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Bombardeio X – Dia do Escritor
Hoje, dia 25 de Julho, celebra-se o Dia do Escritor. E, como vocês já devem ter percebido pelos posts gigantes e pelos comentários maiores ainda, o pessoal que frequenta e faz o Artilharia Cultural gosta (muito) de escrever. Tudo isso, porém, não aconteceu de repente. Independente de quando, de que forma ou em quais circunstâncias, todos aqueles que adquiriram o prazer de escrever, ganharam anteriormente o gosto em ler. Seja um gibi, uma história de contos de fadas ou o bilhetinho da primeira série, todo mundo que não aguenta ficar muito tempo sem escrever também não aguenta ficar sem ler. O nosso décimo bombardeio trouxe a equipe oficial do AC + 4 convidados para falar sobre seu autor favorito.
Manoel de Barros (@alicemariel)
De todos os nomes da lista quilométrica de pessoas que me fizeram gostar de ler, Manoel de Barros foi o único que me ensinou verdadeiramente a gostar de poesia. Lá no auge dos meus nove anos, enquanto eu devorava livros de escritores como José de Alencar e Machado de Assis e repudiava qualquer coisa que tivesse métrica e rimas imbecis, encontrei um livro miúdo, meio apagado, meio espremido entre os de literatura estrangeira na prateleira de uma livraria com mais teias de aranhas que clientes: o Livro das Ignorãças. Logo eu aprendi também que o Mato Grosso é dividido entre aqueles que não sabem quem é o cara e aqueles que morrem de orgulho da terra que o gerou. A simplicidade dos versos de Manoel me surpreendeu de tal forma que era impossível não me sentir tentada a dar uma chance àquilo que antes não parecia ser mais do que punhados de palavras vazias arranjadas para soar bonito. Manoel de Barros não só soava bonito pra mim como cada palavra trazia em si uma beleza daquelas que de tão delicadas você tem medo de pegar com a mão sem muito jeito e quebrar. Não precisa ser um gênio da literatura, mas se alguém é capaz de mudar sua maneira de encarar o mundo, sem dúvida é merecedor de respeito.
Do Fazedor de Amanhecer até o Guardador de Águas, Manoel é pra onde eu vou quando preciso de férias. Não é, nem de longe, o meu escritor favorito, mas pouquíssimos deles conseguiram me conquistar assim como o poeta pantaneiro fez.
José Saramago (@omgcaio)
Não lembro de quando li o primeiro livro do Saramago, mas sei que quando li, vi ali um autor que tinha nascido num país errado. Era tudo tão livre e dotado de um jeito pessoal de falar que se não soubesse antes, acharia com facilidade que ele era brasileiro, dada ao jeito tranqüilo de expressar tudo que pensava e sem se ater a nenhuma regra certa, exceto à inexistência de todas elas. E o fato de também não me apegar tanto às regras quando escrevo só me deixou mais próximo dele; e acho ser um sentimento que é compartilhado por todos que escrevem e acham um autor que chega próximo do seu estilo pessoal.
Apesar de não lembrar quando, sei que o primeiro livro que li dele foi o não tão disseminado como “Ensaio sobre a Cegueira”, mas sim o “As intermitências da morte”. Achei bem estranho acompanhar um jeito tão peculiar de escrever, mas depois que o costume te atinge, consegue compreender tudo com facilidade fora do comum. A ironia e o seu jeito de criticar as coisas também me atraiu bastante, principalmente quando retrata um governo completamente despreparado e que não liga muito para o bem estar da população. Saramago escrevia sobre pessoas, era raro tratar um indivíduo como único e especial, tanto que nomes são coisas completamente irrelevantes, e logo no final do livro achei peculiar ele se focar na história de um homem que não conseguia morrer, já que ninguém era tão especial. Demorei bastante tempo para conseguir ver um auto-retrato do autor e do romance com a sua mulher, Pilar, inserido de forma tão genial num livro que buscava tratar dos humanos de forma bastante generalizada e dos seus dilemas e certezas fúteis. É um dos meus autores prediletos e com toda certeza bastante influente tanto no meu modo de pensar quanto no de escrever, afinal “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.
Chuck Palahniuk (@noduro)
Chuck é um maestro. Sob sua regência estão seus personagens indomáveis, indecisos e incomuns. A plateia de seu espetáculo é qualquer mortal sortudo que tenha barrado com um de seus contos; qualquer ser humano que vive o martírio do século 21 onde as incertezas são maiores que a paixão e as verdades cruas são aos olhos brancos do preconceito pura bizarria.
