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Wilson das Neves está de disco novo

O baterista Wilson das Neves tem uma novidade: aos 74 anos, lança pela MP,B mais um disco, o “Pra gente fazer mais um samba“. É o seu terceiro disco como cantor e compositor. Depois de “O som sagrado de Wilson das Neves” e “Brasão de Orfeu“, este terceiro disco é um selo que confirma que o samba é de fato o seu dom. No repertório, parcerias com Paulo César Pinheiro, Nei Lopes, Arlindo Cruz, entre outros bambas.

Além de seu trabalho solo, ele é integrante da Orquestra Imperial, juntamente com Rodrigo Amarante, Thalma de Freitas e outros jovens músicos. E, é claro, só pra fazer sua cabeça um pouquinho mais, não poderia deixar de falar que ele já tocou com mais de 600 artistas, entre eles, Tom Jobim, Elis Regina, Roberto Carlos, Wilson Simonal, Elza Soares, e, atualmente, Chico Buarque. Pode procurar nos vinis que você tem aí, seu nome estará com certeza em alguns créditos.

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Leia o encarte escrito pelo amigo e parceiro Chico Buarque:

“São vinte e cinco anos de amizade, depois de outros tantos de admiração à distância. Eu conhecia Wilson das Neves dos discos, reconhecia de cara a sua batida, vez por outra o peruava através do vidro dos estúdios de gravação. Hoje não subo ao palco sem ele. Camarim dos músicos, sem o Das Neves, não é camarim. Ele é o pulso da banda, termômetro, técnico do time, rei da anedota e pajé.

Este disco nos traz de volta o grande melodista que é Wilson das Neves. Escutei-o seguidamente com deleite, com um sorriso, com um ciúme danado dos seus parceiros. Aí está ele com sua graça, com a ginga que é só dele, com essa voz que deve ser a voz rouca das ruas, eis aí Wilson das Neves cantando versos prenhes de sabedoria popular.

A bênção, Das Neves. Ô sorte!”

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Pra gente fazer mais um samba

Artista: Wilson das Neves

Ano: 2010

Gravadora: MP,B / Universal Music

20 duplas da música brasileira

Comecei tentando escalar dez duplas essenciais à música brasileira. Não consegui. Fui pra quinze. Não deu também. Fechei com vinte. Vinte parcerias bem sucedidas que não podem passar em branco para quem gosta de música. Tentei ser versátil, mas antes de mais nada gostaria de deixar claro alguns pontos: existe, além dessas vinte, inúmeras outras que eu gostaria de incluir aqui – quem sabe numa segunda postagem. Não está em ordem de preferência. E o intuito não é escolher os melhores compositores brasileiros, até porque não sou louco o suficiente para eleger alguns entre tantas feras.

Vou indicar alguns destaques entre as composições das duplas e, para não carregar muito a página, conto com sua astúcia para jogar os nomes que te despertarem curiosidade no YouTube. Vamos lá.

1. Tom Jobim e Vinicius de Moraes

A união entre Tom e Vinicius talvez seja um dos melhores casamentos da MPB. Lamento quando ouço que Tom Jobim e Vinicius de Moraes são compositores de Bossa Nova. Extremamente versáteis, compositores desse naipe não podem ser presos a um movimento musical.

Destaques: Se todos fossem iguais a você. Eu sei que vou te amar. Sem você. Modinha. Insensatez. Água de beber. Eu não existo sem você. Estrada branca. É preciso dizer adeus. A felicidade.

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2. Chico Buarque e Edu Lobo

Chico tem em Edu seu mais constante parceiro, e vice-versa. Juntos, têm mais ou menos quarenta parcerias, todas, com exceção de duas, feitas por encomenda para alguma peça teatral. “O grande circo místico“, “O corsário do rei” e “Cambaio” são algumas peças que levam a trilha sonora assinada pela dupla. É um desses encontros raros, de perfeita simetria entre letra e música. Edu diz que jamais teve que alterar uma de suas notas para que as palavras de Chico se encaixassem melhor.

Destaques: A história de Lily Braun. Choro Bandido. A moça do sonho. Beatriz. Cantiga de acordar. Ciranda da bailarina. Ode aos ratos. Sobre todas as coisas. Valsa brasileira. Veneta.

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3. Noel Rosa e Vadico

Noel Rosa, expoente máximo do samba, e Vadico, pianista, têm um trabalho interessante: juntos, fizeram poucas músicas. Mas extremamente preciosas. Não é por menos que são lembrados como uma das mais felizes parcerias da música brasileira.

Destaques: Conversa de botequim. Cem mil réis. Feitio de oração. Feitiço da Vila. Tarzan, o filho do alfaiate. Provei. Pra que mentir?.

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4. Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

Luiz Gonzaga, o rei do baião, teve entre seus vários parceiros um que merece ocupar um degrau acima dos demais: Humberto Teixeira. Embora sejam lembrados somente por “Asa branca”, a parceria rendeu outros trabalhos louváveis que valem a pena ser escutados para quem gosta de um ritmo mais nordestino, mais animado.

Destaques: Asa branca. Assum preto. Baião. Baião de dois. Légua tirana. Qui nem jiló. Respeita Januário.

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5. Chico Buarque e Francis Hime

Francis (esquerda) e Chico (direita) se aproximaram muito durante a década de 70. Além de parceiros em composições, Francis atuou como arranjador dos discos de Chico dessa época. Alguns apontam os arranjos de Francis como os melhores da obra de Chico. Juntos, compuseram quase 20 músicas, entre elas estão alguns clássicos da MPB.

Destaques: Vai passar. Meu caro amigo. Pivete. Quadrilha. Trocando em miúdos. Atrás da porta. Passaredo.

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6. Caetano Veloso e Gilberto Gil

Para representar o Tropicalismo aqui na lista, nada mais justo que Caetano e Gil. No fatídico ano de 1968, revolucionaram o cenário cultural brasileiro incorporando elementos estrangeiros, como a guitarra, em suas composições.

Destaques: Divino maravilhoso. Haiti. Panis et circenses. Desde que o samba é samba. Cinema novo. Dada. Batmacumba.

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7. Raul Seixas e Paulo Coelho

Esqueça o que você ouviu falar por aí dos livros do Paulo Coelho. Estamos falando de um letrista que junto de Raul Seixas, compôs várias pérolas do rock brazuca. Muitos dizem que Paulo Coelho se aproveitava do talento e da fama de Raul, mas, independente do que cada um fazia nas composições, as que nasceram desse encontro merecem destaque em nosso cenário musical.

Destaques: Al Capone. As minas do Rei Salomão. Como vovó já dizia. Eu nasci há dez mil anos atrás. Gitá. Medo da chuva. Meu amigo Pedro. Não pare na pista. Rock do diabo. Sociedade alternativa.

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8. Rita Lee e Arnaldo Baptista

Rita e Arnaldo botaram no mundo alguns clássicos imortais. Juntos com Sérgio Dias, formavam os Mutantes, que se desfez, se refez e hoje já não sei mais a quantas anda.

Destaques: Balada do louco. Caminhante noturno. Amor branco e preto. Desculpe, babe. Quem tem medo de brincar de amor?. Sucesso, aqui vou eu. Don Quixote.

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9. Vinicius de Moraes e Baden Powell

Mais uma prova da versatilidade de Vinicius. Com Baden, fez os famosos afro-sambas, claro divisor de águas da MPB por mesclar elementos da música africana com o samba carioca.

Destaques: Além do amor. Apelo. Berimbau. Canto de Ossanha. Consolação. Deixa. Formosa. Samba da bênção. Samba em prelúdio. Tem dó. Velho amigo.

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10. Erasmo Carlos e Roberto Carlos

Tudo bem que o Roberto Carlos tem uma fase cafona e que muita gente tem aversão. Eu entendo. Mas e daí? É inegável que junto a Erasmo Carlos tenha composto músicas boas. E se você acha que o Erasmo é uma figura lado B que utilizou da fama do Roberto, sinto muito. É um excelente compositor que pretendo explorar mais em outro artigo. Caiamos no iêiêiê.

Destaques: A banda dos contentes. Além do horizonte. Amigo. Cama e mesa. Coqueiro verde. De tanto amor. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos. Detalhes. É proibido fumar. Emoções. Eu sou terrível. Fera ferida. Festa de arromba. Ilegal, imoral ou engorda. Lady Laura. Minha fama de mau. Olha. Traumas.

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11. Moraes Moreira e Luiz Galvão

Luiz Galvão (esquerda) e Moraes Moreira (direita) são os responsáveis pelas melhores composições do finado grupo Novos Baianos. Se você nunca ouviu, vai por mim: surpreenda-se.

Destaques: A menina dança. Acabou chorare. Dê um rolê. Mistério do planeta. Preta pretinha. Três letrinhas. Um bilhete para Didi.

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12. Paulo César Pinheiro e João Nogueira

Vejo em Paulo César Pinheiro um dos três melhores compositores vivos do Brasil. Entre todos os seus parceiros, escolhi o trabalho com João Nogueira porque é louvável, representa para mim músicas importantes na formação da visão do mundo de uma pessoa.

Destaques: Espelho. Minha missão. Dora das 7 portas. O poder da criação. O homem dos quarenta. E lá vou eu. Batendo a porta. Mineira.

