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Especial Quentin Tarantino – Inglourious Basterds

A primeira coisa que alguém descobre sobre mim, quando falamos de cinema, é que eu sou apaixonado por filmes de guerra. Dentre elas, minhas duas favoritas são, em ordem de importância: a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnam. A segunda coisa que alguém descobre sobre mim, ao falar do assunto supracitado, é que meus diretores favoritos são, sem preferência definida: Quentin Tarantino, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola. Desses três diretores, até o ano passado, apenas um tinha feito um filme de guerra. Apocalypse Now, de Coppola, é – até hoje – um dos melhores longas do gênero, que conta com Marlon Brando (lembre desse nome), Martin Sheen (pai de Charlie Sheen, que atuou em Platoon) e até o Morpheus moleque, Laurence Fishburn. E por que diabos eu estou falando disso? Porque em 2009, Quentin Tarantino nos entregou um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos: Inglourious Basterds, ou, se vocês preferirem: Bastardos Inglórios.

O Mito

Quentin Tarantino demorou praticamente uma década para finalizar o roteiro de Bastardos Inglórios. Muita gente chegou a duvidar que o filme realmente seria feito um dia, mas o problema não era esse. Sabe quando você escreve alguma coisa, e isso tá muito bom, mas você sente que pode ficar melhor? Provavelmente o americano estava assim com relação à Bastardos. Ele sabia que aquela poderia ser sua obra prima, seu filme de maior sucesso, mas algo lhe dizia que faltava algo. E mais alguma coisa. E um toque de sangue ali. E um diálogo ácido acolá. E, em meio à diversas mudanças, ideias e planejamentos, o filme que era anunciado ano após ano finalmente teve suas filmagens iniciadas. Todos ficaram perplexos quando o roteiro vazou meses antes do filme estreiar, e ficou disponível para quem quisesse ler.

Eu comprei um livro com o roteiro original do filme. E, sabe, ler roteiro é uma coisa meio estranha. É totalmente diferente de ler uma história. Mas você consegue enxergar a alma do filme ali. E, como vocês puderam perceber… Ele não estava errado em ter demorado tanto tempo pra fazer a história.

Os Bastardos

Uma vez meu pai me disse: “filho, nunca discuta com uma mulher. De um jeito ou de outro, você vai perder”, e eu não ouvi. Talvez, exatamente por isso, eu sempre trave discussões sobre os mais variados assuntos com uma garota em particular. E essa garota odeia o Brad Pitt. Eu não entendo como alguém pode odiar o Tyler Durden e, mais que isso, o Lt. Aldo Rayne (homenagem ao ator e ex-veterano da 2ª guerra Aldo Ray). Pitt me lembrou, invariavelmente, Marlon Brando (eu falei pra você lembrar dele) durante diversas cenas, seja pelo rosto propositalmente estufado ou pelo jeito durão e imponente. Ele é o tipo de ator que não pode ser considerado “um dos melhores da sua geração”, mas ele é o tipo de cara que escolhe os melhores papéis para sua carreira (12 Macacos, Clube da Luta, Seven e o filme que estamos falando agora não me deixam mentir) e rouba a cena em quase todos eles.

Existem dois outros Bastardos que merecem destaque: Eli Roth, como o Sargento Donny Donowitz, não precisa atuar de maneira brilhante: ele é o Urso Judeu, temido por todos os nazistas que já ouviram falar dos Inglórios, tem apenas uma missão: ser brutal. E é isso que ele faz.

Já o alemão Til Schweiger recebeu uma missão mais dura: ser o Mr. Blond. Antes que você corte minha orelha fora, eu explico: Mr. Blond é o personagem turrão, que fala pouco e é, invariavelmente, o mais badass do grupo. A cara de mal de Schweiger, junto à cenas do loiro matando oficiais da Gestapo com uma narração de Samuel L. Jackson ao fundo são elementos que tornaram essa tarefa praticamente um passeio no parque, para o ator.

Existe um ator, porém, que merece um subtópico só para si: Christopher Waltz.

