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Christine

É difícil falar de Stephen King. Um dos meus autores favoritos, foi ele um dos culpados pelo início da minha amizade com o Artilheiro Marcel. Enquanto eu me “apresentava” à sala, num ritual babaca de faculdade, e fazia piadinhas com relação à Crepúsculo, aproveitei para exaltar King. Nesse instante, Marcel – no fundo da sala – ergue um livro do mesmo autor. Foi um dos estopins para uma amizade que dura até hoje.
O americano de 62 anos é, inegavelmente, um dos escritores mais respeitados na literatura atual. Ganhou, recentemente, o respeito de muitos adolescentes anti-Twilight ao proferir a seguinte frase, durante uma entrevista onde lhe pediram para comparar J.K Roling (autora da série Harry Potter) com Stephenie Meyer (autora da série Crepúsculo). As palavras de King?
Ambas Rowling e Meyer, estão falando diretamente a pessoas jovens… A real diferença é que Jo Rowling é uma fantástica escritora e Stephenie Meyer não consegue escrever nada que preste. Ela não é muito boa. [...] Pessoas são atraídas por histórias, pelo ritmo, e no caso de Stephenie Meyer fica bem claro que ela está escrevendo para toda uma geração de garotas e abrindo algum tipo de clube seguro do amor e sexo nesses livros. É emocionante e agitado e não é particularmente ameaçador porque não é sexual demais. (…) Muito do lado físico da coisa se converge em coisas como, o vampiro tocará seu antebraço ou passará sua mão pela sua pele e ela então ruboriza em algo quente e frio. Isso para garotas é um resumo de todos os sentimentos com os quais elas não estão preparadas para lidar ainda.

Danadinho.
Ok, voltando ao livro…
Escrito em 1983, Christine acabou virando filme no mesmo ano, trazido por John Carpenter, e foi um dos grandes motivos para que eu lesse o livro, porque Stephen King não podia ter feito algo tão ruim. O filme é tão trash, tão trash, que você continua assistindo só pra ver o quão ruim aquilo ainda vai ficar. Mas o livro… Ah, o livro…
Arnie Cunningham é o típico garoto nerd-pega-ninguém-perdedor que todos nós já vimos (e lemos) várias vezes, em diversas histórias. Seu único amigo é Dennis Guilder, personagem que nos contará grande parte da história que envolve Arnie e Christine, um Plymouth 1958 vermelho. É assim que começa uma relação doentia entre um garoto de baixa auto-estima que enxerga, em seu carro, a oportunidade perfeita para um plot-twist de sua vida, com um carro que é muito mais do que simplesmente parece.
Até aí, você pode achar que o livro parece muito com o filme. A gritante diferença entre os dois, porém, é como a história – no livro – é tratada. Stephen King sempre consegue dar um toque sombrio e negro à suas histórias; o cara é tão talentoso que te faz ter medo de um carro. De um CARRO!
Os assassinatos cometidos por Christine durante a leitura são macabros, para dizer o mínimo. Podemos perceber uma sutil crítica ao que hoje chamamos de bullying, o que também é notável em Carrie, o primeiro romance de King (de 1974).
Basta pesquisar um pouco na internet para descobrir que o livro e o filme tem diferenças gigantescas… Mas não precisa ser nenhum gênio para saber que toda adaptação de livro para filmes, por melhor que possam ser, nunca passarão 100% da história para os cinemas. Como eu já devo ter falado em uns 15 posts, isso é impossível.
De qualquer modo, a recomendação do Artilheiro que vos escreve, para esse fim de sexta-feira, é simples: comprem Christine, ou peguem emprestado de algum amigo (eu tenho uma edição, se você for de São Paulo): vale a pena.
Bombardeio X – Dia do Escritor
Hoje, dia 25 de Julho, celebra-se o Dia do Escritor. E, como vocês já devem ter percebido pelos posts gigantes e pelos comentários maiores ainda, o pessoal que frequenta e faz o Artilharia Cultural gosta (muito) de escrever. Tudo isso, porém, não aconteceu de repente. Independente de quando, de que forma ou em quais circunstâncias, todos aqueles que adquiriram o prazer de escrever, ganharam anteriormente o gosto em ler. Seja um gibi, uma história de contos de fadas ou o bilhetinho da primeira série, todo mundo que não aguenta ficar muito tempo sem escrever também não aguenta ficar sem ler. O nosso décimo bombardeio trouxe a equipe oficial do AC + 4 convidados para falar sobre seu autor favorito.
