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Palavreado XVI – Além das revistas velhas

Nunca tive medo de ir ao dentista. Não exatamente medo – sei lá o que as outras pessoas sentem -, já vi casos de sujeitos que sentiam a anestesia nem bem entrando no consultório, mas disso culpo os purificadores de ar. Desconforto? Cadeiras reclináveis não só garantem o bem-estar do paciente como têm botõezinhos ao alcance de sua mão, para serem apertados e ajustados de acordo com a sua vontade enquanto o profissional se vira para procurar as luvas descartáveis. Nunca tive medo provavelmente porque nunca tive nenhuma experiência traumática em uma dessas cadeiras, e porque sempre ganhava sorvete depois da anestesia (nunca contei à minha mãe que o frio prolongava o efeito – ignorância às vezes faz bem). E porque, apesar do pavor que tinha – e tenho! – do algodão, gostava – e gosto – muito das salas de espera.

Esperar não é algo lá muito agradável em situação alguma. Ainda mais quando a expectativa é de passar a próxima hora exibindo a arcada dentária a alguém. Salas de espera não se resumem a  consultórios odontológicos, obviamente, mas as outras não têm a mesma tensão no ambiente que estas – salvo os casos de oncologistas ou ginecologistas com o resultado do seu exame de gravidez. Há um clima quase de cumplicidade entre os freqüentadores. Sempre que a porta que leva até a fatídica saleta é aberta, todos elevam os olhos àquela pobre criatura que a atravessa, que até tenta sorrir, mas teme que um dente lhe escapule da boca. Ou que está séria, talvez finalizando um pensamento iniciado com o silêncio congelante do lugar, esporadicamente quebrado pelo barulho do metal encontrando outro. Nenhum conhece o tratamento do que senta no sofá ao lado, mas mudamente percebe, a cada vez que um novo nome é chamado, que o futuro próximo de todos os presentes é o mesmo. E assim, relutantemente, aceita o seu.

Afora o entendimento mútuo praticamente inalável, temos o café frio e fraco, a água quente, a revista Caras do ano passado e o disputadíssimo jornal a que você jamais disporia alguns minutos de vida se tivesse opção.  Mas, com medo ou não, aproveitando a oportunidade para conhecer melhor a pessoa que geme de dor mais próxima ou atualizando-se sobre mudanças no cotidiano das celebridades, nenhum ambiente oferece uma demostração tão clara da compreensão humana frente ao sofrimento alheio, ainda que pequeno.

E eu fui ao dentista hoje, não sei o que fizeram comigo. Mas não gostei. Tudo bem, o senhor ao lado precisava extrair dois dentes do siso.

Lutar com palavras XXII – O que é o Corinthians?

O Corinthians é um fenômeno sociológico a ser estudado em profundidade.

Menotti del Picchia

O que é o Corinthians?

Corinthians é o time mais amado e mais odiado do mundo. O time que mais aparece na boca do povo, seja pra falar bem ou mal. Seja como forma de elogio ou xingamento. E eu não precisei consultar nenhuma pesquisa pra saber disso. Mas o Corinthians é só um time? Depende de quem fala.

O Corinthians é a minha seleção. Torço pro Corinthians, e depois para o Brasil. Porque se um dia fizessem um Brasil x Corinthians lá no Pacaembu, você pode me encontrar junto da  Gaviões, empurrando o Timão pra frente.

Só quem é Corintiano sabe o que é ver o time entrar em campo. Só quem é Corintiano sabe que o jogo vai ficar difícil no segundo-tempo e só vai se resolver entre os 43 e 45. Ainda assim, toda vez que isso acontece, parece que é a primeira. As mãos suadas, a falta de vocabulário – porque os palavrões já foram gastos, e o jeito é inventar xingamento novo pra mãe do juiz -, o nervosismo e  a sensação que o coração – corintiano, doutor, não precisa nem perguntar – vai parar a qualquer momento são características exclusivas dessa pequena parcela da população. E por pequena, você pode contabilizar mais ou menos 30 milhões. Temos mais torcedores que o país de Portugal tem em habitantes. Mais que o Chile, que a Argentina, que a Austrália.

E o que são 100 anos? 100 anos para uma pessoa é muito. Para uma nação, é pouco. E o Corinthians não é nada menos e nada mais que uma nação. Uma nação cuja população não se importa com as conquistas: isso é coisa pra torcedor de time de futebol, que, pra sentir-se grande, precisa ostentar suas conquistas. O Corinthians é o time do povo, e o time do povo gosta mesmo é de ver raça, de ver amor à camisa.



