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Por trás da música – Sabiá

O ano era o emblemático 1968. O Brasil vivia a parte mais darkside e underground de sua ditadura militar. A música popular, a chamada MPB, estava em alta, e os seus festivais eram a grande atração geral. Seus festivais eram disputadíssimos, e justamente num deles é que se passa a história dessa música – a minha preferida entre todas desse mundo, diga-se de passagem.

Sabiá

Compositores: Chico Buarque e Tom Jobim

Intérprete: Chico Buarque

Ano: 1968

Disco: Coletânea Não vai passar vol. 4

Sabiá, na verdade, já existia fazia um tempo. Tom Jobim a tinha composto no piano, instrumental mesmo, e num primeiro momento foi batizada de “Gávea”. Depois, foi conhecer Chico Buarque quando seu amigo Aloísio de Oliveira os apresentou, num encontro do apartamento do maestro. Chico, ainda tímido, mostrou o seu “Pedro pedreiro”, e Tom gostou. Os dois se aproximaram e assim começou a parceria. Primeiro com “Retrato em branco e preto”, depois com “Pois é”, e, finalmente, “Sabiá”. Inscreveram a canção no III Festival Internacional da Canção, promovido pela ainda novata Rede Globo. Chico, descrente de uma possível aprovação, até porque a música realmente não tem clima de festival, foi viajar para o exterior.

Foram defender a música as meninas Cynara e Cybele, ambas do Quarteto em Cy. Como o festival era internacional, primeiro havia uma etapa de classificação entre as músicas brasileiras, e daí, as selecionadas iriam concorrer em outra noite com as músicas dos outros países. Essa primeira eliminatória, no Maracanãzinho, Tom enfrentou sozinho, pois Chico ainda estava em Veneza. A rival de “Sabiá” era “Pra não dizer que não falei das flores”, ou simplesmente “Caminhando” (mais fácil, né), de Geraldo Vandré. Sua letra era totalmente panfletária, de rimas fáceis pela pretensão de se tornar um hino de resistência aos militares. E realmente se tornou – era a preferida pelo público, que a entoava a plenos pulmões desafiando os milicos.

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiá

Debaixo de uma sonoríssima onda de vaias, foi anunciado que “Sabiá” havia vencido a etapa nacional, e, portanto, seria a representante brasileira na outra fase do festival. Há quem diga que os militares não permitiram que a música de Vandré vencesse, prevendo uma possível euforia entre a oposição. Não se sabe se é verdade, mas de um jeito ou do outro, Tom Jobim, enquanto dirigia de volta para sua casa, chegou a encostar o carro para chorar. A vaia tinha sido mais forte que a que soterrou Caetano Veloso com a sua “É proibido proibir”, algumas semanas antes. Depois, Tom enviou a Chico um telegrama, que foi interpretado como uma brincadeira – típica do parceiro.

(clique para ampliar)

Chico regressou a tempo de pegar a finalíssima do FIC, e os dois autores foram representar sua música, dando uma força para Cynara e Cybele. Esta última etapa, “Sabiá” também venceu – mas não mais abafada por tantas vaias, mas ainda assim por diversas críticas. Alegavam que era uma composição fora do contexto social da época, até alienada. Poucas pessoas viram beleza e, inclusive, crítica ao exílio na música. Ao longo do tempo, ela foi interpretada por diversos artistas, como Elis Regina, Clara Nunes, MPB-4 e até Frank Sinatra, em uma versão em inglês feita por Tom.

Escolhi dois vídeos para ilustrar a postagem. O primeiro foi gravado para um especial da Band, na casa de Tom, com o coro dos parentes e amigos. O segundo é um “antes e depois”, com imagens do festival de 1968 mescladas ao programa “Chico & Caetano”. Gosto mais do primeiro.

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Wilson das Neves está de disco novo

O baterista Wilson das Neves tem uma novidade: aos 74 anos, lança pela MP,B mais um disco, o “Pra gente fazer mais um samba“. É o seu terceiro disco como cantor e compositor. Depois de “O som sagrado de Wilson das Neves” e “Brasão de Orfeu“, este terceiro disco é um selo que confirma que o samba é de fato o seu dom. No repertório, parcerias com Paulo César Pinheiro, Nei Lopes, Arlindo Cruz, entre outros bambas.

Além de seu trabalho solo, ele é integrante da Orquestra Imperial, juntamente com Rodrigo Amarante, Thalma de Freitas e outros jovens músicos. E, é claro, só pra fazer sua cabeça um pouquinho mais, não poderia deixar de falar que ele já tocou com mais de 600 artistas, entre eles, Tom Jobim, Elis Regina, Roberto Carlos, Wilson Simonal, Elza Soares, e, atualmente, Chico Buarque. Pode procurar nos vinis que você tem aí, seu nome estará com certeza em alguns créditos.

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Leia o encarte escrito pelo amigo e parceiro Chico Buarque:

“São vinte e cinco anos de amizade, depois de outros tantos de admiração à distância. Eu conhecia Wilson das Neves dos discos, reconhecia de cara a sua batida, vez por outra o peruava através do vidro dos estúdios de gravação. Hoje não subo ao palco sem ele. Camarim dos músicos, sem o Das Neves, não é camarim. Ele é o pulso da banda, termômetro, técnico do time, rei da anedota e pajé.

Este disco nos traz de volta o grande melodista que é Wilson das Neves. Escutei-o seguidamente com deleite, com um sorriso, com um ciúme danado dos seus parceiros. Aí está ele com sua graça, com a ginga que é só dele, com essa voz que deve ser a voz rouca das ruas, eis aí Wilson das Neves cantando versos prenhes de sabedoria popular.

A bênção, Das Neves. Ô sorte!”

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Pra gente fazer mais um samba

Artista: Wilson das Neves

Ano: 2010

Gravadora: MP,B / Universal Music

Com vocês VIII – Marina Machado

Marina Machado não é nenhuma estreante, e você provavelmente já ouviu falar dela. A mineira começou trabalhando em musicais, até fundar a Companhia Burlantins, onde criava e atuava. Saiu em turnê com Milton Nascimento, participou da gravação de um CD em hebraico e iídiche, e conseguiu lançar seu primeiro CD, lá em 1999, o Baile das Pulgas”, que recebeu o Troféu Pró-Música como melhor do ano. Gravou com Skank, Telo Borges, Tavinho Moura, cantou em um CD do Milton, produziu o demo “Candombe da Serra do Cipó”, com músicas de raízes afro-brasileiras e ganhou o título de melhor cantora de Minas Gerais. É pouco?
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Seu terceiro álbum saiu em 2008, “Tempo Quente”, pela gravadora do próprio Milton Nascimento, com suas interpretações de canções de artistas como Marcos Valle, a dupla Roberto e Erasmo Carlos e Vinícius de Moraes. Com uma bela voz, apoio em nomes tão grandes e tamanha diversidade musical, Marina garante que ainda vai aparecer muito por aí. Nas palavras de Lô Borges, “Marina Machado é uma das maiores cantoras surgidas nos últimos anos na MPB. Mais cedo ou mais tarde o Brasil todo vai saber disso.”
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Os 5 melhores discos de Francis Hime

Francis Ao Vivo (2005): Nesse show, gravado no SESC, Francis faz uma revisão, uma síntese de seu trabalho. Funcionaria mais ou menos como essas coletâneas: um pouquinho de cada época, um pouquinho de cada parceiro. É um ótimo disco para quem quer começar. Com piano, violão, baixo e bateria, Francis e sua banda conduzem um show muito animado, sem participações especiais.