O Clube da Luta, o romance de 1996, é o meu favorito. Mas devo considerar que a decisão foi deveras complicada ao lado de Cantigas de Ninar, Monstros Invisíveis e No Sufoco (todos os títulos já foram traduzidos para nossa língua).
Machado de Assis (@bielabagacera)
O que mais me fascina em Machado de Assis é o quanto ele se expõe em seus livros, antes mesmo dele ingressar de vez em sua fase Realista. Machado deixa muito claro em cada uma de suas narrativas a sua personalidade cética, sarcástica e perspicaz. Gosto de pensar que se hoje um Memórias Póstumas de Brás Cubas impressiona pela sua crueza, imagine só o quanto a obra machadiana não chocava a sociedade do século XIX. E ainda assim, ele era admirado e bem quisto. Um homem que consegue mesclar uma personalidade franca e realista sem se tornar uma pessoa desagradável aos olhos da sociedade que ele mesmo expõe, merece meu respeito.
Machado de Assis é o tipo de autor que eu leio e que fala por mim. Quando leio suas produções, sempre imagino que eu descreveria a situação do mesmo jeito. É uma identificação pessoal com seu jeito prático de ver os problemas e saber se eles podem ou não ser resolvidos. Assim como Machado de Assis, acho que sou uma conservadora. Gosto de ver a essência humana exposta, mas não de todo o seu íntimo. Isso tira a magia e nos transforma em meros animais.
Pra finalizar, recomendo que leiam as obras mais famosas de Machado porque simplesmente há determinadas coisas que não podem passar como desconhecidas por sua vida (e também porque provavelmente seus professores ou alguns vestibulares te obrigarão a ler). E então, leia A Mão e A Luva, uma produção da fase romântica do autor e que deixará bem claro o que quero dizer sobre o que é ter uma visão realista dentro de um romance.
Machadinho… Te dedico.
Luis Fernando Verissimo (@lucasbaranyi)
É complicado pra mim falar de Verissimo, quando ele foi um dos responsáveis pelo meu interesse em leitura. Mesmo quando eu não tinha idade o suficiente para entender as clássicas sacadas do autor, eu lia e me divertia. Executar o exercício hoje, então, é um deleite sem tamanho. E, cá entre nós, vamos deixar as palavras difíceis de lado, porque LFV não é disso. Apesar de inteligentíssimo, nunca foi de complicar suas histórias. Suas crônicas, que já deram títulos e recheio para vários livros (alguns dele que eu ostento com prazer em minha prateleira) se resumem ao cotidiano, à simplicidade. E é por isso que ele é um cronista tão bom. O gaúcho sabe guiar uma história, sabe denotar seu ritmo e sua mística, deixando geralmente uma reviravolta no fim (ou no começo mesmo, só pra variar).
Um traço curioso do autor é sua timidez. Apesar de muito criativo e despojado no papel, na hora de falar Verissimo se mostra um homem muito reservado e de poucas palavras. Uma característica que eu preciso falar aqui (e que fez com que eu também me identificasse muito com ele) é sua paixão pelo futebol. Verissimo é colunista no Estadão e, de vez em sempre, dá um pitaco ou outro sobre o mundo da bola. Como nem tudo é perfeito, porém, Luis é torcedor do Internacional de Porto Alegre. Isso, o vice da Copa do Brasil de 2009, que perdeu pro meu Corinthians. É, Verissimo. Eu lembro… E você também. Pra curar essa derrota, só com o analista de Bagé.
Jorge Amado (@larissagould)
Meu primeiro contato com a literatura adulta foi através de Jorge Amado e “Capitães da Areia”, e pasme, eu tinha nove anos. Eu sempre me envolvo com os personagens, e não seria diferente com o livro que até hoje está entre meus preferidos, passei alguns meses dormindo com a obra, na minha inocência infantil de que assim os personagens sofreriam menos. Na verdade o que faz com que Jorge Amado seja meu autor preferido, mais do que a qualidade de seus livros e temas abordados, embora esses sejam simplesmente compatíveis com as minhas opiniões, é a linguagem usada por ele. Jorge Amado é a prova viva (ta, não viva) que escrever bem não é escrever difícil, ele põe fim a idéia de cultura erudita, aborda temas populares com mérito único. Jorge Amado escreve para todos, sem detrimento de excelência, mesmo suas obras que não possuem cunho político são densas, de qualidade.
