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Especial FLIP 2010 – Dia 1

por Tauil

Depois de duas horas e tanto de estrada, cheguei em Paraty e fui procurar a minha pousada. O meu albergue. Como já disseram, Paraty deveria ser receita médica. Aqui é sempre delicioso, bom para relaxar, desviar os pensamentos caóticos do cotidiano das cidades grandes.

O albergue é bem localizado, em um minuto e meio estou no centro histórico da cidade, que é onde rola tudo da FLIP. No entanto, este albergue é um pouquinho alternativo. Feito de mochileiros para mochileiros, se é que me entende. Sujo para caráleo e habitado por bichos-grilo – não me assustaria se eu tropeçasse, o assoalho cedesse e embaixo dos ladrinhos aparecessem pacotes e pacotes de drogas. Eu tenho que lavar a minha própria louça e dividir um só banheiro com mais dez machos. Fora isso, está tudo ótimo, obrigado.

Não consegui ingresso pra nada – na verdade, até consegui, mas uma velhinha passou a perna em mim e eu acabei gastando dez pilas com ingressos para idosos. Levantei a hipótese de jogar talco no meu cabelo e andar meio corcunda, mas achei melhor aceitar a derrota. Almocei, dei umas voltas pela cidade e achei linda a decoração da praça, embora ano passado estivesse mais caprichado, e também mais cheio. Essa edição, em função da Copa do mundo, não caiu nas férias, e não tem Chico Buarque nem Neil Gaiman. Ainda assim, o vazio da FLIP vem junto com filas intermináveis e discussões e protestos contra a desorganização da equipe do evento.

Novamente o stand é da Livraria da Vila, e eu fico um pouco angustiado de passar por lá, porque eu quero comprar tudo e não posso comprar nada. Depois de sair de mãos abanando da livraria, fui ver a conferência de abertura: Fernando Henrique Cardoso palestrando sobre Gilberto Freyre e sociologia em geral. Bacana, fala bem e tudo, manja do assunto, mas ao contrário do artilheiro Lucas não vou muito com a cara dele, e deixei passar. Estava mesmo ansioso para o que viria em seguida: o show do Edu Lobo – que trocou e-mail comigo e me prometeu uma entrevista pro AC!, oh yeah! O show estava marcado pras 21h30, mas começou às 22h, sem o Edu. Renata Rosa, Arthur Netrovisky, Marcelo Jeneci e banda comandaram um espetáculo que foi de Heitor Villa-Lobos a Ariano Suassuna. Seguraram as pontas por quase uma hora e meia, que foi quando Edu surgiu e assumiu a liderança do palco. Ótimo repertório de seu último disco, Tantas Marés, mas o cantor revelou-se um pouco cansado, errando alguns versinhos de suas parcerias com Paulo César Pinheiro e Chico Buarque. Mais uma meia horinha e acabou. Foi quase uma participação especial daquele que era para ser o principal – rimou.

Estou animado para amanhã, e acredito que devo soltar o próximo post nesse horário mesmo, começo da madrugada – que é quando eu tenho acesso à internet aqui improvisada. Agora vou bolar um plano para eu ir dormir sem acordar os outros que dividem o quarto comigo. Torçam por mim e até amanhã.

PS: perdoem qualquer erro de digitação ou coisa do tipo, estou escrevendo isso um pouco sob efeito do sono, do álcool e de reprovação, pois já estão olhando feio para esse cara que não pára de teclar.

Os 5 melhores discos de Edu Lobo

Corrupião (1993): Produzido pelo próprio Edu, não existe fã que fale mal deste disco. Ele reúne um time dos maiores expoentes da composição musical: Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Tom Jobim e Villa-Lobos. Sem participações especiais, chega a ser um disco mais íntimo que firma o artista entre os grandes da música brasileira.

Continência: Ave Rara.

Meia-noite (1995): Acho que é o melhor trabalho do Edu. Releituras de parcerias com Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Torquato Neto. Uma faixa instrumental com a nata musical desse país e participações especialíssimas de Dori Caymmi e Milton Nascimento. Sem contar que todos os arranjos são do craque Cristóvão Bastos.

Continência: Pra dizer adeus.

Camaleão (1978): Um dos discos mais característicos do Edu, marcado pelas parcerias com Cacaso e pela presença do grupo vocal Boca Livre. Participação também de Quarteto em Cy, MPB-4 e Wanda Sá, que foi casada com Edu e é mãe de seus filhos. Tem um arzinho interiorano, regional.

Continência: O trenzinho do caipira.