Continência: A dor a mais.

Passaredo (1977): O repertório é formado pelas parcerias mais ilustres de Francis: Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Ruy Guerra, Paulo César Pinheiro e Olivia Hime, sua esposa. Participações vocais do Chico e da Olívia. Fora esses nomes conhecidos, entre os instrumentistas estão Chico Batera, Wilson das Neves, Danilo Caymmi, Nelson Angelo, Novelli e Altamiro Carrilho. Ou seja, junta uma porrada de craques no estúdio, mistura bem e tá feito o disco.

Continência: Luísa.

Brasil Lua Cheia (2003): Esse é um projeto espetacular do Francis. Estão envolvidos Lenine, Moraes Moreira, Olivia Hime, Paulinho da Viola e Adriana Calcanhotto, que nesse disco virou parceira póstuma de Vinicius de Moraes. Sim, como você conseguiu notar, o Francis tem esse negócio de só trabalhar com gente boa.

Continência: No parangolé do samba.

Essas parcerias (1984): Como o nome já diz, o disco é uma homenagem a todos os seus parceiros. Entre os compositores, além, é claro, de Francis, estão Cacaso, Gilberto Gil, Ivan Lins, Milton Nascimento, Abel Silva, Geraldo Carneiro, Fátima Guedes, Olivia Hime, Toquinho e Capinan. O time fica mais ainda diversificado quando Chico Buarque, Milton Nascimento, Gal Costa, Olivia Hime, Gilberto Gil e Elba Ramalho entram para as participações vocais. Talvez seja esse o meu preferido do Francis.

Continência: Parceiros.

Álbum musical (1997): “Álbum musical” é a tradução literal para “songbook”, e é esse o intuito do disco: reunir uma galera para interpretar suas músicas. O próprio Francis não aparece no disco, mas, para substituir sua ausência, ele escalou um time impecável. Lá vai: Milton Nascimento, Caetano Veloso, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Olivia Hime, Djavan, Maria Bethânia, Ivan Lins, Zélia Duncan, Miúcha, Gilberto Gil, Daniela Mercury, Leila Pinheiro, Zé Renato, Gal Costa, Beth Carvalho e João Bosco. Uau. Arranjos dos mestres Cristóvão Bastos e Marco Pereira. Sabe aqueles discos que não basta ter em mp3, você tem que comprar? Então, é esse aí.

Continência: A grande ausente.

Por trás da música – Chega de mágoa

Em 1985, enquanto a Ditadura Militar estava capengando, o Nordeste sofreu um grande problema em relação à chuva. Mas não porque faltou, pelo contrário: a região foi inundada, varrida por grandes enchentes que deixaram milhares de desabrigados. Uma turma musical, ainda muito unido pelo espírito da Diretas Já, juntou seus vocais para gravar um LP com duas músicas. De um lado, “Chega de mágoa”, e de outro, “Seca d’água”. Espelhados no “USA for Africa”, o projeto do We are the world, todo o dinheiro arrecadado com as vendas do compacto seria destinado às vítimas nordestinas.

Chega de mágoa

Compositores: Vários

Intérprete: Vários

Ano: 1985

Disco: Nordeste Já

A música, quem fez, foi Gilberto Gil. A letra teve participação do próprio Gil, do Chico Buarque, Milton Nascimento, Fagner e Erasmo Carlos, mas decidiram que seria divulgado como “criação coletiva”. Ao todo participaram 155 músicos, entre cantores e instrumentistas, em três sessões de gravação na Barra da Tijuca. Os arranjos e a regência ficaram por conta de Dori Caymmi, filho ilustre do mestre Dorival. A Caixa Econômica patrocinou a tiragem inicial de 500 discos.

Sem muitos problemas, pois todos decidiram que os destaques da gravação deveria ficar com os nomes mais populares do momento, foram escalados Tom Jobim, Rita Lee, Milton Nascimento, Gal Costa, Djavan, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Fagner, Elba Ramalho, Gonzaguinha, Caetano Veloso, Simone, Chico Buarque, Fafá de Belém, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Elizeth Cardoso, Paula Toller do Kid Abelha, Roger do Ultraje a Rigor e Tim Maia.

Veja o clipe:

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A introdução, feita por Milton e o piano do maestro soberano Tom Jobim, é, na verdade, palavras de Tancredo Neves, num discurso otimista que anunciava o fim da ditadura. Depois, entram o coro e os artistas já citados aqui. Interessante dizer que a Elizeth Cardoso foi escalada para representar a velha guarda, enquanto a dupla Paula & Roger representava a nova geração musical brazuca. Apesar de ser talvez o maior encontro da música popular brasileira, não deu muito certo. A crítica dizia que as vozes estavam muito desencontradas, o que dificultava no entendimento da letra. E também não pegou muito no povão, tanto é que uma música desse naipe não era para estar esquecida.

“Nós não vamos nos dispersar
Juntos, é tão bom saber
Que passado o tormento
Será nosso esse chão”
Água, dona da vida
Ouve essa prece tão comovida
Chega, brinca na fonte
Desce do monte, vem como amiga
Te quero água de beber
Um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero orvalho toda manhã
Terra, olha essa terra
Raça valente, gente sofrida
Chama, tem que ter feira
Tem que ter festa, vamos pra vida
Te quero terra pra plantar
Te quero verde
Te quero casa pra morar
Te quero rede
Depois da chuva o Sol da manhã
Chega de mágoa
Chega de tanto penar
Canto e o nosso canto
Joga no tempo uma semente
Gente, olha essa gente
Olha essa gente, olha essa gente
Te quero água de beber
Um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero terra pra plantar
Te quero verde, hum
Te quero casa pra morar
Te quero rede
Depois da chuva o Sol da manhã
Canto e o nosso canto
Joga no tempo uma semente
Gente (quero te ver crescer bonita)
Olha essa gente (quero te ver crescer feliz)
Olha essa gente (olha essa terra, olha essa gente)
Olha essa gente (Gente pra ser feliz, feliz)
Te quero água de beber
Um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero terra pra plantar
Te quero verde
Te quero casa pra morar
Te quero rede
Depois da chuva o Sol da manhã
Chega de mágoa
Chega de tanto penar
Chega de mágoa
Chega de tanto penar

Nelson Motta conta em sua biografia do Tim Maia, que este ofereceu bebida e drogas pra turma no estúdio. Elizeth Cardoso ficou incomodada e recusou: “Tirem esse elefante daqui!”.