Hans Landa

Quando eu disse, três parágrafos acima, que Brad Pitt roubava a cena em quase todos os bons filmes que fazia, a explicação encontra-se no ator alemão que deu vida à um dos melhores vilões desde Darth Vader e Hannibal. Christopher Waltz é tão brilhante no papel do comandante da SS que nós torcemos para que ele apareça mais e mais. Nós torcemos para que existisse um filme só dele, com todas as suas crueldades, seus comentários insanos e suas demonstrações impressionantes de inteligência. Como o próprio diz, ele é um detetive. Um homem inteligentíssimo, que não admite derrotas. E como todo grande vilão tem um detalhe característico (Darth Vader tinha sua vestimenta especial, enquanto Hannibal era aprisionado à uma máscara), Tarantino deu à Hans Landa um enorme cachimbo, que causa risos à plateia quando retirado do bolso do comandante, naquela que é uma das melhores cenas de abertura da história do cinema moderno.

E é nessas horas que o destino mostra-se gentil com obras primas como esta. A primeira opção de Quentin Tarantino para o papel do comandante era Leonardo DiCaprio. Independente das qualidades de atuação do ator (as quais eu admiro)  é certo que nenhum outro ator cairia tão bem como Waltz. Se o prêmio de melhor ator no festival de Cannes (2009), o Globo de Ouro (2010) e o Oscar (2010) por melhor ator coadjuvante não te dão certeza disso, as palavras de Tarantino talvez surtam algum efeito: segundo o diretor, Waltz “deu o filme de volta à Tarantino”. A explicação para essa frase é simples; Hans Landa, segundo Quentin, foi o melhor personagem que ele já inventou em toda sua vida. Até o austríaco aparecer, porém, era o tipo de papel que parecia impossível de se atuar. Podemos considerar que, se não fosse o ator, o filme talvez nunca tivesse saído do papel.

O ponto alto de Hans Landa, talvez, seja o fato do personagem não flertar com as ideias nazistas. Fica claro, durante o filme, que apesar de usar as roupas de um nazista, ele não flerta com sua ideologia. O Caçador de Judeus, como ele se auto-intitula, tem como prazer mostrar que é o melhor no que faz. E nós sabemos que essa é a mais pura verdade.

The Tarantino Way

Existe algo em filmes de guerra que é consideravelmente desagradável: nazistas falando inglês. Franceses falando inglês. Russos falando inglês. Diretores deviam saber que não adianta você obrigar um cara a falar inglês com um sotaque soviético: vai continuar sendo inglês. Mas nós não estamos falando de um diretor qualquer, aqui: estamos falando de Tarantino. E qual é seu modus-operandi? Traduzindo em bom português: se vai fazer, faz direito. E ele fez, de novo.

Na cena inicial, na qual Hans Landa interroga um fazendeiro francês que esconde vizinhos judeus em seu sótão, o diálogo inicial entre o nazista e o dono da propriedade é travado em francês. À pedido do personagem de Waltz, eles começam a conversar em inglês. O melhor: com um motivo. O palpite de Landa é que os vizinhos, fugitivos, não sabiam falar inglês. E, de fato, não sabiam.

Hitler e os oficiais alemães falam, graças à Deus, alemão. Uma cena memorável do filme (apesar que todas o são) mostra um diálogo entre Aldo Rayne e um oficial alemão que não fala inglês, precisando, então, da necessidade de um tradutor (um dos Bastardos, alemão). A opção por utilizar o inglês (ou simplesmente eliminar essa cena), que salvaria minutos de filme, foi ignorada pura e simplesmente para manter uma semelhança com a realidade.

Vale lembrar, igualmente, da cena que passa-se em uma taverna, depois de um jogo de adivinhações entre os Bastardos, Bridget von Hammersmark (Diane Krueger) e oficiais da Gestapo. O motivo que desencadeia uma sequência de ação só poderia sair da cabeça de Tarantino. E já que falamos nisso, a ultraviolência está lá, como não poderia faltar. Seja na execução de um oficial nazista com um taco de baseball (nota do artilheiro: na terceira vez que fui ao cinema para assistir Inglórios, procurei algumas pessoas que também assistiam o filme, com os cantos dos olhos, nas cenas de maior violência. Poucos olharam durante o tempo todo a execução do alemão ou o método de persuasão que Aldo Rayne usou em Mimieux) ou na apresentação de Hugo Stiglitz, Tarantino mostra que não perdeu a mão.

