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Bombardeio X – Dia do Escritor
Hoje, dia 25 de Julho, celebra-se o Dia do Escritor. E, como vocês já devem ter percebido pelos posts gigantes e pelos comentários maiores ainda, o pessoal que frequenta e faz o Artilharia Cultural gosta (muito) de escrever. Tudo isso, porém, não aconteceu de repente. Independente de quando, de que forma ou em quais circunstâncias, todos aqueles que adquiriram o prazer de escrever, ganharam anteriormente o gosto em ler. Seja um gibi, uma história de contos de fadas ou o bilhetinho da primeira série, todo mundo que não aguenta ficar muito tempo sem escrever também não aguenta ficar sem ler. O nosso décimo bombardeio trouxe a equipe oficial do AC + 4 convidados para falar sobre seu autor favorito.
Manoel de Barros (@alicemariel)
De todos os nomes da lista quilométrica de pessoas que me fizeram gostar de ler, Manoel de Barros foi o único que me ensinou verdadeiramente a gostar de poesia. Lá no auge dos meus nove anos, enquanto eu devorava livros de escritores como José de Alencar e Machado de Assis e repudiava qualquer coisa que tivesse métrica e rimas imbecis, encontrei um livro miúdo, meio apagado, meio espremido entre os de literatura estrangeira na prateleira de uma livraria com mais teias de aranhas que clientes: o Livro das Ignorãças. Logo eu aprendi também que o Mato Grosso é dividido entre aqueles que não sabem quem é o cara e aqueles que morrem de orgulho da terra que o gerou. A simplicidade dos versos de Manoel me surpreendeu de tal forma que era impossível não me sentir tentada a dar uma chance àquilo que antes não parecia ser mais do que punhados de palavras vazias arranjadas para soar bonito. Manoel de Barros não só soava bonito pra mim como cada palavra trazia em si uma beleza daquelas que de tão delicadas você tem medo de pegar com a mão sem muito jeito e quebrar. Não precisa ser um gênio da literatura, mas se alguém é capaz de mudar sua maneira de encarar o mundo, sem dúvida é merecedor de respeito.
Do Fazedor de Amanhecer até o Guardador de Águas, Manoel é pra onde eu vou quando preciso de férias. Não é, nem de longe, o meu escritor favorito, mas pouquíssimos deles conseguiram me conquistar assim como o poeta pantaneiro fez.
José Saramago (@omgcaio)
Não lembro de quando li o primeiro livro do Saramago, mas sei que quando li, vi ali um autor que tinha nascido num país errado. Era tudo tão livre e dotado de um jeito pessoal de falar que se não soubesse antes, acharia com facilidade que ele era brasileiro, dada ao jeito tranqüilo de expressar tudo que pensava e sem se ater a nenhuma regra certa, exceto à inexistência de todas elas. E o fato de também não me apegar tanto às regras quando escrevo só me deixou mais próximo dele; e acho ser um sentimento que é compartilhado por todos que escrevem e acham um autor que chega próximo do seu estilo pessoal.
Apesar de não lembrar quando, sei que o primeiro livro que li dele foi o não tão disseminado como “Ensaio sobre a Cegueira”, mas sim o “As intermitências da morte”. Achei bem estranho acompanhar um jeito tão peculiar de escrever, mas depois que o costume te atinge, consegue compreender tudo com facilidade fora do comum. A ironia e o seu jeito de criticar as coisas também me atraiu bastante, principalmente quando retrata um governo completamente despreparado e que não liga muito para o bem estar da população. Saramago escrevia sobre pessoas, era raro tratar um indivíduo como único e especial, tanto que nomes são coisas completamente irrelevantes, e logo no final do livro achei peculiar ele se focar na história de um homem que não conseguia morrer, já que ninguém era tão especial. Demorei bastante tempo para conseguir ver um auto-retrato do autor e do romance com a sua mulher, Pilar, inserido de forma tão genial num livro que buscava tratar dos humanos de forma bastante generalizada e dos seus dilemas e certezas fúteis. É um dos meus autores prediletos e com toda certeza bastante influente tanto no meu modo de pensar quanto no de escrever, afinal “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.
