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A Nova Gnomonia de Jayme Ovalle

Em algum momento do final dos anos 20, num café do Rio de Janeiro, Manuel Bandeira encontrou Jayme Ovalle e Augusto Frederico Schmidt envolvidos numa discussão sobre um político da época. Não chegavam a um consenso a respeito do figurão, cujo nome infelizmente se perdeu, e a certa altura Ovalle, pondo a mão sobre o joelho do amigo, quis encerrar a conversa:

- Seu Schmidt, vá por mim! Aquele sujeito é do Exército do Pará!

- Exército do Pará? – quis saber Bandeira, varado de curiosidade. Quando se levantou da mesa, horas mais tarde, o autor de Libertinagem levava assunto para um artigo que se tornaria célebre. Publicado no Diário Nacional, de São Paulo, em 17 de outubro de 1931, esse texto registrou aquela que foi, ao lado do “Azulão”, a mais famosa criação de Ovalle: a Nova Gnomonia.

Não havia melhor jeito de fazer a introdução desse post, senão com um trecho do livro que o inspirou. Trata-se da biografia “O santo sujo – a vida de Jayme Ovalle“, do jornalista Humberto Werneck, lançada em 2008 numa belíssima edição de capa dura da Cosac. Eu a li na época do lançamento, e o prêmio Jabuti que recebeu como melhor biografia do ano realmente foi merecido. Confesso, no entanto, que li esse livro escondido, não queria que me vissem com ele para não ter que enfrentar a pergunta: “mas quem foi Jayme Ovalle?”. A cada nova tentativa de explicar quem foi essa figura tão fundamental ao modernismo brasileiro, esse compositor, esse poeta, eu me afundava mais e mais. Não bastava parafrasear Humberto, dizendo que embora a obra de Ovalle seja quase nula, ele tenha sido “um sol que iluminou a obra das pessoas com qum conviveu”, como Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, Sérgio Buarque de Holanda, Di Cavalcanti – e todos, sem exceção, escreveram sobre Jayme Ovalle. Ele foi, sobretudo, um mistério, uma figura mística até hoje pouco explicada, e a leitura de “O santo sujo” é indispensável para quem quiser saber mais do modernismo brazuca e do cenário intelectual da época. E, claro, para quem quiser também conhecer essa figura, responsável por uma das brincadeiras intelectuais mais interessantes já criadas, aquela que ficou conhecida como A Nova Gnomonia.

Sem delongas, munido do meu exemplar de “O santo sujo”, vou explicar a vocês no que consiste essa brincadeira de um “boêmio intelectual”, e não de um “intelectual boêmio”, como bem frisou Osório Borba: classificar a humanidade em cinco categorias:

1. Exército do Pará

Formado por “esses homenzinhos terríveis que vêm do Norte para vencer na capital da República”. Sujeitos “habilíssimos, audaciosos, dinâmicos”, visando “primeiro que tudo, o sucesso material, ou a glória literária, ou o domínio político”. Extrovertidos, vencem onde quer que chegam. O “Norte” logo deixou de se referir exclusivamente ao Pará e passou a englobar todo o canto do país, pois lembrou Bandeira que “quase toda a imprensa carioca está nas mãos de nortistas, e há dezesseis anos os coronéis da política brasileira são manejados pelos gaúchos”. Entre os paraístas, destacaram Padre Vieira, Inácio de Loyola e José de Anchieta. Como toda categoria tinha um anjo, para esta ficou sendo Osvaldo Orico, escritor que “numa roda [...] insinuará que é quem melhor escreve no Brasil, chegará a dizer que não vota nos concursos para ‘príncipe dos prosadores’ porque não lhe será lícito votar em si mesmo”.

2. Dantas

A categoria almejada por todos, onde “os homens de ânimo puro, nobres e desprendidos, indiferentes ao sucesso na vida, cordatos e modestos, ainda quando tenham consciência do próprio valor” se encaixam. “Não se exige dos Dantas virtudes permanentes. Há sempre Dantas trêfegos e pecadores. Mas eles devem acima de tudo amar a qualidade”, explica Ovalle. Entre seus representantes, São Francisco de Assis, o historiador Capistrano de Abreu, o Barão de Itararé e a dama francesa Elizabeth Leseur, que ao morrer deixou um diário que converteu seu viúvo ateu ao catolicismo a ponto de participar da ordem dos dominicanos. Como anjo, embora um pouco reprovado por Ovalle, ficou sendo San Thiago Dantas, jurista, professor, jornalista, ex-deputado federal, ex-ministro das Relações Exteriores e da Fazenda e representante do Brasil nas Nações Unidas.