Nossa nação, nos anos 70, já tinha seus pensadores gregos. Nosso Dr. Sócrates já filosofava nos vestiários, organizando – junto com Wladimir, Zenon e Casão – as mudanças no clube que devia refletir sua torcida: a igualdade. Do roupeiro ao cartola, tudo deve ter o mesmo peso. Acredito, e essa é uma das minhas razões, que um time é o reflexo de sua torcida. Como eu não conheço nenhum outro caso no mundo no qual a torcida tem um time, nada mais justo que os dois serem reflexos um do outro.

Poderia me demorar na nossa criação, lá em 1910, com nossos operários e passar por toda nossa história, nossos títulos e nossas glórias… Poderia falar de 1977, ocasião na qual meu pai estava presente, ou de 1990. Poderia falar de 2000, ou de 2007, quando chorei mais do que qualquer outra vez que consigo me lembrar, em meus 18 anos.

O Corinthians faz 100 anos de história, com uma torcida que nunca o deixará morrer. Com uma torcida apaixonada. Roxa, preta, branca, japonesa, italiana, paulista, carioca, gaúcha, nortista, americana… Onde você procurar, encontrará um Corintiano.

E, por fim, deixo um recado ao amigo rival, que não está agüentando ver tantas camisas alvinegras na rua: guarde sua saliva. Falar de seus títulos, de suas Libertadores ou de seus Mundiais não afetará em nada o coração de um Corintiano. Lembre-se, no fim das contas, a diferença entre nós dois: vocês torcem para um simples time de futebol. Nós torcemos para o Corinthians.

Parabéns, Timão. E obrigado por me dar mais um motivo para sorrir, para chorar e para torcer.

Palavreado XV – Opinião privada sobre os banheiros

Eu me lembro de ter lido, há um bom tempo, um post da Deborah Garcia sobre os banheiros masculinos. Isso me levou a pensar sobre os banheiros de modo geral: não te parece estranho termos em nossa casa um local destinado a despejar os despejos de nosso corpo? E pior ainda: a moça passa horas se embelezando no mesmo lugar em que defeca? É algo que vai contra à boa lógica, e para mim é tão contra-senso quanto um paulistano falar “tu”.

Mas tenho o maior respeito pelos banheiros. Sou, inclusive, mais um que passa um bom tempo em suas dependências, às vezes não fazendo nada além de se olhar no espelho. E não há nessa afirmação nenhum traço de vaidade, há somente o estranho hábito de se olhar e divagar sobre você mesmo: quem sou?, de onde vim? e para onde eu vou?. Aliás, o banheiro é naturalmente o cômodo mais propício às reflexões. Aposto que se fosse hoje em dia, a casa de Platão iria se resumir a um quarto, uma cozinha e quatro ou cinco banheiros. Ou quase isso. É debaixo do chuveiro, mesmo que num banho quente, que a cabeça se esfria e as idéias fluem melhor. O banho está para a solução de problemas assim como a caminhada, que é uma outra solução para a criação de projetos e idéias. Imagino que os melhores romances e filmes tenham tido seu primeiro indício de vida no banheiro.

Isso se explica talvez por ser um dos poucos momentos do dia em que nos encontramos com nós mesmos. Eu e o meu chuveiro, eu e a minha privada, eu e o meu espelho. E esse silêncio ao nosso redor é o primeiro passo para que os ruídos internos, os sons da mente ou da alma, queiram se manifestar.

Mas não me iludo pensando que somente existe filosofia e reflexão nesse ambiente de ladrilhos. Os públicos, principalmente, são um antro de sujeira. Não me entra na cabeça o que mijar para fora e cuspir no chão têm a ver com masculinidade, mas é assim que alguns machos se portam. Não quero sujar essa crônica como eles sujam e rabiscam as portas com telefones carentes e palavrões. Prefiro aliená-la quanto ao submundo dos sanitários e deixar sua latrina e seus ladrinhos limpos ao brilho do desinfetante moral.

Palavreado XIII – Coisas que não valem muito a pena dizer

Geralmente, antes de iniciar uma conversa eu penso duas vezes: valerá a pena? Terei que me explicar depois, terei que ouvir uma tese, terei que perder muito tempo? Evito esses diálogos de elevador que começam e acabam sempre em coisas inúteis como o clima ou a vida do síndico. Aprendi que tempo é um negócio muito precioso, e de tanto ver gente jogando seu tempo fora com coisas que não valem muito a pena dizer, fiz essa croniqueta e a ofereço neste Palavreado.