Once Upon a Time, in a Nazi Occupied France…

Soldados americanos (e judeus) são largados na França, como civis, com uma única missão: matar o máximo de nazistas que puderem. Não existe uma missão explanada, complexa, que possa ser interferida por militares do alto escalão, em uma mirabolante rede de intrigas: os Bastardos devem aterrorizar os nazistas, e destruir o máximo de oficiais alemães que conseguirem. Dentre seus métodos, o escalpelamento é, sem sombra de dúvidas, o mais criativo. Mais que uma missão de encontrar e destruir, os Inglórios sempre deixam um soldado vivo, para voltar ao Fuhrer e contar a história.

Durante duas horas e meia, temos a chance de observar Quentin Tarantino reescrever a história, usando suas inúmeras referências (é quase desnecessário comentar o quão incrível é que o plot todo da história acabe por girar na exibição de um filme de guerra em uma sessão que abrigará todo o grande comando nazista, e a possibilidade de matar todos ali mesmo) e utilizando diversos estilos de se fazer cinema para criar, como sempre, o seu próprio.

O artilheiro que vos escreve preferiu não falar de Melanie Laurent, que interpreta a judia Shosanna Dreyfus, porque não quero me apaixonar de novo.

Para mandar os soldados de volta para Hitler, como já mencionado aqui, Aldo Rayne lhe desenha uma suástica, talhando o desenho na testa do nazista com uma faca. Ao fazer isso novamente, na cena final do filme, Danny Donowitz olha para seu comandante e diz as seguintes palavras: acho que o senhor acabou de fazer sua obra-prima. Essa cena, rodada com a marca registrada de Tarantino, a “tomada do porta-malas”, na qual os atores olham para baixo, me deu a nítida impressão que esse foi um recado direto de Tarantino para nós. Bastardos, junto com Cães de Aluguel, é considerado a obra-prima do diretor. E, apesar de – por motivos pessoais – preferir Cães de Aluguel, Inglórios está na minha lista definitiva dos meus 10 filmes favoritos de todos os tempos. E se não está na sua, ainda, tá na hora de assistir de novo.

Curiosidades:

  • Adam Sandler foi sondado para interpretar Danny Donowitz; devido à problemas na agenda, o papel ficou com Eli Roth.
  • Hugo Stiglitz é o nome real de um ator mexicano.
  • Eli Roth ganhou 15kg para interpretar o Urso Judeu
  • Michael Madsen (Mr Blond) participaria do filme como Babe Buchinsky; nem Madsen, nem o personagem aparecem no filme.
  • Tarantino é o primeiro soldado nazista a ser escalpelado pelos Inglórios
  • Harvey Keitel (Mr White) é quem faz a voz do negociador que tenta um acordo com Hans Landa

Referências:

  • Once Upon a Time in West, filme com Henry Fonda e Charles Bronson, foi a inspiração de Tarantino para o primeiro capítulo do longa.
  • Na cena do tiroteio no cinema, Donny Donowitz está intencionalmente na mesma posição e com a mesma expressão de Tony Montana (Al Pacino) em Scarface.
  • “Duas batidas: eu te bato, você bate no chão”, frase que Donowitz profere, foi retirada do filme O Clube dos Cinco.
  • Existe uma alusão ao Clube da Luta quando Brad Pitt diz: “Você sabe, lutar em um porão oferece muitas dificuldades. A número um é, você está lutando em um porão.”

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Especial Quentin Tarantino – Reservoir Dogs


Como vocês já devem ter percebido, eu sou cinéfilo de carteirinha. Acredito que devo ser o Artilheiro que menos varia entre assuntos e editorias: minha praia acaba sendo, invariavelmente, o cinema. Explicar-lhes-ei um dos motivos que me atraem tanto, quando chega a hora de falar da sétima arte:

Dizem que a música nos faz ir para outro universo, viajar, sair de nós… E eu acredito que o cinema consegue fazer isso de uma maneira ainda mais poderosa. Ele nos apresenta elementos audiovisuais. Nos dá o mundo ali, entregue. Seja na sala de cinema (onde o efeito é consideravelmente maior, levando em conta o ambiente e o tamanho da tela) ou no conforto da sua casa, quando você está assistindo um filme, você está dentro dele. Você se coloca no lugar dos personagens, sente, torce, sofre, ri, chora. E nós precisamos convir que sempre existiu uma maneira “certa” de se fazer filmes. Começo, meio, plot twists (uma reviravolta na história) e um final. Tudo isso acompanhado de uma certa linearidade (os eventos ocorrem em uma ordem, sem misturar as partes do filme, no máximo com a introdução de flashbacks para explicar a história).