Manoel de Barros (@alicemariel)
De todos os nomes da lista quilométrica de pessoas que me fizeram gostar de ler, Manoel de Barros foi o único que me ensinou verdadeiramente a gostar de poesia. Lá no auge dos meus nove anos, enquanto eu devorava livros de escritores como José de Alencar e Machado de Assis e repudiava qualquer coisa que tivesse métrica e rimas imbecis, encontrei um livro miúdo, meio apagado, meio espremido entre os de literatura estrangeira na prateleira de uma livraria com mais teias de aranhas que clientes: o Livro das Ignorãças. Logo eu aprendi também que o Mato Grosso é dividido entre aqueles que não sabem quem é o cara e aqueles que morrem de orgulho da terra que o gerou. A simplicidade dos versos de Manoel me surpreendeu de tal forma que era impossível não me sentir tentada a dar uma chance àquilo que antes não parecia ser mais do que punhados de palavras vazias arranjadas para soar bonito. Manoel de Barros não só soava bonito pra mim como cada palavra trazia em si uma beleza daquelas que de tão delicadas você tem medo de pegar com a mão sem muito jeito e quebrar. Não precisa ser um gênio da literatura, mas se alguém é capaz de mudar sua maneira de encarar o mundo, sem dúvida é merecedor de respeito.
Do Fazedor de Amanhecer até o Guardador de Águas, Manoel é pra onde eu vou quando preciso de férias. Não é, nem de longe, o meu escritor favorito, mas pouquíssimos deles conseguiram me conquistar assim como o poeta pantaneiro fez.
José Saramago (@omgcaio)
Não lembro de quando li o primeiro livro do Saramago, mas sei que quando li, vi ali um autor que tinha nascido num país errado. Era tudo tão livre e dotado de um jeito pessoal de falar que se não soubesse antes, acharia com facilidade que ele era brasileiro, dada ao jeito tranqüilo de expressar tudo que pensava e sem se ater a nenhuma regra certa, exceto à inexistência de todas elas. E o fato de também não me apegar tanto às regras quando escrevo só me deixou mais próximo dele; e acho ser um sentimento que é compartilhado por todos que escrevem e acham um autor que chega próximo do seu estilo pessoal.
Apesar de não lembrar quando, sei que o primeiro livro que li dele foi o não tão disseminado como “Ensaio sobre a Cegueira”, mas sim o “As intermitências da morte”. Achei bem estranho acompanhar um jeito tão peculiar de escrever, mas depois que o costume te atinge, consegue compreender tudo com facilidade fora do comum. A ironia e o seu jeito de criticar as coisas também me atraiu bastante, principalmente quando retrata um governo completamente despreparado e que não liga muito para o bem estar da população. Saramago escrevia sobre pessoas, era raro tratar um indivíduo como único e especial, tanto que nomes são coisas completamente irrelevantes, e logo no final do livro achei peculiar ele se focar na história de um homem que não conseguia morrer, já que ninguém era tão especial. Demorei bastante tempo para conseguir ver um auto-retrato do autor e do romance com a sua mulher, Pilar, inserido de forma tão genial num livro que buscava tratar dos humanos de forma bastante generalizada e dos seus dilemas e certezas fúteis. É um dos meus autores prediletos e com toda certeza bastante influente tanto no meu modo de pensar quanto no de escrever, afinal “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.
Chuck Palahniuk (@noduro)
Chuck é um maestro. Sob sua regência estão seus personagens indomáveis, indecisos e incomuns. A plateia de seu espetáculo é qualquer mortal sortudo que tenha barrado com um de seus contos; qualquer ser humano que vive o martírio do século 21 onde as incertezas são maiores que a paixão e as verdades cruas são aos olhos brancos do preconceito pura bizarria.
O Clube da Luta, o romance de 1996, é o meu favorito. Mas devo considerar que a decisão foi deveras complicada ao lado de Cantigas de Ninar, Monstros Invisíveis e No Sufoco (todos os títulos já foram traduzidos para nossa língua).
