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Vaza o trailer de Harry Potter e as Relíquias da Morte

Como prometido, a Warner Bros divulgou, há poucos minutos, o trailer da primeira parte da adaptação que encerra uma das sagas mais bem-sucedidas do cinema (e dos livros): Harry Potter. E nós, do Artilharia Cultural, poderíamos aumentar esse post contando a história do filme ou o que acontece no trailer… Mas se você está tão louco para assistí-lo quanto a gente, você com certeza nem lerá esse parágrafo direito. Sem mais delongas, soldado, o trailer abaixo.

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Harry Potter e as Relíquias da Morte tem a estréia programada para 19 de novembro.

In Bruges

Um dos roteiros mais bem amarrados e intrigantes dos últimos anos tem por detrás de seu brilho um visionário roteirista de peças de teatro e, até então, curtas metragens. Martin McDonagh é um londrino vencedor do Oscar em sua estréia no grande circuito de curtas com “Six Shooter” de 2005.

O caricato e até então novato diretor foi, depois da estréia de “In Burges” diversas vezes comparado com outros diretores que tratam do humor negro britânico como Guy Ritchie e seus “Snatch” e “Lock, Stock and Two Smoking Barrels” (no Brasil Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes). Mas que a verdade seja dita: Martin tem um potencial incrivelmente único para o cinema trazido de sua experiência em peças que não se restringe apenas quanto ao seu domínio incrível em roteirizarão, mas vai além: na montagem das cenas e tudo mais que se exige de um bom cineasta.
Sem mais delongas, vamos ao filme, o que mais interessa, o resto você entende quando assistir.

“In Bruges” é “Na Mira do Chefe”. O chefe é Harry Walters (Ralph Fiennes), um líder criminoso que manda e desmanda execuções por toda Europa. Assassinatos que são “manualmente” realizadas por seus homens de confiança. Entre os assassinos estão Raymond (Collin Farrel) e Ken (Brendan Gleeson), estes que, depois de uma “tarefa” mal executada são mandados a Bruges, uma cidade histórica na Bélgica onde deviam aguardar outras instruções do chefe. Na estadia dos parceiros criminosos em Bruges eles conhecem Chloë Villette (vivida pela linda e inexperiente quando o assunto é bom filme Clémence Poésy), uma – suposta – traficante infiltrada no meio cinematográfico belga, entre outros personagens digamos… diferentes.

O filme começa atrevidamente atípico, ainda nas primeiras insinuações sacras das capelas clássicas de Bruges. E ainda entre as legendas o personagem Ray começa seu discurso explicativo e melodramático sobre ser enviado a Bruges pelo “chefe”. Nos primeiros dez minutos de filme já se pode notar um Collin Farrel incrivelmente despido das vaidades de seus mais conhecidos personagens, como se dissesse: esqueçam “S.W.A.T” e “Miami Vice”, ao menos enquanto me assistem em “Na Mira do Chefe”. Não desdobrarei até outras atuações boas de Collin, ele é um ator de notabilíssima bagagem pelos mais diversos papéis, mas que mostrou num golpe furtivo em “Na Mira do Chefe” que é mais que um galã de filmes de ação (imagem muito atribuída a ele ultimamente). Sua versatilidade impressiona. Brendan Gleeson é outro ator muito útil na construção de personagem estereotipado, como nos exemplos que cedeu sua face irlandesa – nórdica, em filmes de fantasia como “Beowulf” e “Harry Potter”. Colocá-lo para atuar como Ken foi outro feito do diretor McDonagh, derrubando o estereótipo do ator que aqui interpreta um corajoso e correto assassino de aluguel.

Entre os demais personagens do longa-metragem de Martin McDonagh estão outros seres humanos “imperfeitos”. O cuidado do roteirista é sensível em apresentar e, principalmente estabelecer uma relação entre os personagens com fortes características tragados pelo tédio histórico da pequena e esquecida Bruges. Estão presentes na obra um anão viciado em drogas, prostitutas baratas, assassinos de aluguel, uma ladra de turistas, um skinhead covarde, um vendedor de armas com mania de exatidão, um chefe paranóico e uma família de obesos americanos (como o diretor insiste em mostrar o norte-americano de sua visão inglesa). Com esse elenco o humor negro predomina nos diálogos, e quase que ridiculamente nos fazem rir dos pré-conceitos das personagens. Mas lembro que o foco – principal – da história não é esse. No entanto, não pense que a presença das cenas a respeito destes temas “intocáveis” são meras bobagens dos personagens de Collin (que aparece relativamente bobo na capa original) e de Gleeson que tem a famosa cara de paspalho.