É interessante, pra quem gosta, assistir ao clipe e ir tentando reconhecer os artistas. No entanto, segue a lista completa de pessoas envolvidas no projeto e me diz se é pouca bosta:

Aizik, Alceu, Alceu Valença, Alcione, Alves, Amelinha, Antônio Carlos, Aquiles (MPB-4), Baby Consuelo, Bebeto, Belchior, Beth Carvalho, Bussler, Caetano Veloso, Camarão, Carlinhos Vergueiro, Carlão, Celso Fonseca, Charlot, Chico Buarque, Cláudio Nucci, Cristina, Cristovam Bastos, Dadi, Daltro de Almeida, Dinorah (as gatas), Dorinha Tapajós, Dori Caymmi, Ednardo, Edu, Edu Lobo, Eduardo Dusek, Elba Ramalho, Elifas Andreato, Elisete Cardoso, Elza Soares, Emilinha Borba, Eunydice, Erasmo Carlos, Fafá de Belém, Faini, Fátima Guedes, Fernando Brant, Gal Costa, George Israel, Geraldo Azevedo, Gereba, Gilberto Gil, Golden Boys, Gonzaguinha, Guilherme Arantes, Ivan Lins, Jamil, Jacques Morelembaum, Joana, João Mário Linhares, João do Vale, José Luiz, Joyce, Kleiton e Kledir, Kid Vinil, Lana, Leoni, Leo Jaime, Lúcio Alves, Luiz Avellar, Luiz Carlos, Luiz Carlos da Vila, Luiz Duarte, Luiz Gonzaga, Luiz Melodia, Lulu Santos, Magro (MPB-4), Malard, Manassés, Maria Bethânia, Marina, Marlene, Martinho da Vila, Marçal, Maurício Tapajós, Mauro Duarte, Mazola, Miguel Denilson, Mirabô, Miltinho (MPB-4), Milton Banana, Milton Nascimento, Milton Araújo, Miúcha, Moraes Moreira, Olívia Byington, Olívia Hime, O Quarteto, Paulinho da Viola, Patativa do Assaré, Paula Toller, Pareschi, Penteado, Perrotta, Perrottão, Pepeu Gomes, Raimundo Fagner, Rafael Rabello, Reinaldo Arias, Ricardo Magno, Rita Lee, Roberto de Carvalho, Roberto Carlos, Roberto Ribeiro, Roberto Teixeira, Rosane Guedes, Roger (Ultraje a Rigor), Rosemary, Rubão, Rui (MPB-4), Sandra de Sá, Sérgio Ricardo, Simone, Sílvio Cézar, Sueli Costa, Stephani, Tânia Alves, Tavito, Teo Lima, Telma, Telma Costa, Terezinha de Jesus, Tim Maia, Tom Jobim, Tunai, Verônica Sabino, Vilma Nascimento, Virgílio, Yura, Wagner Tiso, Walter, Zenilda, Zé da Flauta, Zé Ramalho, Zé Renato, Zizi Possi.

Ufa. Sentiu o time?

Fonte:

Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia (Nelson Motta)

Por trás da música – O Bêbado e a Equilibrista

Mais uma que surgiu durante a ditadura. A repressão nos proporcionou uma riqueza cultural imensurável devido à atmosfera de tensão vivida pelo povo que, sem outra opção, precisava encontrar uma maneira de protestar através da arte. Dentre toda a produção musical do período ditatorial, “O Bêbado e A Equilibrista” é uma das canções mais conhecidas. Tornou-se símbolo da luta pela Anistia e um hino pela liberdade de expressão.

O Bêbado e a Equilibrista

Compositores: João Bosco e Aldir Blanc

Intérprete: Elis Regina

Ano: 1979

Disco: Essa Mulher

Fim da década de 70. A pressão para uma abertura democrática no Brasil vem de todas as formas, mas é duramente reprimida. Havia os exilados, os presos, os torturados e o resto, que não tinha armas com que lutar contra o governo, embora também não pudesse continuar como estava. Isso só acabaria com a Lei da Anistia, sancionada no mesmo ano de criação dessa música, depois da luta por liberdade que não parecia ter fim. O Bêbado e a Equilibrista – a utopia e a esperança – traz, em cada verso, um pequeno pedaço de cada batalha.

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A música

Caía a tarde feito um viaduto

Cair a tarde” é mais do que um anoitecer – é algo forte, brutal, se a referência à escuridão já não for suficiente. Era quando as sessões de tortura do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) começavam. Refere-se à queda de uma parte do Viaduto Paulo Frontin (que, claro, era uma obra do  governo), no Rio de Janeiro, em 1971, que deixou 48 mortos.

E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos

Carlitos era um dos personagens mais conhecidos de Charlie Chaplin. Um andarilho usando chapéu-coco, bigode e um paletó muito apertado que, apesar de pobre, age como um cavalheiro. Fica clara a contradição entre “bêbado” e “luto”:  a alegria do vagabundo que tenta driblar a situação e o estado melancólico da sociedade brasileira.

A lua, tal qual a dona do bordel,
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

A Lua não tem brilho próprio, mas como proprietária do prostíbulo, rouba-o das suas empregadas; um brilho fosco e falso.  Há quem defenda a teoria de que a Lua seria a Rede Globo, a dona do bordel da mídia e um dos maiores instrumentos de manipulação na época (não que já tenha perdido o título). Foi justamente durante a ditadura que a Globo se estruturou e ganhou a confiança dos telespectadores que tem hoje. Outros dizem que representa os políticos que se colocaram ao lado do regime militar em troca de benefícios pessoais, mas qualquer música está sujeita a interpretações e eu não estou aqui para decidir a melhor por vocês.

E nuvens, lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas, que sufoco!
Louco, o bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil

Para quem nasceu depois de a caneta esferográfica ter sido inventada, mata-borrão é um papel que absorve a tinta em excesso das canetas-tinteiro para evitar erros, representando alguém em um alto cargo. Como “céu” remete a religiosidade, a alusão é à Igreja Católica, que demorou até assumir uma posição no cenário político, mas acabou pendendo para a democratização do país. É evidente o protesto contra a violência que era usada, em uma noite em que só um bêbado poderia sentir-se alegre, a loucura alcoólica como única justificativa para a aceitação passiva do regime.

Meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete

Chora a nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil

Henfil era na verdade o cartunista, jornalista e escritor Henrique Filho, e o irmão do Henfil, Herbert José de Souza, sociólogo e ativista dos direitos humanos.  Herbert foi um dos exilados, como tantos outros que partiram. “[Pegar um] rabo de foguete” é uma expressão equivalente a “entrar numa fria”, algo feito às pressas e que obviamente vai dar errado.