Machado de Assis (@bielabagacera)
O que mais me fascina em Machado de Assis é o quanto ele se expõe em seus livros, antes mesmo dele ingressar de vez em sua fase Realista. Machado deixa muito claro em cada uma de suas narrativas a sua personalidade cética, sarcástica e perspicaz. Gosto de pensar que se hoje um Memórias Póstumas de Brás Cubas impressiona pela sua crueza, imagine só o quanto a obra machadiana não chocava a sociedade do século XIX. E ainda assim, ele era admirado e bem quisto. Um homem que consegue mesclar uma personalidade franca e realista sem se tornar uma pessoa desagradável aos olhos da sociedade que ele mesmo expõe, merece meu respeito.
Machado de Assis é o tipo de autor que eu leio e que fala por mim. Quando leio suas produções, sempre imagino que eu descreveria a situação do mesmo jeito. É uma identificação pessoal com seu jeito prático de ver os problemas e saber se eles podem ou não ser resolvidos. Assim como Machado de Assis, acho que sou uma conservadora. Gosto de ver a essência humana exposta, mas não de todo o seu íntimo. Isso tira a magia e nos transforma em meros animais.
Pra finalizar, recomendo que leiam as obras mais famosas de Machado porque simplesmente há determinadas coisas que não podem passar como desconhecidas por sua vida (e também porque provavelmente seus professores ou alguns vestibulares te obrigarão a ler). E então, leia A Mão e A Luva, uma produção da fase romântica do autor e que deixará bem claro o que quero dizer sobre o que é ter uma visão realista dentro de um romance.
Machadinho… Te dedico.
Luis Fernando Verissimo (@lucasbaranyi)
É complicado pra mim falar de Verissimo, quando ele foi um dos responsáveis pelo meu interesse em leitura. Mesmo quando eu não tinha idade o suficiente para entender as clássicas sacadas do autor, eu lia e me divertia. Executar o exercício hoje, então, é um deleite sem tamanho. E, cá entre nós, vamos deixar as palavras difíceis de lado, porque LFV não é disso. Apesar de inteligentíssimo, nunca foi de complicar suas histórias. Suas crônicas, que já deram títulos e recheio para vários livros (alguns dele que eu ostento com prazer em minha prateleira) se resumem ao cotidiano, à simplicidade. E é por isso que ele é um cronista tão bom. O gaúcho sabe guiar uma história, sabe denotar seu ritmo e sua mística, deixando geralmente uma reviravolta no fim (ou no começo mesmo, só pra variar).
Um traço curioso do autor é sua timidez. Apesar de muito criativo e despojado no papel, na hora de falar Verissimo se mostra um homem muito reservado e de poucas palavras. Uma característica que eu preciso falar aqui (e que fez com que eu também me identificasse muito com ele) é sua paixão pelo futebol. Verissimo é colunista no Estadão e, de vez em sempre, dá um pitaco ou outro sobre o mundo da bola. Como nem tudo é perfeito, porém, Luis é torcedor do Internacional de Porto Alegre. Isso, o vice da Copa do Brasil de 2009, que perdeu pro meu Corinthians. É, Verissimo. Eu lembro… E você também. Pra curar essa derrota, só com o analista de Bagé.
Jorge Amado (@larissagould)
Meu primeiro contato com a literatura adulta foi através de Jorge Amado e “Capitães da Areia”, e pasme, eu tinha nove anos. Eu sempre me envolvo com os personagens, e não seria diferente com o livro que até hoje está entre meus preferidos, passei alguns meses dormindo com a obra, na minha inocência infantil de que assim os personagens sofreriam menos. Na verdade o que faz com que Jorge Amado seja meu autor preferido, mais do que a qualidade de seus livros e temas abordados, embora esses sejam simplesmente compatíveis com as minhas opiniões, é a linguagem usada por ele. Jorge Amado é a prova viva (ta, não viva) que escrever bem não é escrever difícil, ele põe fim a idéia de cultura erudita, aborda temas populares com mérito único. Jorge Amado escreve para todos, sem detrimento de excelência, mesmo suas obras que não possuem cunho político são densas, de qualidade.