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13. João Bosco e Aldir Blanc

Um mestre do violão e um gênio das palavras. Juntos, só pode dar coisa boa. O trabalho de João Bosco com Aldir Blanc é vastíssimo e representou uma das principais vozes dos angustiados com a ditadura brasileira.

Destaques: Agnus sei. Bala com bala. Corsário. De frente pro crime. Dois pra lá, dois pra cá. Escadas da penha. Falso brilhante. Gênesis (parto). Incompatibilidade de gênios. O bêbado e a equilibrista. O ronco da cuíca. O mestre-sala dos mares. Preta-Porter De Tafetá. Tiro de misericórdia.

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14. Vinicius de Moraes e Toquinho

Talvez uma das duplas que mais geraram descendentes. Toquinho teve em Vinicius seu grande parceiro e mentor. Além das composições próprias, musicou inúmeros poemas de Vinicius. Entre todos os trabalhos que fizeram juntos,  merecem destaque, entre outros, as músicas infantis d”A Arca de Noé“, que embalaram várias gerações de brasileiros.

Destaques: A carta que não foi mandada. A tonga da mironga do kabuletê. Aquarela. As cores de Abril. Carta ao Tom 74. Como é duro trabalhar. Como dizia o poeta. Cotidiano n° 2. O canto de Oxum.  O filho que eu quero ter. O poeta aprendiz. Paiol de pólvora. Para viver um grande amor. São demais os perigos dessa vida. Se ela quisesse. Sei lá, a vida tem sempre razão. Sem medo. Tarde em Itapoã. Tudo na mais santa paz. Um homem chamado Alfredo.

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15. Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal


Dois dos mais ilustres filhos da Bossa Nova, é impossível deixá-los de lado. Não existe tributo à Bossa que não relembre alguns clássicos frutos de Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal.

Destaques: O barquinho. Carta ao mar. Copacabana de sempre. Errinho à toa. Nós e o mar. Por quem morreu de amor. Rio. Vê. Você.

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16. Milton Nascimento e Fernando Brant

Representando a turma do Clube da Esquina, Fernando Brant e Milton Nascimento criaram belíssimas composições profundas, com temáticas variadas: a vida, o artista, a reflexão, a preocupação com o social. Têm uma vasta lista de parcerias altamente recomendável.

Destaques: Canção da América. Canções e momentos. Comunhão. Encontros e despedidas. Maria Maria. Milagre dos peixes. Ponta de areia. San Vicente. Sentinela. Travessia.

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17. Cazuza e Frejat

Tá angustiado com o sistema e quer mandar tudo pros ares? Está aqui a dupla que te servirá de trilha sonora. As composições de Frejat e Cazuza são extremamente atuais, servindo ainda hoje como um grito de alerta. Quem acha que rebeldia não pode andar junto com o amor e a beleza, basta ouvir algumas músicas desses dois para ficar provado o contrário.

Destaques: Bete Balanço. Blues da piedade. Ideologia. Malandragem. Pro dia nascer feliz. Só as mães são felizes. Subproduto do rock. Todo amor que houver nessa vida.

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18. Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

O fino do samba. Quer mais o quê? Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito compuseram verdadeiros hinos do samba, revisitados ainda hoje por intérpretes de altíssimo nível. Indispensáveis.

Destaques: Encontro marcado. Folhas secas. Me esquece. Meu caminho. Meu violão. Minha paz. O bem querer. O dia de amanhã. Palco vazio. Pranto de poeta. Tatuagem. Quando eu me chamar saudade.

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19. Chico Buarque e Tom Jobim

Chico é Chico e Tom é Tom. A parceria dos dois começou um pouco por acaso, quando foram apresentados por Aloísio de Oliveira. Chico ainda estava começando e Tom já era uma autoridade musical. Para uma análise mais delicada, é possível ver traços de maior maturidade nas letras de Chico depois que virou parceiro de Tom. Para mim, uma das melhores duplas.

Destaques: Anos dourados. Olha Maria. Retrato em branco e preto. Sabiá. Eu te amo. A violeira. Pois é. Piano na Mangueira. Imagina.

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20. Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik

Os novos expoentes da música urbana, Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik, que também é parceiro de Caetano e de Chico, oferecem composições com um traço modernista, o tempo todo brincando com as palavras e fazendo referências a outras composições.

Destaques: Baião de quatro toques. Mestres cantores. Para Elisa. Serra do mar. Trio de efeitos.

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Fonte: muito veio do Discos do Brasil.

Downloads: acredito que muito do que foi citado por ser encontrado no Umquetenha.

Adoniran Barbosa, o palhaço triste

Artilheiro Colaborador: Bruno Hoffmann

Um erro é considerar a obra de Adoniran Barbosa como algo alegre. A melancolia sempre foi a linha mestra de seus sambas tão paulistanos. “Eu sou um palhaço triste”, se definia.

Comecinho dos anos 1980. Estava para sair um disco em homenagem aos 70 anos de Adoniran Barbosa. Um executivo da gravadora EMI procurava alguém para fazer a ilustração da capa. O escolhido foi o artista plástico Elifas Andreato, um dos melhores capistas do país. Elifas, com sensibilidade, desenhou o compositor como um palhaço triste, com lágrimas aos olhos. A foto não agradou o executivo, que aconselhou: “Acho que o Adoniran não vai gostar nadinha de ser retratado como um palhaço”. O desenho foi refeito de um jeito tradicional, até careta. O disco saiu com esta nova capa. Alguns meses depois Adoniran viu a imagem original. Ligou para o artista plástico, com voz contrariada: “Ei, eu sou este palhaço triste, não aquele alemão que você pôs no disco”. Elifas se arrepende até hoje. “Seguir a opinião do executivo da gravadora é um dos maiores arrependimentos da minha carreira”, confessa.

É um erro comum confundir a obra de Adoniran como algo alegre. Boa parte de suas canções é melancólica: histórias de pobreza, desilusões amorosas, amarguras de tudo que é tipo. A mesma melancolia que trazia em si. Só que disfarçava pelo humor que só ele tinha. Poucas coisas são mais amargurantes que o clássico Saudosa Maloca: Que tristeza que nóis sentia / Cada talba que caía doía no coração… Mas os ouvintes conseguem cantarolá-la com um sorriso no rosto. Era o jeito Adoniran: fazer gracejo da tragédia, porém respeitando a dor.

Com centenário de nascimento completado este ano, João Rubinato, nascido em Valinhos, interior de São Paulo, veio ao mundo com predisposição para ser artista. Mesmo com a infância pobre, de muitas privações. Até que a família mudou-se para São Paulo. Logo tentou se ingressar como ator nos grupos da cidade. Mais tarde, a nova paixão seria o rádio. Totalmente correspondida. Em parceria com Osvaldo Moles, fez história em programas de humor no rádio. Em 1946, deu vida a nada menos que 16 personagens. Também brilhou no cinema. Era um humorista nato. Não significa que vivia de brincadeiras por aí. A frase é de Rolando Boldrin, parceiro musical e amigo de Adoniran. “Eu ri muito com ele. Só não poderia dizer que rimos juntos. Adoniran não ria. Verdadeiros humoristas nunca riem de suas próprias patacadas”.

Só nos anos 1950 começaria a enveredar pela música. Retratou, de maneira tão inédita e peculiar, os tipos da cidade: os paulistanos, os caipiras, os descendentes de italianos – como ele próprio. O primeiro sucesso nacional foi Saudosa Maloca, que ficou conhecida de uma forma mais alegre, quase brejeira, pela interpretação dos Demônios da Garoa, os maiores propagadores de sua obra. A inspiração para Saudosa Maloca começou num fim de tarde. Estava voltando para casa quando, do outro lado da rua, viu crianças chorando, cachorros latindo e adultos correndo, juntando os poucos pertences. Os tratores se preparavam para derrubar mais um cortiço na cidade, em nome do progresso. A imagem não saiu da cabeça de Adoniran. Na manhã seguinte estava pronta o maior clássico de seu repertório. Com o sucesso, a Revista do Rádio estampou na capa: “Humoristas também fazem músicas tristes”.

Adoniran não pararia mais de registrar a cidade em suas canções. É colocado ao lado de Noel Rosa, de Chico Buarque e de poucos outros na capacidade de retratar tão bem tipos humanos. Para o compositor Mário Lago, “Adoniran era um perfeito repórter. O repórter dos bairros pobres de São Paulo”. Uma marca característica era usar a fala popular nos versos. Fazia isso de propósito. “É difícil pra caramba escrever os sambas errado”, dizia. Mas gente chata nunca faltou. Não era incomum quem reclamasse nas rádios, nos bares, que Adoniran, com seu jeito de cantar, ensinava o povo a falar errado.

Para retratar tão bem o jeitão do paulistano da periferia, vivia a caminhar pelas ruas. Houve uma época que saía quase diariamente pela cidade com um caderninho no bolso. Se via um tipo interessante, parava, conversava com o sujeito, e tratava de fazer anotações que poderiam se transformar num samba. “Todo mundo tem uma história pra contar”, explicava.