O filme tem uma essência vinda da relação entre seriedade e drama que vai evoluindo através das cenas, crescentemente para o lado dramático. A amarração dá ao roteiro uma nota absoluta. Desde a primeira cena, das primeiras falas, tudo é meticulosamente utilizado na hora certa pelo roteirista. Fato que dá uma sensação de perfeição, ao passo que o diretor apela para a simplicidade. Pode se dizer que Martin McDonagh, como roteirista e diretor realizaram de uma forma a vidrar os olhos sua obra.

A análise para quem já viu

O filme de Martin é cheio de metáforas e caminhos ocultos. Como todo bom filme, se desenha como aquele para assistir de cabeça aberta para digerir bem as verdades levantadas.

Atenção: este artigo contém spoilers.

Símbolos

O que Martin – talvez – quis dizer com Ken e Ray

o que Martin quis dizer com Ken e Ray

Ray é um personagem absoloutamente triste. A atuação suscetível às emoções – que são poucas em Bruges – mostram que Collin doou-se num laboratório intensivo para aprender as praticas de um homem atormentado. Conta-se que Ray é um suicida em potencial, que no alto da tristeza européia de Bruges pensa em se matar para fugir de um erro do passado. O erro que ele não consegue abstrair é o assassinato acidental de um garoto que rezava missa quando Ray disparou contra um padre. O personagem de Ray simboliza o completo e desesperado homem atrás de uma fuga. Ele questiona Ken sobre o inferno, os pecados e arrependimento enquanto observa “O juízo final”, pintado por Bosch. Ele demonstra então seu completo arrependimento.
Ken é um homem correto. Dizer mais é enrolar. Ken acredita em Ray quando se vê no dilema de cumprir ou não a tarefa ordenada por seu chefe e amigo Harry de matá-lo. No entanto, quando descobre a situação de suicida do parceiro, Ken desiste abruptamente de matá-lo e, pelo contrário, tenta salvá-lo. Simbolizando que a partir do momento em que “se preocupa” com a vítima, não é possível realizar o assassinato. Fato que ele mesmo explica com outras palavras ao dizer que não se arrepende do que já fez. Assim, enquanto a fuga de Ken é do “não pensar” no que fez, a de Ray torna-se uma fuga carnal.

A Guerra das minorias

Os habitantes de Bruges

Jordan Prentice é o anão Jimmy que, alucinado pelos efeitos da cocaína, conta sua teoria da simbólica guerra entre brancos e negros. O anão, as prostitutas, a ladra, o skinhead e os obesos americanos são mostrados com uma intenção clara e evidente de impressionar. Parece, em certo ponto, que a cidade de Bruges só abriga minorias esmagadas pela sociedade nas grandes cidades. A guerra que Martin quer esclarecer nas falas e no elenco de seu filme existe metaforicamente no mundo inteiro, com o xenofobismo, o racismo e outros tipos de preconceitos evidentes que estimulam ou desestimulam fatalmente as populações.

O trajeto de um suicida

Um suicida corre por sua vida

Ray encontra em Bruges, como já dito, o momento oportuno de tirar a própria vida. Ao chegar ainda confuso e já com planos suicidas logo conhece Chloe que lhe serve como refresco. “Conheci uma belga do ramo cinematográfico” , ele conta feliz a Ken. Porém, depois da desilusão ao descobrir que a moça não passava de uma ladra ele vê seu último vestígio de crença no mundo cair. Depois de ser salvo da primeira tentativa concreta por Ken que lhe tomou a arma vemos um Ray confuso embarcar num trem sem rumo certo. Ele, porém, é vitima de sua própria sina de ser explosivo. É expulso depois de ser denunciado por um casal canadense (que ele confundiu com americanos) que ele espancou em sua estadia em Bruges. É solto da cadeia pelo pagamento da fiança, e a constatação de que Chloe realmente não tinha desistido dele. É encontrado por Harry – o chefe – o qual o persegue depois de assassinar Ken, que tentaria salvá-lo novamente. Um suicida em pontecial então corre por sua vida. No entanto, Ray estava nada mais que honrando a vida de Ken, que acreditara nele ao enfrentar Harry. Aí então Ray se vê na mira do chefe, finalmente dando ênfase ao nome dado à versão nacional de In Bruges.