3. Kernianos

“Indivíduos de bom coração, capazes de grandes sacrifícios pelos outros, deixam-se no entanto arrastar às vezes à prática dos atos mais condenáveis, não por maldade, mas por um impulso irresistível de cólera”. Assim disse Manuel Bandeira, que para melhor ilustrar um kerniano citou a história de um sujeito que, irritado, não se conteve com uma viúva e lhe deu um pontapé na barriga. A mulher morreu de imediato, pois estava grávida. O homem chorou, arrancou os cabelos, desculpou-se com o cadáver e acolheu os onze filhos que a mulher deixava, dando educação e o mesmo carinho que dedicava aos seus próprios filhos. São também exemplos de kernianos  o poeta Byron e o imperador D. Pedro I – eu me lembro de Werneck justificando a presença do imperador: “somente um kerniano puxaria uma espada e gritaria ‘indepedência ou morte!’”. De anjo, sobrou para Ari Kerner, pianista, jornalista, autor teatral e funcionário público, que, rindo, protestava: “por causa dessa história de anjo eu ainda acabo dando muito tapa em algum!” – o que confirmaria o seu posto de kerniano.

4. Mozarlescos

De acordo com Humberto Werneck, os mozarlescos seriam gente mais difícil de se classificar. Diz Bandeira: “os mozarlescos são sentimentais, acreditam no esperanto, choram nos cinemas”, “são pessoas que se exprimem ou obram de molde a fornecer aos que os observam uma impressão de coisas consideráveis, ao que todavia não corresponde o conteúdo de suas palavras ou das suas ações”. Difícil? Peraí: “Acreditam no sufrágio universal” e “manifestam decidido pendor pela pedagogia”. “Em todo poeta existe algo de mozarlesco”. Para Vinicius de Moraes, que estendeu a classificação também aos objetos, “mozarlesco é tudo que é primordialmente coração e vísceras”. O anjo não era Wolfgang Mozart, que sabidamente era um dantas, mas sim do jornalista, professor e escritor Francisco Mozart do Rego Monteiro.

5. Onésimos

De novo, Bandeira – a quem, percebe-se, deve-se todo o registro da Nova Gnomania: “o onésimo duvida, sorri, desaponta: diante dele ninguém tem coragem de chorar. [...] Os onésimos não são maus. O drama íntimo dos onésimos é não sentirem entusiasmo por nada, não encontrarem nunca uma finalidade na vida. Não obstante, se as circunstâncias os colocam inesperadamente num posto de responsabilidade, podem atuar (não todos, é verdade) com o mais inflexível senso do dever”. Para Vinicius de Moraes, “são as pessoas que têm o dom de esfriar ambientes, de modificar o metabolismo próprio das coisas, de deixar as pessoas mal à vontade”. Para Ovalle, nada mais onésimo que um árabe no elevador. Bandeira disse que os onésimos seriam, em geral, os humoristas, e cita o poeta Heine e também o sociólogo Gilberto Freyre. O anjo era Onésimo Coelho, homem capaz de esfriar uma roda de conversa sobre a salvação do país.

Certamente, enquanto lia esse post você deu uma risadinha porque lembrou de fulano, que só pode ser um kerniano, ou um dantas etc. Na época, era muito comum que se reunissem os intelectuais e brincassem de classificar todo mundo nessas cinco categorias. Ficou decidido, no entanto, que é muito normal um homem ter características que se encaixam tanto aqui quanto ali, neste caso ele fará parte da predominante. É importantíssimo também saber da teoria da gravitação, atribuída a Sérgio Buarque de Holanda: um sujeito não está preso somente a uma classificação pelo resto da vida, é possível que ele caminhe entre elas. Mais tarde, tentaram ampliar a Nova Gnomonia ao criar novas categorias, como por exemplo os Caetanos – não, não são pessoas que xingam a MTV porque seu anjo não era Caetano Veloso -, mas não colou.

Humberto Werneck reservou um capítulo inteiro de seu livro para essa brincadeira. Achei delicioso ler e escrever sobre a Nova Gnomonia. Lamento ter de usar tanta citação, mas achei que seria um bom tema para se mostrar aos leitores do Artilharia. Agora, procuro adeptos que queiram se juntar à causa e numa roda de boteco perguntar: fulano é o quê? e eu? e você?

Humberto Werneck lança livro no Rio

Eu sei que você deve estar pensando “lá vem esse cara que fala sempre das mesmas coisas”, mas a repetição, se fora do programa dos Teletubbies, às vezes vem para o bem. Ainda mais quando é para falar de Humberto Werneck, jornalista, escritor e amigo do Artilharia. Ele é autor da reportagem biográfica do Chico Buarque, o “Tantas palavras”. Da biografia do misterioso Jayme Ovalle, o “Santo sujo”. De um livro sobre os escritores e jornalistas de Minas Gerais, o “Desatino da rapaziada”. De “O pai dos burros”, um divertido dicionário de frases feitas. De “Pequenos fantasmas”, um apanhado de contos. E organizou algumas coletâneas, como o volume “Boa companhia: crônicas”, e outros livros com o trabalho de Murilo Rubião e Ivan Ângelo, por exemplo.