Já Clarice era esposa do jornalista Vladimir Herzog, que fazia parte do movimento de resistência contra o regime e teve um suicídio por enforcamento muito mal forjado em uma cela do DOI-CODI. Maria, por sua vez, era esposa do metalúrgico Manuel Fiel Filho, torturado até a morte sob a acusação de fazer parte do Partido Comunista Brasileiro, embora seu real crime tenha sido ler o jornal A Voz Operária.  No plural, “Marias e Clarisses” são todas as mulheres, sejam mães, filhas ou esposas, que sofreram por alguém que fora torturado ou exilado.

Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar

A expressão artística, única arma disponível para defender a democratização, seria usada exaustivamente pelos artistas que não se conformavam com a opressão. O comportamento da sociedade vivia na corda bamba, sempre por um triz de ser pego fora da linha estipulada pelos militares. Mas… Azar! O show tem de continuar.

20 duplas da música brasileira

Comecei tentando escalar dez duplas essenciais à música brasileira. Não consegui. Fui pra quinze. Não deu também. Fechei com vinte. Vinte parcerias bem sucedidas que não podem passar em branco para quem gosta de música. Tentei ser versátil, mas antes de mais nada gostaria de deixar claro alguns pontos: existe, além dessas vinte, inúmeras outras que eu gostaria de incluir aqui – quem sabe numa segunda postagem. Não está em ordem de preferência. E o intuito não é escolher os melhores compositores brasileiros, até porque não sou louco o suficiente para eleger alguns entre tantas feras.

Vou indicar alguns destaques entre as composições das duplas e, para não carregar muito a página, conto com sua astúcia para jogar os nomes que te despertarem curiosidade no YouTube. Vamos lá.

1. Tom Jobim e Vinicius de Moraes

A união entre Tom e Vinicius talvez seja um dos melhores casamentos da MPB. Lamento quando ouço que Tom Jobim e Vinicius de Moraes são compositores de Bossa Nova. Extremamente versáteis, compositores desse naipe não podem ser presos a um movimento musical.

Destaques: Se todos fossem iguais a você. Eu sei que vou te amar. Sem você. Modinha. Insensatez. Água de beber. Eu não existo sem você. Estrada branca. É preciso dizer adeus. A felicidade.

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2. Chico Buarque e Edu Lobo

Chico tem em Edu seu mais constante parceiro, e vice-versa. Juntos, têm mais ou menos quarenta parcerias, todas, com exceção de duas, feitas por encomenda para alguma peça teatral. “O grande circo místico“, “O corsário do rei” e “Cambaio” são algumas peças que levam a trilha sonora assinada pela dupla. É um desses encontros raros, de perfeita simetria entre letra e música. Edu diz que jamais teve que alterar uma de suas notas para que as palavras de Chico se encaixassem melhor.

Destaques: A história de Lily Braun. Choro Bandido. A moça do sonho. Beatriz. Cantiga de acordar. Ciranda da bailarina. Ode aos ratos. Sobre todas as coisas. Valsa brasileira. Veneta.

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3. Noel Rosa e Vadico

Noel Rosa, expoente máximo do samba, e Vadico, pianista, têm um trabalho interessante: juntos, fizeram poucas músicas. Mas extremamente preciosas. Não é por menos que são lembrados como uma das mais felizes parcerias da música brasileira.

Destaques: Conversa de botequim. Cem mil réis. Feitio de oração. Feitiço da Vila. Tarzan, o filho do alfaiate. Provei. Pra que mentir?.

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4. Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

Luiz Gonzaga, o rei do baião, teve entre seus vários parceiros um que merece ocupar um degrau acima dos demais: Humberto Teixeira. Embora sejam lembrados somente por “Asa branca”, a parceria rendeu outros trabalhos louváveis que valem a pena ser escutados para quem gosta de um ritmo mais nordestino, mais animado.

Destaques: Asa branca. Assum preto. Baião. Baião de dois. Légua tirana. Qui nem jiló. Respeita Januário.

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5. Chico Buarque e Francis Hime

Francis (esquerda) e Chico (direita) se aproximaram muito durante a década de 70. Além de parceiros em composições, Francis atuou como arranjador dos discos de Chico dessa época. Alguns apontam os arranjos de Francis como os melhores da obra de Chico. Juntos, compuseram quase 20 músicas, entre elas estão alguns clássicos da MPB.

Destaques: Vai passar. Meu caro amigo. Pivete. Quadrilha. Trocando em miúdos. Atrás da porta. Passaredo.

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6. Caetano Veloso e Gilberto Gil

Para representar o Tropicalismo aqui na lista, nada mais justo que Caetano e Gil. No fatídico ano de 1968, revolucionaram o cenário cultural brasileiro incorporando elementos estrangeiros, como a guitarra, em suas composições.

Destaques: Divino maravilhoso. Haiti. Panis et circenses. Desde que o samba é samba. Cinema novo. Dada. Batmacumba.

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7. Raul Seixas e Paulo Coelho

Esqueça o que você ouviu falar por aí dos livros do Paulo Coelho. Estamos falando de um letrista que junto de Raul Seixas, compôs várias pérolas do rock brazuca. Muitos dizem que Paulo Coelho se aproveitava do talento e da fama de Raul, mas, independente do que cada um fazia nas composições, as que nasceram desse encontro merecem destaque em nosso cenário musical.

Destaques: Al Capone. As minas do Rei Salomão. Como vovó já dizia. Eu nasci há dez mil anos atrás. Gitá. Medo da chuva. Meu amigo Pedro. Não pare na pista. Rock do diabo. Sociedade alternativa.

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8. Rita Lee e Arnaldo Baptista

Rita e Arnaldo botaram no mundo alguns clássicos imortais. Juntos com Sérgio Dias, formavam os Mutantes, que se desfez, se refez e hoje já não sei mais a quantas anda.

Destaques: Balada do louco. Caminhante noturno. Amor branco e preto. Desculpe, babe. Quem tem medo de brincar de amor?. Sucesso, aqui vou eu. Don Quixote.

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9. Vinicius de Moraes e Baden Powell

Mais uma prova da versatilidade de Vinicius. Com Baden, fez os famosos afro-sambas, claro divisor de águas da MPB por mesclar elementos da música africana com o samba carioca.

Destaques: Além do amor. Apelo. Berimbau. Canto de Ossanha. Consolação. Deixa. Formosa. Samba da bênção. Samba em prelúdio. Tem dó. Velho amigo.

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10. Erasmo Carlos e Roberto Carlos

Tudo bem que o Roberto Carlos tem uma fase cafona e que muita gente tem aversão. Eu entendo. Mas e daí? É inegável que junto a Erasmo Carlos tenha composto músicas boas. E se você acha que o Erasmo é uma figura lado B que utilizou da fama do Roberto, sinto muito. É um excelente compositor que pretendo explorar mais em outro artigo. Caiamos no iêiêiê.