O resultado: sambas maravilhosamente sofridos com a cara de São Paulo. “A sua obra é fantástica. Só que há essa confusão de retratá-la como algo alegre, pra cima. São poucas músicas de Adoniran que não falam de tristeza, que não tenham desfecho trágico”, entende Elifas. Os exemplos são inúmeros, como Iracema (sobre a morte por atropelamento da personagem da canção, 20 dias antes do casamento. Como lembrança, só sobraram as meias e o sapato), Despejo na Favela (“Minha mudança é tão pequena que cabe no bolso de trás / Mas essa gente aí, como é que faz?”), Não Quero Entrar, e por aí vai.

Uma das mais intrigantes e comoventes é Apaga o Fogo Mané, de 1956. A começar pela melodia, triste de doer. A letra é sobre uma separação do casal, sem explicar os motivos. Fica tudo solto no ar. Tudo começa quando a mulher, Inês, diz que irá comprar pavio pro lampião. E ressalta: “Pode me esperar, Mané, que eu já volto já”. O marido acende o fogão, põe água pra esquentar e fica no portão à espera da amada. Só que anoitece e nada da moça voltar. O personagem sai pela cidade, desesperado, a procura de Inês. Busca até no hospital. Na volta, desconsolado, encontra um pedaço de papel perto do fogão, com a letra da mulher: “Pode apagar o fogo, Mané, que eu não volto mais”. É quase cinematográfico.

E assim levou sua obra e vida, entre melancolia, humor e boemia. Só que décadas tomando sereno (e bebida, além do cigarro) lhe causaram um enfisema pulmonar. Ao mesmo tempo, com a bossa nova e a jovem guarda, sua música era cada vez menos tocada nas rádios. Sentia-se triste com o esquecimento e, às vezes, reclamava: “Por que não tocam mais minhas músicas? Todos dizem que sou um bom compositor”. Fez até uma canção sobre o tema. Claro, com o deboche disfarçando a tristeza: “ Eu gosto dos meninos destes tal de iê-iê-iê / Porque com eles canta a voz do povo/ E eu que já fui uma brasa / Se assoprarem posso acender de novo”.

Aos poucos foi sendo revalorizado por artistas como Elis Regina. No fim dos anos 1970 novamente começou a ser requisitado para entrevistas. Este reconhecimento lhe enchia de alegria. Mas a saúde continuava fraca. Preferia disfarçar. Negava-se a usar a palavra “morte”, mesmo no leito do hospital. Uma das poucas vezes que falou sobre o assunto foi com a fiel companheira Matilde. Ao visitar o Cemitério da Paz, no velório do sogro, disse que queria ser enterrado no local. O motivo: o ambiente parecia alegre: “E tem até música”. É onde Adoniran mora desde 1982.

Sobre o Artilheiro Colaborador

Bruno Hoffmann é jornalista. Só gosta de música brasileira, e ainda não sabe bem se isso é motivo de orgulho ou de vergonha. Mantém um blog com belas histórias sobre a música popular, especialmente samba (Eu quero um samba) e também uma conta no twitter. Há 31 anos sofre pelo Corinthians.

Os 5 melhores discos de Chico Buarque

As cidades (1998): extremamente sutil e leve, brinda o romântico com canções sem compromisso com o social ou com a política. Acho o melhor e o mais pessoal trabalho de Chico. Participação vocal de Branca Lima e Cristina Buarque e instrumental de Guinga e Dominguinhos. Os arranjos, extremamente delicados sem ser piegas, ficam por conta de Luiz Cláudio Ramos.

Continência: Injuriado.

Construção (1971): divisor de águas na obra de Chico, marca o início de um compositor maduro e engajado. Como foi lançado após seu retorno do auto-exílio na Itália, as canções têm uma base social e política, uma espécie de denúncia. Apesar disso, não deixa de lado o lirismo e o popular. Indicado pela Roling Stones como o número um dos discos brasileiros.

Continência: Construção.

Meus caros amigos (1976): aclamado por unanimidade como um dos mais finos álbuns de Chico, traz alguns de seus maiores clássicos. Os arranjos de Francis Hime embalam um disco extremamente  íntegro, com um repertório harmônico. Participação vocal de Milton Nascimento. Parcerias com Ruy Guerra, Augusto Boal e o próprio Francis.

Continência: Corrente.

Uma palavra (1995): este disco nasceu porque Chico quebrou a perna jogando futebol, e, de cama, sentiu vontade de revisar seu próprio trabalho. Sem nenhuma música inédita, ele recria suas próprias composições como quem encontra seus amigos sumidos. O repertório diversificado é um apanhado do sumo de outros discos seus. Em uma das músicas, Chico chegou a reescrever um trecho da letra.

Continência: Quem te viu, quem te vê.

Paratodos (1993): um disco sobre o tempo. Músicas que falam sobre música, sobre o ato de compor. Isso se dá porque Chico havia abandonado a música para se dedicar ao seu primeiro romance, Estorvo. Depois de lançar o livro, o artista sentiu a necessidade de redescobrir o violão. E assim nasceu o repertório: algumas inéditas, algumas regravações. Sublime. Participação vocal de Gal Costa. Como curiosidade, as fotos de Chico na capa foram feitas em sua adolescência, não por um fotógrafo, mas por policiais, para sua ficha criminosa – Chico e um amigo haviam roubado um carro em São Paulo e passaram a noite na prisão.

Continência: Choro bandido.

Para aquele que morou no subúrbio e andou de trem atrasado

Artilheiro Colaborador: Gabriel Deslandes

Sou impaciente. Nem sei se isso soa como uma brincadeira, mas, de fato, a paciência é uma virtude a qual o Criador não fez questão de me privilegiar. Quem me conhece sabe. Aliás, só Ele tem ciência de quanto eu penei para escrever esse texto a pedido do soberano Tauil. O tema segue um clima paradoxal a meu estilo de vida e talvez seja por isso mesmo que sou, desvairado e alucinado por seu personagem central na exata proporção em que Tauil é por Chico Buarque.

Em resumo, se minha existência é o que chamam de “a fina flor do samba”, um de seus principais jardineiros se chama Martinho José Ferreira, o da Vila. Não vou bancar uma de Sérgio Cabral Pai, querendo intelectualizar um indivíduo “inintelectualizável”, contudo confesso que sou obrigado a tirar várias e várias vezes meu chapéu de bamba para o “bom crioulo”. É uma questão de coerência. Ao analisar o conjunto de sua obra, admirá-lo é uma obviedade.

Talvez o problema esteja aí: sua imagem como pessoa e artista foi desvirtuada pela mídia massificada. Afinal, para quem não o conhece, a figura de Martinho da Vila se limita a de um sujeito com ar de malandro beberrão e um sorriso falso que vai, de vez em quando, ao programa do Faustão para cantar pérolas como “É devagar, devagarinho” ou “Já tive mulheres”. O pior é que essas músicas nem são dele…

O maior equívoco da sua carreira foi indiscutivelmente ter apoiado a onda do “pagodismo” da segunda metade dos anos 80. A originalidade de suas melodias e a riqueza poética de seus sambas a partir daí decaíram de forma lastimável. A coisa degringolou de vez no momento em que ele conseguiu a proeza de vender 1,5 milhões de cópias de seu CD “Tá delícia, tá gostoso” (urgh!), de 1995. Acontece que os modismos da cultura pop são passageiros e, quando um sambista passa a rebaixar uma instituição eterna como o samba verdadeiro a este nível, é porque algo está errado. Impulsionado por uma gravadora comercial, Martinho acabou por prejudicar a reputação do samba (que “competia” com a praga das bandas de pagodejo mauricinho), sujando inclusive seu nome. Antes disso, inexistia cafonice em se dizer sambista. Ainda hoje, gostar de Cartola soa como “cult”.

De qualquer maneira, lamenta-se que a “história oficial” insista em registrar apenas aquilo que existe de mais superficial. Entretanto, não sou obrigado de modo algum a me conformar com isto. Meu designo está além de exemplificar o que há de mais rico na obra de Martinho. A verdade é uma só: Martinho José Ferreira revirou a música popular brasileira e o samba de cabeça para baixo. Ora bolas, isso é a prova concreta que seu “lado B” consegue ser muito mais amplo que o próprio trabalho como compositor. Trata-se de algo ausente nos micro-sulcos dos velhos discos de vinil ou nos megabytes zipados disponibilizados aos montes nos blogs de música pela grande rede.

Em 1968, com Donga, compositor do primeiro samba gravado

Filho de meeiros, Martinho nasceu em 1938, em Duas Barras, interior do Estado do Rio, vindo para a capital com quatro anos ao lado dos pais. Fora criado na Serra dos Pretos Forros, em Lins Vasconcelos. Durante a adolescência, cursou o SENAI e formou-se auxiliar de químico industrial (preparador de óleos, ceras, sabões e graxas), exercendo a profissão como laboratorista do LQFEx (Laboratório Químico Farmacêutico do Exército). Por influência do próprio laboratório, ingressou, aos 18 anos, no serviço militar, tornando-se sargento-escrevente, contador e arquivista na Intendência do Ministério da Guerra.