- Alô.
- Fala, Jorge. É o Saulo.
- Opa.
- Tá sabendo da nova?
- Não, digaí.
- Tá dando pra ver Júpiter. Olha o céu pra você ver.
- Hm. Cadê?
- Tá vendo esse ponto mais brilhante?
- Tô.
- Então, cara. É Júpiter!
- Mas é igualzinho a uma estrela comum.
- Eu sei, mas é Júpiter.
- Você tem certeza? Pra mim parece só uma estrela.
- Tenho, sim. Absoluta. Só te liguei pra falar isso.
- Ah, tudo bem então. Obrigado por se lembrar de mim.
- Aproveita, cara, que não vai ficar por muito tempo não! Abração!
- Outro.

x

- Ôô, Mariana! Como você está?
- Ooi, Paulinho! Tudo certinho graças a Deus, e aí?
- Beleza. Eu te vi esses dias aí no calçadão.
- Eu no calçadão? Quando?
- Acho que foi na terça. Ou na quarta, não me lembro bem.
- Terça eu fiquei no consultório o dia inteiro. Quarta… que horas foi?
- Olha, foi na parte da tarde. Talvez umas quatro.
- Quarta às quatro? Não sei, acho meio difícil.
- Mas eu tenho certeza que era você.
- Ah! Será que não foi na quinta-feira?
- Até que pode ser.
- Então foi isso. Quinta às quatro eu estava indo buscar meu filho no judô.
- Viu só! Sabia.
- É, então tá bom. Um beijo, viu?
- Se cuida! Tchau tchau!

Palavreado XII – Ode ao miojo

Quando fico muito tempo sem escrever nada, preciso dar uma de Vinicius de Moraes, sentar na em frente à máquina e dar um jeito de sair alguma coisa. Chega um momento que você se desespera, pensando que sua veia artística, que já é pequena, tenha truncado. Aí é hora de apelar, olhar para os lados e aceitar qualquer coisa como tema. Na dificuldade de elaborar um conto para narrar a trajetória de uma panela, passeio novamente meu olhar pela cozinha em busca de um tema, e é com o garfo já na boca que encontro a solução no meu prato: o macarrão instantâneo.

Interrompo a mastigação para pensar na metafísica do macarrão. Não tenho problemas psíquicos, se é isso que você está pensando agora, mas analise a situação comigo: o macarrão instantâneo já fez tanto pela gente que talvez fosse a hora de retribuirmos. Quantos dias você chegou atrasado em casa, com o estômago em 4 pontos na escala Richter e foi salvo pelo miojo? Quantos galhos gastronômicos ele já não quebrou? E quantos reais você não poupou simplesmente porque escolheu lotar sua despensa com macarrão instantâneo?

É por isso que sou favorável a fazermos uma ode ao miojo. Aqui perto de casa, por exemplo, desenharam o Woody Allen no muro, mas o que o Woody Allen já fez por mim, além, é claro, de uma porção de filmes? Entre o Woody Allen e o miojo, você fica com o miojo: seja honesto com você mesmo. Se fosse eu o prefeito de minha cidade, por certo eu nomearia uma Rua do Miojo, ou Avenida do Macarrão Instantâneo, ou Praça Pronto Em Três Minutos. O miojo, tão íntimo da estudantada que não tem vez, deveria, mesmo, ocupar um espaço especial entre as crônicas, os poemas e as músicas populares. Mas nunca vi ninguém falando do macarrão. É mais ou menos como um grande amigo, que está sempre ali para te ajudar, mas você não se lembra de agradecê-lo. E quando bate uma dorzinha na consciência, você corre pro abraço e diz um “obrigado por tudo”. É disso que o miojo precisa. Afinal, não importa a marca ou o sabor, não importa nem mesmo se ele está cru, o miojo sempre estará a três minutos de me saciar, e é por isso que eu me ajoelho, levanto os braços para o céu e digo para quem quiser ouvir: obrigado, miojo, por existir.

Palavreado XI: Envelhecendo

Em algum momento da vida, aos trinta ou aos setenta anos, você vai parar, encarar uma situação como se ela fosse algo que cheira muito mal e chegar à inevitável constatação: estou ficando velho.