Mas de repente, um cara nascido em Knoxville (estado do Tennessee, e se eu fosse você eu lembraria disso até o fim desse especial), que assistia muitos filmes, começou a fazer alguns roteiros. Roteiros bons, que os estúdios gostariam, mas não o deixariam dirigir… Você precisa ser alguém, primeiro. O que ele fez? Vendeu dois roteiros para os estúdios, e, assim que tornou-se um nome conhecido entre os figurões dos estúdios, partiu para dirigir aquele que é considerado, por muitos, o melhor filme de Quentin Tarantino e um dos melhores filmes de todos os tempos: Cães de Aluguel.

O que dizer de um filme que começa pelo meio, avança para perto do fim, volta pro começo e depois acaba indo direto para o final? Vamos mais longe: o que dizer de um filme que começa com cerca de 8 caras em uma mesa (dentre eles o já consagrado Harvey Keitel, o sensacional Steve Buscemi e o próprio Quentin Tarantino, que é quem comanda o diálogo) discutindo sobre a música Like a Virgin, da Madonna. A cena inicial do filme é tão desconexa e tão genial que criou, por si só, uma referência em qualquer conversa sobre Tarantino. É impossível não ficar extasiado com a sagacidade descrita ali.

Somos apresentados, então, depois desse prólogo, aos Cães de Aluguel. Ladrões, homens cujo passado desconhecemos, que aparentam estar juntos para roubar um banco. A sequência de créditos que segue, dando nome aos atores, de repente acaba e a cena é cortada para Mr. Orange (Tim Roth) e Mr. White (Keitel) dentro de um carro, fugindo. Orange está ferido, e… Ué. Eles não haviam acabado de começar o filme? Pois é. It’s the Tarantino way. O assalto já aconteceu, e a gente sabe que algo deu errado. Para onde eles estão indo? Um galpão abandonado, que serviu de lugar de encontro para os meliantes.

Lá, White e Orange encontram Mr. Pink (Buscemi), outro que conseguiu fugir com uma maleta. Em meio à discussões acaloradas que envolvem levar ou não Orange – gravemente ferido – para o hospital e o que fazer com a mala, surge o típico personagem que rouba a cena nos filmes de Tarantino: Mr. Blond (Michael Madsen). Você deve ter assistido Bastardos Inglórios (que vai aparecer por aqui em breve); lembra de Hugo Stiglitz? É o Mr. Blond com mais armas. O elemento violência, aliás, é uma máxima nos filmes de Tarantino.

A história se divide em atos, cada um explicando um pouco de cada personagem e o que, de fato, aconteceu. Tarantino ignora qualquer linearidade, e passa a nos providenciar cenas memoráveis. Passo a passo, começamos a acreditar que estamos entendendo tudo… Mas acabamos por esquecer que estamos assistindo um filme de um diretor que revolucionou a maneira de fazer cinema.

Cães de Aluguel, com sua “singela” uma hora e quarenta minutos, consegue fazer mais do que muito filme policial tentou em duas horas e meia. Sem precisar de explosões, de sequências de perseguição ou de um elenco conhecidíssimo, é o tipo de filme que te causa algumas das sensações descritas no início desse post: angústia (não há palavra melhor para descrever uma cena peculiar entre Mr. Blonde, um policial capturado e uma faca), raiva (de um dos personagens que, como só saberemos no final, traiu o resto dos Cães de Aluguel), expectativa (que nunca se satisfaz, já que tudo acontece quando menos esperamos) e muito mais. Meu conselho é apenas um: assista Cães de Aluguel quantas vezes puder, durante toda sua vida. Vai valer à pena.

Acha que o post acabou? Agora vem a parte legal. Quentin Tarantino é conhecido por utilizar inúmeras referências em seus filmes. Listaremos, então, algumas encontradas em Cães de Aluguel.

  • Straw Dogs (Sob o Domínio do Medo – 1971, com Dustin Hoffman) foi uma das inspirações do diretor para o título do filme.
  • The Talking of Pelham 123 (O Sequestro do Metrô 123 – 1974, versão original) foi o filme que deu a ideia para Tarantino utilizar, com codinomes para os bandidos, nomes de cores.
  • A Better Tomorrow II (1987, de John Woo) foi a inspiração para que todos os “cães” usassem ternos, assim como os personagens desses filmes.
  • Na sequência inicial, Mr. White diz a seguinte frase: “Se você atirar em mim enquanto sonha, é bom que acorde e se desculpe”. A frase é baseada no boxeador Muhammad Ali que, certa vez, disse: “Se você um dia chegar a sonhar em me bater, é melhor que acorde e se desculpe”.
  • Em uma determinada cena, Mr. Orange menciona o filme The Lost Boys (Os Garotos Perdidos – 1987, na época que o diretor, Joel Schumacher, ainda não havia colocado mamilos no Batman); acredita-se que é proposital, pois o vilão do filme supracitado trabalhava em uma locadora de filmes, assim como Quentin.