Didatismos à parte, a música inevitavelmente esteve sempre presente em seu cotidiano. Ainda em Duas Barras, Martinho teve contato com o calango, ritmo caboclo oriundo das zonas rurais, estruturado em versos de improviso, elaborados no momento do canto, e tocado com sanfona de oito baixos, viola e pandeiro. Também já compunha, entre os amigos de futebol, marchinhas de carnaval e paródias para os sucessos das rádios dos anos 50. Entretanto a influência maior veio do ambiente em que vivia. Na Serra dos Pretos Forros, localizara-se a modesta escola de samba Aprendizes da Boca do Mato. Martinho, folião inexorável, passou a ser presidente de ala e, mais tarde, ritmista. Aos 15 anos, compõe “Piquenique”, seu primeiro samba, narrando um passeio de domingo à Ilha de Paquetá. Tal feito foi suficiente para levar Tolito, diretor de harmonia da Boca do Mato, a convidá-lo a participar da ala de compositores da escola. No ano seguinte, a agremiação levou um samba-enredo seu à avenida, “Carlos Gomes”.

Pouco a pouco, Martinho acabou virando um freqüentador assíduo de toda e qualquer roda de samba que surgisse. Sua presença era cativa nos terreiros e botequins do mundo afora. A vida boêmia já havia se apoderado por completo de sua inspiração e, justamente nesta época, o rapaz abraça uma vertente do samba pouquíssimo divulgada – o partido-alto, herança dos negros escravos e gênero harmonicamente simples, o qual consiste em um refrão constante e outras partes soladas em versos improvisados, frutos da criatividade do sambista, gerando um eventual desafio entre um grupo de compositores. A marcação rítmica é feita na palma das mãos ou com prato e faca.

Não demorou muito para sagrar-se um exímio partideiro. Eis que ocorre a primeira revolução. Martinho decide aliar seus dois estilos de samba – samba-enredo e partido-alto. Os sambas-enredo das décadas de 50 e 60 geralmente tinham melodias tradicionais e letras longas, explicando de forma detalhada todo o tema abordado pela escola. Seus sambas para a Aprendizes da Boca do Mato eram bem mais curtos e possuíam a dolência assobiável dos sambas-de-roda. Sendo assim, começou correr o boato entre os bambas de que um certo “garoto do Exército” estava apontando novos rumos para o carnaval carioca. Vários sambistas lendários foram à Boca do Mato conhecê-lo, como Walter Rosa (Portela), Padeirinho (Mangueira) e Silas de Oliveira (Império Serrano). O próprio Martinho se viu desorientado: “Eu nem sabia quem era quem. Achava, por exemplo, que Cartola era coisa de séculos passados. Só descobri quem era quando ele veio me visitar!”.

Em 1965, depois de vários carnavais pela Boca do Mato e já morando em Pilares, Martinho se desligou da agremiação. Foi o momento em que Paulo Brazão e Rodolpho de Souza, membros da desconhecida Unidos de Vila Isabel, o convidaram para a ala de compositores da escola. Transferência feita (houve quem o chamasse de “vira-casaca”), Em 1967, Martinho compôs, ao lado de Gemeu, o samba-enredo “Carnaval de ilusões”, o qual foi responsável por um desfile antológico e assegurou a escola em sua melhor colocação até então – 4º lugar. Martinho José Ferreira, agora, era o Martinho da Vila.

No mesmo ano, fervilhava o histórico III Festival da TV Record de São Paulo, o maior acontecimento sócio-cultural do Brasil, o qual atuou de maneira decisiva na consagração de um número infindo de cantores e compositores dos mais diversificados gêneros. Por insistência de amigos, Martinho enviou uma fita cassete com “Menina moça”, um de seus sambas de partido-alto, à organização do festival. Não possuía qualquer expectativa de ver sua música classificada. Gravou-a à capela, batucando no próprio gravador, e, por falta de recursos, nem teve condições de contratar um maestro para escrever a partitura com a melodia, conforme exigia o regulamento. Contrariando tudo e a todos, a música conseguiu fazer parte da competição. Quem a defenderia em palco seria Jamelão. Aliás, a idéia inicial do velho Jamela era de utilizar os músicos do Teatro Record para orquestrar o samba. Martinho interveio, alegando que se tratava de um partido-alto e que tal atitude retiraria a singeleza da música. “Esse garoto não sabe das coisas!”, replicou Jamelão, porém o pedido fora atendido, com a apresentação realizada com acompanhamento do Regional do Caçulinha. “Menina moça” acabou por não ganhar nada além de um elogio de Augusto de Campos à letra, contudo foi, sem dúvida, um marco na divulgação de seu trabalho como compositor.

Em 1968, Martinho deixa claro seu retorno ao IV Festival. Hospedara-se no Hotel Danúbio, onde conheceu pessoalmente alguns dos cantores concorrentes, como Chico Buarque e Eliana Pittman. A música, um clássico: “Casa de bamba”. Em meio aos exotismos tropicalistas de guitarras elétricas e roupas extravagantes, eis que o próprio resolve ir ao palco cantar seu samba. Era a primeira vez que se expunha ao grande público, o qual incluía não só os expectadores esbaforidos do Teatro Record, como todo o Brasil que o assistia pela televisão. Vestido de prata e acompanhado pelo grupo Os Originais do Samba, Martinho vê toda a platéia levantar-se ao som de seu samba, resultando em uma das melhores apresentações da noite. Embora tivesse saído sem prêmios, sabia que, no mínimo, aquele momento, era avant-première de uma explosão prestes a acontecer.

Com Clara Nunes, 1979

Não deu outra: Jair Rodrigues grava “Casa de bamba”, resultando em um sucesso absurdo nas rádios. Até hoje, quem não conhece o refrão “Na minha casa, todo mundo é bamba: todo mundo bebe, todo mundo samba”? A euforia se fez presente entre as familiares, os colegas do Exército e, principalmente, os amigos sambistas, dos quais fez questão de se aproximar cada vez mais. Percebeu neste mesmo entusiasmo a necessidade tida pelos compositores suburbanos em divulgar suas obras. Aos poucos, Martinho passava a ter ciência de alguma coisa havia de ser feita com urgência para que a memória do sambista de morro não fosse perdida.

Com apoio da esposa Anália Mendonça (com quem teve os filhos Tinho Antônio, Analimar e Mart’nália), desenvolveu o projeto “Nem todo crioulo é doido”, o qual culminou em LP homônimo. No repertório, composições membros de várias escolas de samba, como Darcy da Mangueira; Silas de Oliveira (Império Serrano); Zuzuca e Bala (Salgueiro); Colombo, Picolino e Noca (Portela); Marinho da Muda (Império da Tijuca); Sidney da Conceição (Unidos de São Carlos); Cabana (Beija-Flor). Todos participavam das rodas de samba promovidas por Teresa Aragão no Teatro Opinião, na Zona Sul do Rio. Este trabalho visionário, entre outros, o sagraria como um dos maiores preservadores do samba e de tantos outros ritmos.

Em meados de 1969, o produtor musical Rildo Hora convida Martinho a gravar um LP somente com suas composições. Mesmo com a proposta de um contrato sólido na RCA Victor, de imediato, vem a recusa. Desde jovem, sempre sonhou em ver algum samba seu gravado, todavia, apesar de já ter aparecido diversas vezes publicamente, nunca antes havia ocorrido, em seu imaginário, a idéia de se tornar um cantor profissional. Rildo, depois de muita insistência, o convence a gravar um disco-demo não-comercializável apenas com a função de registrar suas músicas fonograficamente a fim de exibi-las, em um futuro, a algum intérprete interessado. Trato feito. Como músicos, Martinho solicita o esteio dos amigos mangueirenses Mané do Cavaco e Darcy da Mangueira (violonista). O pandeiro e o tantã foram tocados pelo próprio Martinho.

O resultado foi excelente. O balde de água fria é entornado neste momento. Em uma decisão arriscadíssima e quase insana, o diretor-artístico da RCA Victor, Romeo Nunes, determina, sem consultar Martinho, a mixagem e prensagem do disco e a distribuição às lojas de cerca de 50 mil cópias. Por ironia do destino, tal fato não poderia ser mais bem-sucedido. Em menos de um mês de lançamento, cinco das quinze faixas já estavam entre as mais tocadas nas rádios, entre elas o carro-chefe do trabalho, o qual se transformaria em um verdadeiro hino dos brasileiros: “O pequeno burguês”, samba irreverente, inspirado em um “causo” de um colega de Exército que se formou em Direito, porém não teve condições financeiras de participar de sua própria formatura.

De um modo geral, o disco é uma prova de como Martinho é, de fato, revolucionário, a começar pelo repertório – entre excelentes sambas-enredo e sambas-canção, basicamente a metade do repertório consistia em sambas de partido-alto. Acontece que, desde os tempos de Noel, o partido-alto era visto com maus olhos pelas gravadoras, as quais o apelidavam preconceituosamente de “estribilho”, “samba-de-chula” ou até “crioulismo” e não o consideravam um sub-gênero de samba a ser levado a sério. Martinho chuta este tabu para escanteio. Outro ponto interessante a ser observado são os arranjos, extremamente rudimentares e ausentes de qualquer influência acadêmica. Não há orquestras, seja sinfônica ou de sopro. Hermínio Bello de Carvalho já havia realizado trabalhos semelhantes com Clementina de Jesus e o Conjunto Rosa de Ouro, porém nada com a mesma repercussão. A sonoridade é simples, “suja”, gerando um clima quase carnavalesco próximo aos dos grandes terreiros. Em outras palavras, é um álbum como todo álbum de samba deveria ser.