In Bruges (Na Mira do Chefe)

Nota AC: 9

Diretor: Martin McDonagh

Elenco: Brendan Gleeson, Clémence Poésy, Collin Farrel, Jordan Prentice, Ralph Fiennes.

Duração: 107 minutos

Veneno com sabor

Artilheiro Colaborador: JLM

Volta e meia uma velha discussão ressuscita quando esqueço os que me rodeiam e acabo soltando que os programas de televisão com maior audiência e os livros mais lidos (os best-sellers) são puro lixo. E, como castigo pela minha falta de comedimento, acabo tendo de ouvir desde os xingamentos pessoais mais impagáveis – o principal argumento dos sem-argumento é xingar os que pensam diferente, nessa hora ninguém lembra da frase do Voltaire – até as velhas desculpas ouvidas e repetidas por papagaios que não tomam tempo para avaliá-las no mínimo racionalmente. Tudo me fez chegar à conclusão que, por mais que se argumente a favor, os livros e programas de tevê populares vão continuar sendo lixos. Lixos cada vez piores.

Na linha da leitura, o principal argumento de defesa é que o leitor dos mais vendidos, com o tempo, vai evoluir para leituras mais densas e essenciais. Confesso que até cheguei a defender esta idéia no passado, mas a abandonei quando constatei que na prática não é bem assim. São pouquíssimos (não conheço nenhum) os leitores de Bruna Surfistinha que evoluíram para Nietzsche. Ou leitoras de Crepúsculo para Orgulho e Preconceito. Os fãs de Paulo Coelho, livros de auto-ajuda e best-sellers, além de não evoluirem, viverão em um eterno conto de fadas no qual o suprassumo das letras é o escritor que gostam de ler e atacarão como fanáticos religiosos os que ousarem falar contra. Quem estes hereges pensam que são! Claro que lerão outras coisas sim, mas a propensão será procurarem autores similares aos seus favoritos, e nunca um Machado de Assis, um Érico Verissimo, um Shakespeare chegarão aos pés da banalidade e superficialidade exigidas cada vez mais como requisitos essenciais para agradar as massas.

Alguns perguntam retoricamente, tentando me colocar em contradição: “mas se você leu um livro pra dizer que ele é ruim, você se inclui aos leitores que critica, e se não leu, não pode falar mal daquilo que desconhece”. Para estes digo que não é preciso comer um prato de comida estragada para somente no final descobrir que ela vai fazer mal. Percebe-se isso muito antes, pelo cheiro. E qual seria o aroma dos livros e programas estragados? Fácil, o seu público! Se o diga-me o que lês ou o diga-me o que assistes que te direi quem és funciona, o inverso também vai funcionar. Diga-me que tipo de pessoas leem esse tipo de livro ou veem esse tipo de novela que te direi como são estes livros e novelas. É uma espécie de análise psicológica da obra através de seus leitores. Não que os leitores sejam pessoas ruins, mas você consegue ver qual foi o público-alvo explorado pelo autor. Leitores de Crepúsculo, Paulo Coelho e outros possuem características comuns que os diferenciam dos demais. É claro que há um ou outro leitor-exceção, mas são exceções, não a regra.

Outra linha de argumentação fraca é virem com acusações do tipo “quem é você para criticar o autor fulano, que está ganhando zilhões com os livros dele?” e “você tem é inveja do sucesso dele”. Se fosse assim, ninguém poderia criticar um político ruim a não ser quem já fora político antes. Nem um médico. Nem qualquer outro profissional. Note que não é requisito ser um profissional da área para saber quando algo está errado. Mesmo para os mais leigos conseguem descobrir usando o método da comparação. Compare o best-seller com um livro que já resiste a 50, 100, 300 anos ou mais nas livrarias. São conhecidos como clássicos. Note as diferenças de escrita, de estilo, de preocupação não só em contar uma história ou passar uma emoção, mas em trabalhar a própria língua. É claro que não só escritoes antigos fazem isso, mas muitos contemporâneos. O professor Affonso Romano Sant’anna diz que estes são os escritores, os profissionais da palavra, enquanto todo o resto é simplesmente autor. Um médico pode ser autor, um publicitário, um ex-presidente e até uma prostituta. Mas escritor de verdade, é aquele que trabalha a língua, que forma hai-kais no prato quando toma sopa de letrinhas, que lê uma quantidade de livros que pra ele é normal, mas pra maioria ao seu redor é algo espantoso.

