lee e Arnaldo Baptista
Rita e Arnaldo botaram no mundo alguns clássicos imortais. Juntos com Sérgio Dias, formavam os Mutantes, que se desfez, se refez e hoje já não sei mais a quantas anda.
Destaques: Balada do louco. Caminhante noturno. Amor branco e preto. Desculpe, babe. Quem tem medo de brincar de amor?. Sucesso, aqui vou eu. Don Quixote.
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9. Vinicius de Moraes e Baden Powell
Mais uma prova da versatilidade de Vinicius. Com Baden, fez os famosos afro-sambas, claro divisor de águas da MPB por mesclar elementos da música africana com o samba carioca.
Destaques: Além do amor. Apelo. Berimbau. Canto de Ossanha. Consolação. Deixa. Formosa. Samba da bênção. Samba em prelúdio. Tem dó. Velho amigo.
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10. Erasmo Carlos e Roberto Carlos
Tudo bem que o Roberto Carlos tem uma fase cafona e que muita gente tem aversão. Eu entendo. Mas e daí? É inegável que junto a Erasmo Carlos tenha composto músicas boas. E se você acha que o Erasmo é uma figura lado B que utilizou da fama do Roberto, sinto muito. É um excelente compositor que pretendo explorar mais em outro artigo. Caiamos no iêiêiê.
Destaques: A banda dos contentes. Além do horizonte. Amigo. Cama e mesa. Coqueiro verde. De tanto amor. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos. Detalhes. É proibido fumar. Emoções. Eu sou terrível. Fera ferida. Festa de arromba. Ilegal, imoral ou engorda. Lady Laura. Minha fama de mau. Olha. Traumas.
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11. Moraes Moreira e Luiz Galvão
Luiz Galvão (esquerda) e Moraes Moreira (direita) são os responsáveis pelas melhores composições do finado grupo Novos Baianos. Se você nunca ouviu, vai por mim: surpreenda-se.
Destaques: A menina dança. Acabou chorare. Dê um rolê. Mistério do planeta. Preta pretinha. Três letrinhas. Um bilhete para Didi.
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12. Paulo César Pinheiro e João Nogueira
Vejo em Paulo César Pinheiro um dos três melhores compositores vivos do Brasil. Entre todos os seus parceiros, escolhi o trabalho com João Nogueira porque é louvável, representa para mim músicas importantes na formação da visão do mundo de uma pessoa.
Destaques: Espelho. Minha missão. Dora das 7 portas. O poder da criação. O homem dos quarenta. E lá vou eu. Batendo a porta. Mineira.
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13. João Bosco e Aldir Blanc
Um mestre do violão e um gênio das palavras. Juntos, só pode dar coisa boa. O trabalho de João Bosco com Aldir Blanc é vastíssimo e representou uma das principais vozes dos angustiados com a ditadura brasileira.
Destaques: Agnus sei. Bala com bala. Corsário. De frente pro crime. Dois pra lá, dois pra cá. Escadas da penha. Falso brilhante. Gênesis (parto). Incompatibilidade de gênios. O bêbado e a equilibrista. O ronco da cuíca. O mestre-sala dos mares. Preta-Porter De Tafetá. Tiro de misericórdia.
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14. Vinicius de Moraes e Toquinho
Talvez uma das duplas que mais geraram descendentes. Toquinho teve em Vinicius seu grande parceiro e mentor. Além das composições próprias, musicou inúmeros poemas de Vinicius. Entre todos os trabalhos que fizeram juntos, merecem destaque, entre outros, as músicas infantis d”A Arca de Noé“, que embalaram várias gerações de brasileiros.
Destaques: A carta que não foi mandada. A tonga da mironga do kabuletê. Aquarela. As cores de Abril. Carta ao Tom 74. Como é duro trabalhar. Como dizia o poeta. Cotidiano n° 2. O canto de Oxum. O filho que eu quero ter. O poeta aprendiz. Paiol de pólvora. Para viver um grande amor. São demais os perigos dessa vida. Se ela quisesse. Sei lá, a vida tem sempre razão. Sem medo. Tarde em Itapoã. Tudo na mais santa paz. Um homem chamado Alfredo.
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15. Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal
Dois dos mais ilustres filhos da Bossa Nova, é impossível deixá-los de lado. Não existe tributo à Bossa que não relembre alguns clássicos frutos de Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal.
Destaques: O barquinho. Carta ao mar. Copacabana de sempre. Errinho à toa. Nós e o mar. Por quem morreu de amor. Rio. Vê. Você.