Chegamos ao fim da nossa primeira parte do Especial Quentin Tarantino. Curte Cães de Aluguel? Tem um Mr. preferido? O que achou do final? Comenta aí embaixo, e não esquece de participar da nossa promoção À Prova de Morte, que vai te dar dois ingressos pra assistir o último filme do mestre! Basta dar RT nesse tweet e seguir o AC!

Amanhã eu vou falar de Pulp Fiction, e espero você por aqui.

Avante, soldados!

Violência gratuita (Funny games)

Em meus já previamente citados anos como cinéfilo, criei um dilema pessoal: o que faz um filme ser “o melhor”? É o roteiro? São as atuações? O figurino? Os efeitos especiais? A fotografia? O toque do diretor, que aparenta ser simples mas acaba tendo magnífica importância no resultado final da obra?

Até hoje (início de 2010, caso tenha que voltar aqui um dia e perceber que eu estava errado), minha resposta é uma só: depende. Depende da intenção do filme. Carga Explosiva, por exemplo, tem como propósito desligar nossos cérebros e nos divertir com belas explosões e frases de efeitos jogadas ao vento por Jason Statham. Ele cumpre perfeitamente esse papel e, tido isso, podemos considerá-lo um dos melhores filmes de ação. Em contraponto, Star Wars tende a ser um épico de ficção-científica, mas suas atuações não são profundas, tampouco “inesquecíveis”. Elas têm efeito pois aquela é uma história inovadora, com personagens nunca antes imaginados:  a epopéia ocorrida há muito tempo atrás, em uma galáxia muito, muito distante, faz-nos esquecer que, por exemplo, não há som no espaço. Ainda assim, divertimo-nos com as batalhas épicas travadas próxima à órbita de Coruscant em Ep. III – A Vingança dos Sith. A saga Crepúsculo tem como mote atrair o máximo de pré-adolescentes possível para suspirarem e desejarem que seus namorados tenham os músculos de Taylor Lautner e a fofura de Edward Cullen, interpretado pelo sempre apático – porém extremamente sedutor (pelo menos é o que dizem por aí) – Robert Pattinson. O filme é ruim? Do ponto de vista do roteiro, é. Das atuações, pior ainda. Efeitos especiais? Os mutantes da Record conseguem mais. Porém o filme vende, e se sai relativamente bem como um “romance impossível entre uma mortal, o garoto-canino (me recuso a chamá-lo de vampiro, pois estaria admitindo que ele pode BRILHAR à luz do Sol) e um lobo que tomou esteróides demais e ficou do tamanho de um Urso Polar.

Existem vários tipos de filme e vários propósitos. O Artilheiro que vos escreve acabou de dizer tudo isso para, além de cutucar mais uma vez a saga Crepúsculo, lhes afirmar que Violência Gratuita é um filme que não se encaixa em nenhum outro “tipo”. Ele é simplesmente o único filme de sua espécie.

Atenção: este artigo contém spoilers

Família Farber: Ann Farber (Naomi Watts), George Farber (Tim Roth) e o pequeno Georgie Farber (Devon Gearhart). Uma pequena e simplória família que decide passar as ferias numa casa à beira de um lago. O começo é maravilhoso – como toda viagem em família -, até que dois cordiais vizinhos aparecem, pedindo ovos emprestados. A família Farber ainda não sabe que aqueles dois não irão mais abandonar a casa. Depois de um incidente provocado pelos próprios rapazes, a família é mantida refém dentro de seu próprio lar. É o início de uma série de jogos macabros e sádicos, com o único intuito de… entreter.