Estava eu, hoje, dando aulas de Português a uma adorável garotinha cujas habilidades lingüísticas são praticamente nulas quando me dei conta do terrível fato. Envelheci. E minhas costas ainda nem doem tanto assim. A tarefa que lhe designei era muito simples: criar personagens, escolher um cenário, criar um enredo e desenvolvê-lo. E, pelamor, tentar fazer algum sentido. Fui questionada se ela poderia usar o nome e as características de uma pessoa real. Desviei o olhar do dicionário para admirar minha aluna com certo carinho: o que ela me pedia permissão para fazer era uma fanfiction. Coisa do meu tempo, fiz muito isso. Que orgulho.
“Quem será o protagonista?” Perguntei, ligeiramente mais interessada na criança.
“Ah… Acho que… Justin Bieber!”

Um minuto.

“Quem?”
“Justin. Justin Bieber.”

Certo. O orgulho explodiu e saiu rodopiando até o teto. Ainda lutei tentando persuadi-la a criar um simpático personagem chamado Douglas, mas ela recusou. Nada feito, seria Justin. Justin Bieber. Você disse que podia, tia.
O primeiro sinal de que se está ficando velho é ouvir alguém lhe chamando de tia(o) e não achar isso nem minimamente estranho.
Eu ainda tentava convencê-la de que havia, sim, uma pequena diferença entre um verbo e um adjetivo quando percebemos que a estória precisava de mais personagens. Justin Bieber não dá conversa sozinho. E eis que a eleita é Selena Gomez.
Mas eu não sabia quem era Selena Gomez.

Justin Bieber eu sabia, aquela menina que fica repetindo “baby” na minha televisão enquanto eu durmo, mas Selena Gomez era novidade pra mim. Cheguei em casa e imediatamente liguei meu computador, na vã esperança de encontrar uma foto da criatura e dizer “mas é claro, como pude me esquecer?”

Essa aí.

Mas a verdade é que eu nunca tinha visto a fuça de tal espécime antes. Estamos na era da internet, globalização e inclusão estão aí, as informações correndo por todos os lados, todo mundo conhece todo mundo – e eu, aqui, do fundo de um quarto escuro e cheirando a café e incensos, não sabia quem diabos era Selena Gomez.

Há outros indícios da velhice iminente, como a utilização frequente de expressões como “Cuidado, pode pegar no seu olho”, “Você ainda não era nascido”, “No meu tempo sim que era legal”, “Na sua idade, eu (…)” e tantas outras.

No meu tempo, sim, que era legal. Eu cresci em uma fazenda, quase ninguém acredita nisso. Cresci segurando chaves de fenda, subindo em árvores, correndo atrás de ovelhas, jogando jogos educativos (Mortal Kombat) e assoprando meus cartuchos de Super Mario World. Quando eu tinha a idade dela, Disney era só o que vinha escrito na caixa dos vídeos cassetes de desenhos animados. E ninguém escrevia contos eróticos com os seus personagens.

Todo mundo está crescendo e evoluindo e você aí, se decompondo. O mundo está se tornando um lugar muito agradável de se viver, onde ter opiniões formadas sobre um assunto, conhecer filmes lançados antes de 1980, discutir política e ouvir bandas cujos integrantes já foram devorados por vermes significa estar velho. E, não, você não tem o direito de acompanhar o processo. Você não sabe quem é Selena Gomez, meu caro. Ninguém contrata alguém assim. Ninguém se importa com as pessoas dessa laia. Admita o fato, compre um rolos de lã e aprenda tricô. Vá ler o jornal do ano passado.

Talvez o sinal mais alarmante seja se dar conta de que se está ficando velha antes de completar duas décadas de vida. As coisas mudaram tanto assim? Eu perdi alguma coisa por não saber quem era a nova estrela da Disney? Já posso ir ao banco e escolher a fila dos aposentados? Sinto meus ossos estalarem.

Lutar com palavras XVI – Sobre boquete

Artilheiro Colaborador: Gabriela Lima

Todo mundo tem aqueles dias ruins. Aqueles dias em que tudo parece estar dando errado e que fazem com que todas as coisas boas ao redor percam o significado. Nesses dias, seus amigos precisam que você os escute e os ajude. Tem gente que oferece chá. Tem gente que oferece uma massagem. Tem gente que oferece um ombro amigo. Eu ofereço um boquete.

“- Pô, Biela, tô brigado com todos os meus amigos, meus pais não me ligam, minha namorada terminou comigo…

- Cara… Que zica, heim?

- Pois é…

- Quer um boquete pra animar teu dia?”

Ou

“- Cara, tô puto. Meu chefe tá um saco e acho que vou ser demitido.

- Uou! E não tem nada que cê possa fazer?

- Pior que acho que não.

- Hmm… Quer um boquete pra aliviar a tensão?”

Existem duas reações iniciais comuns pra esse tipo de oferta:

Reação Susto: A pessoa arregala os olhos, se afasta um pouquinho de você e fica te olhando como se tivesse acabado de descobrir que você tem três olhos.