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16. Milton Nascimento e Fernando Brant
Representando a turma do Clube da Esquina, Fernando Brant e Milton Nascimento criaram belíssimas composições profundas, com temáticas variadas: a vida, o artista, a reflexão, a preocupação com o social. Têm uma vasta lista de parcerias altamente recomendável.
Destaques: Canção da América. Canções e momentos. Comunhão. Encontros e despedidas. Maria Maria. Milagre dos peixes. Ponta de areia. San Vicente. Sentinela. Travessia.
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17. Cazuza e Frejat
Tá angustiado com o sistema e quer mandar tudo pros ares? Está aqui a dupla que te servirá de trilha sonora. As composições de Frejat e Cazuza são extremamente atuais, servindo ainda hoje como um grito de alerta. Quem acha que rebeldia não pode andar junto com o amor e a beleza, basta ouvir algumas músicas desses dois para ficar provado o contrário.
Destaques: Bete Balanço. Blues da piedade. Ideologia. Malandragem. Pro dia nascer feliz. Só as mães são felizes. Subproduto do rock. Todo amor que houver nessa vida.
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18. Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito
O fino do samba. Quer mais o quê? Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito compuseram verdadeiros hinos do samba, revisitados ainda hoje por intérpretes de altíssimo nível. Indispensáveis.
Destaques: Encontro marcado. Folhas secas. Me esquece. Meu caminho. Meu violão. Minha paz. O bem querer. O dia de amanhã. Palco vazio. Pranto de poeta. Tatuagem. Quando eu me chamar saudade.
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19. Chico Buarque e Tom Jobim
Chico é Chico e Tom é Tom. A parceria dos dois começou um pouco por acaso, quando foram apresentados por Aloísio de Oliveira. Chico ainda estava começando e Tom já era uma autoridade musical. Para uma análise mais delicada, é possível ver traços de maior maturidade nas letras de Chico depois que virou parceiro de Tom. Para mim, uma das melhores duplas.
Destaques: Anos dourados. Olha Maria. Retrato em branco e preto. Sabiá. Eu te amo. A violeira. Pois é. Piano na Mangueira. Imagina.
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20. Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik
Os novos expoentes da música urbana, Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik, que também é parceiro de Caetano e de Chico, oferecem composições com um traço modernista, o tempo todo brincando com as palavras e fazendo referências a outras composições.
Destaques: Baião de quatro toques. Mestres cantores. Para Elisa. Serra do mar. Trio de efeitos.
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• Fonte: muito veio do Discos do Brasil.
• Downloads: acredito que muito do que foi citado por ser encontrado no Umquetenha.
Intertextualidade Buarqueana
Há algum tempo que tenho experimentado a Arte do Brasil. Digo, compulsivamente. Fechei-me para o estrangeiro e abracei nossa literatura, nossa música, nosso teatro etc. Acho que para o sujeito pensar pra onde vai, ele precisa antes conhecer de onde veio, e por achar que nossas obras não são devidamente valorizadas em nosso próprio país, adotei essa espécie de nacionalismo (hoje, felizmente, já equilibrado, sem mais radicalidade). Percebi muito claramente que nossas artes mantém um diálogo, bebem da mesma fonte, e por isso resolvi juntar neste texto um punhado de intertextualidades da Literatura com as letras de Chico Buarque, que, para mim, é o maior expoente vivo de nossa música. Chico, que também é metido em literatura, tem em sua obra muitas citações literárias. Sendo filho de quem é, não poderia ser diferente. A biblioteca de Sérgio Buarque de Holanda, importantíssimo historiador, vazava do escritório e ocupava outros ambientes da casa. Com o tempo, Chico foi ganhando acesso às obras e conselhos de seu pai sobre quais caminhos trilhar nas leituras. Este artigo não é um estudo e nem tem pretensões acadêmicas, mas, acho eu, pode ser interessante.
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Em 1968 Chico letrou uma canção de Tom Jobim chamada “Gávea”, rebatizando-a de “Sabiá”. A música foi inscrita no III Festival Internacional da Canção promovido pela Rede Globo, e, injustamente, sofreu uma vaia terrível ao vencê-lo. O povo exaltado, avesso ao sistema político militar, torcia pela “Para não dizer que não falei das flores” (ou simplesmente “Caminhando”, você deve ter entendido o porquê), de Geraldo Vandré, por fazer uma crítica muito direta à Ditadura. O lirismo de “Sabiá”, se forçarmos um pouco a retina, poderia ser analisado por uma ótica política – afinal, a letra fale de exílio, e várias pessoas já haviam sido deportadas do Brasil.