Chuck Palahniuk (@noduro)
Chuck é um maestro. Sob sua regência estão seus personagens indomáveis, indecisos e incomuns. A plateia de seu espetáculo é qualquer mortal sortudo que tenha barrado com um de seus contos; qualquer ser humano que vive o martírio do século 21 onde as incertezas são maiores que a paixão e as verdades cruas são aos olhos brancos do preconceito pura bizarria.
O Clube da Luta, o romance de 1996, é o meu favorito. Mas devo considerar que a decisão foi deveras complicada ao lado de Cantigas de Ninar, Monstros Invisíveis e No Sufoco (todos os títulos já foram traduzidos para nossa língua).
Machado de Assis (@bielabagacera)
O que mais me fascina em Machado de Assis é o quanto ele se expõe em seus livros, antes mesmo dele ingressar de vez em sua fase Realista. Machado deixa muito claro em cada uma de suas narrativas a sua personalidade cética, sarcástica e perspicaz. Gosto de pensar que se hoje um Memórias Póstumas de Brás Cubas impressiona pela sua crueza, imagine só o quanto a obra machadiana não chocava a sociedade do século XIX. E ainda assim, ele era admirado e bem quisto. Um homem que consegue mesclar uma personalidade franca e realista sem se tornar uma pessoa desagradável aos olhos da sociedade que ele mesmo expõe, merece meu respeito.
Machado de Assis é o tipo de autor que eu leio e que fala por mim. Quando leio suas produções, sempre imagino que eu descreveria a situação do mesmo jeito. É uma identificação pessoal com seu jeito prático de ver os problemas e saber se eles podem ou não ser resolvidos. Assim como Machado de Assis, acho que sou uma conservadora. Gosto de ver a essência humana exposta, mas não de todo o seu íntimo. Isso tira a magia e nos transforma em meros animais.
Pra finalizar, recomendo que leiam as obras mais famosas de Machado porque simplesmente há determinadas coisas que não podem passar como desconhecidas por sua vida (e também porque provavelmente seus professores ou alguns vestibulares te obrigarão a ler). E então, leia A Mão e A Luva, uma produção da fase romântica do autor e que deixará bem claro o que quero dizer sobre o que é ter uma visão realista dentro de um romance.
Machadinho… Te dedico.
Luis Fernando Verissimo (@lucasbaranyi)
É complicado pra mim falar de Verissimo, quando ele foi um dos responsáveis pelo meu interesse em leitura. Mesmo quando eu não tinha idade o suficiente para entender as clássicas sacadas do autor, eu lia e me divertia. Executar o exercício hoje, então, é um deleite sem tamanho. E, cá entre nós, vamos deixar as palavras difíceis de lado, porque LFV não é disso. Apesar de inteligentíssimo, nunca foi de complicar suas histórias. Suas crônicas, que já deram títulos e recheio para vários livros (alguns dele que eu ostento com prazer em minha prateleira) se resumem ao cotidiano, à simplicidade. E é por isso que ele é um cronista tão bom. O gaúcho sabe guiar uma história, sabe denotar seu ritmo e sua mística, deixando geralmente uma reviravolta no fim (ou no começo mesmo, só pra variar).
Um traço curioso do autor é sua timidez. Apesar de muito criativo e despojado no papel, na hora de falar Verissimo se mostra um homem muito reservado e de poucas palavras. Uma característica que eu preciso falar aqui (e que fez com que eu também me identificasse muito com ele) é sua paixão pelo futebol. Verissimo é colunista no Estadão e, de vez em sempre, dá um pitaco ou outro sobre o mundo da bola. Como nem tudo é perfeito, porém, Luis é torcedor do Internacional de Porto Alegre. Isso, o vice da Copa do Brasil de 2009, que perdeu pro meu Corinthians. É, Verissimo. Eu lembro… E você também. Pra curar essa derrota, só com o analista de Bagé.