Destaques: A banda dos contentes. Além do horizonte. Amigo. Cama e mesa. Coqueiro verde. De tanto amor. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos. Detalhes. É proibido fumar. Emoções. Eu sou terrível. Fera ferida. Festa de arromba. Ilegal, imoral ou engorda. Lady Laura. Minha fama de mau. Olha. Traumas.

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11. Moraes Moreira e Luiz Galvão

Luiz Galvão (esquerda) e Moraes Moreira (direita) são os responsáveis pelas melhores composições do finado grupo Novos Baianos. Se você nunca ouviu, vai por mim: surpreenda-se.

Destaques: A menina dança. Acabou chorare. Dê um rolê. Mistério do planeta. Preta pretinha. Três letrinhas. Um bilhete para Didi.

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12. Paulo César Pinheiro e João Nogueira

Vejo em Paulo César Pinheiro um dos três melhores compositores vivos do Brasil. Entre todos os seus parceiros, escolhi o trabalho com João Nogueira porque é louvável, representa para mim músicas importantes na formação da visão do mundo de uma pessoa.

Destaques: Espelho. Minha missão. Dora das 7 portas. O poder da criação. O homem dos quarenta. E lá vou eu. Batendo a porta. Mineira.

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13. João Bosco e Aldir Blanc

Um mestre do violão e um gênio das palavras. Juntos, só pode dar coisa boa. O trabalho de João Bosco com Aldir Blanc é vastíssimo e representou uma das principais vozes dos angustiados com a ditadura brasileira.

Destaques: Agnus sei. Bala com bala. Corsário. De frente pro crime. Dois pra lá, dois pra cá. Escadas da penha. Falso brilhante. Gênesis (parto). Incompatibilidade de gênios. O bêbado e a equilibrista. O ronco da cuíca. O mestre-sala dos mares. Preta-Porter De Tafetá. Tiro de misericórdia.

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14. Vinicius de Moraes e Toquinho

Talvez uma das duplas que mais geraram descendentes. Toquinho teve em Vinicius seu grande parceiro e mentor. Além das composições próprias, musicou inúmeros poemas de Vinicius. Entre todos os trabalhos que fizeram juntos,  merecem destaque, entre outros, as músicas infantis d”A Arca de Noé“, que embalaram várias gerações de brasileiros.

Destaques: A carta que não foi mandada. A tonga da mironga do kabuletê. Aquarela. As cores de Abril. Carta ao Tom 74. Como é duro trabalhar. Como dizia o poeta. Cotidiano n° 2. O canto de Oxum.  O filho que eu quero ter. O poeta aprendiz. Paiol de pólvora. Para viver um grande amor. São demais os perigos dessa vida. Se ela quisesse. Sei lá, a vida tem sempre razão. Sem medo. Tarde em Itapoã. Tudo na mais santa paz. Um homem chamado Alfredo.

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15. Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal


Dois dos mais ilustres filhos da Bossa Nova, é impossível deixá-los de lado. Não existe tributo à Bossa que não relembre alguns clássicos frutos de Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal.

Destaques: O barquinho. Carta ao mar. Copacabana de sempre. Errinho à toa. Nós e o mar. Por quem morreu de amor. Rio. Vê. Você.

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16. Milton Nascimento e Fernando Brant

Representando a turma do Clube da Esquina, Fernando Brant e Milton Nascimento criaram belíssimas composições profundas, com temáticas variadas: a vida, o artista, a reflexão, a preocupação com o social. Têm uma vasta lista de parcerias altamente recomendável.

Destaques: Canção da América. Canções e momentos. Comunhão. Encontros e despedidas. Maria Maria. Milagre dos peixes. Ponta de areia. San Vicente. Sentinela. Travessia.

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17. Cazuza e Frejat

Tá angustiado com o sistema e quer mandar tudo pros ares? Está aqui a dupla que te servirá de trilha sonora. As composições de Frejat e Cazuza são extremamente atuais, servindo ainda hoje como um grito de alerta. Quem acha que rebeldia não pode andar junto com o amor e a beleza, basta ouvir algumas músicas desses dois para ficar provado o contrário.

Destaques: Bete Balanço. Blues da piedade. Ideologia. Malandragem. Pro dia nascer feliz. Só as mães são felizes. Subproduto do rock. Todo amor que houver nessa vida.

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18. Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

O fino do samba. Quer mais o quê? Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito compuseram verdadeiros hinos do samba, revisitados ainda hoje por intérpretes de altíssimo nível. Indispensáveis.

Destaques: Encontro marcado. Folhas secas. Me esquece. Meu caminho. Meu violão. Minha paz. O bem querer. O dia de amanhã. Palco vazio. Pranto de poeta. Tatuagem. Quando eu me chamar saudade.

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19. Chico Buarque e Tom Jobim

Chico é Chico e Tom é Tom. A parceria dos dois começou um pouco por acaso, quando foram apresentados por Aloísio de Oliveira. Chico ainda estava começando e Tom já era uma autoridade musical. Para uma análise mais delicada, é possível ver traços de maior maturidade nas letras de Chico depois que virou parceiro de Tom. Para mim, uma das melhores duplas.

Destaques: Anos dourados. Olha Maria. Retrato em branco e preto. Sabiá. Eu te amo. A violeira. Pois é. Piano na Mangueira. Imagina.

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20. Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik

Os novos expoentes da música urbana, Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik, que também é parceiro de Caetano e de Chico, oferecem composições com um traço modernista, o tempo todo brincando com as palavras e fazendo referências a outras composições.

Destaques: Baião de quatro toques. Mestres cantores. Para Elisa. Serra do mar. Trio de efeitos.

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Fonte: muito veio do Discos do Brasil.

Downloads: acredito que muito do que foi citado por ser encontrado no Umquetenha.

Por trás da música – Roda Viva

Assim como o Artilheiro Scognamiglio, eu curso Jornalismo. Nós estamos indo para o terceiro semestre e, se posso fazer algum comentário relevante perante o que aprendemos sobre a história de nosso país – e da Ditadura em si -, é que foi um tempo muito complicado no que se diz à liberdade de imprensa. Não estou falando aqui daquilo que muitos defendem erroneamente como a “chance pra falar mal de quem quiser, a hora que quiser”. Refir-me à simples possibilidade de expressar sua opinião. Não se podia criticar o governo (no nosso caso, a Ditadura Militar), e possíveis tentativas de fazê-lo eram reprimidas com uma dura censura. Certas composições, porém, passavam à vista dos censores. Uma delas é, até hoje, uma das músicas favoritas do artilheiro que vos escreve. A composição de Chico Buarque, para uma peça de mesmo nome, é – até hoje – uma das mais belas letras já escritas na música nacional. E, em homenagem a Chico Buarque e, mais que isso, ao Artilheiro Tauil (fã ferrenho do intérprete), dediquei-me a analisar toda a letra da canção, que carrega mensagens subliminares e sutis, em alusão à luta contra a ditadura. Espero que vocês gostem.

