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Lutar com palavras XXI – O primeiro ato
Ainda posso lembrar a centenas de sabores que seu lábio roxo teve ao longo daquelas horas. Horas suadas. Horas em que éramos dois animais sedentos da mesma sede vadia. Escorríamos um pelo outro como duas correntes de pecado, de beijos molhados, mordidas devassas ódio e impuridade. Ao fundo, uma guitarra insinuante soava para fora da caixa de som de madeira; era a única fonte de humanidade que nos restava, como se fosse um porto seguro de nosso passado, uma corda guia a qual prendíamos um dos tímpanos para não nos perdermos para sempre naquele banquete infinito de nós mesmos.
Estávamos juntos em toda e cada parte de nós por dentro daquelas horas que durariam pelo resto do que vocês chamam de existência.
Os meus olhos eram a personificação do pecado. Brilhavam por tudo que ela podia chamar de céu dentro daquela noite eterna que cercava nossos corpos. Os seus eram duas luas de sangue cujo prazer quis saciar e pagar com a alma; o prazer só aumentava e o fim do universo estava ao toque de meus dedos. Braços guiados pelo meu egocentrismo a guiaram para todas as mais ignomínias posições que derrubam o amor como o pregam, chamando-o de bastante.
A mulher é um animal que se alimenta de corações partidos, e o meu já estava partido há duas décadas e meia. Desde então, eu escondia minhas vergonhas junto a alguma pureza que guardava da minha infância. Acordei bem cedo para descobrir que o mundo é controlado por quem pode eleger seu deus para mais pessoas e que o satanás tem um clitóris.
Todos os sonhos eróticos que ela teve desde sua mocidade pueril – colecionando prováveis pôsteres de Marlon Brando ou Brad Pitt – pertenceram a mim junto a todo o resto de sua mente, corpo e entranhas. Eu a senti na essência de sua vida, pulsando, acomodando-se a mim como uma escrava de meus modos. Modos estes, nada ambivalentes ao se tratar de uma menina de 14 anos: era certeiro, brusco e másculo.
Ela não era virgem, apesar da pouca idade; nem inocente, apesar da completa submissão das primeiras horas; tampouco triste, apesar de expelir cinco lágrimas salgadas quando eu comecei a ir a suas profundezas. Pérola era a cartomante, a maga e a sacerdotisa de seu próprio destino.
Se fosse velho o suficiente, talvez me preocupasse com as lágrimas dadas; e se a causa das tais seria por que não a embalsamei em meus braços de maneira a cortejá-la o suficiente. Se fosse um diretor italiano apaixonado por musas belas – e ali tínhamos uma dessas musas -, prometer-lhe-ia um longa-metragem depois do primeiro ato. Mas era um anjo rebelado desprovido da graça e da paz de espírito. E ainda sou. Não conseguia entender entre seus gemidos mais descontrolados de dor e euforia o porquê de sua presença e suas reclamações a mim. Já que o resto era bastante claro a mim; não poderia lhe dar nada mais que minha ereção áspera – ou algum fogo se ela fumasse; que o sexo aconteceria sempre em meu apartamento sujo; que ela, para mim, valia menos que os cinqüenta centavos que se pagam por uma alma em Hollywood, ou uma dançarina rota que caí bêbada e desprotegida dentro a rua escura de recheada de aproveitadores.
Eu era o aproveitador. Mas ela logo estaria nisso comigo.
Acabou-se o primeiro ato daquele dia que ficaria para a história de nossas unhas – imundamente recheada de carne alheia – e de nossas bocas lambuzadas de todos os líquidos que nossos corpos produziram em tantas horas.
Esse havia sido o primeiro ato que iniciava o resto de nossas vidas.