Fernando Sabino (@tauiltter)
Vou ser franco, logo de cara: Fernando Sabino é o meu mestre. Apesar de nunca tê-lo conhecido, o que seria cronologicamente impossível, aprendi o pouco que sei com dois autores, e Fernando é um deles. Devido à felicidade do meu ex-professor de literatura Jura que nos pediu para ler “O grande mentecapto”, tive contato com o escritor mineiro. Não parei mais. Embarquei em suas crônicas, li seus suspenses, li seus romances, li seus contos, seus contos de ainda iniciante, suas cartas trocadas com Mario de Andrade, por exemplo. Vi também alguns de seus documentários, porque Fernando Sabino era também metido no cinema. E na música, porque amava um jazzinho.
Raríssimas vezes li alguma crônica sua empurrado, e mais raras vezes ainda fiquei com cara de “an?, que porra é essa?” no final de algum escrito seu. Por ter sido também jornalista, suas palavras são economizadas, quase exatas mesmo. Sem supérfluos, sem lingüiça enchida. Já que esse espaço é livre, vou indicar alguns de seus livros de minha preferência: O encontro marcado, romance. Deixa o Alfredo falar!, crônicas. A nudez de verdade, conto.
Acho que Sabino tem que ser leitura obrigatória, pra todo mundo aprender: “e isso é que eu acho de trágico, de dramático, no dilema do escritor e no seu destino de artista: é que escrever é um ato solitário. Ou ele fica sozinho, como um demônio, amando apenas a si mesmo, ou ele, como um santo, sai amando a humanidade inteira”.
Stephen King (@muriloandrade)
O escritor que eu indico não é exatamente o meu predileto, mas foi um dos que tive o prazer de ler uma grande quantidade de obras, Stephen King. Stephen King foi um dos muito escritores que marcaram a minha vida. Você pode dizer o que quiser dele, de que é literatura barata, que existe muito escritor é melhor que ele, menos de que ele não cumpre o que promete fazendo grandes obras de suspense, superiores à maioria dos livros do gênero que vemos atualmente nas livrarias. Descobri a obra do Rei do Terror ainda na adolescência a partir do tijolão que é o Apanhador de Sonhos. A partir daí passei meus catorze e quinze anos lendo Iluminado, Carrie, Quatro Estações, A Torre Negra, À Espera de um Milagre, O Talismã, A Hora do Vampiro, A Coisa, entre outros dele. Ao contrário do que a maioria pensa a força das suas histórias não está em seus monstros, hotéis mal assombrados e carros assassinos. Eles são apenas uma válvula para que King possa explorar seus personagens em situações extremas e as atitudes que elas tomam. É como no clássico Drácula, onde o vampirão só aparece em uns 20% do livro e ainda assim a tensão e horror do livro são indizíveis.
Acho que pra qualquer fã do Stephen King não é fácil escolher a melhor obra. Mas um dos meus favoritos é O Talismã, escrito por King e por Peter Straub. O estilo um pouco mais poético de Straub aliado ao aprofundamento psicológico de Stephen King. O Talismã é muito mais que um romance, mas uma aula sobre a perda da infância e nos leva a refletir sobre nós mesmos.
Obrigado Stephen King por dar a nós aficcionados por horror grandes obras do gênero. Um dia eu escrevo um texto mais completo sobre você.
Bombardeio IX – Filmes de terror
O mundo poderia ser muito bem dividido entre dois tipos de gente: os que adoram filmes de terror e os que se apavoram com filmes de terror. Pensando nisso, fizemos esse bombardeio para abordar essa sensação intrínseca ao homem: o medo. E, é claro, a nossa tão querida sétima arte. Como o artilheiro Lucas teve um pobreminha, chamamos um substituto, o Caio, que de prontidão atendeu nosso chamado. Compartilhe suas histórias com a gente nos comentários!
Alice
Ainda estou tentando me decidir se gosto de filmes de terror ou não. Encaro-os exatamente como encaro comédias românticas: sem esperança nenhuma de que vou gostar depois, mas na hora até que parece bonitinho. Ou assustador. Quando o filme é classificado como terror, mais provavelmente engraçado. Não consigo me lembrar de nenhum que tenha me dado medo, nem no nível mais superficial dele, mas isso não é algo que deva ser levado em conta porque também não consigo me lembrar de nenhum que tenha me feito chorar ou provocado qualquer outra reação emotiva. A teoria sobre isso é que eu tenho certa dificuldade em me entregar a filmes, o oposto do que acontece com livros. Tive medo lendo Drácula, já tive medo até do Lord Voldemort (ah, aquele rosto sem nariz no espelho no final do longo corredor escuro), mas tudo que eu consigo achar de O Exorcista é graça. Sangue me diverte, e se vier com pipocas amanteigadas, pode contar comigo. É sempre bom poder criticar uma produção.