Chega de apresentá-lo, porque o leitor do AC já o conhece, inclusive como nosso colaborador. Esse post está aqui para convocar todos os nossos soldados cariocas a prestigiarem o lançamento de mais um livro do Humberto, “O espalhador de passarinhos”, uma coletânea de crônicas – gênero, aliás, submisso à pena experiente do escritor mineiro. Como ele mesmo disse, “o autor lá estará autografando livros, o que não mais acontecerá se estiverem certos os arautos do apocalipse que pressagiam a morte do livro impresso. Portanto, é aproveitar a oportunidade!”.

O espalhador de passarinhos & outras crônicas

12 de agosto, quinta-feira, a partir das 20h

Na livraria da Travessa – Rua Visconde de Pirajá, 572, Ipanema

Mais informações: [21] 3205-9002 ou www.travessa.com.br

Eu mesmo já li e confirmo que trata-se de um ótimo livro, essas crônicas só não levam selo de qualidade porque não existe tal coisa na literatura. Indico, empresto e espalho panfletos.

Especial FLIP 2010 – Dia 3

por Tauil 

 Hoje o dia foi muito mais calmo. Não sei o porquê, mas nada de errado aconteceu comigo – o que é, de fato, muito estranho. A começar pela manhã: não perdi a hora, não teve fila pra tomar banho e tinha até açúcar pro café. E os caras do albergue até pareciam sóbrios. Enfim, me arrumei e saí pra caminhada. Comprei uma água de coco, porque só existem três coisas que eu gosto em cidades litorâneas: ver o mar, sentir a brisa marinha e tomar água de coco. O coco daqui é diferente do coco de lá, cheguei à conclusão de que só vai para o interior a sobra da sobra da sobra.

Depois, encontrei alguns conhecidos e fui tomar um café com Humberto Werneck, que é um queridíssimo meu. Mesmo sem saber, ele é o meu padrinho literário, é quem me aconselha e me guia: leia isso, isso aqui não ficou bom, preste atenção nisso. E tomar café com o Werneck é conhecer gente interessante, porque é incrível como as pessoas gostam de acompanhá-lo e ouvi-lo. O que se dá devido ao seu bom humor e seu conhecimento literário: para tudo há uma citação, uma anedota, mas sem nunca esbanjar cultura a ponto de fazer os outros se sentirem envergonhados. E como não podia ser diferente, mais uma vez segui o seu conselho e fui ver a gravação de um programa chamado Jogo de Idéias, que vai ao ar em setembro pela TV Cultura. Foi gravado lá na Casa da Cultura, onde ocorre uma programação paralela à FLIP – às vezes mais interessante, sempre mais barato -, e consistia numa entrevista com o jornalista e escritor José Castello, acompanhado de Cristóvão Tezza e um outro que sinceramente não me recordo o nome e não estou muito pra pesquisas. Bem humorado, José Castello falou de um livro seu que vai ser lançado semana que vem, chamado Ribamar. O interessante do livro não é só o seu enredo – a angústia de um filho ao tentar conhecer melhor seu pai -, mas sim a forma que Castello deu à sua construção, baseado inteiramente na canção que seu pai cantava para niná-lo. Pretendo falar melhor sobre isso num post à parte quando o livro for lançado, mas para se ter noção, cada tom representava X caracteres que ele poderia escrever, cada nota representa um assunto (fá para infância, por exemplo: assim todo capítulo que fosse correspondente à nota fá seria sobre a sua infância). Muito curioso e penso que original.

Fui fechar o dia num restaurante chamado Buenos Aires. A dona, uma argentina que não faz nenhum esforço para aprender o português, deixava à mostra uns livros de uns craques argentinos, como o tal do Jorge Luis Borges. Os argentinos têm mesmo esse exagero de patriotismo cego, ainda mais em solo brasileiro. Sei que por um breve instante me passou pela cabeça furtar aquele Trabajos Completos de Jorge Luis Borges, mas passou rápido. Preciso tratar esse ímpeto de botar no casaco esses livros fodas que ficam servindo de enfeite – ou você acha que alguém vai ler Borges no original num restaurante?

De volta ao albergue, tive a impressão de que a moça que ontem estava dividindo a cama com um cara hoje está com outro. Mas acho que foi só impressão. Espero. Ah, ia me esquecendo de dizer que conheci a nossa colaboradora Izze! Ela faz suas resenhas no r.izze.nhas e está aqui cobrindo o evento para o nosso aliado Ambrosia. Simpaticíssima, mas já com essa síndrome de jornalista, essa mania de querer estar ocupada o tempo todo com compromissos. Vai morrer cedo de problema cardíaco, coitada.