Reação Gargalhada: A pessoa começa a rir convulsiva e descontroladamente.

Se uma dessas reações aconteceu, você alcançou seu objetivo. No caso da primeira, você chocou tanto a pessoa que por um instante ela até esqueceu dos seus problemas diante do seu evidente desprendimento social e oral (o sentido fica pra vocês escolherem). Na segunda, você conseguiu ser tão incoerente que fez a pessoa desligar-se do momento ruim e dar uma bela de uma gargalhada. Por experiência própria, geralmente depois do susto vem um “Cê é meio perturbada, né?” e depois da gargalhada vem um “Eu te amo, cara.”. De um jeito ou de outro, você atingiu seu propósito. Parabéns, você venceu na vida.

Uma das desvantagens desse método é que ele é dose única. Uma vez que você já tenha oferecido um boquete a uma pessoa, ela cria uma reação-padrão (que costuma ser variáveis da frase “só se for agora”) e assim, o objetivo estará perdido. Outra desvantagem é o fato de que eu não sei que efeito esse método causa às mulheres (por favor, se você decidir fazer o teste, nos envie uma cartinha contando. Contamos com sua colaboração).

Também não me responsabilizo pela efetividade desse método com pessoas que você não tenha muita intimidade, mas se você for pensar bem, só o fato de ela vir chorar as pitangas no seu ouvido já merece o oferecimento de boquete. Se não funcionar do jeito citado acima, ao menos assusta a pessoa que irá embora correndo pensando que você é um tarado e você fica livre das reclamações.

Bem crianças, espero que tenham aprendido a lição direitinho e que usem o boquete para fazer um mundo melhor. Há apenas última recomendação que gostaria de fazer: saibam quando usar esse método.

“- Minha mãe morreu.

- Pô, cara, sinto muito. Senta aqui, vou buscar um chá pra você.”

Por que né? Bom senso, boquete e Biela começam com a letra B.

Att.

Biela, usando pornografia pelo bem da humanidade

Sobre o Artilheiro Colaborador

Gabriela tem vinte e dois anos e atualmente é empregada pública federal. Mora em Goiânia com um amigo e trancou a faculdade de Direito na UFG alegando que não nasceu com o gene jurídico. Está em fase de adaptação à vida adulta e não sabe se está ou não gostando disso. É corint(h)iana fanática, joga RPG, lê compulsivamente, dança até perder as forças nos joelhos e tem suas próprias teorias sobre praticamente qualquer assunto. Sempre soube o que queria da vida, mas infelizmente, muda de opinião muito rápido então, fica a certeza, mudam os objetivos. No momento, escreve no seu blog por esporte enquanto seu chefe toma café. Twitter e blog.

Lutar com palavras XIV – Observações em Paris

Dando continuidade à coluna Lutar com palavras, já que o clima é futebolístico, resolvemos escolher uma crônica de reflexões sobre a vida (?). Se quiser publicar seu texto aqui, fale conosco pelo e-mail artilhariacultural@gmail.com

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Artilheiro Colaborador: Amanda Capistrano

Sentada à mesa de um tradicional café parisiense, à beira do Sena, vejo o quão encantadora é esta cidade e o quanto as pessoas são felizes nela. À minha frente está sentado um jovem casal. Dezesseis no máximo. Começam simplesmente tentando se olhar, mas quando seus olhares se encontram, eles fogem. Talvez isso seja demais para jovens corações. Aos poucos começam a conversar e riem. Sim, aquele provavelmente era seu primeiro encontro. Ele, por fim, toma a iniciativa e coloca sua mão sobre a dela. Os dois enrubescem. Ah, como é fascinante o primeiro amor…

Numa mesa mais distante, ainda mais discreto, há um casal de idosos. Eles sorriem. Imagino que já passaram por muitas coisas ao longo de sua vida, já terão os filhos crescidos, com uma penca de netos. Passaram juntos por muitos momentos felizes, e talvez algumas crises, mas superaram todas, juntos, felizes e unidos como nunca haviam sido antes. Mas agora vendo melhor, noto que ele tira algo do bolso e mostra a ela. É uma aliança. Ele a está pedindo em casamento. Eu estava enganada, não viveram a vida toda juntos, mas se conheceram já na maturidade da vida, já devem ser viúvos, perdidos do amor que os acompanhara a vida toda. Ou talvez já se conhecessem de outrora, talvez tenham se amado na juventude e o destino os separara, se unindo muito tempo depois, na velhice.