Não havia como não agradecer a Romeo Nunes. Martinho, no mesmo ano, abandona seu posto no Exército para se dedicar exclusivamente à música. De lá para cá, foram-se mais de quatro décadas de carreira agradando a gregos e troianos e, sem ele, a situação do samba hoje seria inimaginável. O disco de 1969 vendeu nada mais, nada menos que 300 mil exemplares. As gravadoras voltaram a abrir as portas para o samba em sua essência, isento da influência do jazz ou do choro. A década de 70 foi a década do samba, talvez até mais que a de 30. Duvida? Então, por que será que Cartola, Nelson Cavaquinho, Adoniran Barbosa, João Nogueira, Candeia, Élton Medeiros, Monarco, Mano Décio da Viola, entre tantos outros sambistas sem grande potencial vocal, somente gravaram seus discos de intérprete a partir deste ano? Por que Clara Nunes e Beth Carvalho, até então cantoras românticas, decidiram virar sambistas? Será que haveria, no decorrer desses anos, todos os projetos existentes de preservação das composições das velhas-guardas das escolas de samba? Será que, nos anos seguintes, os discos de sambas-enredo bateriam os mesmo recordes de vendas, ultrapassando até Roberto Carlos?

Martinho também já demonstrou inúmeras vezes ser um compositor preocupado com a preservação da música popular, não só do samba. Por esta mesma razão, fez questão de perpassar pelos mais diversos ritmos brasileiros, gravando marchas, sonatas, salsas, maxixes, ancestrais, xaxados, congos, cirandas, pontos de macumba, batucajés, frevos e até blues. Em 1972, Martinho faz uma excursão a Angola em sua primeira viagem internacional, apresentando-se ao lado do conjunto Os Cunha em uma casa de shows. Era a primeira vez em que tivera contato com a cultura africana, pela qual se apaixonou imediatamente. “Passamos a vida inteira sem informações sobre a África. É muito importante mostrarmos a África como ela é!”, apregoa. Sendo assim, entre 1980 a 1983, liderou o projeto “Kalunga”, dirigido por Fernando Faro, levando uma caravana de artistas brasileiros a Angola, incluindo Dorival Caymmi, Chico Buarque, Gilberto Gil, Edu Lobo, Djavan, Francis Hime, João Nogueira, Clara Nunes, Dona Ivone Lara e Elba Ramalho. Em 1984, tomou o caminho inverso em “O canto livre de Angola”, trazendo artistas angolanos a shows no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.

Com os parceiros João Bosco e Paulinho da Viola

Com os parceiros João Bosco e Paulinho da Viola

Ao longo de sua trajetória artística, Martinho viu parte de sua obra tomar como empréstimo o talento de outros compositores renomados do samba e da música brasileira em geral. Foi parceiro de João Bosco, João Donato, Paulinho da Viola, Paulo César Pinheiro, Wagner Tiso, Moacyr Luz, Hermínio Bello de Carvalho, Candeia, Nei Lopes, Carlinhos Vergueiro, João Nogueira, Ivan Lins, Élton Medeiros, Leci Brandão, Nelson Sargento, Walter Alfaiate e Luiz Carlos da Vila.

Teve o privilégio de trabalhar com alguns dos maiores violonistas do Brasil, a começar por Rosinha de Valença, o “Baden Powell de saias”, a qual Martinho conheceu durante o V Festival Internacional da Canção (Rede Globo de 1970, em que ela defendeu a seu lado “Meu laia-raiá”) e o acompanhou ao longo de sua carreira. Também contou com o dedilhar de Darcy da Mangueira, Manoel da Conceição, Raphael Rabello, João de Aquino, Ruy Quaresma e Cláudio Jorge. Aliás, o próprio Martinho não entende nada de instrumentos de cordas, porém toca tamborim, surdo, pandeiro, reco-reco, agogô, cuíca e caixa de fósforos. Compõe todas as músicas “de ouvido”, dom herdado do pai versador.

Acima de todas suas características, deixa claro que nenhuma pode ser mais referenciada que a fato de ser Vila Isabel. A Vila Isabel levou sambas-enredo seus à avenida em dez carnavais: 1967, 1968, 1969, 1970, 1972, 1980, 1984, 1987, 1993 e 2010. Sim, o samba deste ano, cujo tema era o centenário de Noel Rosa, era de Martinho, apesar de identificável na correria repugnante das gravações de sambas-enredo. Não só isso: a atual quadra da Vila é um presente do próprio Martinho e foi ele o responsável, por vários anos, pelo desenvolvimento dos enredos, inclusive no antológico carnaval de 1988, “Kizomba, a festa da raça”, comemorando o centenário da Abolição da Escravatura extasiadamente. Mesmo atolada em dívidas, a escola proporcionou um espetáculo inesquecível, tamanha garra de seus componentes e conseguiu ser, pela primeira vez, campeã.

Paulinho da Viola, recentemente em entrevista, definiu Martinho da Vila como um “sambista moderno”. Errou redondamente, coitado. Sambista moderno é ele, pós-bossanovista. Martinho da Vila se apossou do estilo mais antigo existente do samba. Trata-se de um sambista do início do século XX desgarrado nas décadas de 60 em diante. É um compositor que segue à risca a linhagem folclórica da “Velha África”, reduto do Rio de Janeiro para o qual as Tias Ciatas trouxeram da Bahia os rudimentos do que seria samba carioca, ainda fortemente mesclado com o lundu e o maxixe. Martinho bebe diretamente da fonte. Suas influências provem dos pioneiros primitivistas como Donga, João da Baiana, Ismael Silva, Bucy Moreira, Príncipe Pretinho, Gastão Viana, Kid Pepe, Heitor dos Prazeres, entre outros. Martinho bravamente mantém acesa a chama da cultura afro-brasileira, oriunda de quatro séculos de escravidão e preconceito.

Como disse, o samba-enredo da Vila deste ano, “Noël, a presença do poeta da Vila” é de Martinho. A versão do samba, em uma cadência suave, gravada em estúdio na voz do próprio autor é uma exclusividade do Artilharia Cultural. Clique aqui para baixar.

Tauil me pediu para enumerar os melhores álbuns de Martinho. Como este tratado já está grande demais, resolvi dividir esta postagem em duas. Confira a lista que selecionei clicando aqui.

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Sobre o Artilheiro Colaborador

Gabriel Deslandes, morador da Região Serrana do Rio e estudante da 3ª série do Ensino Médio, é um admirador dos gêneros musicais brasileiros, em especial o samba e o choro. Violonista e cavaquinista, começou a se interessar pela cultura popular graças às letras dos grandes sambas-enredo e, hoje, escreve ocasionalmente artigos para o site Sambario. Tem interesses centralizados na preservação da música popular brasileira e, principalmente, pelo resgate da verdadeira poesia dos subúrbios, oriunda dos ditos excluídos. Apesar de todas as inversões de valores, acredita seriamente que, em um país tão carente de leitores, as escolas de samba possuem um papel histórico irrepreensível de divulgação da literatura nas camadas mais baixas da sociedade.

Os 15 melhores álbuns de Martinho da Vila

Artilheiro Colaborador: Gabriel Deslandes

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Me  pediram para enumerar os melhores álbuns de Martinho. Segue a listagem, salientando ainda aquilo que há de mais marcante em cada. Também cito as minhas respectivas faixas favoritas, para as quais sou obrigado a bater continência ao Sargento Ferreira. Desfrutem ainda das belíssimas capas desenhadas com esmero pelo mestre Elifas Andreato:

Martinho da Vila (1969): O primeiro disco, como já foi dito, se baseia no resgate do partido-alto dos terreiros para as rádios. “O pequeno burguês”, “Pra que dinheiro”, “Casa de bamba”, “Quem é do mar não enjoa” e “Yayá do cais dourado” são os clássicos dos clássicos. Em “Brasil mulato”, Martinho projeta uma visão futurista do Brasil, cujo povo se miscigenou tanto a ponto de tornar-se inteiramente mulato. Há ainda os sambas-canções “Grande amor” e “Amor, pra que nasceu?”, este último um poema imortalizado na voz de Carmen Costa.

Bato continência: “Tom maior”, uma ode de sutileza ímpar a todas as futuras mães que sonham em um país melhor para seus filhos.

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Meu laia-raiá (1970): O disco de 1970 toma o rumo inverso em relação ao anterior. Rildo Hora ousa ao misturar o requinte de uma orquestra de cordas aos batuqueiros de seu conjunto. Além disso, a maioria do repertório consiste em sambas mais românticos, como a faixa-título, 7ª colocada no V FIC do mesmo ano. Martinho se demonstra um cronista do cotidiano suburbano em “Volta pro morro”, “Samba da cabrocha bamba” e na eufórica “Madrugada, carnaval e chuva”. É filosófico em “Ninguém conhece ninguém”, folclórico em “Folia de reis” e autobiográfico no calango “Linha do ão”. Ainda há a simplicidade instigante de “Vamos viver” e da onomatopéica ”Plim plim” (recentemente regravada por Ovídio Brito). A única bola fora é o tal “Samba do paquera”, música completamente nonsense.

Bato continência: “Melancolia”, metaforizando de forma dramática as desilusões amorosas com uma tempestade. Coisa fina.