Fico por aqui e amanhã tem Ferreira Gullar, porra!

Especial FLIP 2010 – Dia 2

por Tauil

Andar em Paraty é gastar a sola e ter calo nos pés. Os sádicos se divertem, porque não são raras as pessoas que confundem os passos nessas rochas irregulares do tempo do bisavô do seu trisavô e acabam de quatro, ou pior, no chão. Por pouco não entrei para esse time, pois de manhã eu andava como um zumbi. Também, ontem talvez tenha sido a pior noite de sono de todos os meus tempos, e olha que eu já acampei e já dormi em carro e tal. O motivo? Pernilongos. Os motherfuckers pernilongos. É um bicho detestável, com certeza foram feitos num dia de muita inspiração do diabo – ou de muito relaxo de deus, vai saber. O que me mata não é nem a coceira, pois isso passa – é o zumbido, esse zzz constante sobrevoando a cabeça da gente. Eu tinha duas opções: ou aceitar a derrota e entender que seria uma noite mal dormida, ou lutar pelas minhas horas de descanso.

Foi inútil perguntar se havia repelente na recepção, pois esses argentinos só sabem fumar maconha e dizer “hmm, no lo sei”, num portunhol que chega a ser engraçado. Não quis desistir tão fácil assim, e dei um prejuízo aos meus inimigos esmagando dois ou três deles contra a parede. Acabei armando uma tenda com o lençol que me protegeu um pouco. Pensei em convocar meu companheiro de quarto às armas, “vamos acordar e matar todos eles”, mas não soaria tão bem. Resolvi botar um braço meu pra fora, na inocência de que eles pegariam logo o meu sangue e me deixariam em paz, mas esses demônios são insaciáveis.

Depois dessa noite de merda, fui pegar o meu notebook e constatei um enorme “você se fodeu” escrito na tela. Metaforicamente, é claro – a tela assumia cores que iam do verde ao roxo, e eu até achei bonito isso, mas arrumar esse negócio de LCD com certeza vai me sair bem caro. Tirando isso, foi um dia bom. Comecei com a mesa de Edson Nery da Fonseca, uma sumidade cultural presa a um corpo de 90 anos, e Moacyr Scliar, médico e escritor. Tio Dison novamente levantou a FLIP em aplausos, falou muito bem e passou um bom tempo autografando e tirando fotos, mais do que um senhor de sua idade pareceria aguentar. Mais tarde, o grande destaque da feira apareceu: Isabel Allende, uma mulher encantadora de um metro e meio, conduzida pelas perguntas do sempre ilustre Humberto Werneck. Dessa mesa vi pouco, e lamento isso, mas precisei sair na metade para pegar um lugar na fila de autógrafos. Acho que essa fila só perdeu pra do Chico Buarque e pra do Neil Gaiman. E ela fez questão de burlar a regra de que seria apenas um livro por pessoa – “no, todos!”. Em seguida bati um papinho com Zuza Homem de Mello, que prometeu uma entrevista via e-mail pro Artilharia.

Andei pela praça, andei pelos becos da cidade, andei pelas avenidas e andei mais um pouco. Passei por outra coisa interessante, que era uma jazz band móvel, patrocinada pela Bohemia. Sax, clarinete, trompete e trombone andando pelas ruas e arrastando junto uma multidão. Pra fechar o dia, preciso dizer duas coisas: eu me senti muito cult comprando A Divina Comédia numa edição bilíngue da Editora 34 e a Regina Casé é realmente muito feia.

Por hoje é só. Voltei mais cedo na esperança de ver o debate mas esse albergue é tão cacareco que a TV não funciona. Ah, e eu comprei também um pote enorme de repelente, quero ver quem pode comigo essa noite.

Na mira: Humberto Werneck

Humberto Werneck é um múltiplo. Você deve conhecê-lo como jornalista, afinal, são mais de quarenta anos assinando textos em grandes veículos como Playboy, IstoÉ, Veja, Jornal da Tarde etc. Não te soou familiar o nome? Então, talvez você o conheça como escritor – “O pai dos burros“, “O desatino da rapaziada“, “Pequenos fantasmas“? Nada? Você já deve ter lido algum livro prefaciado e organizado por ele – “Boa companhia: crônicas” ou “Ivan Angelo: coleção melhores crônicas“? Não ajudou? Deixe-me ver. Quem sabe você o conheça como biógrafo – “Tantas Palavras“, a respeito de Chico Buarque, e “O Santo Sujo“, sobre Jayme Ovalle? Ou, ainda, como participante de dois anos consecutivos da Festa Literária Internacional de Paraty, a famosa FLIP?