Roda Viva

Compositor: Chico Buarque

Intérprete: Chico Buarque e MPB-4

Ano: 1967

Disco: Chico Buarque de Hollanda Vol. 3

Tocada em qualquer roda de samba, citada em qualquer discussão de estudantes de comunicação social, presente na ponta da língua de todo comunista (beijo, @aalecram), Roda Viva é o tipo de música que não enjôa. Que ultrapassa os limites do tempo para tornar-se imortal e única, como poucas músicas conseguem. Em meio à seus 36 versos, esconde mensagens que são captadas de imediato por nossas almas, mas talvez precisem de um pouco mais de atenção para serem absorvidas por nosso intelecto. E, sem mais delongas, vamos à esta.

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A composição de Chico foi feita para trilha sonora de uma peça de teatro homônima, como já dito no início do post; o que não lhes foi dito, porém, é que essa peça – com um alto teor crítico à ditadura graças ao diretor, Zé Celso – foi alvo de ataque de um grupo de extrema-direita, o CCC (Comando de Caça aos Comunistas). Para alguns, os militares foram impedir a Feira Paulista de Opinião, e, não encontrando a peça dirigida por Augusto Boal, derrubaram o Roda Viva para não perder a viagem. Em São Paulo e em Porto Alegre, posteriormente, o grupo atacou o cenário e o elenco, visando impedir que a peça continuasse a ser encenada. Pode ter dado certo – o grupo Oficina, dirigido por José Celso Martinez Correia, parou com as apresentações -, mas anos depois a música foi lançada ao público em um dos LP’s de Chico. Daí, até hoje, é impossível escutar Roda Viva sem pensar em tudo que foi vivido para que a liberdade nos fosse permitida.

Roda Viva

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu…

É nítido o sentimento de impotência que acometia a parcela da população que sabia o tamanho do perigo que o país encontrava-se ao passar por uma Ditadura. Seja ela militar ou não, de direita ou de esquerda… Ditaduras servem apenas para mergulhar um país em ruínas. Para atrasá-lo, se não de modo econômico, mas de modo cultural e social. A maior parte da população era envolta por um véu, achando que estava tudo bem. E aqueles que sabiam que algo estava não podiam fazer muito, podendo sofrer sérias consequências. Era como se não estivessem mais ali (como quem partiu). Como se o mundo já fosse grande demais para eles, e a esperança, pequena. Vale lembrar que o termo estancar remete à sangue (o estancamento de uma ferida, por exemplo), o que denota todo o sofrimento de uma pátria.

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá…

Roda-viva é um movimento contínuo, que não tem fim. É a metáfora, então, da Ditadura, que – sempre atuante e sempre presente – não permite que mudanças sejam feitas. Os dois primeiros versos mostram a vontade de lutar contra tudo o que acontecia, enquanto os dois últimos apenas confirmam a impotência descrita na estrofe nº1. Apesar de querer melhorar tudo, a roda-viva carrega o destino (a mudança) para longe.

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração…

O refrão (repetidos mais algumas vezes e exposto apenas uma vez, em nossa análise) é dono de uma particular beleza, citando diversas palavras com o termo “roda”. Roda mundo, roda gigante, roda moinho e roda pião, dispostos em sequência, dão a sensação de repetição e de continuidade, tal qual a roda-viva, que não para em momento algum. Em alusão à primeira estrofe, que fala do mundo ter crescido sem que se percebesse, isso apenas reafirma que, por mais que você tente ou não mudar algo, consiga ou não… A roda viva não para. O mundo não para para esperar, ou para ajudar.

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá…

Se uma tag pudesse ser inserida nessa análise, eu escolheria a palavra impotência. Ela já foi e continuará sendo repetida aqui e, por mais cansativa que possa ser essa repetição, faz-se necessária. Não existe palavra que faça mais sentido, aqui. Observemos os primeiros quatro versos dessa estrofe. Nos dois primeiros, percebemos que existe a tentativa de causar mudanças e reflexões. Ir contra a corrente é ignorar a massa ignorante (no caso, ignorante por manipulação da própria Ditadura) e tentar elucidá-los. Nos próximos dois versos, porém, admitem que nem tudo foi feito. A “volta do barco” é o retorno, a volta ao ponto inicial. E é aí que enxerga-se que ainda faltava muito. Os quatro últimos versos, assim como na 2ª estrofe, fazem alusão à roda viva. Mais que o desejo de ter “voz ativa”, a esperança é cultivada, coisas boas são plantadas e aqui retratadas como uma “roseira” que, assim como todo o resto, é levado pela imponente roda viva.

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou…

É notável a tristeza que instaura-se na estrofe acima. A saia da mulata não roda mais; não há mais dança, não há mais serenata, não há mais roda de samba. Ignorando por um instante a genial utilização da palavra roda na estrofe, é preciso admirar a genialidade e sutileza de Buarque ao retratar a quietude de um povo frente à censura que, impedido até de lutar pelo seu país, aquieta-se. Cala-se.

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá…

Faz-se, aqui, uma repetição da ideia de lutar contra a corrente. Chico não chegou a participar de muitos protestos (alega ter participado de apenas um), mas é visível a ideia que não só protestos fariam a diferença: a figura da viola representa a música, as composições que poderiam fazer alguma diferença e são levadas pela roda viva… Censuradas pela Ditadura.

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou…

Depois de tanto lutar em vão, desiste-se de fazer a diferença. Na letra, depois do movimento ser estagnado, da roda viva carregar o destino, a roseira e a vila, a esperança já não tem mais forças. Tudo isso, então, fica parecendo uma ilusão passageira… Como se a Ditadura, de fato, tivesse vencido, e qualquer resquício de mudança fosse ilusório, e tivesse sido levado por uma brisa qualquer.

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá…

Talvez o mais triste dos versos, mostra que já não há mais vontade de mudar. Existe a saudade no peito, aquela vontade de que as coisas voltem a ser como antes eram… Mas já existe tanto descontentamento, tanta tristeza, que é mais uma coisa que a roda-viva ceifa do peito de todos: a saudade. Vale observar, também, que nos últimos instantes da música, a repetição do refrão acontece cada vez mais rápido, como se a música estivesse dentro dessa roda, que não para de se movimentar, e deixa tudo mais confuso. Deixa-nos cada vez mais desnorteados… Até que, de repente, chega ao fim.

Imortal, incomparável, inigualável. Roda Viva é uma canção que continua, até hoje, aberta às mais variadas interpretações. Essa é mais uma delas, e você pode concordar, discordar e, sem sombra de dúvidas, esperar um texto gigante do Tauil na seção de comentários… Se você ainda não conhecia essa canção, vá ouví-la agora mesmo,  procure saber mais sobre Chico Buarque (modéstia à parte, o Artilharia Cultural é um bom lugar pra começar) e leia um pouco sobre nossa Ditadura.