Marcel
Quem é que nunca se instalou frente à televisão, protegido por cobertas e mascando milho e sal para ver um pouco de sangue? Para ver muito sangue, em alguns casos. Além de violência, outro elemento crucial para o gênero são os sustos que junto do mistério entram no cardápio. Mas é fato que ver filmes de terror não é um costume especialmente contemporâneo. E falando na importância do gênero pro cinema, muitos dos melhores filmes aterrorirazam você. O Iluminado, o terror do mestre Stephen King que provou a versatilidade de Kubrick; O exorcista e sua clássica menina mutilada chamando o padre para uma rapidinha; e ainda, para não falar que não fazem coisas perturbadoras ultimamente, o Anticristo de Lars Von Trier. O que eu não concordo é com esse modismo que Hollywood criou ultimamente sobre o gênero. Sim, tem filme demais, qualidade de menos. Filmes para só encher as prateleiras não dá. Vamos ver os clássicos e aprender como se faz.
Tauil
Se você adora filme de terror e não sente medo com eles, vade retro. Esse meu parágrafo é para você que tranca, só assiste quando está acompanhado e ainda assim tapa a visão com a mão, por mais que você abra uma frestinha entre os dedos, morto de curiosidade, mas acaba morto de susto. Pessoalmente, eu até simpatizo com os monstros, mas o que eu não engulo são os espíritos. Porque o que dá medo mesmo são as coisas que podem ser reais. Sei que minha casa jamais será habitada por vampiros ou invadida por zumbis, mas e o palhaço assassino de A coisa? Quantos palhaços você já não viu por aí e pensou “porra, taí um palhaço com vocação pra assassino”? E quantos arrepios repentinos, quantos vultos e quantos borrões você já não viu, mas atribuiu o sinistro a algum problema em sua visão para mascarar a verdade, em uma espécie de dopagem emocional? Pra mim, se for pra ser terror, que seja trash. Trash a ponto de me fazer rir. Do contrário eu evito. Embora eu me considere um corajoso por ter assistido, sozinho, O iluminado de madrugada, e em seguida ter atravessado, sozinho, a sala escura da minha casa, assumidamente eu grito pra quem quiser ouvir: sou, na verdade, um cagão.
Caio (Artilheiro Colaborador)
Minha relação com filmes de terror sempre foi uma coisa bastante estranha. Acho que qualquer um que tenha visto It com apenas três anos de idade, e depois disso, acompanhado o tio em sessões de domingo para ver clássicos como A Hora do Pesadelo acaba se divertindo fácil com o gênero. É o tipo de filme que acabou crescendo junto comigo, e pude acompanhar o desenvolvimento de efeitos melhores, e roteiros cada vez piores, mesmo existindo exceções. Por incrível que pareça, têm um poder sobrenatural de unir as pessoas, já que é quase uma tradição assistir junto com os amigos num sábado à noite, e no final, todos ficarem com medo de ir pra casa e acamparem no sofá mesmo. Um grande “problema” é porque depois que se acostuma com eles, os filmes trash como O Ataque dos Tomates Assassinos acaba te divertindo mais do que qualquer superprodução, e você só se dá conta quando já é algo irreversível. É um dos meus gêneros prediletos de filme para diversão, e meu sonho, é ver uma máfia de zumbis italianos planejando dominar o mundo.
Suprimento Semanal II
Salve, bravo soldado.
Vamos ao que interessa, Suprimento Semanal, resumidamente falando: três palpites culturais para conhecer neste fim de semana.