Se ainda assim você acha que nunca ouviu esse nome, essa entrevista é uma oportunidade de conhecê-lo e, mais do que isso: acompanhá-lo. Atualmente, Werneck publica uma crônica semanal no caderno Outlook do jornal Brasil Econômico. Nós, do Artilharia Cultural, garantimos a qualidade.

1. A pergunta é clichê, mas precisa ser feita: a convergência de novas mídias e a importância com que a informação se espalha, hoje, na internet, é o primeiro real risco para os impressos (que sobreviveram ao rádio e TV)?

Tenho pouca paciência com os arautos do apocalipse. Essa gente para quem é tudo como numa partida de futebol, em que para entrar um jogador algum outro tem que sair. Para insistir na imagem, não considero a hipótese de expulsão. A menos que a mídia impressa não saiba se adaptar ao novo ambiente. O que provavelmente acontecerá se não se voltar à razão de ser do jornalismo, que é a busca de informação de primeira mão e de primeira ordem. Leia-se: voltar à reportagem, hoje tão negligenciada. Imagino que o jornalismo tenha nascido no dia em que numa comunidade primitiva o pessoal pediu a um camarada para ir verificar que barulho era aquele no outro lado da montanha. O ofício se sofisticou, claro, acrescentou outras preocupações, mas fundamentalmente continua sendo isto: ir ali para ver o que se passa. E não se está indo. O jornalismo impresso estará ameaçado, além disso, a informação bem apurada não for bem tratada, sob a forma de um texto que além de substancioso e rigoroso tenha a capacidade de seduzir. Seduzir não é fazer charme, é estratégia de sobrevivência. Aquela história do sapo: ele salta não é por boniteza, mas por precisão, para não ser comido pela cobra. Já que o leitor é esquivo e volátil, quem quer ser lido tem que seduzir. Simplesmente jogar garrafa ao mar não funciona. Eu não tenho religião, mas tenho padroeira: Sheerazade, aquela moça que salvou o pescoço ao longo de 1.001 noites, não só com a qualidade de suas histórias, mas também com a maneira de contá-las ao sultão, com a magia do seu relato. Se alguém deixa pelo meio a leitura de um texto meu, significa que fui decapitado.

2. Especula-se muito sobre a imparcialidade do Jornalismo, o que, para muitos, é um mito. É possível fazer jornalismo imparcial?

A imparcialidade, assim como a objetividade, é algo que jamais se alcançará, já que tudo de nós vem filtrado pela subjetividade. O mesmo fato acontecido diante dos meus olhos e dos seus será contada de maneira diferente por um e por outro. Mas nem por isso um jornalismo deve desistir de buscar, o tempo todo, a imparcialidade e a objetividade. Quanto mais perto delas chegar, melhor – mais bem servido estará o leitor, o ouvinte ou o telespectador, que nos delegou a tarefa de lhe trazer as novidades. E não custa lembrar que é ele – e não o dono do jornal, nem o anunciante – que paga o salário do jornalista.

3. Qual a visão de um profissional que está há 40 anos na área (é isso, Humberto?) tem do atual panorama jornalístico brasileiro?

Já são 42 anos de jornalismo, pois comecei no emblemático maio de 68. Sem nostalgia, me preocupam duas coisas em especial. Uma é o abandono da reportagem, de que já falei. Deixou de ser obrigação o repórter ir à rua, ao mundo, às pessoas, aos fatos. Por comodismo, preguiça ou alegada falta de meios materiais, muita gente prefere se bastar com a internet, no bem-bom refrigerado da redação. A internet é uma ferramenta maravilhosa, mas apenas isto, ela não pode ser tomada como um Bezerro de Ouro. Já propus dar o próximo Prêmio Esso de Reportagem ao Google… Outra coisa que me inquieta é a crescente partidarização no jornalismo, o uso da mídia para vender como informação o que na verdade é opinião. Por mais nobre que seja a causa, isso não é jornalismo, é propaganda.

4. A internet democratizou a escrita. Hoje, com a facilidade dos blogs, todos podem publicar seus textos. Se por um lado podemos encontrar escritores medíocres que nem revisam ou peneiram seus textos, do outro despontam novos talentos. Qual sua opinião sobre isso?

Estamos assistindo a um saudável estouro da boiada. Em princípio, é muito bom que cada um possa escrever e pôr no ar sua palavra. Mas começo a me perguntar: quem lê tanto blog? O possível leitor talvez não esteja lendo, já que está, ele mesmo, escrevendo no seu blog… Falta leitor para tanto escritor. Até por isso, vai chegar um momento, se é que já não chegou, em que toda essa produção terá de passar por uma peneira, por um teste de qualidade – e não é difícil saber que bem pouca coisa vai resistir. Sempre foi assim, muito antes da internet. Drummond disse melhor do que eu, claro: “Passam gênios talvez sob as acácias…”

5. Momento Caras: dentre todas as pessoas que você já entrevistou, existe alguma que te surpreendeu com alguma sabedoria? Alguma que, depois da conversa, te fez parar para pensar.