Limite das águas (1976): Um disco sério e profundo, segue a mesma linha que “Camaleão” no sentido do regionalismo marcado do Nordeste. Tem as palavras de Capinan, Cacaso e Guarnieri e a participação vocal de Joyce. Este disco foi relançado no mercado com o nome de “Mestres da MPB – Edu Lobo”.

Continência: Limite das águas.

Edu e Tom (1981): Acho besteira perder tempo tentando falar sobre esse disco. São dois monstros da linha direta de Villa-Lobos, não tem como dar errado. Alguns autores que compõem o repertório, além, é claro, de Tom e Edu: Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Paulo César Pinheiro, Torquato Neto e Marino Pinto. Com a produção de Aloysio de Oliveira, me espanta esse disco não ser considerado um top10 nessas listas que fazem por aí.

Continência: Vento Bravo.

Para aquele que morou no subúrbio e andou de trem atrasado

Artilheiro Colaborador: Gabriel Deslandes

Sou impaciente. Nem sei se isso soa como uma brincadeira, mas, de fato, a paciência é uma virtude a qual o Criador não fez questão de me privilegiar. Quem me conhece sabe. Aliás, só Ele tem ciência de quanto eu penei para escrever esse texto a pedido do soberano Tauil. O tema segue um clima paradoxal a meu estilo de vida e talvez seja por isso mesmo que sou, desvairado e alucinado por seu personagem central na exata proporção em que Tauil é por Chico Buarque.

Em resumo, se minha existência é o que chamam de “a fina flor do samba”, um de seus principais jardineiros se chama Martinho José Ferreira, o da Vila. Não vou bancar uma de Sérgio Cabral Pai, querendo intelectualizar um indivíduo “inintelectualizável”, contudo confesso que sou obrigado a tirar várias e várias vezes meu chapéu de bamba para o “bom crioulo”. É uma questão de coerência. Ao analisar o conjunto de sua obra, admirá-lo é uma obviedade.

Talvez o problema esteja aí: sua imagem como pessoa e artista foi desvirtuada pela mídia massificada. Afinal, para quem não o conhece, a figura de Martinho da Vila se limita a de um sujeito com ar de malandro beberrão e um sorriso falso que vai, de vez em quando, ao programa do Faustão para cantar pérolas como “É devagar, devagarinho” ou “Já tive mulheres”. O pior é que essas músicas nem são dele…

O maior equívoco da sua carreira foi indiscutivelmente ter apoiado a onda do “pagodismo” da segunda metade dos anos 80. A originalidade de suas melodias e a riqueza poética de seus sambas a partir daí decaíram de forma lastimável. A coisa degringolou de vez no momento em que ele conseguiu a proeza de vender 1,5 milhões de cópias de seu CD “Tá delícia, tá gostoso” (urgh!), de 1995. Acontece que os modismos da cultura pop são passageiros e, quando um sambista passa a rebaixar uma instituição eterna como o samba verdadeiro a este nível, é porque algo está errado. Impulsionado por uma gravadora comercial, Martinho acabou por prejudicar a reputação do samba (que “competia” com a praga das bandas de pagodejo mauricinho), sujando inclusive seu nome. Antes disso, inexistia cafonice em se dizer sambista. Ainda hoje, gostar de Cartola soa como “cult”.

De qualquer maneira, lamenta-se que a “história oficial” insista em registrar apenas aquilo que existe de mais superficial. Entretanto, não sou obrigado de modo algum a me conformar com isto. Meu designo está além de exemplificar o que há de mais rico na obra de Martinho. A verdade é uma só: Martinho José Ferreira revirou a música popular brasileira e o samba de cabeça para baixo. Ora bolas, isso é a prova concreta que seu “lado B” consegue ser muito mais amplo que o próprio trabalho como compositor. Trata-se de algo ausente nos micro-sulcos dos velhos discos de vinil ou nos megabytes zipados disponibilizados aos montes nos blogs de música pela grande rede.

Em 1968, com Donga, compositor do primeiro samba gravado

Filho de meeiros, Martinho nasceu em 1938, em Duas Barras, interior do Estado do Rio, vindo para a capital com quatro anos ao lado dos pais. Fora criado na Serra dos Pretos Forros, em Lins Vasconcelos. Durante a adolescência, cursou o SENAI e formou-se auxiliar de químico industrial (preparador de óleos, ceras, sabões e graxas), exercendo a profissão como laboratorista do LQFEx (Laboratório Químico Farmacêutico do Exército). Por influência do próprio laboratório, ingressou, aos 18 anos, no serviço militar, tornando-se sargento-escrevente, contador e arquivista na Intendência do Ministério da Guerra.