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Memórias de um sargento de milícias (1971): Primeiro álbum em que Martinho canta sambas de outros compositores, o que inclui a faixa-título, único samba-enredo de Paulinho da Viola para sua Portela (de 1966). Outro fato interessante é a versão de “O nosso olhar”, de Sérgio Ricardo, sendo a primeira vez em que um sambista de morro grava algo do repertório bossanovista. Também passeia pelas obras de sambistas como Candeia, Ataulfo Alves, Cabana, Darcy da Mangueira, Geraldo Babão e Xangô da Mangueira. Entre suas músicas, estão as moralizantes “Quem pode, pode” e “Segure tudo”, a elegante capoeira “Camafeu” e “Menina moça”, samba que o lançou no III Festival da Record.

Bato continência: pot-pourri de partido-alto. É impossível não se deixar levar.

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Batuque na cozinha (1972): Álbum que tem como sustentáculo a recriação de “Batuque na cozinha”, clássico antiguíssimo de João da Baiana. Martinho referencia a ala de compositores de sua escola em “Quem lhe disse”, samba de Antônio Grande. Demonstra ainda bom humor em seu frevo “Na outra encarnação”, em que apregoa querer voltar mulher em sua próxima vida simplesmente para não trabalhar. O disco ainda conta com as dolentes “Marejou”, “Saudade e samba” e “Jubiabá”, primeira música intitulada com o nome de um pai-de-santo. O partido-alto mostra sua cara em “Balança povo” e em uma seleção de sambas-de-roda.

Bato continência: “Onde o Brasil aprendeu a liberdade”, samba-enredo da Vila, de 1972, quase censurado pelo regime militar. Em minha opinião, trata-se da música mais bonita já composta por Martinho. A riqueza poética, melódica e harmônica é um absurdo.

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Origens (1973): Disco conhecido pela versão de “Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, primeiro samba gravado, pelos idos de 1917. Em um pot-pourri, Martinho também presta um tributo a Monsueto Menezes, gênio do samba. Na mesma linha classuda, porém cômica, de Monsueto, está “O caveira”, de Martinho, comparando ironicamente seus credores a assombrações. Ainda merecem destaque “Beto Navalha”, de João Nogueira, retratando uma briga de malandros; “A hora e a vez do samba”, de Gemeu; e o sucesso “Tudo, menos amor”, de Monarco e Walter Rosa.

Bato continência: “Fim de reinado”, regravado por Roberto Silva e Beth Carvalho. Martinho descreve, de forma singela, a aurora das manhãs.

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Canta, canta minha gente (1974): Primeira vez, depois de anos, que Roberto Carlos é ultrapassado no número de cópias vendidas. A causa foi este elepê, do qual saíram as famosíssimas faixa-título e “Disritmia”, talvez a declaração de amor mais popular da história da MPB. É romântico no animado “Dente por dente” e no samba-canção “Viajando”. Regrava a espetacular “Malandrinha”, de Freire Júnior, levanta a moral de sua escola, quase rebaixada em 1974, em “Renascer das cinzas”, glorifica seu time de coração em “Calango vascaíno” e louva Nanã, Ogum, Exus e caboclos em “Festa de umbanda, pot-pourri de pontos de macumba.

Bato continência: “Patrão, prenda seu gado”, versão da obra-prima de Pixinguinha, Donga e João da Baiana

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Maravilha de cenário (1975): O disco, marcando o primeiro trabalho do Martinho com o arranjador e clarinetista Paulo Moura, é aberto por “Aquarela brasileira”, de Silas de Oliveira, pérola do nosso cancioneiro. Em seu “Cresci no morro”, Martinho baixa a elegância de Noel Rosa, retrato fiel da malandragem da década de 70. Torna-se parceiro de Paulinho da Viola em “Maré mansa”, relembra seu samba-enredo de 1970 em “Glórias gaúchas” e causa polêmica em “Você não passa de uma mulher”, brincadeira que deixou as feministas possessas. Registra, de forma imprescindível, o batuque “Lá na roça” (Candeia), o frevo “Hino dos Batutas de São José” (João Santiago) e o “Andando de banda” (Rildo Hora e Sérgio Cabral).

Bato continência: “Se algum dia”, extraordinário samba-canção em que Martinho prova também ser um harmonizador impressionante.

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Rosa do povo (1976): Inspirado na obra homônima de Carlos Drummond de Andrade, este disco é o ápice da carreira de Martinho. É impecável tanto nos arranjos de Paulo Moura e Rosinha de Valença, quanto no sofisticado repertório. João Nogueira participa na faixa “João e José”, crônica-parceria sui generis, no qual ambos idealizam a volta de São João Baptista a Terra. Em “Claustrofobia”, Martinho roga à sua própria inspiração para desaprisione suas músicas ainda não-compostas. Referencia os sambas-falados de Vinícius de Moraes na rebuscada “Não tenha medo, amigo” e a Vila Isabel dos anos 30 em “Ai, que saudades que tenho”, rememora grandes sambas-enredo (“História da liberdade no Brasil”, do Salgueiro de 1967, e “A invenção de Orfeu”, da Vila de 1976) e grava seu primeiro samba – ”Piquenique” – e “Choro chorão”, único choro que já compôs.

Bato continência: Escolher uma só é difícil, porém merece atenção “Chorar não cabe agora”, parceria com Leci Brandão.

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Tendinha (1978): A ausência deste aqui é inviável na coleção de qualquer bom partideiro. O álbum inteiro, sob a regência caprichada de Rildo Hora, encarna o clima suburbano de um verdadeiro terreiro e todo o repertório consiste em sambas de partido-alto. Martinho homenageia compositores consagrados do gênero, porém pouco conhecidos, como Cabana, Sidney da Conceição, Gracia do Salgueiro, Paulo Brazão, Noca da Portela, Marinho da Muda e Nilton Santa Branca. São de sua autoria as nostálgicas “Minha comadre”, “Trepa no coqueiro”, “Que pena, que pena” e “Nem a lua”.

Bato continência: “Amor não é brinquedo”, parceria de Martinho com Candeia, repleta de paranomásias.

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Terreiro, sala e salão (1979): O repertorio é definido pelo próprio título do disco, pois perpassa pelo partido-alto (terreiro), sambas-canção (sala) e uma seleção de marchinhas de carnaval históricas (salão). “Deixa fumaça entrar”, divertido partido clamando pelos poderes místicos do defumador, abre o elepê. Martinho brinca com o verbo “desquitar” em “Diz que tamos”, lista uma série de queixas a Deus em “Assim não, Zambi” e celebra um preito a Candeia, então recém-falecido, na emocionante “Eterna paz”, composto com a viúva do próprio. Ainda enamora uma rara e privilegiada parceria com Paulo César Pinheiro em “Saideira” e “Ou tudo, ou nada”.

Bato continência: “Pensar”, samba-canção de letra lhana e estruturado em mudanças de compasso inesperadas.

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Verso e reverso (1982): Trabalho voltado, em especial, para questões sociais e ambientais sem acerbo, apatia ou fingimento. Nesta linha, estão “Efeitos da evolução” (Aluízio Machado), crítica sagaz ao uso das ciências para a guerra, e “Reversos da vida” (do próprio Martinho) ornada com imagens da miséria africana. Também revela sua primeira parceira com Hermínio Bello de Carvalho em “Lua de fustão”, pintando o ambiente de uma seresta ao luar. Letra “Silk Stop”, de João Donato, transformando-se em “Gaiolas abertas”. Regrava “Cravo branco” (Paulo Vanzolini) e “Mãe solteira” (Wilson Batista), demonstra sua verve voluptuosa em “Festa para os olhos” e homenageia os jangadeiros na belíssima “Cirandar”.

Bato continência: “Pensando bem”, intrépida parceira com o João de Aquino, clímax do álbum e concorrente no Festival MPB Shell 82 (Rede Globo). O samba exala exatamente a sensibilidade requisitada pelo tema.

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Martinho da Vila Isabel (1984): Martinho dedica um elepê completo a sua escola de samba. Seguindo uma estirpe velha-guardista, o bairro é aludido em clássicos de Noel Rosa (“Minha viola”), Ataulfo Alves (“Fala mulato”) e Dunga (“Vila Isabel”). As exaltações à agremiação estão em “Santo Antônio Padroeiro” (Rodolpho de Souza), no qual a escola é personificada em um depoimento apaixonado, e “Flor dos tempos” (Nei Lopes), um tour pelo Boulevard. O bom humor reina em “Na aba” (Paulinho Corrêa), protesto contra patifes aproveitadores, e “Rivalidade” (Jorge King), um triângulo amoroso de um sambista, sua mulher e a escola. Entre obras de Martinho, estão alguns de seus sambas de quadra e dois sambas-enredo – “Sonho de um sonho” (1980) e “Pra tudo se acabar na quarta-feira” (1984), inspirados, respectivamente, no poema homônimo de Drummond e nos versos de “A felicidade”, de Tom e Vinícius.

Bato continência: “Sempre a sonhar”, parceria com Ruy Quaresma, em que Martinho idealiza as comemorações que faria quando a Vila fosse campeã do carnaval. Tal acontecimento somente viria em 1988.