Várias. Gilberto Gil, por exemplo. Além de músico excepcional, é um sábio.

6. Ainda na linha dos entrevistados, que não foram poucos, qual te fez passar o pior sufoco?

Houve uns tantos. Por exemplo, um pedagogo mundialmente conhecido – não vou citar o nome, porque está morto. Ele ignorou quase todas as minhas perguntas, porque tinha pronta na cabeça uma entrevista, que foi desfiando, com voz mansa, episcopal, durante mais de duas horas, numa demonstração de que a arrogância pode se fingir de doçura. E eu estava numa situação em que não poderia me levantar e ir embora.

7. Ultimamente as pessoas têm discutido sobre uma possível regulamentação da profissão de escritor. O que você acha disso?

É falta de assunto. Coisa de burocratas. Se bobear, vem aí um ISPL (imposto sobre a produção literária).

8. Embora seu livro de contos não esteja no mercado, você recentemente publicou uma coletânea de crônicas, “O espalhador de passarinhos”. Quais as dicas que você passa pros jovens que gostariam de seguir essa trilha literária?

As mesmas dicas que, já burro velho, preciso dar a mim mesmo todos os dias. Algumas delas: aguçar a capacidade de ver o mundo, as pessoas, as pessoas e a vida com os cinco sentidos, e não só com o intelecto. Confiar na intuição. Desconfiar da inspiração e investir sempre na construção. Confiar no taco, mas desconfiar da facilidade diarréica com que as palavras tendem a escorrer de nossos dedos. Deixar que as coisas venham, sem matá-las no ar, mas não economizar no uso da tecla “delete”. Exigir que cada palavra, cada vírgula posta na tela e no papel seja capaz de justificar presença: “Eu estou aqui por isto e por aquilo, porque sou indispensável”.

9. E o que você tem lido, Humberto?

Acabo de ler duas ótimas biografias curtas, de Arthur Rimbaud e Marcel Proust, por Edmund White. Pela enésima vez, releio a poesia de Mário Faustino. Aliás, o que mais leio, cada vez mais, é poesia.

10. Como nosso site engloba de tudo um pouco, gostaríamos que você listasse os 3 filmes, os 3 discos e os 3 livros que te marcaram profundamente.

Filmes: “Cidadão Kane”; “Amarcord”; “Nós que nos amávamos tanto”

Discos: “Ballads” (John Coltrane) ; “Transa” (Caetano Veloso); os “Noturnos” (de Chopin, por Nelson Freire). Mais unzinho? Aquele Gilberto Gil gravado em Londres no começo dos anos 70

Livros: “O encontro marcado” (Fernando Sabino); “O estrangeiro” (Albert Camus); “Claro enigma” (Carlos Drummond de Andrade).

11. É padrão do Artilharia encerrar as entrevistas com o Tiro Certeiro e a Medalha de Honra. Eu explico: o Tiro Certeiro você dá para alguma coisa, subjetiva ou não, que você acha que vai de mal a pior (ex.: fulano de tal, política, educação, editoras etc.), e a Medalha de Honra é a mesma coisa, só que pro lado positivo (algo que merece seus aplausos).

Tiro Certeiro: Até para rimar, tiro certeiro em herdeiro que explora mercenariamente a obra de um artista, interpondo-se entre ela e o público. A mesma bala fará o favor de ricochetear e atingir também os personagens e parentes que dificultam o trabalho dos biógrafos.

Medalha de Honra: Medalha de honra para umas empadinhas de galinha que a gente só encontra no eixo Rio-Belo Horizonte.

Lutar com palavras XI – Ah, o copo de requeijão

Artilheiro Colaborador: Humberto Werneck

Ah, o copo de requeijão (Humberto Werneck)

Você se levanta no meio da noite — e então ele (ou ela), com aquela sensualidade postiça que o sono empresta à voz, aproveita para pedir um copo d’água. Você se sente um pouquinho explorada(o), a ideia era ir ao banheiro, ali ao lado, mas noblesse oblige: com ligeira irritação, a viagem no escuro é estendida até a cozinha.

Faz tempo que vocês estão juntos, já viram um montão de vezes esse filme em que o pedinte noturno ora é um, ora é outro. Mas nenhum dos dois atentou para um detalhe. No começo da história, quando se punha no menor gesto o empenho em agradar, a água vinha no melhor copo que houvesse no armário. De cristal, se possível. Agora repare: o que você vem trazendo para matar a sede do ser amado é um reles copo de requeijão.