Há também um casal de adultos, com cerca de 40 anos. Mas, diferentemente dos outros dois, eles não parecem estar muito felizes. Discutem. Ela provavelmente fala sobre os problemas dos filhos na escola, ou talvez sobre as dívidas do lar. Ele começa a se exaltar. Posso ouvi-la gritando algo como aquela rapariga. É isso, ele provavelmente a traiu com outra, talvez a melhor amiga dela ou a secretária dele. Ela se levanta. Está chorando. Vai embora. Ele também chora. Paga a conta e se vai. Aquele deveria ser o fim de anos de vida em comum, de promessas de amor não cumpridas, de uma paixão que se dilacerou com o passar do tempo.

E ao meu lado há um rapaz. Não tão jovem quanto o casalzinho que já está mais próximo, nem tão velho quanto os dois que discutiam. Eu diria que ele não é mais velho do que eu sou. É belo. E está sozinho. É a única outra pessoa no café que não tem companhia alguma. Ele também me observa. Nossos olhares se cruzam a todo instante. Só que já não somos tão tímidos a ponto de desviá-los. O que será que ele está pensando? Eis uma coisa que eu gostaria de saber.

Vejo que ele também toma notas em um caderno. Talvez também esteja escrevendo uma crônica. Ele se levanta e se aproxima de mim. Meu coração começa a bater mais forte. O que será que ele quer? Ele traz a crônica consigo. Talvez queira comparar as nossas observações. Ele se senta a minha frente. Me mostra o pedaço de papel em sua mão. É um esboço. Sou eu. Estava mais uma vez enganada. Ele estava me desenhando. E era um lindo retrato. Eu o tenho agora mesmo em minha mão. Eu estou com um rosto diferente do qual estou acostumada a ver no espelho. Meus olhos eram a parte mais interessante da obra. Tinham um ar observador. Reais, mas mais bonitos do que são na verdade. Eu disse isso a ele, que me respondeu que quem me disse isso não deveria enxergar muito bem. Nós sorrimos.

Estávamos nos reencontrando após muito tempo. Tínhamos tudo e nada em comum. Gostávamos de escrever e descrever o comportamento humano. Só que de maneiras diferentes. Enquanto meu principal instrumento era as palavras, o dele eram os pincéis.

Anos depois, já no fim da vida, vejo que todas aquelas personagens que encontrei um dia, num pequeno café em Paris, representavam toda a minha vida, toda a minha essência. Sim, um dia eu fui aquela jovem garota, às voltas com o primeiro amor. Também era eu a mulher de meia idade que discutia com o marido após imaginar uma traição. E me descubro também como aquela velha senhora, refazendo na velhice, o amor de toda a vida.

Muitos anos vivi, muita coisa passei, muita coisa sofri. Mas nunca o amor deixou de bater dentro de mim.

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Sobre o Artilheiro Colaborador

Meu nome é Amanda, mas todos me chamam de Amandinha (acho que é por causa do meu desprovimento de altura). Amo livros desde que aprendi a ler, passei um longo período lendo literatura infanto-juvenil de mistério e somente agora estou chegando à literatura de verdade. Gosto de usar as palavras do meu jeito, mesmo que algumas (muitas) vezes elas não estejam no seu mais correto sentido. Mas isso não importa, pois eu acho que escrever é um ato que não precisa de regras e definições, mas sim de liberdade e sinceridade. Mantenho o blog Palavra Sem Nexo.

Lutar com palavras XIII – Do lado de fora (ou de como uma bunda pode acabar com seu dia)

Para esta edição do Lutar com Palavras, o artilheiro Tauil separou uma de suas primeiras crônicas postadas no finado Meia Meio Suja. Revista e ampliada, resolveu postá-la para tapar um buraco da programação, uma vez que não recebemos mais nenhum texto para ser publicado aqui. Esta mensagem, então, é um incentivo para que nos enviem crônicas, contos e poemas. Não tenham medo! Falem com a gente no @artilhariacult ou artilhariacultural@gmail.com

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Do lado de fora ou de como uma bunda pode acabar com seu dia (por Tauil)

A verdade é que gosto mesmo de ficar um tempo sozinho. Não tem a ver com o anti-social, de modo algum, sei que a vida de verdade se passa lá fora e se fico muito tempo sem o contato humano acabo ficando depressivo. Tem a ver com a reflexão, o descanso e principalmente a criação: não consigo escrever nada com alguém me olhando. E, sabendo que poderia tomar conta da casa da minha tia enquanto ela ia trabalhar, não perdi a oportunidade. Pernoitei por lá de segunda para terça-feira e acordei com a nítida sensação de liberdade. Vou ouvir o que quiser no volume que quiser, não terei que dividir a posse do controle remoto, almoçarei quando eu bem entender e só não posso esquecer de cuidar do cachorro. Não deixe que ele suba na cama da sua prima, dê a ração às cinco horas e ali está o rodo e o pano para limpar o xixi – foram as recomendações. Sim senhora, pode deixar comigo.