Fernando Sabino (@tauiltter)
Vou ser franco, logo de cara: Fernando Sabino é o meu mestre. Apesar de nunca tê-lo conhecido, o que seria cronologicamente impossível, aprendi o pouco que sei com dois autores, e Fernando é um deles. Devido à felicidade do meu ex-professor de literatura Jura que nos pediu para ler “O grande mentecapto”, tive contato com o escritor mineiro. Não parei mais. Embarquei em suas crônicas, li seus suspenses, li seus romances, li seus contos, seus contos de ainda iniciante, suas cartas trocadas com Mario de Andrade, por exemplo. Vi também alguns de seus documentários, porque Fernando Sabino era também metido no cinema. E na música, porque amava um jazzinho.
Raríssimas vezes li alguma crônica sua empurrado, e mais raras vezes ainda fiquei com cara de “an?, que porra é essa?” no final de algum escrito seu. Por ter sido também jornalista, suas palavras são economizadas, quase exatas mesmo. Sem supérfluos, sem lingüiça enchida. Já que esse espaço é livre, vou indicar alguns de seus livros de minha preferência: O encontro marcado, romance. Deixa o Alfredo falar!, crônicas. A nudez de verdade, conto.
Acho que Sabino tem que ser leitura obrigatória, pra todo mundo aprender: “e isso é que eu acho de trágico, de dramático, no dilema do escritor e no seu destino de artista: é que escrever é um ato solitário. Ou ele fica sozinho, como um demônio, amando apenas a si mesmo, ou ele, como um santo, sai amando a humanidade inteira”.
Stephen King (@muriloandrade)
O escritor que eu indico não é exatamente o meu predileto, mas foi um dos que tive o prazer de ler uma grande quantidade de obras, Stephen King. Stephen King foi um dos muito escritores que marcaram a minha vida. Você pode dizer o que quiser dele, de que é literatura barata, que existe muito escritor é melhor que ele, menos de que ele não cumpre o que promete fazendo grandes obras de suspense, superiores à maioria dos livros do gênero que vemos atualmente nas livrarias. Descobri a obra do Rei do Terror ainda na adolescência a partir do tijolão que é o Apanhador de Sonhos. A partir daí passei meus catorze e quinze anos lendo Iluminado, Carrie, Quatro Estações, A Torre Negra, À Espera de um Milagre, O Talismã, A Hora do Vampiro, A Coisa, entre outros dele. Ao contrário do que a maioria pensa a força das suas histórias não está em seus monstros, hotéis mal assombrados e carros assassinos. Eles são apenas uma válvula para que King possa explorar seus personagens em situações extremas e as atitudes que elas tomam. É como no clássico Drácula, onde o vampirão só aparece em uns 20% do livro e ainda assim a tensão e horror do livro são indizíveis.
Acho que pra qualquer fã do Stephen King não é fácil escolher a melhor obra. Mas um dos meus favoritos é O Talismã, escrito por King e por Peter Straub. O estilo um pouco mais poético de Straub aliado ao aprofundamento psicológico de Stephen King. O Talismã é muito mais que um romance, mas uma aula sobre a perda da infância e nos leva a refletir sobre nós mesmos.
Obrigado Stephen King por dar a nós aficcionados por horror grandes obras do gênero. Um dia eu escrevo um texto mais completo sobre você.
Suprimento Semanal II
Salve, bravo soldado.
Vamos ao que interessa, Suprimento Semanal, resumidamente falando: três palpites culturais para conhecer neste fim de semana.
O livro
O Talismã (Stephen King e Peter Straub)
É impossível falar da minha infância sem falar de Stephen King. Por mais que já fosse apaixonado pelos romances de Machado de Assis, as palavras do autor estadunidense chegaram até mim de forma fantástica. Foi ele o autor do meu primeiro livro novo ganhado de presente – isto é: que não ganhei da biblioteca mágica da Prof. Celma, senhora minha mãezinha. Escolher uma das obras foi deveras complicado, visto que li mais de 20 títulos do mestre do horror. Mas acho que se for para usar a expressão imprescindível – descartando os contos para os mais preguiçosos, eu aconselho sempre O Talismã - que escreveu com ajuda de Peter Straub. O livro conta a história do jovem Jack Sawyer (nome que o autor homenageou evidentemente o personagem Tom Sawyer de Mark Twain, seu ídolo) e sua trajetória corajosa pelos Estados Unidos da América e em paralelo com um mundo de fantasia. King surpreendeu, pois que além de dominar com perícia o terror de seus famosos A coisa e Carrie, a Estranha ele pôde criar um mundo paralelo de fantasia ao lado de uma América imensa e descrita em detalhes. Detalhes e proporções que tornam esse romance um dos mais cotados de minha – ainda humilde – prateleira.