Didatismos à parte, a música inevitavelmente esteve sempre presente em seu cotidiano. Ainda em Duas Barras, Martinho teve contato com o calango, ritmo caboclo oriundo das zonas rurais, estruturado em versos de improviso, elaborados no momento do canto, e tocado com sanfona de oito baixos, viola e pandeiro. Também já compunha, entre os amigos de futebol, marchinhas de carnaval e paródias para os sucessos das rádios dos anos 50. Entretanto a influência maior veio do ambiente em que vivia. Na Serra dos Pretos Forros, localizara-se a modesta escola de samba Aprendizes da Boca do Mato. Martinho, folião inexorável, passou a ser presidente de ala e, mais tarde, ritmista. Aos 15 anos, compõe “Piquenique”, seu primeiro samba, narrando um passeio de domingo à Ilha de Paquetá. Tal feito foi suficiente para levar Tolito, diretor de harmonia da Boca do Mato, a convidá-lo a participar da ala de compositores da escola. No ano seguinte, a agremiação levou um samba-enredo seu à avenida, “Carlos Gomes”.

Pouco a pouco, Martinho acabou virando um freqüentador assíduo de toda e qualquer roda de samba que surgisse. Sua presença era cativa nos terreiros e botequins do mundo afora. A vida boêmia já havia se apoderado por completo de sua inspiração e, justamente nesta época, o rapaz abraça uma vertente do samba pouquíssimo divulgada – o partido-alto, herança dos negros escravos e gênero harmonicamente simples, o qual consiste em um refrão constante e outras partes soladas em versos improvisados, frutos da criatividade do sambista, gerando um eventual desafio entre um grupo de compositores. A marcação rítmica é feita na palma das mãos ou com prato e faca.

Não demorou muito para sagrar-se um exímio partideiro. Eis que ocorre a primeira revolução. Martinho decide aliar seus dois estilos de samba – samba-enredo e partido-alto. Os sambas-enredo das décadas de 50 e 60 geralmente tinham melodias tradicionais e letras longas, explicando de forma detalhada todo o tema abordado pela escola. Seus sambas para a Aprendizes da Boca do Mato eram bem mais curtos e possuíam a dolência assobiável dos sambas-de-roda. Sendo assim, começou correr o boato entre os bambas de que um certo “garoto do Exército” estava apontando novos rumos para o carnaval carioca. Vários sambistas lendários foram à Boca do Mato conhecê-lo, como Walter Rosa (Portela), Padeirinho (Mangueira) e Silas de Oliveira (Império Serrano). O próprio Martinho se viu desorientado: “Eu nem sabia quem era quem. Achava, por exemplo, que Cartola era coisa de séculos passados. Só descobri quem era quando ele veio me visitar!”.

Em 1965, depois de vários carnavais pela Boca do Mato e já morando em Pilares, Martinho se desligou da agremiação. Foi o momento em que Paulo Brazão e Rodolpho de Souza, membros da desconhecida Unidos de Vila Isabel, o convidaram para a ala de compositores da escola. Transferência feita (houve quem o chamasse de “vira-casaca”), Em 1967, Martinho compôs, ao lado de Gemeu, o samba-enredo “Carnaval de ilusões”, o qual foi responsável por um desfile antológico e assegurou a escola em sua melhor colocação até então – 4º lugar. Martinho José Ferreira, agora, era o Martinho da Vila.

No mesmo ano, fervilhava o histórico III Festival da TV Record de São Paulo, o maior acontecimento sócio-cultural do Brasil, o qual atuou de maneira decisiva na consagração de um número infindo de cantores e compositores dos mais diversificados gêneros. Por insistência de amigos, Martinho enviou uma fita cassete com “Menina moça”, um de seus sambas de partido-alto, à organização do festival. Não possuía qualquer expectativa de ver sua música classificada. Gravou-a à capela, batucando no próprio gravador, e, por falta de recursos, nem teve condições de contratar um maestro para escrever a partitura com a melodia, conforme exigia o regulamento. Contrariando tudo e a todos, a música conseguiu fazer parte da competição. Quem a defenderia em palco seria Jamelão. Aliás, a idéia inicial do velho Jamela era de utilizar os músicos do Teatro Record para orquestrar o samba. Martinho interveio, alegando que se tratava de um partido-alto e que tal atitude retiraria a singeleza da música. “Esse garoto não sabe das coisas!”, replicou Jamelão, porém o pedido fora atendido, com a apresentação realizada com acompanhamento do Regional do Caçulinha. “Menina moça” acabou por não ganhar nada além de um elogio de Augusto de Campos à letra, contudo foi, sem dúvida, um marco na divulgação de seu trabalho como compositor.