O livro
O Talismã (Stephen King e Peter Straub)
É impossível falar da minha infância sem falar de Stephen King. Por mais que já fosse apaixonado pelos romances de Machado de Assis, as palavras do autor estadunidense chegaram até mim de forma fantástica. Foi ele o autor do meu primeiro livro novo ganhado de presente – isto é: que não ganhei da biblioteca mágica da Prof. Celma, senhora minha mãezinha. Escolher uma das obras foi deveras complicado, visto que li mais de 20 títulos do mestre do horror. Mas acho que se for para usar a expressão imprescindível – descartando os contos para os mais preguiçosos, eu aconselho sempre O Talismã - que escreveu com ajuda de Peter Straub. O livro conta a história do jovem Jack Sawyer (nome que o autor homenageou evidentemente o personagem Tom Sawyer de Mark Twain, seu ídolo) e sua trajetória corajosa pelos Estados Unidos da América e em paralelo com um mundo de fantasia. King surpreendeu, pois que além de dominar com perícia o terror de seus famosos A coisa e Carrie, a Estranha ele pôde criar um mundo paralelo de fantasia ao lado de uma América imensa e descrita em detalhes. Detalhes e proporções que tornam esse romance um dos mais cotados de minha – ainda humilde – prateleira.
O filme
Into the Wild (Sean Penn)
Fora do circuito comercial? Não diria. Mas por uma pesquisa boca-a-boca percebi que poucos dos meus amigos e conhecidos viram Into the wild. O longa-metragem tem a assinatura de um veterano do cinema americano e até concorreu a duas estatuetas no Oscar. Falando no diretor, apesar de ter começado sua carreira com a comédia das Picardias Estudantis, Sean Penn amadureceu muito com os anos em seus papéis até começar a arriscar seu nome como produtor até chegar a direção. Na natureza selvagem é estrelado por Emile Hirsch, o garotinho com cara de corajoso de Show de Vizinha. Mas não é o diretor, nem o ator que roubam a cena na obra. A história de Christopher McCandless ou Alexander Supertramp (tramp é vagabundo em inglês) sim é de arrepiar. O longa então conta a história absloutamente realista de toda a trajetória libertária de um jovem que abandona todos os bens para viver com a natureza. Veja, e se gostar, recomende. O filme deve ser visto.
O disco
Undertow (Tool)
Não sei se consigo aconselhar música ao soldado que me lê. Acho que essa é a arte que mais erra-se nos palpites. Música é muito pessoal. Mas acho que o exemplo que eu darei, além do som que a banda faz, vale como dica para aguçar sua interpretação.
Em 1990, a sonoridade suja do grunge fez alguns personagens caricatos boiarem nas superfícies do rock que se afundava em contradições: Glam e Punks. Tool surgiria com seu primeiro trabalho de estúdio, a banda é uma das favoritas do artilheiro pelo fato de estar entre os grupos que mais evoluiram em termos técnicos sem nunca deixar sua essência contestadora dos 90. Tool revelaria, nos vocais poderosos Maynard James Keenan, hoje, um dos maiores ícones do rock mundial. Undertow, com suas faixas gritantes e explícitas é o começo dessa história. Baixe ou compre, mas não deixe de ouvir esse registro eufórico dos anos 90. Gostou? Vá além do primeiro disco, Tool é muito mais que isso.
The Shining
Here’s johnny
Jack Torrance (Nicholson) é apresentado em sua entrevista de emprego no alto das montanhas de Colorado no hotel Overlook. Durante os invernos severos o hotel fechava as portas pela inacessibilidade causada pela neve e por tal razão era necessário um zelador para vigiar a propriedade e executar pequenos reparos. O interesse de Jack no emprego traz consigo a oportunidade de escrever seu livro em meio a tranqüilidade de um inverno solitário. Enquanto isso, Danny Torrance (Danny Lloyd) revela em um primeiro momento ser um menino introspectivo ao questionar sua mãe Wendy (Shelley Durval) sobre sua nova casa. Entretanto, numa segunda cena demonstra ser especial a ponto de carregar em seu dedo indicador um amigo imaginário, Tony.
O inverno chega e a família dos Torrance é apresentada cordialmente ao hotel Overlook no último dia de serviço normal. Um dos homens do hotel, o cozinheiro negro Dick Hallorann (Scatman Crothers) tem uma conversa a sós com Danny na qual explica sobre ser um iluminado.
Assim, a cada dia o sinistro toma mais conta das vidas e da psique dos Torrance.
Confira o trailer incomum:
O Terror e o trio mágico
Era véspera da década de 80 e o obstinado Stanley Kubrick, já muito conhecido por sua “Odisséia no espaço” (1968) e “Laranja mecânica” (1971), estava mais distante de Hollywood do que nunca quando, por correspondência, recebeu de Stephen King um exemplar de “The Shining”. Kubrick não tardou em anunciar que mais uma vez realizaria um filme baseado em livro, o que fez por muitas vezes durante sua carreira.