O filme
Into the Wild (Sean Penn)
Fora do circuito comercial? Não diria. Mas por uma pesquisa boca-a-boca percebi que poucos dos meus amigos e conhecidos viram Into the wild. O longa-metragem tem a assinatura de um veterano do cinema americano e até concorreu a duas estatuetas no Oscar. Falando no diretor, apesar de ter começado sua carreira com a comédia das Picardias Estudantis, Sean Penn amadureceu muito com os anos em seus papéis até começar a arriscar seu nome como produtor até chegar a direção. Na natureza selvagem é estrelado por Emile Hirsch, o garotinho com cara de corajoso de Show de Vizinha. Mas não é o diretor, nem o ator que roubam a cena na obra. A história de Christopher McCandless ou Alexander Supertramp (tramp é vagabundo em inglês) sim é de arrepiar. O longa então conta a história absloutamente realista de toda a trajetória libertária de um jovem que abandona todos os bens para viver com a natureza. Veja, e se gostar, recomende. O filme deve ser visto.
O disco
Undertow (Tool)
Não sei se consigo aconselhar música ao soldado que me lê. Acho que essa é a arte que mais erra-se nos palpites. Música é muito pessoal. Mas acho que o exemplo que eu darei, além do som que a banda faz, vale como dica para aguçar sua interpretação.
Em 1990, a sonoridade suja do grunge fez alguns personagens caricatos boiarem nas superfícies do rock que se afundava em contradições: Glam e Punks. Tool surgiria com seu primeiro trabalho de estúdio, a banda é uma das favoritas do artilheiro pelo fato de estar entre os grupos que mais evoluiram em termos técnicos sem nunca deixar sua essência contestadora dos 90. Tool revelaria, nos vocais poderosos Maynard James Keenan, hoje, um dos maiores ícones do rock mundial. Undertow, com suas faixas gritantes e explícitas é o começo dessa história. Baixe ou compre, mas não deixe de ouvir esse registro eufórico dos anos 90. Gostou? Vá além do primeiro disco, Tool é muito mais que isso.
Veneno com sabor
Artilheiro Colaborador: JLM
Volta e meia uma velha discussão ressuscita quando esqueço os que me rodeiam e acabo soltando que os programas de televisão com maior audiência e os livros mais lidos (os best-sellers) são puro lixo. E, como castigo pela minha falta de comedimento, acabo tendo de ouvir desde os xingamentos pessoais mais impagáveis – o principal argumento dos sem-argumento é xingar os que pensam diferente, nessa hora ninguém lembra da frase do Voltaire – até as velhas desculpas ouvidas e repetidas por papagaios que não tomam tempo para avaliá-las no mínimo racionalmente. Tudo me fez chegar à conclusão que, por mais que se argumente a favor, os livros e programas de tevê populares vão continuar sendo lixos. Lixos cada vez piores.
Na linha da leitura, o principal argumento de defesa é que o leitor dos mais vendidos, com o tempo, vai evoluir para leituras mais densas e essenciais. Confesso que até cheguei a defender esta idéia no passado, mas a abandonei quando constatei que na prática não é bem assim. São pouquíssimos (não conheço nenhum) os leitores de Bruna Surfistinha que evoluíram para Nietzsche. Ou leitoras de Crepúsculo para Orgulho e Preconceito. Os fãs de Paulo Coelho, livros de auto-ajuda e best-sellers, além de não evoluirem, viverão em um eterno conto de fadas no qual o suprassumo das letras é o escritor que gostam de ler e atacarão como fanáticos religiosos os que ousarem falar contra. Quem estes hereges pensam que são! Claro que lerão outras coisas sim, mas a propensão será procurarem autores similares aos seus favoritos, e nunca um Machado de Assis, um Érico Verissimo, um Shakespeare chegarão aos pés da banalidade e superficialidade exigidas cada vez mais como requisitos essenciais para agradar as massas.