Sim, meu caro leitor: a única inteção de Paul e Peter – interpretados respectivamente por Michael Pitt (de Os Sonhadores, que está incrível aqui) e Brady Corbet (de Aos Treze, também excepcional aqui) – é entreter você, o espectador. Nada além disso. A premissa é simples, mas genial. Indignamo-nos com toda a violência que assistimos no cinema. Do alto de nossa hipocrisia, bradamos que a violência está banalizada, está gratuita. Se isso é, de fato, verdade… por que não desligamos o televisor? É simples demais. Bastam alguns passos para sair do cinema, um pequeno movimento corporal para desligar o aparelho de DVD, um simples clique do mouse para fechar a janela de vídeo, e caput! Estamos livres de toda essa extravagância banhada de sangue.

Não desligamos. Queremos ver mais. O instinto sádico e a própria curiosidade de cada um é grande demais para que paremos de assistir o filme. Paul, em determinado momento, olha para nós e fala: Você está do lado deles, não é?

Os garotos desenvolvem uma “aposta”. Eles apostam que a família toda estará morta até as 09h do dia seguinte, e o objetivo dos reféns é sobreviver. Como em qualquer filme que apresente uma trama parecida, de fato, o espectador torce pela família. Torce para que pai, mãe e filho possam escapar daquele pesadelo e voltar a aproveitar as férias. Aproveitar um ao outro. Quando indagados sobre o objetivo de toda aquela loucura, os jovens são categóricos e dão, novamente, outro tapa na cara da audiência: é tudo pela diversão. Pelo entretenimento. Nas sábias palavras do meu professor de Jornalismo, desgraça vende. E um filme que traz uma família na mão de dois jovens sociopatas também vende. Ou ao menos deveria vender: o final nada feliz e os acontecimentos do filme não agradam o público em geral. Violência Gratuita não é o tipo de filme para se assistir em casa, com os pais. Não é o filme para assistir com sua namorada (a não ser que ela seja pra casar). É o tipo de filme que te faz sentir mal, pois não está preocupado, de fato, em arrecadar bilheteria ou indicações por qualquer tipo de prêmio. O único objetivo de Violência Gratuita é nos incomodar. Fazer com que mudemos de posição na poltrona diversas vezes. Brincar com nossos instintos e ver até onde conseguimos ir. Despertar-nos a raiva, quando, por exemplo, a personagem de Naomi Watts consegue roubar a arma que os jovens carregavam e mata, a queima-roupa, Peter. O que acontece em seguida? Paul simplesmente pega o controle-remoto mais próximo e faz o tempo voltar, impedindo que Ann mate seu comparsa. Michael Haneke – que refilmou o próprio filme 10 anos depois, dessa vez adicionando atores conhecidos – nos dá o doce gosto da vingança – sanguinolenta, ironicamente – para depois arrancá-la daqueles que torcem para a vitória do “bem contra o mal” da mesma maneira que um adulto tira o tal doce da boca de uma criança. Não adianta espernear. O final não é feliz. Mas Violência Gratuita é o tipo de filme que precisa ser espalhado por aí. É com a sensação de dever cumprido que eu estufo o peito para recomendar Violência Gratuita para cada um de vocês, caros leitores.

Funny games

Nota AC: 10

Título Original: Funny Games U.S.

Diretor: Michael Haneke

Duração: 111 min

Elenco: Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Cobert, Devon Gearhart

Horário nobre, atores nobres

Artilheiro Colaborador: Carolina Lobato

Houve um tempo quando trabalhar em seriados nos EUA era simplesmente um dos passos para ser reconhecido, um degrau mais próximo dos grandes atores do cinema, aqueles que vão ao Oscar, sentam na frente e eventualmente são parte das piadas do apresentador. “Houve”.
Por que “houve”? Porque se você presta atenção no vai-e-vem de seriados deverá ter notado que a cada dia que passa, mais e mais seriados são estrelados pelos grandes atores de Hollywood. E eu não quero dizer “grandes atores que foram esquecidos depois de uma série de filmes ruins”. Eu realmente quero dizer “grandes atores com grandes carreira”. Tome como exemplo os três da foto acima, os atores Tim Roth, Glenn Close e Christian Slater. Ou vá ainda mais longe, pegue seriados como Leverage (protagonizado pelo vencedor do Oscar Timothy Hutton), CSI: Crime Scene Investigation (hoje com Laurence Fishburne), 30 Rock (com Alec Baldwin) ou a minissérie de 2009 The Prisoner, remake do clássico cult da década de 60 (protagonizado pelos atores Ian McKeller e Jim Caviezel). E sei que há outros tantos exemplos além desses. Mas para não ficar longo e cansativo, ficarei com os três atores que usei na foto.