Jorge Amado (@larissagould)
Meu primeiro contato com a literatura adulta foi através de Jorge Amado e “Capitães da Areia”, e pasme, eu tinha nove anos. Eu sempre me envolvo com os personagens, e não seria diferente com o livro que até hoje está entre meus preferidos, passei alguns meses dormindo com a obra, na minha inocência infantil de que assim os personagens sofreriam menos. Na verdade o que faz com que Jorge Amado seja meu autor preferido, mais do que a qualidade de seus livros e temas abordados, embora esses sejam simplesmente compatíveis com as minhas opiniões, é a linguagem usada por ele. Jorge Amado é a prova viva (ta, não viva) que escrever bem não é escrever difícil, ele põe fim a idéia de cultura erudita, aborda temas populares com mérito único. Jorge Amado escreve para todos, sem detrimento de excelência, mesmo suas obras que não possuem cunho político são densas, de qualidade.
Fernando Sabino (@tauiltter)
Vou ser franco, logo de cara: Fernando Sabino é o meu mestre. Apesar de nunca tê-lo conhecido, o que seria cronologicamente impossível, aprendi o pouco que sei com dois autores, e Fernando é um deles. Devido à felicidade do meu ex-professor de literatura Jura que nos pediu para ler “O grande mentecapto”, tive contato com o escritor mineiro. Não parei mais. Embarquei em suas crônicas, li seus suspenses, li seus romances, li seus contos, seus contos de ainda iniciante, suas cartas trocadas com Mario de Andrade, por exemplo. Vi também alguns de seus documentários, porque Fernando Sabino era também metido no cinema. E na música, porque amava um jazzinho.
Raríssimas vezes li alguma crônica sua empurrado, e mais raras vezes ainda fiquei com cara de “an?, que porra é essa?” no final de algum escrito seu. Por ter sido também jornalista, suas palavras são economizadas, quase exatas mesmo. Sem supérfluos, sem lingüiça enchida. Já que esse espaço é livre, vou indicar alguns de seus livros de minha preferência: O encontro marcado, romance. Deixa o Alfredo falar!, crônicas. A nudez de verdade, conto.
Acho que Sabino tem que ser leitura obrigatória, pra todo mundo aprender: “e isso é que eu acho de trágico, de dramático, no dilema do escritor e no seu destino de artista: é que escrever é um ato solitário. Ou ele fica sozinho, como um demônio, amando apenas a si mesmo, ou ele, como um santo, sai amando a humanidade inteira”.
Stephen King (@muriloandrade)
O escritor que eu indico não é exatamente o meu predileto, mas foi um dos que tive o prazer de ler uma grande quantidade de obras, Stephen King. Stephen King foi um dos muito escritores que marcaram a minha vida. Você pode dizer o que quiser dele, de que é literatura barata, que existe muito escritor é melhor que ele, menos de que ele não cumpre o que promete fazendo grandes obras de suspense, superiores à maioria dos livros do gênero que vemos atualmente nas livrarias. Descobri a obra do Rei do Terror ainda na adolescência a partir do tijolão que é o Apanhador de Sonhos. A partir daí passei meus catorze e quinze anos lendo Iluminado, Carrie, Quatro Estações, A Torre Negra, À Espera de um Milagre, O Talismã, A Hora do Vampiro, A Coisa, entre outros dele. Ao contrário do que a maioria pensa a força das suas histórias não está em seus monstros, hotéis mal assombrados e carros assassinos. Eles são apenas uma válvula para que King possa explorar seus personagens em situações extremas e as atitudes que elas tomam. É como no clássico Drácula, onde o vampirão só aparece em uns 20% do livro e ainda assim a tensão e horror do livro são indizíveis.
Acho que pra qualquer fã do Stephen King não é fácil escolher a melhor obra. Mas um dos meus favoritos é O Talismã, escrito por King e por Peter Straub. O estilo um pouco mais poético de Straub aliado ao aprofundamento psicológico de Stephen King. O Talismã é muito mais que um romance, mas uma aula sobre a perda da infância e nos leva a refletir sobre nós mesmos.
Obrigado Stephen King por dar a nós aficcionados por horror grandes obras do gênero. Um dia eu escrevo um texto mais completo sobre você.