E cuidado, sempre, com a roda-viva. Não é porque estamos fora desse período que ela não existe em outras formas, atuando de outras maneiras e vestida com outras roupas.

Os vários Chicos do Buarque

Hoje, sábado (19), Chico Buarque aniversaria. Para comemorar os sessenta e seis anos de sua existência, resolvi fazer um post para falar sobre ele, no geral – porque muitos conhecem o compositor, alguns conhecem o escritor, poucos conhecem o dramaturgo etc. Foi com o intuito de revelar suas várias facetas, e o que cada uma delas fez de melhor, que essa postagem nasceu.

O músico

Antes de mais nada, repare que eu escolhi a palavra “músico” ao invés de “compositor”. Não foi à toa. Existe um grande erro nacional, que é dizer que Chico Buarque é um letrista. É, sim, e dos maiores, mas não é só isso. Chico é autor de melodias extremamente bem trabalhadas. Acontece que a maioria do seu trabalho é mesmo como letrista (também, com parceiros que são mestres harmônicos, como Tom Jobim, Guinga, Edu Lobo, Francis Hime e Cristóvão Bastos, fica difícil).

Embora sempre tenha feito operetas para cantar com seus irmãos, que são seis, Chico considera como primeira composição a Canção dos olhos, feita aos quinze anos. Àquela época, ele ainda estava muito preso à Bossa Nova, e tudo que ele fez foi querendo ser João Gilberto. De lá pra cá, muita coisa mudou – ainda bem -, e se olharmos para a carreira musical de Chico, como estou fazendo agora, veremos uma linha principal com muitas vertentes, porque muitos foram os ritmos que Chico experimentou. Rock, baião, samba, valsa, samba-canção, marcha, choro etc. – não sei como classificar músicas quanto ao ritmo, porque se soubesse essa lista seria muito vasta. Compôs com o mais variado naipe de artistas brasileiros, portugueses, italianos, cubanos. Gravou com europeus e africanos. Cantou também em espanhol, inglês, italiano, francês. Suas intérpretes são variadas, de Rita Lee a Gal Costa, de Maria Bethânia a Elizeth Cardoso, de Clara Nunes a Elis Regina, de Nara Leão a Ana Carolina.

O escritor

Como ele mesmo disse, uma vez, a música é a arte da juventudade. A literatura, da maturidade. Seu primeiro livro, que foi classificado como uma novela pecuária, foi Fazenda Modelo, de 1974. Nessa época, Chico estava extremamente marcado na Censura, nada com seu nome passava. A pressão dos censores chegou ao ponto de Chico gravar um disco só com composições de outros músicos. Como sentia a necessidade de falar, deu à luz ao fictício compositor Julinho da Adelaide (que fica pra outra postagem) e também ao Fazenda Modelo. É um livro pesado, um pouco arrastado, porque faz alegorias o tempo todo ao cenário político do Brasil. Cinco anos mais tarde, publicou um livrinho infantil, o Chapeuzinho Amarelo, que foi baseado nas histórias que ele contava para sua filha dormir. Bem mais tarde, em 1991, depois de um bom tempo afastado dos palcos e dos estúdios, publicou seu primeiro romance, Estorvo, que primeiramente iria se chamar “Olho-mágico”. É um romance confuso, psicológico, chega a ser um pouco surrealista. Alguns disseram que é um romance kafkaniano. Em 95, publicou Benjamim, um livro cinematográfico, bem visual. De todos, para mim, é o mais fraquinho. A grande estréia literária de Chico veio somente em 2003, com Budapeste. Um romance duplo, como definiu José Miguel Wisnik, baseado na confusão da vida de um escritor fantasma (ghostwriter). O que mais gosto em Budapeste, que foi uma das melhores leituras que já fiz, é a ligação do personagem com a palavra. É uma grande viagem para qualquer um apaixonado pela escrita e pela literatura. Para fechar este capítulo, ano passado foi lançado o popular Leite Derramado. Com um enredo focado na vida de um centenário que agoniza num leito de hospital, o curioso é fazer a ligação do personagem, o Eulálio, com os nossos avós. Fica difícil saber quando ele está contando suas histórias para as enfermeiras e quando está divagando sobre o seu glorioso passado, sozinho.

Para quem quiser experimentar da literatura de Chico, sugiro seguir o @buarquices.

O dramaturgo

Embora para a ferina crítica de teatro Bárbara Heliodora as peças de Chico não acrescentem nada, eu não concordo. Mas quem sou eu para discordar da dona Heliodora? Um cara que leu tudo que já foi publicado a respeito de Chico Buarque. Não é grande coisa, mas constatei que as peças buarqueanas foram bem em público, mas não na crítica. Sem contar que várias das músicas mais clássicas dele foram feitas para as peças.

Tudo começou com Roda Viva, em 1968. Realmente é uma peça fraca, mas causou muito impacto pela direção do Zé Celso. É uma denúncia da máquina do show bizz, a transformação de um homem simples a um ídolo da mídia – era isso que Chico estava vivendo no momento. Depois, com Calabar, escrita em 1973 em parceria com Ruy Guerra, vê-se um texto extremamente mais maduro e mais experiente. É uma ótima peça acerca do Brasil dos tempos da cana-de-açúcar, da Holanda. Tomou um tombo gigantesco da Censura, que nunca foi assistir a prévia para a liberação e de quebra censurou tudo que estivesse ligado a Calabar – incluindo a própria palavra. Dois anos depois, temos Gota d’água, escrita com Paulo Pontes e interpretada magistralmente pela musa Bibi Ferreira. É uma peça pesada, uma tragédia urbana sobre uma mãe que matou os dois filhos e se suicidou em seguida. Por último, saiu a Ópera do Malandro, baseada nas obras de John Gay e Bertolt Brecht. Uma peça muito bem humorada e a mais rica musicalmente falando.

Ainda hoje são feitas várias adaptações das peças de Chico, é só procurar que você acha.