Em 1968, Martinho deixa claro seu retorno ao IV Festival. Hospedara-se no Hotel Danúbio, onde conheceu pessoalmente alguns dos cantores concorrentes, como Chico Buarque e Eliana Pittman. A música, um clássico: “Casa de bamba”. Em meio aos exotismos tropicalistas de guitarras elétricas e roupas extravagantes, eis que o próprio resolve ir ao palco cantar seu samba. Era a primeira vez que se expunha ao grande público, o qual incluía não só os expectadores esbaforidos do Teatro Record, como todo o Brasil que o assistia pela televisão. Vestido de prata e acompanhado pelo grupo Os Originais do Samba, Martinho vê toda a platéia levantar-se ao som de seu samba, resultando em uma das melhores apresentações da noite. Embora tivesse saído sem prêmios, sabia que, no mínimo, aquele momento, era avant-première de uma explosão prestes a acontecer.

Com Clara Nunes, 1979

Não deu outra: Jair Rodrigues grava “Casa de bamba”, resultando em um sucesso absurdo nas rádios. Até hoje, quem não conhece o refrão “Na minha casa, todo mundo é bamba: todo mundo bebe, todo mundo samba”? A euforia se fez presente entre as familiares, os colegas do Exército e, principalmente, os amigos sambistas, dos quais fez questão de se aproximar cada vez mais. Percebeu neste mesmo entusiasmo a necessidade tida pelos compositores suburbanos em divulgar suas obras. Aos poucos, Martinho passava a ter ciência de alguma coisa havia de ser feita com urgência para que a memória do sambista de morro não fosse perdida.

Com apoio da esposa Anália Mendonça (com quem teve os filhos Tinho Antônio, Analimar e Mart’nália), desenvolveu o projeto “Nem todo crioulo é doido”, o qual culminou em LP homônimo. No repertório, composições membros de várias escolas de samba, como Darcy da Mangueira; Silas de Oliveira (Império Serrano); Zuzuca e Bala (Salgueiro); Colombo, Picolino e Noca (Portela); Marinho da Muda (Império da Tijuca); Sidney da Conceição (Unidos de São Carlos); Cabana (Beija-Flor). Todos participavam das rodas de samba promovidas por Teresa Aragão no Teatro Opinião, na Zona Sul do Rio. Este trabalho visionário, entre outros, o sagraria como um dos maiores preservadores do samba e de tantos outros ritmos.

Em meados de 1969, o produtor musical Rildo Hora convida Martinho a gravar um LP somente com suas composições. Mesmo com a proposta de um contrato sólido na RCA Victor, de imediato, vem a recusa. Desde jovem, sempre sonhou em ver algum samba seu gravado, todavia, apesar de já ter aparecido diversas vezes publicamente, nunca antes havia ocorrido, em seu imaginário, a idéia de se tornar um cantor profissional. Rildo, depois de muita insistência, o convence a gravar um disco-demo não-comercializável apenas com a função de registrar suas músicas fonograficamente a fim de exibi-las, em um futuro, a algum intérprete interessado. Trato feito. Como músicos, Martinho solicita o esteio dos amigos mangueirenses Mané do Cavaco e Darcy da Mangueira (violonista). O pandeiro e o tantã foram tocados pelo próprio Martinho.

O resultado foi excelente. O balde de água fria é entornado neste momento. Em uma decisão arriscadíssima e quase insana, o diretor-artístico da RCA Victor, Romeo Nunes, determina, sem consultar Martinho, a mixagem e prensagem do disco e a distribuição às lojas de cerca de 50 mil cópias. Por ironia do destino, tal fato não poderia ser mais bem-sucedido. Em menos de um mês de lançamento, cinco das quinze faixas já estavam entre as mais tocadas nas rádios, entre elas o carro-chefe do trabalho, o qual se transformaria em um verdadeiro hino dos brasileiros: “O pequeno burguês”, samba irreverente, inspirado em um “causo” de um colega de Exército que se formou em Direito, porém não teve condições financeiras de participar de sua própria formatura.