Lie to Me tem como protagonista o ator de mil sotaques Tim Roth. Para quem o acha familiar, mas não sabe exatamente de onde, deixe-me citar um ou dois trabalhos que ele fez no cinema: Pulp Fiction e O Planeta dos Macacos além de Rob Roy, onde foi indicado a um Oscar. Sim, ele é aquele doce homem de Pulp Fiction que assalta a lanchonete onde estão os grandes Samuel L. Jackson e John Travolta. Lie to Me gira ao redor de Cal Lightman, um especialista em detectar mentiras através das chamadas micro expressões que cada um faz quando mente ou fala a verdade, mesmo que a pessoa as faça inconscientemente.
Damages, série aclamada por crítica e público, onde a jovem advogada Ellen Parsons (vivida por Rose Byrne) vira uma protegida da dura advogada Patty Hewes (Glenn Close). A escrita da série é nada senão muito inteligente, complicada, mas não entediante. E tendo Glenn Close como protagonista a série está fadada ao sucesso. Três temporadas e um Globo de Ouro para Glenn Close só provam que o que a atriz, uma vilã com cara de inocente por excelência, não trocou as grandes telas pela telinha por nada.
É um pouco mais difícil falar do Christian Slater. Nos últimos anos ele protagonizou duas séries totalmente diferentes. A primeira foi My Own Worst Enemy, de 2008. Nela Christian foi um homem dividido. Realmente dividido. Parte dele era Herny Spivey, um bom e obediente homem suburbano, devotado a sua esposa e a seus dois filhos. A outra parte, entretanto, era Edward Albright, um agente altamente qualificado, desses que ou matam ou morrem. Tudo ia maravilhosamente bem, até que o “chip” que faz com que uma personalidade seja desligada e outra tome seu lugar começa a dar problemas e Henry começa a “acordar” nas horas onde era necessária a presença de Edward. A série, chamada por uns de plagio criativo, não durou muito. Na verdade, só durou 9 episódios e foi cancelada. A outra série que ele protagoniza é The Forgotten, outra produção de Jerry Bruckheimer, conhecido por produzir alguns programas que você talvez esteja familiarizado: CSI: Crime Scene Investigation, CSI: Miami, CSI: NY, Cold Case e Without a Trace. E como não se mexe em time que está ganhando, Jerry resolveu novamente apostar seu dinheiro em The Forgotten, série sobre um grupo de pessoas que ajuda a polícia a dar nomes a mortos que ninguém parece se preocupar, os Johns e Janes Doe. A série é surpreendentemente tocante e, longe das milhares de técnicas fantásticas e impossíveis de CSI, a série é bem pé no chão. O time usa não amostras de DNAs, mas retratos falados, informações obtidas a partir de qualquer coisa que as vítimas levavam consigo ao serem mortas, como cupons fiscais e marcas de roupa. Eu particularmente espero que a série continue. A narração, feita pelos próprios mortos, é tocante. E a cada nova informação conseguida os mortos vão chegando mais perto de receberem um nome e o descanso que merecem.

Mas o que leva atores da famosa A-List estadunidense a fazerem essa mudança? Falta de bons papeis? Ficar mais tempo no mesmo lugar? Garantir um bom salário exatamente por ser conhecido? Acho que até ouvirmos das bocas deles nunca saberemos ao certo. Minha modesta opinião de uma ávida telespectadora: acho que eles mudam exatamente para mudar. Assim como há atores que ficam marcados para sempre como ‘atores de seriados’, atores de filmes também são os ‘atores de filmes’. Eles são vistos como os intocáveis, aqueles que estão acima dos seriados, os famosos, mas se você pensar bem a televisão é algo muito mais próximo das pessoas. Nem todos podem pagar idas ao cinema, muito menos alugar filmes com frequência. E com uma televisão em casa você tem um leque de canais e seriados para assistir, sem pagar nada por isso, além do custo da televisão. Custo esse que a longo prazo é mais barato que ir todo fim de semana ao cinema. E o que são atores sem pessoas para os assistirem? Não se faz nada sem audiência. Talvez o mais nobre desses atores ‘nobres’ seja exatamente isso, estar mais perto do grande público.

Sobre o Artilheiro Colaborador

Carolina Lobato é professora e estuda Publicidade. Você pode encontrá-la no twitter: @CarolinaLobato_