Não tenha dúvida, alguma coisa mudou — para pior. O que você tem nas mãos é mais do que um recipiente de vidro barato até há pouco habitado por um laticínio espesso. É o próprio símbolo da avacalhação que, sub-repticiamente, vai pondo a pique os mais sólidos Titanics conjugais.

Exagero? Então veja: quem se detém na prateleira dos requeijões cremosos, no supermercado, em geral não está querendo um copo. Quer uma coisa gostosa para passar no pão, de manhã. Quando a coisa gostosa acaba, alguém — não culpe só a empregada — lava a embalagem, remove o rótulo e põe no armário. Você não pediu aquela coisa vulgar, mas, por inércia e desleixo, lá está ela, convivendo com os belos copos da marca francesa Arcoroc. Aí o outro pede água — e você, em vez de levar no Arcoroc, leva no copo de requeijão. A vulgaridade encarnada nesse intruso se instalou entre vocês. E creia: a menos que se tome uma providência, não vai ficar aí. Como no alcoolismo, não se fica no primeiro copo.

Mas pode ser que você, no supermercado, tenha pensado também no continente, além do conteúdo. Problema seu. Só não venha dizer que alguns deles são até jeitosos. São todos horrendos — inclusive aqueles esguios, retilíneos, que talvez sejam os piores: copos de requeijão que não ousam dizer o seu nome, esses pretensiosos se fingem de Arcoroc. Devem ser tratados como os impostores que são.

Aqueles “culturais”, vamos dizer, com reproduções de obras de arte, então nem se fala. Já que ninguém vai acabar com eles, aqui vai uma sugestão: por que ao menos não buscar uma correspondência entre a estampa e o conteúdo, impondo alguma lógica a essa sofrível pinacoteca matinal? Para o requeijão light, as figuras longilíneas, no limite da anorexia, de Modigliani ou Giacometti; para o outro, transbordante de calorias, a banha sem complexo das personagens de Renoir ou Botero. Ou deveria ser o contrário?

Repare como é difícil livrar-se dessa praga. Você põe na área de serviço, para que a faxineira o carregue, e ele reaparece no armário. Embora feito de vidro vagabundo, não se quebra — ao contrário dos outros, mais bonitos e mais frágeis, cujo lugar vai aos poucos ocupando. Cada vez mais numerosos, fazem parte do refugo doméstico, daqueles trastes que por alguma razão não se botam fora, e que um dia se decide levar para o eterno provisório do sítio ou da casa da praia.

Como a barata, que vai sobreviver à espécie humana, é bem possível que o copo de requeijão dure mais que o casamento. Se isso acontecer, nenhum dos cônjuges vai reivindicá-lo na partilha das “sobras de tudo que chamam lar”, como na canção de Francis Hime e Chico Buarque. E se a separação não dá certo, ele não servirá sequer para um brinde comemorativo: pois entre dois copos de requeijão, como se sabe, não há tintim possível, no máximo um chocho tec-tec.

Crônica publicada no livro “O espalhador de passarinhos“. Saiba mais.

Sobre o Artilheiro Colaborador

Humberto Werneck é escritor e jornalista. Autor de “O desatino da rapaziada”, “O santo sujo”, “O pai dos burros”, “Tantas palavras”, entre outros. É cronista do jornal Brasil Econômico, escrevendo no caderno Outlook, que circula com a edição de fim de semana.

Humberto Werneck publica coletânea de crônicas

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Humberto Werneck é um múltiplo. Você deve conhecê-lo como jornalista, afinal, são mais de quarenta anos assinando textos em grandes veículos como Playboy, IstoÉ, Veja, Jornal da Tarde etc. Não te soou familiar o nome? Então, talvez você o conheça como escritor – “O pai dos burros“, “O desatino da rapaziada“, “Pequenos fantasmas“? Nada? Você já deve ter lido algum livro prefaciado e organizado por ele – “Boa companhia: crônicas” ou “Ivan Angelo: coleção melhores crônicas“? Não ajudou? Deixe-me ver. Quem sabe você o conheça como biógrafo – “Tantas Palavras“, a respeito de Chico Buarque, e “O Santo Sujo“, sobre Jayme Ovalle? Ou, ainda, como participante de dois anos consecutivos da Festa Literária Internacional de Paraty, a famosa FLIP?

Se ainda assim você acha que nunca ouviu esse nome, taí uma grande oportunidade de conhecê-lo: Humberto Werneck lança, pela primeira vez, uma coletânea de sessenta e cinco crônicas de sua autoria.

Você, soldado do Artilharia Cultural, está intimado a comparecer ao lançamento paulista de “O espalhador de passarinhos e outras crônicas“:

São Paulo

12/05 – quarta-feira

Das 18h30 às 21h30

Livraria da Vila – Rua Fradique Coutinho, n° 915, Vila Madalena

Tel.: (11) 3814-5811

Preço do exemplar: R$40,00

Páginas: 160

Editora: Dubolsinho

Noticiaremos, caso haja, as datas das outras festas de lançamento.