De um modo geral, o disco é uma prova de como Martinho é, de fato, revolucionário, a começar pelo repertório – entre excelentes sambas-enredo e sambas-canção, basicamente a metade do repertório consistia em sambas de partido-alto. Acontece que, desde os tempos de Noel, o partido-alto era visto com maus olhos pelas gravadoras, as quais o apelidavam preconceituosamente de “estribilho”, “samba-de-chula” ou até “crioulismo” e não o consideravam um sub-gênero de samba a ser levado a sério. Martinho chuta este tabu para escanteio. Outro ponto interessante a ser observado são os arranjos, extremamente rudimentares e ausentes de qualquer influência acadêmica. Não há orquestras, seja sinfônica ou de sopro. Hermínio Bello de Carvalho já havia realizado trabalhos semelhantes com Clementina de Jesus e o Conjunto Rosa de Ouro, porém nada com a mesma repercussão. A sonoridade é simples, “suja”, gerando um clima quase carnavalesco próximo aos dos grandes terreiros. Em outras palavras, é um álbum como todo álbum de samba deveria ser.

Não havia como não agradecer a Romeo Nunes. Martinho, no mesmo ano, abandona seu posto no Exército para se dedicar exclusivamente à música. De lá para cá, foram-se mais de quatro décadas de carreira agradando a gregos e troianos e, sem ele, a situação do samba hoje seria inimaginável. O disco de 1969 vendeu nada mais, nada menos que 300 mil exemplares. As gravadoras voltaram a abrir as portas para o samba em sua essência, isento da influência do jazz ou do choro. A década de 70 foi a década do samba, talvez até mais que a de 30. Duvida? Então, por que será que Cartola, Nelson Cavaquinho, Adoniran Barbosa, João Nogueira, Candeia, Élton Medeiros, Monarco, Mano Décio da Viola, entre tantos outros sambistas sem grande potencial vocal, somente gravaram seus discos de intérprete a partir deste ano? Por que Clara Nunes e Beth Carvalho, até então cantoras românticas, decidiram virar sambistas? Será que haveria, no decorrer desses anos, todos os projetos existentes de preservação das composições das velhas-guardas das escolas de samba? Será que, nos anos seguintes, os discos de sambas-enredo bateriam os mesmo recordes de vendas, ultrapassando até Roberto Carlos?

Martinho também já demonstrou inúmeras vezes ser um compositor preocupado com a preservação da música popular, não só do samba. Por esta mesma razão, fez questão de perpassar pelos mais diversos ritmos brasileiros, gravando marchas, sonatas, salsas, maxixes, ancestrais, xaxados, congos, cirandas, pontos de macumba, batucajés, frevos e até blues. Em 1972, Martinho faz uma excursão a Angola em sua primeira viagem internacional, apresentando-se ao lado do conjunto Os Cunha em uma casa de shows. Era a primeira vez em que tivera contato com a cultura africana, pela qual se apaixonou imediatamente. “Passamos a vida inteira sem informações sobre a África. É muito importante mostrarmos a África como ela é!”, apregoa. Sendo assim, entre 1980 a 1983, liderou o projeto “Kalunga”, dirigido por Fernando Faro, levando uma caravana de artistas brasileiros a Angola, incluindo Dorival Caymmi, Chico Buarque, Gilberto Gil, Edu Lobo, Djavan, Francis Hime, João Nogueira, Clara Nunes, Dona Ivone Lara e Elba Ramalho. Em 1984, tomou o caminho inverso em “O canto livre de Angola”, trazendo artistas angolanos a shows no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.

Com os parceiros João Bosco e Paulinho da Viola

Com os parceiros João Bosco e Paulinho da Viola

Ao longo de sua trajetória artística, Martinho viu parte de sua obra tomar como empréstimo o talento de outros compositores renomados do samba e da música brasileira em geral. Foi parceiro de João Bosco, João Donato, Paulinho da Viola, Paulo César Pinheiro, Wagner Tiso, Moacyr Luz, Hermínio Bello de Carvalho, Candeia, Nei Lopes, Carlinhos Vergueiro, João Nogueira, Ivan Lins, Élton Medeiros, Leci Brandão, Nelson Sargento, Walter Alfaiate e Luiz Carlos da Vila.

Teve o privilégio de trabalhar com alguns dos maiores violonistas do Brasil, a começar por Rosinha de Valença, o “Baden Powell de saias”, a qual Martinho conheceu durante o V Festival Internacional da Canção (Rede Globo de 1970, em que ela defendeu a seu lado “Meu laia-raiá”) e o acompanhou ao longo de sua carreira. Também contou com o dedilhar de Darcy da Mangueira, Manoel da Conceição, Raphael Rabello, João de Aquino, Ruy Quaresma e Cláudio Jorge. Aliás, o próprio Martinho não entende nada de instrumentos de cordas, porém toca tamborim, surdo, pandeiro, reco-reco, agogô, cuíca e caixa de fósforos. Compõe todas as músicas “de ouvido”, dom herdado do pai versador.