Como não desconfiei de que em breve esse dia prazerosíssimo iria acabar, aproveitei como pude: no café, tomei refrigerante. Bolacha a dar com pau. Banho de porta aberta para poder ouvir melhor a música que deixei tocando na sala. Corrida com obstáculos contra o cachorro. Tudo com o traje mais adequado à ocasião: nenhum. A brincadeira durou a manhã inteira e parte da tarde, até que me lembrei de um depósito que estava para vencer. Precisaria dar um pulinho no banco. Mas, antes, fui checar a promoção da livraria vizinha que me presenteou com quarenta por cento de desconto. Uma bonita edição, de capa dura, não deveria ficar zanzando comigo pela rua, por mais que meu destino não estivesse longe. Portanto, antes de ir tratar de assuntos bancários, destranquei a porta de casa e deixei o livro ali na entrada, no chão mesmo, mas com o maior cuidado. Quando estava para fechar a porta, cuja fechadura elétrica só podia ser acionada por dentro, vi passar uma conhecida. Uma moça alta de beleza estonteante. Longos cabelos lisos, cintura fininha, coxas firmes e, nossa, que bunda. Ela me viu fechar a porta atônito, deu um sorrisinho tímido e eu não fiz nada além de cumprimentá-la com outro sorriso e um balanço de cabeça. Agi como qualquer outro homem solteiro (ou não): observei-a passar. Findo o espetáculo, parti em direção ao banco, que, como sempre, o melhor que tinha a oferecer para seus clientes era uma fila imensa. Lá para as tantas, já impaciente, apalpei o bolso para retirar os dados do favorecido e constatei que minha chave havia sumido. “Desesperar jamais” não funcionou dessa vez: saí correndo, aflito, imaginando que havia esquecido a chave para o lado de fora e algum malandro se apossado da única cópia disponível. Difícil acreditar, mas torci com todas as minhas forças para que a chave tivesse ficado engatada do lado de dentro. Eu continuaria na rua, mas, pelo menos, o furto seria menos eminente. Disparei para o chaveiro mais próximo da praça e pedi que me enviassem alguém, eu estaria montando guarda em frente à porta.

O chaveiro não chegava nunca e eu já imaginava o cachorro estirado na cama da minha prima. Comecei a batucar na madeira e a apertar a campainha na esperança de que, curioso, o cão se distraísse. Para piorar a situação, o tempo fechou. Vai chover e eu com as janelas abertas – titia vai me matar. A catástrofe maior seria se ela chegasse e descobrisse a situação, eu não teria como mentir. Esperançoso, cada pessoa que virava a esquina eu analisava se poderia exercer o ofício de chaveiro. Mas esse aí tem cara de médico; aquele, coitado, é muito velho e aquele ali é muito moço; esse não parece entender de arrombar portas. Até que, para felicidade geral da nação, despontou um senhorzinho com parcos tufos de cabelo branco carregando uma pequena pochete amarela que, conforme eu veria em instantes, estava munida com as mais diversas ferramentas. Enquanto ele ia trabalhando com seus ferrinhos, a igreja universal iniciou a cantoria em louvor a Jesus. As coisas mais absurdas eram ditas para convencer os fiéis de que todos tinham direito a um terreno no céu, desde que pagassem (e bem). Uma hora a fio e nada da porta se mexer, o senhorzinho todo torto buscando a melhor posição, a chuva engrossando. Só parei de batucar na porta quando o chaveiro me deu um pito, dizendo que estava atrapalhando sua concentração. Estávamos todos nervosos: eu, o chaveiro e os fiéis, que no auge do exorcismo gritavam sem parar.

Até que a fechadura desistiu de nos amolar e eu pude ouvir aquele som característico da tranca cedendo, cléc. Só não caí de joelhos porque a calçada estava repleta de poças. Abracei o senhorzinho, e ele sem entender me cobrou o serviço que, por coincidência, era a quantia exata do depósito que não fiz. Como que para mostrar que nem tudo estava perdido, a chave realmente havia ficado do lado de dentro, o cachorro estava dormindo no tapete e nem tinha entrado tanta água assim. Aliviado, peguei meu livro e não lamentei a situação, meu lado otimista me fez enxergar que o personagem de Sabino estava em piores lençóis. E tudo por culpa de uma bunda, que, pelo menos, me rendeu uma cronicazinha.