Morre José Saramago
Hoje pela manhã, a Literatura contemporânea perdeu um de seus mais sólidos pilares. José Saramago, escritor português, morreu em sua casa de falência múltipla de órgãos aos 87 anos.
De acordo com seus parentes, o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o prêmio Nobel morreu em paz, “despedindo-se de um modo sereno e plácido”.
Há pouco tempo, teve um de seus mais célebres livros adaptados ao cinema por Fernando Meirelles. Saramago se emocionou ao ver Ensaio sobre a cegueira na telona.
Sempre polêmico por enfrentar e denunciar a igreja católica e a política capitalista, José Saramago deixa este mundo com cerca de 35 livros publicados.
Twitter literário – autores
Até pouco tempo atrás, quando a internet começou a se alastrar pelo país todo, muita gente dizia que ela iria alienar nossos jovens, acabar com o contato humano, que iria, em suma, destruir com a criatividade das crianças. Bem, essas crianças cresceram e parece que, pelo menos em parte, não seguiram as previsões alheias. O twitter, uma das ferramentas sociais mais utilizadas na atualidade, está repleto de arte e de criatividade. Resolvi listar alguns twitters que prestam homenagem à literatura – seja com frases dispersas ou até mesmo os próprios autores e poetas. Pretendo fazer disso uma subcategoria, quem sabe numa próxima postagem falar de editoras e tal. Espero receber críticas nos comentários, do tipo “faltou fulano” etc.
Carlos Drummond de Andrade – @drummondandrade – Drummond é essencial, seja para se ler em casa ou no twitter. Uma homenagem muito bem feita, bem dosada e bem administrada.
João Guimarães Rosa – @jguimaraesrosa – Pouquíssimo atualizado, mas Guimarães sempre, sempre vale a espera.
Paulo Leminski – @leminski – Leminski é genial e pouco conhecido. Espero, então, que seguindo essa conta, você tenha contato com a poesia de Paulo. Freqüentemente atualizado.
Nelson Rodrigues – @rodriguesnelson – Também não aparecerá muito na sua timeline, mas suas tiradas e dizeres são únicas.
José Saramago – @_saramago – Homenagem ao autor luso, muito bem administrada. Serve de exemplo para todos os outros que abrem contas para postar frases e simplesmente as abandonam ao relento.
Chico Buarque – @buarquices – Chega de frases de música mal diagramadas, o negócio aqui é literatura. Embora alguns ainda torçam o nariz para os romances de Chico Buarque, vale a pena conhecê-los, ainda que em mínimas amostras, através dessa conta. E não vou falar mais nada, afinal, essa conta é atualizada por este que vos escreve.
Fernando Sabino – @letrasdesabino – Não é muito assíduo nas timelines, mas cada linha desse gênio tão pouco discutido no Brasil é um presente. Às vezes, também, pinta uma notícia sobre algo relacionado ao Sabino.
Fernando Pessoa – @fernandopessoa – Muitíssimo bem atualizado, a responsável pela conta mantém uma interatividade com seus seguidores, dando RT, com créditos, para as frases do Pessoa que são enviadas a ela.
Antônio Xerxenesky – @xerxenesky – Conta do próprio Antônio, não se destina a frases de sua obra iniciante, mas é interessante acompanhar o autor de “Areia nos dentes”, um romance sobre zumbis no faroeste, que já está indo para a sua segunda edição.
Luis Fernando Verissimo – @luisfverissimo – Esta homenagem ao Verissimo chega a postar crônicas inteiras. Pode ser que alguns perfeccionistas achem que sua timeline fique bagunçada (mimimi), mas vale pela primazia dos escritos de Verissimo.
Fabricio Carpinejar - @carpinejar – Mais um autor contemporâneo. Pensamentos e frases soltas de Fabricio. Indico para quem gosta de uma poesia mais alternativa.
Paulo Coelho – @paulocoelho – Atualizado pelo próprio. Tem quem goste. Sem mais.
Millôr Fernandes – @millorfernandes – No comando do próprio Millôr. Frases que você já leu por aí e também muita coisa nova. O colunista da Veja, sempre bem antenadinho, garante algumas risadas com sua ironia sutil e também alguns momentos de reflexão.