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De um palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor Talvez possa espantar
As noites que eu não queira
E anunciar o dia
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer
Este exemplo já foi muito explorado, mas não custa ressaltá-lo. Para dialogar com Sabiá, a “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias:
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Um ano depois, Chico exilou-se na Itália antes que as coisas piorassem para ele. Envolvido em uma péssima situação financeira, viu-se obrigado a torcer o pano de sua criatividade e aproveitar até a última gota. Um destes resultados foi um compacto que aqui no Brasil, com gravação do MPB-4, chamou-se “Cara a Cara”:
[...]
Tira a pedra do caminho
Serve mais um vinho
Bota vento no moinho
Bota pra correr
[...]
Aqui, pela primeira vez, Chico intertextualiza com Carlos Drummond de Andrade, um poeta que, veremos, é bem influente em sua obra. O poema escolhido tem mais de oitenta anos e foi o responsável pela pedra no caminho da nossa literatura. “No meio do caminho” é relembrado até hoje por sua complexa simplicidade:
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
[...]
Ainda em 1969, Chico tem sua primeira filha com a atriz Marieta Severo, a Sílvia. Torcedor declarado do Fluminense, o compositor recebeu do sambista Ciro Monteiro uma camiseta do Flamengo para dar à filhinha. A resposta para o presente grego veio em música e se chamou “Ilmo. Sr. Ciro Monteiro”:
Amigo velho
Amei o teu conselho
Amei o teu vermelho
Que é de tanto ardor
Mas quis o verde
Que te quero verde
É bom pra quem vai ter
De ser bom sofredor
[...]
Tenho a impressão que antes de compor esse samba Chico bateu os olhos de relance no poema “Romance sonâmbulo”, do maldito Federico García Lorca:
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
[...]
Alguns anos depois, em 1975, Chico fez uma peça de teatro em parceria com Paulo Pontes, chamada Gota d’água. Uma das canções do repertório era “Flor da Idade”, que deveria ser executada numa cena de apresentação do cenário e da maioria dos personagens:
[...]
Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha
Inegável a presença de Drummond e sua “Quadrilha”:
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história
Outra citação drummondiana desponta mais tarde, em 1978, na introdução de “Até o fim”. Música que seria revivida em duo com Ney Matogrosso:
Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
[...]
O diálogo se dá com um de seus poemas mais famosos, o “Poema de sete faces”:
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
[...]
Entre 1977 e 78, Chico compôs para sua peça “Ópera do Malandro” uma música para a cena de reencontro de dois personagens, “Doze anos“. No disco, a gravação foi feita em dueto com Moreira da Silva, o grande Morengueira:
Ai, que saudades que eu tenho
Dos meus doze anos
Que saudade ingrata
Dar banda por aí
Fazendo grandes planos
E chutando lata
O intertexto da vez é com um poema conhecido de Casimiro de Abreu, o “Meus oito anos“:
Oh que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais
Para finalizar, acho que vale a pena destacar uma passagem de João Guimarães Rosa na obra de Chico. A música “Assentamento“, de 1997, definitivamente bebeu do universo de Guimarães. A canção é crivada de intertextualidade e, como não sou um bom conhecedor dos escritos de J.G.R., prefiro deixá-la aqui para análise.
Quando eu morrer, que me enterrem na
beira do chapadão
– contente com minha terra
cansado de tanta guerra
crescido de coração
(Tôo apud. Guimarães Rosa)
Zanza daqui
Zanza pra acolá
Fim de feira, periferia afora
A cidade não mora mais em mim
Francisco, Serafim
Vamos embora
Ver o capim
Ver o baobá
Vamos ver a campina quando flora
A piracema, rios contravim
Binho, Bel, Bia, Quim
Vamos embora
Quando eu morrer
Cansado de guerra
Morro de bem
Com a minha terra:
Cana, caqui
Inhame, abóbora
Onde só vento se semeava outrora
Amplidão, nação, sertão sem fim
Ó Manuel, Miguilim
Vamos embora
Os 5 melhores discos de Tom Jobim
Stone flower (1973): produzido em Nova York, é, para mim, um dos melhores discos do mundo. Mesmo com o repertório quase que inteiro de sua autoria – exceto duas parcerias com Chico Buarque e uma com Vinicius de Moraes -, Tom decidiu homenagear Ary Barroso gravando sua versão para “Aquarela do Brasil”. O disco tem uma cadência própria, mesclando ritmos nordestinos com jazz, por exemplo.