Acima de todas suas características, deixa claro que nenhuma pode ser mais referenciada que a fato de ser Vila Isabel. A Vila Isabel levou sambas-enredo seus à avenida em dez carnavais: 1967, 1968, 1969, 1970, 1972, 1980, 1984, 1987, 1993 e 2010. Sim, o samba deste ano, cujo tema era o centenário de Noel Rosa, era de Martinho, apesar de identificável na correria repugnante das gravações de sambas-enredo. Não só isso: a atual quadra da Vila é um presente do próprio Martinho e foi ele o responsável, por vários anos, pelo desenvolvimento dos enredos, inclusive no antológico carnaval de 1988, “Kizomba, a festa da raça”, comemorando o centenário da Abolição da Escravatura extasiadamente. Mesmo atolada em dívidas, a escola proporcionou um espetáculo inesquecível, tamanha garra de seus componentes e conseguiu ser, pela primeira vez, campeã.

Paulinho da Viola, recentemente em entrevista, definiu Martinho da Vila como um “sambista moderno”. Errou redondamente, coitado. Sambista moderno é ele, pós-bossanovista. Martinho da Vila se apossou do estilo mais antigo existente do samba. Trata-se de um sambista do início do século XX desgarrado nas décadas de 60 em diante. É um compositor que segue à risca a linhagem folclórica da “Velha África”, reduto do Rio de Janeiro para o qual as Tias Ciatas trouxeram da Bahia os rudimentos do que seria samba carioca, ainda fortemente mesclado com o lundu e o maxixe. Martinho bebe diretamente da fonte. Suas influências provem dos pioneiros primitivistas como Donga, João da Baiana, Ismael Silva, Bucy Moreira, Príncipe Pretinho, Gastão Viana, Kid Pepe, Heitor dos Prazeres, entre outros. Martinho bravamente mantém acesa a chama da cultura afro-brasileira, oriunda de quatro séculos de escravidão e preconceito.

Como disse, o samba-enredo da Vila deste ano, “Noël, a presença do poeta da Vila” é de Martinho. A versão do samba, em uma cadência suave, gravada em estúdio na voz do próprio autor é uma exclusividade do Artilharia Cultural. Clique aqui para baixar.

Tauil me pediu para enumerar os melhores álbuns de Martinho. Como este tratado já está grande demais, resolvi dividir esta postagem em duas. Confira a lista que selecionei clicando aqui.

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Sobre o Artilheiro Colaborador

Gabriel Deslandes, morador da Região Serrana do Rio e estudante da 3ª série do Ensino Médio, é um admirador dos gêneros musicais brasileiros, em especial o samba e o choro. Violonista e cavaquinista, começou a se interessar pela cultura popular graças às letras dos grandes sambas-enredo e, hoje, escreve ocasionalmente artigos para o site Sambario. Tem interesses centralizados na preservação da música popular brasileira e, principalmente, pelo resgate da verdadeira poesia dos subúrbios, oriunda dos ditos excluídos. Apesar de todas as inversões de valores, acredita seriamente que, em um país tão carente de leitores, as escolas de samba possuem um papel histórico irrepreensível de divulgação da literatura nas camadas mais baixas da sociedade.

Com vocês III – Argonautas

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Se você gosta de música brasileira, já deve ter lamentadado o cenário musical do país. Mas acalme-se, nem tudo está perdido. Argonautas é um grupo de Fortaleza fundado em 1997 empenhadíssimo em executar e difundir a música brasileira. Resolvi escrever sobre eles porque recentemente lançaram seu primeiro disco, o “Interiores“. Falo dele logo mais.

Embora tenham como principal objeto de trabalho as canções de autoria própria, os Argonautas escalam para seu time de compositores tipos como Edu Lobo, Chico Buarque, Elomar, Tom Jobim, Luiz Gonzaga e outros expoentes do xote, samba, bossa, baião, marchinhas etc. Nota-se nos arranjos e nas harmonias a formação erudita dos membros. São eles: Rafael Torres, Ayrton Pessoa, Germano Lima e Ronaldo Lage.