Florbela Espanca – @almaespanca – Uma homenagem à poetisa, não muito atualizada e sem interatividade. Mas, pô, quando vem, é um verso da Florbela e isso basta.
Miguel de Cervantes – @soy_cervantes – O maior expoente da literatura espanhola. Nada melhor que aparecer em sua tela frases do genial Dom Quixote. Um must para todos os leitores.
Clarice Lispector – @clalispector – É a autora que mais tem contas em sua homenagem, o que me dificultou a escolha. Enfim, as frases e os poemas da Clarice são batidíssimos na internet, mas nem por isso perderam totalmente o seu brilho. Ainda não vi sendo postada nenhuma frase falsamente atribuída à autora, o que contou positivamente para minha escolha.
Luis Vaz de Camões – @luisvazcamoes – Clássicos poemas do Camões, aclamado por unanimidade como o maior poeta da língua portuguesa. É isso.
J.K. Rowling – @jk_rowling – A autora de Harry Potter não posta frases de seus livros, mas como a série do bruxo tem muitos fãs, talvez eles achem legal segui-la.
Augusto dos Anjos – @eueoutrospoemas – Poemas do maldito Augusto dos Anjos. O legal é que o responsável traz sempre o título do poema. É um negócio mais escatológico, mais underground, mas é um prato cheio pra quem gosta.
Caio Fernando Abreu – @cfernandoabreu – Detém, junto com Clarice Lispector, o maior número de homenagens no twitter – vai ter fã assim lá longe -, mas ainda assim de qualidade.
Neil Gaiman – @neilhimself – Assim como a Rowling, é uma conta pessoal. Sem trechos de suas obras. Mas é o Neil Gaiman.
Manoel de Barros – @poeta_manoeldb – Quem lê poesia e não lê Manoel de Barros, não tem moral. Cada verso é um facho de luz. Recomendo bastante.
Vinicius de Moraes – @vdemoraes – Homenagem ao poetinha visando mais seus poemas, embora também tenha frases de músicas. Saravá, Vininha!
Edit: mais autores, indicados nos comentários pelos leitores
Lucio Cardoso – @lucioclucio – Conta ainda fresca porém bem atualizada. Uma homenagem à paixão de Clarice Lispector e à inspiração de Caio Fernando Abreu
Mario Quintana – @maquintana – Falha minha ter deixado de fora essa homenagem ao Quintana, bem atualizada e bem diagramada.
15 músicas Lado B de Chico Buarque
Estava eu lendo alguns blogues interessantes quando me deparo com uma postagem do Alessandro Martins, lá no Livros e Afins, escalando algumas músicas do Chico pouco conhecidas. Eu me senti na obrigação de fazer o mesmo. Se você acha que eu já escrevi muito sobre o Chico, rapaz, pode sentar e chorar. Você ainda vai ver muita coisa desse cara por aqui.
A lista não está em ordem de preferência, só pra esclarecer.
I. Mar e Lua
Preste atenção na letra. Você entenderá a temática: um amor lésbico. Interessante o homossexualismo escondido assim em metáforas tão bem feitas. Veja bem: não acho que aqui as metáforas existem por conta da Ditadura, e sim para embelezar a música. Não é a minha gravação preferida – quem estiver disposto, procure uma versão de Chico com o Trio Esperança.
II. Assentamento
Gosta de João Guimarães Rosa? Escute essa música, então, e ache as referências ao universo roseano. É fantástica. Indico pra quem gosta de literatura.
III. Meu caro barão
A gravação aí é meio precária, mas vale pelo humor da letra. Foi feita para o filme dos Trapalhões, que trabalhavam como faxineiros num circo. Se não me falha a memória, o barão, dono do negócio todo, um dia some com o dinheiro e deixa todo mundo na mão. Os pobres faxineiros resolvem, então, escrever uma carta ao barão com uma máquina de escrever que encontraram por lá. É a música. O divertido é a tônica das palavras que Chico altera propositalmente, primeiro porque os Trapalhões, no filme, eram analfas. Segundo para encaixar na melodia. Por exemplo, ridícula vira ridicúla e por aí vai.