Continência: Quebra-Pedra.
Urubu (1976): fruto do casamento da influência erudita com as pesquisas profundas sobre a cultura brasileira. É juntar Villa-Lobos com Debussy, botar um teco de Mario de Andrade e rechear tudo com algumas letras próprias de Tom.
Continência: Correnteza.
Matita perê (1973): na mesma linha de “Urubu”, um lado extremamente maduro de Tom. Erudição nas músicas instrumentais, sem ser maçante. Em contrapartida, traz uma das canções mais populares, a famosa “Águas de março”. É altamente recomendável que você escute esse disco se tem a idéia de que Tom Jobim é só um compositor de Bossa Nova.
Continência: Matita Perê.
Passarim (1987): extremamente leve e alegre, certamente você não irá ouvir esse disco se estiver em um dia rock ‘n’ roll. “Passarim” marca o início da parceria de Tom com a Banda Nova, que nasceu da união entre as famílias Jobim, Caymmi e Morelenbaum – e mais alguns músicos de fora da parentada. Uma grande família extremamente talentosa não pode dar errado.
Continência: Anos Dourados.

Passarim (1987): extremamente leve e alegre, certamente você não irá ouvir esse disco se estiver em um dia rock ‘n’ roll. “Passarim” marca o início da parceria de Tom com a Banda Nova, que nasceu da união entre as famílias Jobim, Caymmi e Morelenbaum – e mais alguns músicos de fora da parentada. Uma grande família extremamente talentosa não pode dar errado.
Continência: Anos Dourados.
Com vocês III – Argonautas
Se você gosta de música brasileira, já deve ter lamentadado o cenário musical do país. Mas acalme-se, nem tudo está perdido. Argonautas é um grupo de Fortaleza fundado em 1997 empenhadíssimo em executar e difundir a música brasileira. Resolvi escrever sobre eles porque recentemente lançaram seu primeiro disco, o “Interiores“. Falo dele logo mais.
Embora tenham como principal objeto de trabalho as canções de autoria própria, os Argonautas escalam para seu time de compositores tipos como Edu Lobo, Chico Buarque, Elomar, Tom Jobim, Luiz Gonzaga e outros expoentes do xote, samba, bossa, baião, marchinhas etc. Nota-se nos arranjos e nas harmonias a formação erudita dos membros. São eles: Rafael Torres, Ayrton Pessoa, Germano Lima e Ronaldo Lage.
Tive a oportunidade de ouvir o disco “Interiores”. É um trabalho primoroso, traz um som elegante, gostoso. Nota-se um grande empenho na produção, seja nas composições próprias ou nas releituras. O poeta Alan Mendonça, presente na maioria das letras, dá ao grupo uma estética característica. Para quem se interessar em comprar o disco, deve entrar contato através do site oficial. Eles disponibilizam, além de cifras e partituras, algumas músicas para download. Das listadas, destaco “Carolina”, “Cataventos”, “Interiores” e “Interiores n°2″.
Ao vivo, os Argonautas mesclam duas composições de Chico e Tom com uma pitada de tango: Retrato em branco e preto e Eu te amo.
15 músicas Lado B de Chico Buarque
Estava eu lendo alguns blogues interessantes quando me deparo com uma postagem do Alessandro Martins, lá no Livros e Afins, escalando algumas músicas do Chico pouco conhecidas. Eu me senti na obrigação de fazer o mesmo. Se você acha que eu já escrevi muito sobre o Chico, rapaz, pode sentar e chorar. Você ainda vai ver muita coisa desse cara por aqui.
A lista não está em ordem de preferência, só pra esclarecer.
I. Mar e Lua
Preste atenção na letra. Você entenderá a temática: um amor lésbico. Interessante o homossexualismo escondido assim em metáforas tão bem feitas. Veja bem: não acho que aqui as metáforas existem por conta da Ditadura, e sim para embelezar a música. Não é a minha gravação preferida – quem estiver disposto, procure uma versão de Chico com o Trio Esperança.
II. Assentamento
Gosta de João Guimarães Rosa? Escute essa música, então, e ache as referências ao universo roseano. É fantástica. Indico pra quem gosta de literatura.