Lutar com palavras XI – Ah, o copo de requeijão

Artilheiro Colaborador: Humberto Werneck

Ah, o copo de requeijão (Humberto Werneck)

Você se levanta no meio da noite — e então ele (ou ela), com aquela sensualidade postiça que o sono empresta à voz, aproveita para pedir um copo d’água. Você se sente um pouquinho explorada(o), a ideia era ir ao banheiro, ali ao lado, mas noblesse oblige: com ligeira irritação, a viagem no escuro é estendida até a cozinha.

Faz tempo que vocês estão juntos, já viram um montão de vezes esse filme em que o pedinte noturno ora é um, ora é outro. Mas nenhum dos dois atentou para um detalhe. No começo da história, quando se punha no menor gesto o empenho em agradar, a água vinha no melhor copo que houvesse no armário. De cristal, se possível. Agora repare: o que você vem trazendo para matar a sede do ser amado é um reles copo de requeijão.

Não tenha dúvida, alguma coisa mudou — para pior. O que você tem nas mãos é mais do que um recipiente de vidro barato até há pouco habitado por um laticínio espesso. É o próprio símbolo da avacalhação que, sub-repticiamente, vai pondo a pique os mais sólidos Titanics conjugais.

Exagero? Então veja: quem se detém na prateleira dos requeijões cremosos, no supermercado, em geral não está querendo um copo. Quer uma coisa gostosa para passar no pão, de manhã. Quando a coisa gostosa acaba, alguém — não culpe só a empregada — lava a embalagem, remove o rótulo e põe no armário. Você não pediu aquela coisa vulgar, mas, por inércia e desleixo, lá está ela, convivendo com os belos copos da marca francesa Arcoroc. Aí o outro pede água — e você, em vez de levar no Arcoroc, leva no copo de requeijão. A vulgaridade encarnada nesse intruso se instalou entre vocês. E creia: a menos que se tome uma providência, não vai ficar aí. Como no alcoolismo, não se fica no primeiro copo.

Mas pode ser que você, no supermercado, tenha pensado também no continente, além do conteúdo. Problema seu. Só não venha dizer que alguns deles são até jeitosos. São todos horrendos — inclusive aqueles esguios, retilíneos, que talvez sejam os piores: copos de requeijão que não ousam dizer o seu nome, esses pretensiosos se fingem de Arcoroc. Devem ser tratados como os impostores que são.

Aqueles “culturais”, vamos dizer, com reproduções de obras de arte, então nem se fala. Já que ninguém vai acabar com eles, aqui vai uma sugestão: por que ao menos não buscar uma correspondência entre a estampa e o conteúdo, impondo alguma lógica a essa sofrível pinacoteca matinal? Para o requeijão light, as figuras longilíneas, no limite da anorexia, de Modigliani ou Giacometti; para o outro, transbordante de calorias, a banha sem complexo das personagens de Renoir ou Botero. Ou deveria ser o contrário?

Repare como é difícil livrar-se dessa praga. Você põe na área de serviço, para que a faxineira o carregue, e ele reaparece no armário. Embora feito de vidro vagabundo, não se quebra — ao contrário dos outros, mais bonitos e mais frágeis, cujo lugar vai aos poucos ocupando. Cada vez mais numerosos, fazem parte do refugo doméstico, daqueles trastes que por alguma razão não se botam fora, e que um dia se decide levar para o eterno provisório do sítio ou da casa da praia.

Como a barata, que vai sobreviver à espécie humana, é bem possível que o copo de requeijão dure mais que o casamento. Se isso acontecer, nenhum dos cônjuges vai reivindicá-lo na partilha das “sobras de tudo que chamam lar”, como na canção de Francis Hime e Chico Buarque. E se a separação não dá certo, ele não servirá sequer para um brinde comemorativo: pois entre dois copos de requeijão, como se sabe, não há tintim possível, no máximo um chocho tec-tec.

Crônica publicada no livro “O espalhador de passarinhos“. Saiba mais.

Sobre o Artilheiro Colaborador

Humberto Werneck é escritor e jornalista. Autor de “O desatino da rapaziada”, “O santo sujo”, “O pai dos burros”, “Tantas palavras”, entre outros. É cronista do jornal Brasil Econômico, escrevendo no caderno Outlook, que circula com a edição de fim de semana.