Alguns perguntam retoricamente, tentando me colocar em contradição: “mas se você leu um livro pra dizer que ele é ruim, você se inclui aos leitores que critica, e se não leu, não pode falar mal daquilo que desconhece”. Para estes digo que não é preciso comer um prato de comida estragada para somente no final descobrir que ela vai fazer mal. Percebe-se isso muito antes, pelo cheiro. E qual seria o aroma dos livros e programas estragados? Fácil, o seu público! Se o diga-me o que lês ou o diga-me o que assistes que te direi quem és funciona, o inverso também vai funcionar. Diga-me que tipo de pessoas leem esse tipo de livro ou veem esse tipo de novela que te direi como são estes livros e novelas. É uma espécie de análise psicológica da obra através de seus leitores. Não que os leitores sejam pessoas ruins, mas você consegue ver qual foi o público-alvo explorado pelo autor. Leitores de Crepúsculo, Paulo Coelho e outros possuem características comuns que os diferenciam dos demais. É claro que há um ou outro leitor-exceção, mas são exceções, não a regra.
Outra linha de argumentação fraca é virem com acusações do tipo “quem é você para criticar o autor fulano, que está ganhando zilhões com os livros dele?” e “você tem é inveja do sucesso dele”. Se fosse assim, ninguém poderia criticar um político ruim a não ser quem já fora político antes. Nem um médico. Nem qualquer outro profissional. Note que não é requisito ser um profissional da área para saber quando algo está errado. Mesmo para os mais leigos conseguem descobrir usando o método da comparação. Compare o best-seller com um livro que já resiste a 50, 100, 300 anos ou mais nas livrarias. São conhecidos como clássicos. Note as diferenças de escrita, de estilo, de preocupação não só em contar uma história ou passar uma emoção, mas em trabalhar a própria língua. É claro que não só escritoes antigos fazem isso, mas muitos contemporâneos. O professor Affonso Romano Sant’anna diz que estes são os escritores, os profissionais da palavra, enquanto todo o resto é simplesmente autor. Um médico pode ser autor, um publicitário, um ex-presidente e até uma prostituta. Mas escritor de verdade, é aquele que trabalha a língua, que forma hai-kais no prato quando toma sopa de letrinhas, que lê uma quantidade de livros que pra ele é normal, mas pra maioria ao seu redor é algo espantoso.
Com os programas de televisão é a mesma coisa. Novelas, séries, filmes ou programas de auditório que não te fazem melhorar como pessoa, que não plantam uma dúvida na sua cabecinha, que não tocam o seu eu interior e já são esquecidos logo que sobem os créditos, entram na lista dos “só vejo para relaxar, por diversão, lazer”. Só que enquanto você relaxa e se diverte, sem perceber está bebendo algo que envenena a sua inteligência, mas que a mídia preparou tão bem que geralmente vem camuflado sob o seu sabor preferido. Novela sabor romance? Pois não. Filme sabor adrenalina? Pois não. Musical sabor erotismo? Pois não.
Há duas teses diferentes que tentam explicar porque tantos vem gostando cada vez mais do vulgar e imbecil. A primeira, levantada pelo Betinho no documentário A Revolução dos Idiotas (1992), é que existe um plano global para imbecilizar as pessoas. Desta forma, os principais programas em horários nobre e finais de semana e os livros mais vendidos são elaborados para fazerem as pessoas não pensarem ou para pensarem coisas idiotas. Tendo o tempo de lazer tomado por novelas, filmes e livros superficiais e imbecis, as pessoas não teriam tempo de buscarem conteúdos inteligentes ou de cultura. A teoria do sociólogo faz sentido se levarmos em conta que quanto mais ignorante o povo, mais fácil de enganá-lo. Seja o povo-eleitor, o povo-contribuinte ou povo-com-direitos. Enquanto os políticos fingem que fornecem boa educação pública, matriculam os seus filhos nos melhores colégios particulares que o povo nem sonha ter acesso. Enquanto as concessões de rádio e tevê não saem das mãos de poucos, os herdeiros das famílias detentoras são educados no exterior. Assim, a imbecilização das massas é uma estratégia política mundial de controle. Teoria da conspiração? Garanto que quem diz isso é justamente algum político ou graduado em Harvard.
A outra teoria veio do filme Idiocracy (2006), que mostra como as espécies mais aptas evoluíram até chegar ao homem. E daí começou uma desenvolução, pois como o homem não tinha mais predadores que ameaçassem a sua sobrevivência, não seria mais necessário ser o mais apto. Passaram a apostar as fichas no multiplicar-se cada vez mais para ganhar terreno os que mais procriam, isto é, os menos inteligentes. Enquanto casais inteligentes refletem sobre controle familiar e populacional e tem em média um ou dois filhos, os menos inteligentes tem seis, dez, vinte e três filhos. Em um simples cálculo exponencial, é fácil dizer quem vai dominar a terra no futuro, numericamente falando: os idiotas.