III. Meu caro barão
A gravação aí é meio precária, mas vale pelo humor da letra. Foi feita para o filme dos Trapalhões, que trabalhavam como faxineiros num circo. Se não me falha a memória, o barão, dono do negócio todo, um dia some com o dinheiro e deixa todo mundo na mão. Os pobres faxineiros resolvem, então, escrever uma carta ao barão com uma máquina de escrever que encontraram por lá. É a música. O divertido é a tônica das palavras que Chico altera propositalmente, primeiro porque os Trapalhões, no filme, eram analfas. Segundo para encaixar na melodia. Por exemplo, ridícula vira ridicúla e por aí vai.
IV. Mano a mano
Única parceria com João Bosco, gênio do violão. Retrata a história de dois caminhoneiros amigos disputando uma mesma mulher. Todas essas palavras soltas na música são cidades interioranas. O que, logicamente, nos passa a idéia do roteiro que os caminhoneiros fizeram. Coisa de louco.
V. Meia-noite
Ótima gravação do grupo Argonautas para uma canção de Chico e Edu Lobo. Bem profunda e densa. Lindíssima.
VI. Bem querer
Feita para gravar com Maria Bethânia. Gosto de como as palavras são dispostas nessa música. Apesar dessa fase da Bethânia não me agradar muito (pelos berros e pelo sotaque forçado), acho a melhor gravação da música. Recomendo.
VII. De volta ao samba
Composta para abrir os shows da turnê “Paratodos”, de 1993. Reparem em como a morte e a efemeridade da vida são retratadas. Além do conteúdo, tem uma batida bem gostosinha, também.
VIII. Romance
Do CD Paratodos, que embora não seja um sucesso de público, traz umas canções extremamente maduras sobre o tempo e a vida. Romance é uma delas. De início, não gostava muito, achava a melodia chata. Fui ouvi-la alguns anos mais tarde e me surpreendi. Fica a dica.
IX. Injuriado
Sambinha maroto e muito simples. Aquela levada que gruda e você se pega cantarolando enquanto atravessa a rua. O vídeo é ao vivo, embora eu prefira a gravação com sua irmã Cristina Buarque, no disco “As cidades”. À época, disseram que era uma mensagem para o Fernando Henrique Cardoso. Fala sério, gentalha da mídia impressa.
X. Cecília
Parceria com Luiz Cláudio Ramos. A mais bonita das canções com nome de mulher. Cecília pra mim é sublime. O nome é extremamente musical, quase um sussuro, um sopro, e Chico soube aproveitar isso muito bem. Se eu fosse mulher, iria querer me chamar Cecília só por causa dessa música. Falei mesmo.
XI. Caçada
Caçada eu acho demais. Foi feita para o filme do Cacá Diegues “Quando o Carnaval chegar”. Rodava em uma cena de amor adolescente entre o casal principal da trama (o homem, por sinal, era comicamente interpretado pelo próprio Chico). Por causa do erotismo explícito, a música chegou a ser censurada e proibida de ser tocada em rádios.
XII. Como um samba de adeus
Embora as pessoas sempre liguem o Chico ao Caetano Veloso, eles só possuem duas parcerias. Uma é a animada “Vai levando”, e a outra é esta, melancólica. Eu explico: é uma homenagem póstuma a Tom Jobim. Tom morreu em 1994, e no ano seguinte Chico e Caetano fizeram essa belíssima canção para Gal Costa gravar em seu disco só com músicas da dupla. Prestem atenção nas referências ao Tom. Como não achei a gravação da Gal no YouTube, vai essa mesmo. É amadora, mas o cara mandou muito bem.
XIII. Essa passou
Parceria do Chico com um dos bossa novistas mais ilustres: Carlos Lyra. O dueto saiu no disco “E no entanto é preciso cantar”, do Lyra, e não saiu no “Construção” do Chico por motivos até hoje desconhecidos por mim. Nem o próprio Carlos, em entrevista, soube me dizer.
XIV. Um tempo que passou
Única parceria de Chico com Sérgio Godinho, cantor e compositor português. O sotaque luso encaixou-se perfeitamente. Acho que essa música transcende nossos ouvidos, gosto de tudo que é ligado ao tempo.
XV. Fantasia
Essa gravação foi feita para o CD “Terra”, que era vendido junto com um livro sobre o Movimento Sem Terra com fotos do Sebastião Salgado e texto do José Saramago. Ei, garoto, atenção: essa música não foi feita para o MST. O disco “Terra” trazia quatro canções ligadas à pobreza, à miséria: Fantasia, Brejo da Cruz, Levantados do Chão e Assentamento, já mostrada aqui.
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Sentiu falta de alguma? Grita aí nos comentários que, de repente, posso fazer um volume dois.




