Kubrick convocou para o papel doentio de Jack Torrance o brilhante queridão de Hollywood Jack Nicholson que estava na flor de seus 43 anos (sendo 24 deles dentro do cinema). O diretor ainda trouxe para o set a mulher mais feia do cinema* (Shelley Durval) para o papel de Wendy Torrance, a insuportável e escandalosa esposa do escritor zelador do Overlook, e Danny Lloyd (incrível) para o papel de Danny Torrance (filho do casal) e de Tony (seu amigo imaginário). O elenco exuberante e excêntrico deram uma premissa monstruosa a “O Iluminado”, e enquanto a crítica se preparava para registrar um fiasco, Stanley e sua trupe se isolavam nos parques nacionais de Montana ou Oregon, o que dava tempo e tranquilidade ao diretor para começar a filmar seu primeira longa de terror.
Danny Lloyd foi selecionado por Kubrick dentre centenas de crianças por sua habilidade de se concentrar por um período longo. Habilidade que lhe fez capaz de, aos 6 anos de idade, personificar seu amigo imaginário Tony com tanta veemência. Além do que, o menino só soube do viés violento e aterrorizante do filme 7 anos depois do lançamento. O diretor disse no making of que tirava as expressões do garoto de forma natural, sem sequer assustá-lo.
Na época das gravações correu boatos de que Scatman Crothers, o melindroso cozinheiro do Overlook foi indicado ao diretor por seu amigo Nicholson para o papel de Dick Hallorann o qual se arrependeu amargamente* depois de descobrir os métodos do diretor. Kubrick, segundo o rumor, fez Dick repetir a cena em que ele receberia uma mensagem de Doc mais de 70 vezes. A tomada foi concedida por que o ator com muita experiência em músicas chorou no set pedindo clemência a Kubrick.
Stephen King disse certa vez que Kubrick, apesar da genialidade, era cético demais para sintetizar a paranormalidade do hotel Overlook. Já o diretor disse o mesmo de uma forma indireta ao afirmar o por que quis gravar “O Iluminado”: na visão do diretor, todos os acontecimentos sobrenaturais podiam ser explicadas pelas condições psicológicas dos personagens.
Jack Nicholson está convicto como jamais esteve no cinema (superando ele mesmo em o Estranho no Ninho de 75*), e, somado a toda sua gloriosa atuação, criou uma insanidade que transborda por seu sorriso largo e suas sombrancelhas dançantes. Ele encarna um Jack Torrance destrutivo, incontrolável e formidável, uma atuação clássica que é posta num andar alto onde poucos alcançaram no terror.
Quanto à direção de Kubrick menciono o uso das cores por todo o filme, causando euforia e tranquilidade. O desempenho do diretor é inovador por todas as partes seja no uso da câmera seguindo o velotrol de Doc pelos corredores do Overlook (nunca usada antes no cinema), seja na abertura panoramica das tomadas aéreas feita de helicóptero. A trilha sonora é de arrepiar. O diretor, amante assumido de música clássica, escolheu delicadamente cada faixa que acompanha o filme. A trilha é incessante sem deixar de ser requintada e expressiva. Kubrick ficou conhecido pelo ceticismo (testemunhado por King), a genialidade (testemunhado por Danny) e o perfeccionismo (testemunhado por Crothers) e “O Iluminado” foi a síntese mais concreta disso tornando a obra a mais completa de sua carreira.
O artilheiro não só é fã da obra como considera “O iluminado” um filme obrigatório para o bom apreciador das sensações mais profundas que o cinema pode tocar. Stanley Kubrick, King e Nicholson em suas melhores fases dão vida ao clássico do terror contemporâneo mais perturbador de todos os tempos.
Legendas
*humilde opinião do artilheiro.
O Iluminado
Nota do AC: 10
Título Original: The Shining
Lançamento: 1980
Diretor: Stanley Kubrick
Duração: 144 minutos
Elenco: Jack Nicholson, Shelley Durval, Danny Lloyd, Philip Stone e Scatman Crothers.