Tive a oportunidade de ouvir o disco “Interiores”. É um trabalho primoroso, traz um som elegante, gostoso. Nota-se um grande empenho na produção, seja nas composições próprias ou nas releituras. O poeta Alan Mendonça, presente na maioria das letras, dá ao grupo uma estética característica. Para quem se interessar em comprar o disco, deve entrar contato através do site oficial. Eles disponibilizam, além de cifras e partituras, algumas músicas para download. Das listadas, destaco “Carolina”, “Cataventos”, “Interiores” e “Interiores n°2″.

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Ao vivo, os Argonautas mesclam duas composições de Chico e Tom com uma pitada de tango: Retrato em branco e preto e Eu te amo.

15 músicas Lado B de Chico Buarque

Estava eu lendo alguns blogues interessantes quando me deparo com uma postagem do Alessandro Martins, lá no Livros e Afins, escalando algumas músicas do Chico pouco conhecidas. Eu me senti na obrigação de fazer o mesmo. Se você acha que eu já escrevi muito sobre o Chico, rapaz, pode sentar e chorar. Você ainda vai ver muita coisa desse cara por aqui.

A lista não está em ordem de preferência, só pra esclarecer.

I. Mar e Lua

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Preste atenção na letra. Você entenderá a temática: um amor lésbico. Interessante o homossexualismo escondido assim em metáforas tão bem feitas. Veja bem: não acho que aqui as metáforas existem por conta da Ditadura, e sim para embelezar a música. Não é a minha gravação preferida – quem estiver disposto, procure uma versão de Chico com o Trio Esperança.

II. Assentamento

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Gosta de João Guimarães Rosa? Escute essa música, então, e ache as referências ao universo roseano. É fantástica. Indico pra quem gosta de literatura.

III. Meu caro barão

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A gravação aí é meio precária, mas vale pelo humor da letra. Foi feita para o filme dos Trapalhões, que trabalhavam como faxineiros num circo. Se não  me falha a memória, o barão, dono do negócio todo, um dia some com o dinheiro e deixa todo mundo na mão. Os pobres faxineiros resolvem, então, escrever uma carta ao barão com uma máquina de escrever que encontraram por lá. É a música. O divertido é a tônica das palavras que Chico altera propositalmente, primeiro porque os Trapalhões, no filme, eram analfas. Segundo para encaixar na melodia. Por exemplo, ridícula vira ridicúla e por aí vai.

IV. Mano a mano

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Única parceria com João Bosco, gênio do violão. Retrata a história de dois caminhoneiros amigos disputando uma mesma mulher. Todas essas palavras soltas na música são cidades interioranas. O que, logicamente, nos passa a idéia do roteiro que os caminhoneiros fizeram. Coisa de louco.

V. Meia-noite

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Ótima gravação do grupo Argonautas para uma canção de Chico e Edu Lobo. Bem profunda e densa. Lindíssima.

VI. Bem querer

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Feita para gravar com Maria Bethânia. Gosto de como as palavras são dispostas nessa música. Apesar dessa fase da Bethânia não me agradar muito (pelos berros e pelo sotaque forçado), acho a melhor gravação da música. Recomendo.

VII. De volta ao samba

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Composta para abrir os shows da turnê “Paratodos”, de 1993. Reparem em como a morte e a efemeridade da vida são retratadas. Além do conteúdo, tem uma batida bem gostosinha, também.

VIII. Romance

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Do CD Paratodos, que embora não seja um sucesso de público, traz umas canções extremamente maduras sobre o tempo e a vida. Romance é uma delas. De início, não gostava muito, achava a melodia chata. Fui ouvi-la alguns anos mais tarde e me surpreendi. Fica a dica.

IX. Injuriado

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Sambinha maroto e muito simples. Aquela levada que gruda e você se pega cantarolando enquanto atravessa a rua. O vídeo é ao vivo, embora eu prefira a gravação com sua irmã Cristina Buarque, no disco “As cidades”. À época, disseram que era uma mensagem para o Fernando Henrique Cardoso. Fala sério, gentalha da mídia impressa.

X. Cecília

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Parceria com Luiz Cláudio Ramos. A mais bonita das canções com nome de mulher. Cecília pra mim é sublime. O nome é extremamente musical, quase um sussuro, um sopro, e Chico soube aproveitar isso muito bem. Se eu fosse mulher, iria querer me chamar Cecília só por causa dessa música. Falei mesmo.

XI. Caçada

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Caçada eu acho demais. Foi feita para o filme do Cacá Diegues “Quando o Carnaval chegar”. Rodava em uma cena de amor adolescente entre o casal principal da trama (o homem, por sinal, era comicamente interpretado pelo próprio Chico). Por causa do erotismo explícito, a música chegou a ser censurada e proibida de ser tocada em rádios.