O jogador

Torcedor fanático do Fluminense, Chico afirma, sem hesitar, que trocaria toda a sua carreira musical por uma futebolística. Isso se fosse para ser jogador de seleção, coisa grande mesmo. O que nem todo mundo sabe é que ele mesmo criou um time. O Politheama, poli do grego “muito” e theama de “espetáculo” (muito espetáculo, então), existe desde quando Chico era criança – era seu time de botão. A turma toda figurava lá, do Pagão ao Canhoteiro, estampada nos vidrinhos de relógio. Mais tarde, Chico comprou um terreno no Recreio dos Bandeirantes e o batizou de Centro Recreativo Vinicius de Moraes. Ficou sendo o campo do Politheama, que, diz o criador, é invicto até hoje – “alguns empates, nenhuma derrota. Amistoso não conta”. Por lá já passaram grandes nomes do futebol, como Tostão, Pelé, Ronaldo, e também craques da música, como os integrantes do MPB4, Guinga, Fagner, Bob Marley, Toquinho e muitos, muitos outros. O hino, composto pelo próprio fundador, foi gravado ao estilo clássico, como os hinos do Lamartine Babo. Veja:

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O homem

Pai de três filhas. Foi casado com a atriz Marieta Severo. Gosta de ler os clássicos no idioma original. Ouve pouca música em casa. Não gosta de animais de estimação. Já foi preso por furtar um carro. Não se arrepende de ter admirado a revolução cubana. Teve muitos trabalhos censurados pelos militares. Avô. Já foi ameaçado de morte diversas vezes. Dono de um humor irreverente. Joga futebol toda a semana. Fumante. Não gosta de fazer shows. Caminha no Leblon praticamente toda manhã. Foi motorista do Garrincha na Itália. Foi tema do samba-enredo da Mangueira. Adora ler dicionários. Não gosta de dar entrevistas. Um observador contumaz. Está aprendendo a tocar piano para mandar um Debussyzinho de vez em quando.

Ou seja

O que eu quis dizer, na verdade, é o seguinte: em quarenta e cinco anos de produção, Chico nos deixa em média trezentas e trinta e cinco canções (sem contar versões e outras coisas menores), quarenta e quatro discos (excluindo compactos e coletâneas), quatro romances, uma novela, quatro peças teatrais, um livro infantil. Uma pessoa com essa extensão de obra deve ser, no mínimo, interessante. Se você nunca ouviu, prove. Se já conhece, divulgue. Se não está interessado, sinto muito, mesmo.

O mais interessante disso tudo é que tenho a certeza de que em trinta, quarenta anos, eu estarei fazendo uma nova postagem, com outra retrospectiva, falando dos novos projetos que até lá estarão concluídos e das dezenas de músicas que foram encontradas nos cadernos do senhor Francisco.

Para sintonizar: Site oficial, Canal de vídeos

Por trás da música – Apesar de você

Hoje começa essa nova coluna do Artilharia Cultural, a interessantíssima Por trás da música. Como o nome indica, escolhemos uma canção e a destrinchamos, contando sua história, seus bastidores e suas curiosidades. Não é uma análise, mas serve de base para uma, já que para compreender uma música é preciso entender as circunstâncias que a fizeram nascer.

Vamos englobar diferentes estilos musicais e esperamos ter a contribuição dos leitores nos comentários. E, como fiquei encarregado de começar a coluna, nada mais justo que escolher uma música do Chico Buarque – não falei que você ainda ia se cansar de ler esse nome por aqui?

Apesar de você

Compositor: Chico Buarque

Intérprete: Chico Buarque

Ano: 1970

Disco: 1978 (Samambaia)

Pode ser que você conheça “Apesar de você” dos botecos da vida, porque hoje ela integra o repertório de qualquer músico mambembe intelectualizado, juntamente com “Chão de giz“, “Sozinho” e “Oceano“. Acontece que há algum tempo, “Apesar de você” foi hino de uma geração insatisfeita com o regime militar instalado no Brasil. Vamos à história:

O auto-exílio na Itália

Em 1969, Chico Buarque foi à França para se apresentar no Midem, a grande feira mundial da indústria fonográfica. Acompanhado de sua esposa, a atriz Marieta Severo, acharam por bem prolongar um pouco a temporada  na Europa. Aqui, no Brasil, o AI-5 corria solto e Chico recebia notícias de vários artistas que eram exilados, como por exemplo Caetano Veloso e Gilberto Gil, que foram para Londres. Com medo, o afamado compositor de “A Banda” resolveu ficar por Roma, onde já havia morado quando criança, até que a tensão no Brasil diminuísse um pouco. O problema é que Marieta estava grávida e a situação financeira não ia bem. Foi justamente a renomada “A Banda”, que havia sido gravada em italiano por Mina, que segurou as pontas do casal. Assim, Chico conseguiu fazer pequenas apresentações, recebeu um adiantamento da sua gravadora no Brasil e acabou parindo, à força mesmo, um disco totalmente conturbado: Chico Buarque de Hollanda n° 4. Além de traduzir algumas de suas músicas para a indústria fonográfica italiana, é claro.

Entre vários bicos – como abrir o show de Josephine Baker tocando “Mamãe eu quero” -, que talvez sejam tema de uma outra postagem, Chico recebia o conforto de Vinicius de Moraes, embaixador do Brasil, que acabou sendo padrinho de Silvia, a primeira filha de Marieta. Em uma conversa com o poeta, Chico disse que havia recebido uma carta que assegurava uma crescente calmaria no panorama brasileiro, que as coisas estavam melhorando, que pensava em voltar. Vinicius disse, então, que ele voltasse. Mas que voltasse fazendo barulho.

O barulhento regresso

Chico acatou o conselho do poetinha e voltou de forma quase apoteótica. Com especial da Rede Globo, shows marcados na boate Sucata e o lançamento do quarto disco, Chico balançou o meio artística do Rio de Janeiro. O problema foi constatar que a carta que havia recebido era uma fraude: a situação do regime militar só havia piorado. Vendo circular pelas ruas os automóveis com o adesivo “Brasil: ame-o ou deixe-o“, o compositor se viu obrigado a reagir com sua melhor arma: a música. E assim nasceu “Apesar de você”:

Apesar de você – Chico Buarque

Hoje você é quem manda Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal Etc. e tal

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Como já vigorava a censura prévia, Chico enviou a letra ao órgão crente de que ela seria vetada. Mas não. A música foi liberada, lançaram um compacto com “Apesar de você” de um lado e “Desalento” de outro, e em uma semana mais ou menos quase cem mil cópias foram vendidas. A música já era adotada como hino de resistência aos militares quando um jornal publicou uma notinha dizendo que o “você”, na verdade, era o general Médici. Chamado para depor, Chico disse que a música era para uma mulher muito mandona, mas não colou. A música foi proibida de ser executada e todos os compactos recolhidos e queimados.

No entanto, a matriz da gravação continuou intacta e pôde ser aproveitada oito anos mais tarde, quando a música foi liberada pela censura. Embora o artista já estivesse em outros caminhos e com outros projetos, “Apesar de você” foi incluída no disco de 1978, popularmente conhecido como Samambaia, só para fazer parte de sua discografia, como documento mesmo.

Pra finalizar

Anos mais tarde, Chico diria que o “você” da música não era um general, e sim uma generalidade. Foi uma reação frente à situação negativa da época. É uma de suas poucas músicas feitas realmente com um intuito político. Depois desse episódio, o censor que liberou a música foi despedido, e a marcação em cima de Chico aumentou e muito.

Para saber mais,

“Tantas Palavras“, de Humberto Werneck

“Histórias de canções”, de Wagner Homem