Lutar com palavras XX – Enquanto brincam
Artilheiro Colaborador: Bruna Maria
Abelha, zumbido, tudo. Olhei para o céu e mal pude ver a linha que zunia tão perto. Duas pipas coloridas, daquele papel mais fino, leve, prontíssimo para voar. E já voavam. Em alguma das ruas próximas, duas crianças feriam seus olhos encarando a iluminura do céu. O desejo de ver suas pipas dançando era maior. Cada vez mais alto, cada vez mais imponente, cada vez mais lá em cima.
Bailar no alto céu, e colorir um fundo que antes era apenas azul, mesclado talvez com alguns toques de branco, cá e lá – eis uma ambição deveras pretensiosa, essa a de mudar padrões do alto. Mas as crianças não sabem, nem sabem das próprias ambições. E continuam orquestrando todos os músculos do corpo para conseguir aquele efeito lá em cima, das pipas se movimentando tão graciosamente, tão coloridas.
Aqui em baixo, resta o zunido. Como inseto, como abelha, como uma colônia de bichos quaisquer com asas bem pertinho dos ouvidos quando queremos dormir.
Eu olho para o céu e vejo aqueles pontos itinerantes, cada hora num ângulo diferente. Se eu conseguisse ver as linhas que prendem tudo a esta terra, seguiria em busca das mãos que detêm a graça dos brinquedos lá no ar.
Quais crianças, quais mãos? É importante?
Para mim é importante, porque são crianças que manejam a cena que eu vejo.
Uma manhã de domingo assim, com mãos que pintam o céu, sem saber a dimensão do que fazem.
“Estão só brincando, saia logo dessa janela”, alguém me alerta, sem nada entender e nem ver.
Brincam, eu sei. Talvez eu os inveje justo por isso. Apenas brincam. Eles colorem o alto e imantam a cidade com a dança de suas pipas leves, enquanto a mim resta apenas o esforço, a dissimulação criada consciente, racional, na tentativa de prender-lhes as pipas em grades que sejam minhas.
E como eu queria também estar só brincando, sair dessa janela, estar lá fora, realmente, com eles…!
A tentativa que me cabe se dá no enredo que traço, apenas. O destino que me foi conferido. É a brincadeira, a minha brincadeira dissimulada em séria – palavras. E, quem sabe, de alguma forma, um dia, ela me será suficiente.
Aguardarei…
Sobre o Artilheiro Colaborador
Bruna Maria é formada em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e mestranda em Literatura Portuguesa, também pela mesma universidade. Atualmente escreve seu primeiro romance, com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional, por onde o romance foi selecionado para receber amparo do Programa Nacional de Apoio à Pesquisa. Além disso, atualiza regularmente seu blog pessoal, onde registra a rotina da escritura do romance, como também divulga alguns de seus textos inéditos.
Lutar com palavras XVIII – Do grito
Artilheiro Colaborador: Milena Martins
“Porque há o direito ao grito.
Então eu grito.”
(Clarice Lispector)
Eu tinha chorado quando ele veio.
Da primeira vez que eu o chamei, ele saiu rasgando as paredes da garganta. Bateu nas paredes de limo verdescurecido sobre as pedras lisas. Eu vi suas ondas reverberando no ar e morrendo em ecos tardios pelo escuro. Nenhuma luz acompanhava o som que ele trazia e que era a essência de sua chegada. Porque era tudo muito negro. E havia o escuro aqui e havia a luz meio azulada do desconhecido mostrando sua presença lá fora. E havia um feixe claro ao longe e havia o escuro aqui. O silêncio e o escuro. E a gota líquida que descia das frestas infiltradas pela água que rachava caminho no teto de pedra fazia seu bater ritmado no chão úmido de pedra. E cortava o silêncio como o desconhecido rompia o escuro. E era o silêncio. E era o esquecimento. E o esquecimento, o escuro e o silêncio. E depois do silêncio, ele voltou. Seus ecos tardios reverberando de novo. Agudos, cortantes, altos, prolongados. Ele voltou negro, sangrando, cravando seu desespero gris nos tijolos de pedra, o chão liso de pedra, pedra no teto e no chão, pedra nos olhos de pedra limosa, úmida, endurecida.