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Criações e recriações (1985): Elepê de ar urbanizado, estruturado sobre “Recriando a criação”, com Zé Katimba, narrando, em alta poesia, o primeiro ato sexual de um casal adolescente. Aliás, o disco é uma coletânea de parcerias de Martinho com grandes nomes da MPB, a começar por João Donato, com o qual assina a “Muita luz”. Hermínio Bello de Carvalho flerta “Retrós e linhas”, um paralelo ousado entre o corte e costura e a falsidade feminina. Com Rosinha de Valença, compôs “Semba dos ancestrais”, ritmo de origem africana “diagnosticando” o êxtase absoluto de um estrangeiro ao chegar a de Angola. Martinho ainda regrava “Carnaval de ilusões”, seu primeiro samba-enredo para a Vila (1967), e “Traço de união”, sua com João Bosco em parceria concretizada a pedido de Beth Carvalho e que resultou em uma amizade perduradoura até hoje.

Bato continência: “Odilê odilá”, segunda parceria com João Bosco e o auge da trajetória de Martinho como letrista. Composta por ambos durante uma noite de porre em São Paulo, a obra é um verdadeiro sincretismo afro-brasileiro.

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Voz e coração (2002): Único álbum totalmente de intérprete de Martinho e seu último na Sony, findando de modo tardio o pior período de sua carreira. O repertório relembra pérolas de Ismael Silva (“Antonico”), Dolores Duran (“Por causa de você”), “Volta” (“Lupicínio Rodrigues”), João da Baiana (“Cabide de molambo”), Adoniran Barbosa (“Apaga o fogo, Mané”), João Nogueira (“Minha missão” e “O poder da criação”) e Silas de Oliveira (“Heróis da liberdade”), entre outros. Nos arranjos, há o requinte de Cristóvão Bastos, Naná Vasconcelos, Leandro Braga, Paulo Moura e Maurício Carrilho.

Bato continência: “Sonata sem luar”, de Vinícius de Carvalho e Fred Chateaubriand, recriação do sucesso de Maysa, com direito a piano e violoncelo.

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Conexões (2003): O ingresso de Martinho a MZA Music se resume na tentativa de mostrar que, contrariando Noel, “o samba tem tradução no idioma francês”. Voltado para o mercado europeu e com apoio do professor Tex Tekadiomona, trajou trechos de seus sambas mais populares para a língua de Jeanne Moreau. No caminho oposto, verteu “La bohème”, de Charles Aznavour, para o português. Todavia, tudo isso, do ponto de vista artístico, não passa de uma bobagem. O CD merece atenção pelas músicas inéditas, as quais surpreendem pela qualidade muito superior ao dos anos anteriores. “Minha amiga” narra com garbo o cruel sentimento de um indivíduo se apaixonar por sua melhor amiga. Em “Vila Isabel”, parceria com Moacyr Luz, descreve sua escola pelos olhos do portelense Monarco. Martinho ainda relata um sonho de carnaval no frevo “Brinquei demais” e conta com a participação de camaronesa Sally Nyolo no zouk “Ó nega”.

Bato continência: “Nem réu, nem juiz”, comparação perspicaz de um amor platônico com o encarceramento e a servidão.

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Disponibilizo para download o volume 39, referente a Martinho da Vila, da coleção “Nova História da MPB”, lançada entre 1977 e 1979. O álbum traz oito composições de Martinho em sua voz e na de outros grandes intérpretes (para baixar, basta clicar na foto da capa):

1 – Menina moça (Martinho da Vila)
2 – O pequeno burguês (Isaura Garcia)
3 – Tom maior (Roberto Silva)
4 – Quatro séculos de modas e costumes (Martinho da Vila)
5 – Yayá do cais dourado (MPB-4)
6 – Folia de reis (Martinho da Vila)
7 – Linha do ão (Martinho da Vila)
8 – Amor, pra que nasceu? (Carmen Costa)

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Sobre o Artilheiro Colaborador

Gabriel Deslandes, morador da Região Serrana do Rio e estudante da 3ª série do Ensino Médio, é um admirador dos gêneros musicais brasileiros, em especial o samba e o choro. Violonista e cavaquinista, começou a se interessar pela cultura popular graças às letras dos grandes sambas-enredo e, hoje, escreve ocasionalmente artigos para o site Sambario. Tem interesses centralizados na preservação da música popular brasileira e, principalmente, pelo resgate da verdadeira poesia dos subúrbios, oriunda dos ditos excluídos. Apesar de todas as inversões de valores, acredita seriamente que, em um país tão carente de leitores, as escolas de samba possuem um papel histórico irrepreensível de divulgação da literatura nas camadas mais baixas da sociedade.

Quem não seguiu o mendigo Joãosinho Beija-Flor?

Artilheiro Colaborador: Gabriel Deslandes

Este enredo é um protesto. Protesto a esta grande maldade que estão fazendo com a nossa terra, com a nossa gente, com o nosso Brasil. Maldade desequilibrarem totalmente um país que tem, em sua geografia, a forma de um grande coração. Invertido, desequilibrado, de cabeça para baixo, mostrará os contornos de uma enorme bunda e uma bunda do tamanho do Brasil tem muita sujeira em seus intestinos para ser expelida. Somente as águas das Bacias do Amazonas e do Prata poderão lavar tantos excrementos. Ou, então, a grande energia do nosso povo quando ele tiver consciência de sua força e de seu valor. Por enquanto, somos ainda o gigante que acabou de acordar e está levando tanta porrada, está sendo tão sacaneado que, de repente, fica inerte. É preciso que comecemos a reagir e é a obrigação de todos nós participarmos deste trabalho. Cada um deve agir à sua maneira. No nosso caso, sabemos fazer carnaval: é o nosso ofício. E que seja através dele que a gente proteste. Então lançamos o grito: ratos e urubus, larguem a minha fantasia!

Como todo bom buarqueano de senso crítico apurado, decidi aproveitar esta rara oportunidade para abordar um “causo” famosíssimo entre os sambistas de plantão, porém quase desconhecido pela nata da intelectualidade juvenil, e que revirou o estômago de muito brasileiro no carnaval de 1989. Aposto um doce que alguns dos senhores com certeza já ouviram, ainda que vagamente em algum lugar qualquer, o seguinte nome: Joãosinho Trinta (é com S mesmo, assim como BraSil, e não com Z).

Em resumo, trata-se de um maranhense baixinho, magrelo e de língua presa, nascido em família humilde, que veio para o Rio de Janeiro trabalhar como escriturário, decidiu estudar balé, tornou-se cenógrafo do Teatro Municipal e acabou sendo convidado, em 1964, por Arlindo Rodrigues, figurinista do Salgueiro, para ajudá-lo a confeccionar algumas alegorias do carnaval seguinte. Resultado: a demissão, em 1972, de Arlindo em substituição ao próprio Joãosinho. Defini-lo assim é ser simplista, mas não é assim que a historia termina.

Aliás, o sujeito era um pé-quente: logo de cara, levantou um bicampeonato pela escola. Até que, em 1976, por forças ocultas, João é “levado” pelo Sr.º Anísio Abraão David, o poderoso chefão do jogo do bicho da Baixada, a ser carnavalesco da então modesta Beija-Flor de Nilópolis. E que fim deu? Com os bolsos cheios, a Beija-Flor fez o desfile mais luxuoso e requintado da historia do carnaval e foi campeã, dando uma reviravolta em toda a estrutura dos desfiles das escolas de samba e tornando o samba no pé um mero apêndice em um espetáculo visual de plumas, paetês e lantejoulas. Quando questionado a respeito desse trabalho, soltou sua mais famosa frase: Pobre gosta de luxo! Quem gosta de miséria é intelectual… Os puritanos ficaram furiosos. Enfim, este show de monotonia o qual hoje é televisionado durante as madrugadas de cada carnaval é a diluição da diluição da diluição daquilo que o João criou em 1976 na Beija-Flor.

Sendo assim, durante toda a sua trajetória como carnavalesco, Joãosinho foi atacado intensamente pelo fato de trazer a estética acadêmica aos desfiles de escolas de samba, manifestação popular até então “pura” e “unicamente folclórica”. Começou a chover críticas impiedosas a seu trabalho e João passou a servir de bode expiatório para toda e qualquer modificação ocorrida no carnaval carioca, acusado de desfigurar por completo as verdadeiras raízes do samba. Por mais que João fosse, de fato, um artista requintado, o exagero dos mais tradicionalistas era absurdo. Há quem o incriminasse até de utilizar ouro, prata e diamantes na confecção de suas fantasias, o que, diga-se de passagem, não faz sentido algum.

De qualquer maneira, eis que chegamos onde deveríamos chegar. Depois de engolir tantos sapos, para o desfile de 1989, o enredo da Beija-Flor seria uma grande resposta a todas essas heresias. O tema se chamara Ratos e urubus, larguem a minha fantasia, o qual seria, em síntese, uma crítica escrachada não só à luxúria do povo brasileiro, como também uma denúncia radical à sujeira e à miséria físicas e, principalmente, morais presentes em todas as camadas da sociedade. Seria uma imensa exposição carnavalizada daquilo que representa o lixo do luxo e o luxo do lixo. Sob o peso de tamanha ousadia, não haveria meio-termo: ou a Beija-Flor sagrar-se-ia autora de um momento extraordinário, ou fracassaria completamente.

Poucas semanas antes do carnaval, a Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, então administrada pelo arcebispo Dom Eugênio Sales, toma ciência que Joãosinho traria, para a Marquês de Sapucaí, o abre-alas da escola com uma escultura do Cristo Redentor caracterizado como um mendigo. De forma imediata, a arquidiocese brigou na Justiça pela proibição completa da imagem. A Igreja Católica venceu e Joãosinho foi obrigado a esconder a alegoria. O nervosismo se alastrou pela agremiação.