Com os programas de televisão é a mesma coisa. Novelas, séries, filmes ou programas de auditório que não te fazem melhorar como pessoa, que não plantam uma dúvida na sua cabecinha, que não tocam o seu eu interior e já são esquecidos logo que sobem os créditos, entram na lista dos “só vejo para relaxar, por diversão, lazer”. Só que enquanto você relaxa e se diverte, sem perceber está bebendo algo que envenena a sua inteligência, mas que a mídia preparou tão bem que geralmente vem camuflado sob o seu sabor preferido. Novela sabor romance? Pois não. Filme sabor adrenalina? Pois não. Musical sabor erotismo? Pois não.

Há duas teses diferentes que tentam explicar porque tantos vem gostando cada vez mais do vulgar e imbecil. A primeira, levantada pelo Betinho no documentário A Revolução dos Idiotas (1992), é que existe um plano global para imbecilizar as pessoas. Desta forma, os principais programas em horários nobre e finais de semana e os livros mais vendidos são elaborados para fazerem as pessoas não pensarem ou para pensarem coisas idiotas. Tendo o tempo de lazer tomado por novelas, filmes e livros superficiais e imbecis, as pessoas não teriam tempo de buscarem conteúdos inteligentes ou de cultura. A teoria do sociólogo faz sentido se levarmos em conta que quanto mais ignorante o povo, mais fácil de enganá-lo. Seja o povo-eleitor, o povo-contribuinte ou povo-com-direitos. Enquanto os políticos fingem que fornecem boa educação pública, matriculam os seus filhos nos melhores colégios particulares que o povo nem sonha ter acesso. Enquanto as concessões de rádio e tevê não saem das mãos de poucos, os herdeiros das famílias detentoras são educados no exterior. Assim, a imbecilização das massas é uma estratégia política mundial de controle. Teoria da conspiração? Garanto que quem diz isso é justamente algum político ou graduado em Harvard.

A outra teoria veio do filme Idiocracy (2006), que mostra como as espécies mais aptas evoluíram até chegar ao homem. E daí começou uma desenvolução, pois como o homem não tinha mais predadores que ameaçassem a sua sobrevivência, não seria mais necessário ser o mais apto. Passaram a apostar as fichas no multiplicar-se cada vez mais para ganhar terreno os que mais procriam, isto é, os menos inteligentes. Enquanto casais inteligentes refletem sobre controle familiar e populacional e tem em média um ou dois filhos, os menos inteligentes tem seis, dez, vinte e três filhos. Em um simples cálculo exponencial, é fácil dizer quem vai dominar a terra no futuro, numericamente falando: os idiotas.

Se você teve a paciência de ler até aqui, quero que saiba que não pretendo mudar a cabeça dos que curtem Faustão, Gugu e Caminho das Índias. Nem que não leiam Harry Potter ou Os Diários de uma Princesa. Apenas quero deixar claro que a vida traz muito mais que isso. Vai além. E quem descobrir vai ver que cultura e inteligência ultrapassam o gosto pessoal. Pois, apesar de cada um ser livre para ver o que quiser, ler o que quiser, beber o que quiser, inclusive veneno com sabor, todos somos obrigados a evoluirmos como espécie, sob o risco de amanhã não sabermos como reverter os problemas que causamos ao nosso planeta que poderiam ser resolvidos porque esquecermos de nos preocupar. Se nos importássemos com eles o mesmo tanto que nos importamos com novelas, Big Brother’s e Içami Tiba, já seria um bom começo.

Sobre o Artilheiro Colaborador

Jefferson Luiz Maleski, ou JLM, é leitor compulsivo. Talvez por considerar a leitura uma forma de diversão melhor que a TV, a Internet e as conversas de boteco. Ou por causa dos seus cursos de Direito e Filosofia. Com um pouco mais de 30 anos, mora atualmente em Anápolis, Goiás, e escreve resenhas e minicontos em vários sites da internet e/ou no Libru Lumen, seu blog pessoal.