Se você teve a paciência de ler até aqui, quero que saiba que não pretendo mudar a cabeça dos que curtem Faustão, Gugu e Caminho das Índias. Nem que não leiam Harry Potter ou Os Diários de uma Princesa. Apenas quero deixar claro que a vida traz muito mais que isso. Vai além. E quem descobrir vai ver que cultura e inteligência ultrapassam o gosto pessoal. Pois, apesar de cada um ser livre para ver o que quiser, ler o que quiser, beber o que quiser, inclusive veneno com sabor, todos somos obrigados a evoluirmos como espécie, sob o risco de amanhã não sabermos como reverter os problemas que causamos ao nosso planeta que poderiam ser resolvidos porque esquecermos de nos preocupar. Se nos importássemos com eles o mesmo tanto que nos importamos com novelas, Big Brother’s e Içami Tiba, já seria um bom começo.
Sobre o Artilheiro Colaborador
Jefferson Luiz Maleski, ou JLM, é leitor compulsivo. Talvez por considerar a leitura uma forma de diversão melhor que a TV, a Internet e as conversas de boteco. Ou por causa dos seus cursos de Direito e Filosofia. Com um pouco mais de 30 anos, mora atualmente em Anápolis, Goiás, e escreve resenhas e minicontos em vários sites da internet e/ou no Libru Lumen, seu blog pessoal.
Anagramas
O anagrama é uma espécie de jogo que consiste em rearranjar as letras de uma palavra ou frase para formar outras palavras ou frases. Utilizando-se das letras de “rota”, por exemplo, podemos formar a palavra “ator”. Entrando a atmosfera literária, pode-se citar que “Iracema”, do José de Alencar, corresponde a “América”. Sempre tive uma queda por anagramas, e achá-los em texto é uma brincadeira constante para mim. Lendo aquele rapaz, o tal do Machado de Assis, achei um exemplo perfeito de anagrama: em “A cartomante“, um de seus contos clássicos, ele dá logo a resposta da trama pelo nome da personagem – um leitor atento poderia sacar que “Rita” é um anagrama para “trai”.
Chico Buarque tem uma canção lindíssima que serve de exemplo, chamada “As vitrines”, composta para o disco Almanaque de 1981. Com exceção da primeira estrofe, todas as outras frases são anagramas – na letra abaixo, estas estão entre parênteses.
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=lDPKm_gon9U]
Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
- Dá tua mão
- Olha pra mim
- Não faz assim
- Não vai lá não
Os letreiros a te colorir (Ler os letreiros aí troco)
Embaraçam a minha visão (Embaçam a visão marinha)
Eu te vi suspirar de aflição (Vi tuas fúrias e predileção)
E sair da sessão, frouxa de rir (Errar sisuda, sã, fora dos eixos)
Já te vejo brincando, gostando de ser (Doce vento, grandes beijos do jantar)
Tua sombra a se multiplicar (Um militar saber tuas polcas)
Nos teus olhos também posso ver (Bem postos meus versos antolhos)
As vitrines te vendo passar (Patinavas, sorvetes, diners)
Na galeria, (Na alegria,)
Cada clarão (A cara do clã)
É como um dia depois de outro dia (Um doutor doido me cedia poesia)
Abrindo um salão (Um absalão rindo)
Passas em exposição (Pilão, sexo, asa, espaço)
Passas sem ver teu vigia (És súpita virgem avessa)
Catando a poesia (A asteca do piano)
Que entornas no chão (Quão sonha no center)
Para finalizar, um fato curiosíssimo: nem Shakespeare escapou de brincar com as letras. Em Hamlet, a frase mais famosa da obra é um anagrama perfeito para um resumo de tudo. Veja: “To be or not to be: that is the question; whether ’tis nobler in the mind to suffer the slings and arrows of outrageous fortune…”¹. E o anagrama: “In one of the Bard’s best-thought-of tragedies our insistent hero, Hamlet, queries on two fronts about how life turns rotten”². Interessante, não?
¹ Ser ou não ser: eis a questão; O que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremesso do fado sempre adverso… ² Em uma das tragédias mais imaginosas do bardo, nosso persistente herói, Hamlet, investiga em duas frentes como a vida pode ser arruinada.