Para complementar esta postagem, um trecho do release de seu livro:

São raros os cronistas que não encaram sua atividade apenas como um ganha-pão que lhes permite realizar atividades mais “nobres”. Raros também são aqueles que, como Werneck, procuram explorar as possiblidades narrativas e poéticas de um gênero mestiço, desprezado e muitas vezes mal compreendido até mesmo por quem o pratica – ou pensa praticar. Pois não basta ter uma coluna no jornal para ali desovar suas opiniões e rabugices, na certeza de estar se filiando à linhagem de Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Manuel Bandeira, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, que transformaram um gênero vira-lata na mais fina literatura.

O que faz, então, com que textos escritos no calor da hora, para publicação no dia seguinte, tenham ficado por décadas na memória do leitor e na história da cultura brasileira? A resposta está, por exemplo, na crônica que dá título ao volume, “O espalhador de passarinhos”. Trata-se de um desses casos primorosos em que a sensibilidade do cronista lança o leitor onde quer – digamos, no meio do mato aonde Hugo, o pai de Humberto, ia em busca de passarinhos para fazer seu trabalho pioneiro e solitário de preservação da natureza nos anos 50. Ele não diz “curió”, mas “curiol”, observa o cronista-menino, todo ouvidos para o sotaque do pai, por sua vez todo ouvidos aos múltiplos sotaques das aves que vai espalhando pelo sertão de Minas.

Até agora espalhadas (como os passarinhos do título?) ao longo de vinte anos em revistas e jornais, as crônicas de Werneck se encontram pela primeira vez no mesmo viveiro literário: esta edição, ilustrada pelo poeta, editor e artista gráfico Sebastião Nunes, da Dubolsinho, de Sabará (MG). A editora, conhecida por lançar autores de vanguarda como André Sant’Anna e o próprio Sebastião, é pioneira mais uma vez ao revelar – pelo menos em livro – o cronista de mão-cheia que é Humberto Werneck, que em alguns casos traz textos de quase vinte anos atrás, mas parece que foram escritos hoje de manhã.

Lutar com palavras III – Palavra

Artilheiro Colaborador: Humberto Werneck

Dando continuidade à coluna “Lutar com palavras”, temos hoje (com um dia de atraso, perdoem) a prosa de Humberto Werneck. Solícito, Humberto topou participar do Artilharia e enviou um texto com a seguinte observação: “não sei a que gênero pertence, nem me interessa saber”. Quando o texto é bom, quem se interessa por classificações?

Palavra (por Humberto Werneck)

Tomá-la como coisa viva, pulsante, não como vogais e consoantes sobre a folha de papel, tomá-la como vocais, soantes, não como pobre envoltório de informações cerebrais. Tomá-la nos olhos, na boca, nos ouvidos, na pele dos dedos e do corpo, para sentir antes de compreender. Considerá-la como fim, bem mais do que meio, como destino bem mais do que veículo. E, gostosa brincadeira, repeti-la, repeti-la à exaustão, até que à força da repetição o significado se esvaia, se desprenda, como a ostra de sua concha, e em seguida pescar, no aquário das sonoridades, do desenho que fazem, juntas, aquelas vogais e consoantes, uma nova ostra para aquela concha. Mais justa, exata e palatável que a primeira, certamente, a deslizar na língua em todos os sentidos. Quem sabe, trocar os habitantes de diversas conchas para que eles, em casa nova, se carreguem de energia como bateria a que se dá um novo sopro. Onde isso ou aquilo ficará melhor? Despir conteúdos cansados de seus invólucros, buscar para eles a vestimenta mais precisa na gôndola dos magazines verbais, no mar das palavras em situação dicionária (obrigado, poeta), e provar, prover, provocar, esgotar as mil possibilidades desse espelho em que se ajusta o foco da perfeição. Em nome do prazer, ignorar categorias – gramaticais, ortográficas, sintáticas, sexuais. Depois de inventariar as prateleiras, inventar, haute couture onde não há prêt-à-porter, onde não há o artigo, o substantivo, o adjetivo. Como quem descobre o som de uma temperatura, o tempero da temperatura na boca sorvendo o líquido não suficientemente frio: a cerveja meio quente não está morna, está môrna. Como os japoneses em São Paulo, tomar liberdades. Em todos os sentidos. Em todos os cinco, de preferência.

Sobre o Artilheiro Colaborador

Humberto Werneck é escritor e jornalista. Autor de “O desatino da rapaziada”, “O santo sujo”, “O pai dos burros”, “Tantas palavras”, entre outros. É cronista do jornal Brasil Econômico, escrevendo no caderno Outlook, que circula com a edição de fim de semana.