IV. Mano a mano
Única parceria com João Bosco, gênio do violão. Retrata a história de dois caminhoneiros amigos disputando uma mesma mulher. Todas essas palavras soltas na música são cidades interioranas. O que, logicamente, nos passa a idéia do roteiro que os caminhoneiros fizeram. Coisa de louco.
V. Meia-noite
Ótima gravação do grupo Argonautas para uma canção de Chico e Edu Lobo. Bem profunda e densa. Lindíssima.
VI. Bem querer
Feita para gravar com Maria Bethânia. Gosto de como as palavras são dispostas nessa música. Apesar dessa fase da Bethânia não me agradar muito (pelos berros e pelo sotaque forçado), acho a melhor gravação da música. Recomendo.
VII. De volta ao samba
Composta para abrir os shows da turnê “Paratodos”, de 1993. Reparem em como a morte e a efemeridade da vida são retratadas. Além do conteúdo, tem uma batida bem gostosinha, também.
VIII. Romance
Do CD Paratodos, que embora não seja um sucesso de público, traz umas canções extremamente maduras sobre o tempo e a vida. Romance é uma delas. De início, não gostava muito, achava a melodia chata. Fui ouvi-la alguns anos mais tarde e me surpreendi. Fica a dica.
IX. Injuriado
Sambinha maroto e muito simples. Aquela levada que gruda e você se pega cantarolando enquanto atravessa a rua. O vídeo é ao vivo, embora eu prefira a gravação com sua irmã Cristina Buarque, no disco “As cidades”. À época, disseram que era uma mensagem para o Fernando Henrique Cardoso. Fala sério, gentalha da mídia impressa.
X. Cecília
Parceria com Luiz Cláudio Ramos. A mais bonita das canções com nome de mulher. Cecília pra mim é sublime. O nome é extremamente musical, quase um sussuro, um sopro, e Chico soube aproveitar isso muito bem. Se eu fosse mulher, iria querer me chamar Cecília só por causa dessa música. Falei mesmo.
XI. Caçada
Caçada eu acho demais. Foi feita para o filme do Cacá Diegues “Quando o Carnaval chegar”. Rodava em uma cena de amor adolescente entre o casal principal da trama (o homem, por sinal, era comicamente interpretado pelo próprio Chico). Por causa do erotismo explícito, a música chegou a ser censurada e proibida de ser tocada em rádios.
XII. Como um samba de adeus
Embora as pessoas sempre liguem o Chico ao Caetano Veloso, eles só possuem duas parcerias. Uma é a animada “Vai levando”, e a outra é esta, melancólica. Eu explico: é uma homenagem póstuma a Tom Jobim. Tom morreu em 1994, e no ano seguinte Chico e Caetano fizeram essa belíssima canção para Gal Costa gravar em seu disco só com músicas da dupla. Prestem atenção nas referências ao Tom. Como não achei a gravação da Gal no YouTube, vai essa mesmo. É amadora, mas o cara mandou muito bem.
XIII. Essa passou
Parceria do Chico com um dos bossa novistas mais ilustres: Carlos Lyra. O dueto saiu no disco “E no entanto é preciso cantar”, do Lyra, e não saiu no “Construção” do Chico por motivos até hoje desconhecidos por mim. Nem o próprio Carlos, em entrevista, soube me dizer.
XIV. Um tempo que passou
Única parceria de Chico com Sérgio Godinho, cantor e compositor português. O sotaque luso encaixou-se perfeitamente. Acho que essa música transcende nossos ouvidos, gosto de tudo que é ligado ao tempo.
XV. Fantasia
Essa gravação foi feita para o CD “Terra”, que era vendido junto com um livro sobre o Movimento Sem Terra com fotos do Sebastião Salgado e texto do José Saramago. Ei, garoto, atenção: essa música não foi feita para o MST. O disco “Terra” trazia quatro canções ligadas à pobreza, à miséria: Fantasia, Brejo da Cruz, Levantados do Chão e Assentamento, já mostrada aqui.
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Sentiu falta de alguma? Grita aí nos comentários que, de repente, posso fazer um volume dois.