É interessante levarmos em consideração que em menos de um ano ocorreu o decreto e a promulgação da chamada “Constituição Cidadã” pela Assembleia Constituinte, erradicando de vez a censura da ditadura militar no Brasil. A Justiça, lamentavelmente, se deixou levar por uma súplica inquisicional e acobertou uma decisão mirabolante de um órgão religioso que pensa que um boneco de cinco metros de altura é uma representação fiel a seu Messias e que possua, de fato, os mesmos poderes psíquicos que Ele. É inacreditável que, mesmo passados mais de mil anos, esse tipo de ideologia ainda seja influente.

Voltando ao assunto, momentos antes do desfile, o carnavalesco não quis deixar barato e procurou algum método para colocar o Cristo Mendigo na avenida de qualquer maneira. Como em um estalo, a diretoria sugeriu cobrir a imagem com uma rústica lona preta e pôr em seus braços uma faixa branca com uma frase tão forte como a escultura: Mesmo proibido, olhai por nós!

O início do desfile foi, sem dúvida, a imagem mais impactante da história do carnaval carioca. Todos aqueles que tanto criticaram João por não saber trabalhar com um orçamento reduzido calaram-se. Tratava-se de uma imensa ala de mendigos, todos vestidos com farrapos retirados do próprio lixo, ladeando o abre-alas envolto em sucatas com o Cristo proibido. Acredito que ninguém jamais imaginaria assistir à suntuosa Beija-Flor de Nilópolis trajada com estopa e trapos velhos. Tamanho choque provocado pelo conjunto da escola foi suficiente para fazer todas as arquibancadas virem abaixo.

A segunda alegoria, denominada Convite, trazia as seguintes inscrições: Mendigo, desocupados, pivetes, meretrizes, profetas, esfomeados e povo da rua. Tirem dos lixos deste imenso país os restos dos luxos… Façam suas fantasias e venham participar deste grandioso Bal Masqué! A partir deste momento, os excluídos carnavalizados seguiram a proposta da escola e saíram para revirar os entulhos em busca das “coisas que brilham”. Um detalhe a ser salientado é que cerca de 500 espectadores que se amontoavam no Viaduto São Sebastião, ao lado da Marquês e Sapucaí, arrobaram os portões dos setores 7 e 9 do Sambódromo e foram preenchendo os espaços vagos nas arquibancadas. Outra observação interessante é o fato de que toda a diretoria da Beija-Flor, inclusive o carnavalesco, desfilou com um uniforme alaranjado propositalmente semelhante à roupa dos garis da COMLURB, a companhia de limpeza do Rio

Após uma abertura histórica, o segundo setor do desfile passou a retratar o luxo acerbado da aristocracia medieval através de fantasias multicoloridas. Despontaram críticas rígidas à luxúria da Igreja Católica, a mesma instituição que interveio no trabalho do João e que há séculos está afundada em um mar de hipocrisia, na qual os altos membros do clero vivem adornados no vil metal e têm suas catedrais cravejadas das pedras preciosas obtidas com os dízimos de seus fiéis. Não foram esquecidos os quatro cavaleiros do Apocalipse, cercados por arames farpados e tanques de guerra cenográficos, em representação ao lixo da guerra. O setor dedicado ao lixo do sexo trouxe uma aglomeração de loucos e prostitutas deleitados sobre uma sauna romana em um tempo em que a promiscuidade já se tornara algo usual e inquestionável. Com figurinos preto-e-brancos feitos de papéis de jornais, a escola também surpreendeu na crítica à imprensa marrom, acusada de sensacionalismo e de idolatrar acontecimentos negativos. Como não poderia faltar, eis que surge o setor do lixo da política, inteiramente vestido de verde e amarelo, com direito a um teatro de revista no Planalto Central e uma réplica perfeita do Senado Federal, seguido de referências ao lixo dos brinquedos, em uma menção ao excesso de violência nos brinquedos atuais, e ao lixo da feira, onde desfilaram belissimamente as baianas da escola, protestando contra o número absurdo de alimentos que são desperdiçados em um país onde ainda há pessoas vítimas da fome. O desfile foi encerrado pelo irreverente carro O banquete dos mendigos, composto pelos restos de comida do Bal Basqué e repleto de Exus e pombas-gira. Com uma bateria de atuação espetacular e um samba-enredo envolvente, foi o fim de um desfile mágico, um momento apoteótico do carnaval. Uma apresentação emocionante, única, vista por muitos como a melhor da história.

A Beija-Flor foi notícia em todos os cantos do Brasil e Joãosinho Trinta fez merecer a todos o título de “Mago do povo”. Todas as escolas reconheciam que a probabilidade do campeonato de 1989 ir para Nilópolis era imensa. A agremiação recebeu o Estandarte de Ouro de melhor escola e de melhor enredo. Joãosinho Trinta recebeu o de personalidade do ano. Era um título quase garantido, um carnaval que todos saberiam que entraria para a história, porém quiseram os jurados que não fosse assim. No final da apuração, a Beija-Flor e a Imperatriz Leopoldinense acabaram empatadas em primeiro lugar e, pelo critério de desempate, as três notas 9, atribuídas à escola de Nilópolis, voltaram a vigorar no somatório final. Foi um vice-campeonato extremamente doloroso, que fez todo Brasil chorar junto a Joãosinho Trinta.

Até hoje, os nilopolitanos ainda se revoltam ao relembrar o carnaval de 1989. No desfile das campeãs, o carnavalesco trouxe um contingente de mendigos maior que no desfile oficial. João ainda trouxe três “Judas”, representando os jurados de conjunto, samba-enredo e evolução que tiraram pontos fundamentais para a escola. Porém o que mais marcou aquele sábado das campeãs foi o fato de, em meio ao desfile, os componentes, atendendo ao pedido das arquibancadas, terem retirado por conta própria o plástico preto que cobria o Cristo Mendigo.

Uma escola de samba pode perfeitamente investir bilhões de dólares em seu visual de desfile, todavia nem todo dinheiro do mundo é capaz de destoar os 80 minutos de quimera de um brasileiro que passou por dificuldades durante um ano inteiro e aguardava ansiosamente “para fazer a fantasia de rei, de pirata e jardineira”, como já apregoaram Vinícius de Moraes e Tom Jobim. Trata-se de valores completamente metafísicos, imateriais, os quais nunca poderiam ser destoados por ninguém e era justamente nisto em que trabalho de João Trinta se embasara. O próprio sempre se declarou a respeito:

As jóias de uma escola de samba são falsas, porém muito mais verdadeiras, porque têm implicações mágicas. Quando uma empregada doméstica se veste de Cinderela, de nobre, ela faz parte da nobreza medieval, está com as jóias mais autênticas, porque são as da imaginação, do prazer que ela está sentindo. Se me deixassem, eu estava fazendo os maiores enredos, as coisas mais sérias estariam sendo colocadas na avenida, porque é o nosso espírito, é onde a nossa cultura flui através dessa brincadeira. Só reclamam dos carros alegóricos as pessoas que vivem neles, em edifícios de apartamentos. O povo que vive em casebre, em rua de lama, no aperto, quer coisas grandes, procura essa outra dimensão que ele só encontra na festa.

Não é à toa que Chico Buarque, em uma gravação de uma música de Carlos Fernando, disse: De braços abertos, na noite, o Cristo Redentor abraça a cidade dizendo: Sou eu o seu amor. Da mesma forma, Caetano Veloso também deixou bem claro: Quem não seguiu o mendigo Joãosinho Beija-Flor? E todos nós o seguiremos para onde ele apontar. Simplesmente porque ele é rei do delírio e da fantasia e se tornou o grande responsável pelo luxo e pelo lixo de todas as gerações. Joãosinho Trinta é o Brasil em sua essência!

Já que a sabedoria popular diz que imagens falam mais que mil palavras, postei ineditamente todo o desfile oficial da Beija-Flor de 1989 no Youtube, comentado por Paulinho da Viola e Lena Frias, entre outros:

Parte 1:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=phRRdvYpAH0]

O desfile foi dividido em oito partes. As outras sete podem ser facilmente encontradas nos videos relacionados da primeira. Confira, também:

Joãosinho em entrevista minutos antes do desfile oficial e o Cristo Mendigo sendo descoberto em meio ao Desfile das Campeãs:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ykt0KMvgbDU]

Sobre o Artilheiro Colaborador

Gabriel Deslandes, morador da Região Serrana do Rio e estudante da 3ª série do Ensino Médio, é um admirador dos gêneros musicais brasileiros, em especial o samba e o choro. Violonista e cavaquinista, começou a se interessar pela cultura popular graças às letras dos grandes sambas-enredo e, hoje, escreve ocasionalmente artigos para o site Sambario. Tem interesses centralizados na preservação da música popular brasileira e, principalmente, pelo resgate da verdadeira poesia dos subúrbios, oriunda dos ditos excluídos. Apesar de todas as inversões de valores, acredita seriamente que, em um país tão carente de leitores, as escolas de samba possuem um papel histórico irrepreensível de divulgação da literatura nas camadas mais baixas da sociedade.