XII. Como um samba de adeus

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Embora as pessoas sempre liguem o Chico ao Caetano Veloso, eles só possuem duas parcerias. Uma é a animada “Vai levando”, e a outra é esta, melancólica. Eu explico: é uma homenagem póstuma a Tom Jobim. Tom morreu em 1994, e no ano seguinte Chico e Caetano fizeram essa belíssima canção para Gal Costa gravar em seu disco só com músicas da dupla. Prestem atenção nas referências ao Tom. Como não achei a gravação da Gal no YouTube, vai essa mesmo. É amadora, mas o cara mandou muito bem.

XIII. Essa passou

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Parceria do Chico com um dos bossa novistas mais ilustres: Carlos Lyra. O dueto saiu no disco “E no entanto é preciso cantar”, do Lyra, e não saiu no “Construção” do Chico por motivos até hoje desconhecidos por mim. Nem o próprio Carlos, em entrevista, soube me dizer.

XIV. Um tempo que passou

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Única parceria de Chico com Sérgio Godinho, cantor e compositor português. O sotaque luso encaixou-se perfeitamente. Acho que essa música transcende nossos ouvidos, gosto de tudo que é ligado ao tempo.

XV. Fantasia

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Essa gravação foi feita para o CD “Terra”, que era vendido junto com um livro sobre o Movimento Sem Terra com fotos do Sebastião Salgado e texto do José Saramago. Ei, garoto, atenção: essa música não foi feita para o MST. O disco “Terra” trazia quatro canções ligadas à pobreza, à miséria: Fantasia, Brejo da Cruz, Levantados do Chão e Assentamento, já mostrada aqui.

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Sentiu falta de alguma? Grita aí nos comentários que, de repente, posso fazer um volume dois.

Uma noite em 67

O documentário “Uma noite em 67″, que resgata o III Festival da Record, tem sua estréia prevista para maio, no festival de São Paulo “É tudo verdade“.

Era 21 de outubro de 1967. No Teatro Paramount, centro de São Paulo, acontecia a final do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. Diante de uma plateia fervorosa – disposta a aplaudir ou vaiar com igual intensidade -, alguns dos artistas hoje considerados de importância fundamental para a MPB se revezavam no palco para competir entre si. As canções se tornariam emblemáticas, mas até aquele momento permaneciam inéditas. Entre os 12 finalistas, Chico Buarque e o MPB4 vinham com “Roda Viva”; Caetano Veloso, com “Alegria, Alegria”’; Gilberto Gil e Os Mutantes, com “Domingo no Parque”; Edu Lobo, Marília Medalha e Quarteto Novo com “Ponteio”; Roberto Carlos, com o samba “Maria, Carnaval e Cinzas”; e Sérgio Ricardo, com “Beto Bom de Bola”. A briga tinha tudo para ser boa. E foi. Entrou para a história dos festivais, da música popular e da cultura do País.

“É naquele momento que o Tropicalismo explode, a MPB racha, Caetano e Gil se tornam ídolos instantâneos, e se confrontam as diversas correntes musicais e políticas da época”, resume o produtor musical, escritor e compositor Nelson Motta. O Festival de 1967 teve o seu ápice naquela noite. Uma noite que se notabilizou não só pelas revoluções artísticas, mas também por alguns dramas bem peculiares, em um período de grandes tensões e expectativas. Foi naquele dia, por exemplo, que Sérgio Ricardo selou seu destino artístico ao quebrar o violão e atirá-lo à plateia depois de ser duramente vaiado pela canção “Beto Bom de Bola”.

O documentário Uma Noite em 67, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, mostra os elementos que transformaram aquela final de festival no clímax da produção musical dos anos 60 no Brasil. Para tanto, o filme resgata imagens históricas e traz depoimentos inéditos dos principais personagens: Chico, Caetano, Roberto, Gil, Edu e Sérgio Ricardo. Além deles, algumas testemunhas privilegiadas da festa/batalha, como o jornalista Sérgio Cabral (um dos jurados) e o produtor Solano Ribeiro, partilham suas memórias de uma noite inesquecível.

A classificação do festival:

I. Ponteio (Edu Lobo/Capinam)

II. Domingo no parque (Gilberto Gil)

III. Roda Viva (Chico Buarque)

IV. Alegria, alegria (Caetano Veloso)

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É aí que eu paro e penso: poxa, nasci na época errada.