E havia o escuro aqui. Porque era tudo muito negro. Tudo o que eu via – a cela, as grades de ferro, as pedras, o tempo de minutos iguais, a gota luminosa surgindo na fresta do teto para despir-se em som desaparecendo no escuro. E caía. E era só escuro e silêncio. A cela – ar azulado do claustro. E ele ainda reverberava em ecos tardios como uma voz conhecida, porque eu o tinha chamado e ele tinha vindo e desaparecido e voltado e sumia, sumia, e sumia. E eu o queria de novo porque tinha gostado muito daquela presença de som e de esperança no escuro. E eu o queria encontrar de novo, porque estava perdida no escuro. E era tudo muito negro e muito azulado e era tudo de pedra e de claustro e de sonho e o sonho era mau e eu era só e o só era escuro. E eu o queria de novo. E sozinha de novo, de novo chamei.
Da segunda vez que ele veio, cuspi pedras. E as pedras se chocaram nas paredes de pedra. E eu vi seus estilhaços de pedra brilhando no escuro. Da segunda vez, as pedras saíram arrancando sangue das paredes da garganta e o sangue pintou as paredes, verdes de limo, de vermelho também. E o vermelho brilhou e sumiu. Da segunda vez que eu o chamei, ele veio também, e também gritou e também sumiu. E depois voltou também e também ecoou e também sumiu.
E no escuro eu lembrei. Enquanto ele gritava comigo nas paredes de pedra do escuro eu lembrei. Só então eu me lembrei. De lá de fora e das ruas e da fumaça azul dos dias grises e das manhãs cinzentas do meu mundo e do lixo e das moscas e do pavor e dos mortos e das noites sem estrelas e dos carros e dos morros escurecendo no horizonte e das nuvens pesadas enegrecendo os morros que escureciam no horizonte.
Só então eu me lembrei.
Daquela casa e da chuva que eu não queria que terminasse e do grito que não saía e do medo e do medo que era muito e ainda maior porque eu não sabia gritar. E quando ele veio eu me lembrei, lembrei que eu me escondia e que eu sabia que eu precisava me esconder e que eu trancava as portas e as janelas e que eu não conseguia respirar de medo e não comia de medo e não queria mais viver porque era tudo um grande medo mas tinha medo de não viver. E me lembrei que só queria dormir e que não podia dormir e me lembrei que mesmo assim eu me deitava na cama e me encobria com o lençol e enrolava a cabeça e apertava os pés contra a coberta e puxava e puxava e puxava muito e sentia relaxarem os músculos naquele esforço e sentia as pernas descansarem e sentia que eu queria dormir. E sentia, quando ele veio eu me lembrei que eu sentia, muita saudade do tempo em que eu podia deitar e descansar e dormir. Mas nunca lembrei, nem mesmo quando ele veio, o que era que fazia eu não poder mais dormir agora que tinha tanto medo e me escondia naquela casa de cantos sujos e corpos amontoados lá fora e moscas lá fora e chuva lá fora.
E quando ele veio eu me lembrei de tudo o que eu não tinha me forçado a esquecer e lembrei tanto e tanto e de tanto eu me lembrei quando ele veio que me lembrei que eu descansava esperando a dor e me escondia fugindo da dor. E essa lembrança doeu quando ele veio. Essa lembrança foi o que mais doeu quando ele veio.
E ele gritava comigo quanto mais eu lembrava e ele sabia e eu sabia que eu só me lembrava porque ele estava comigo. E quando ele veio e enquanto ele esteve comigo gritando e cuspindo pedras nas paredes de pedra do escuro, enquanto ele esteve comigo eu me lembrei. Que eu tinha feito todo mundo acreditar que eu era feliz. E do medo e da chuva e das moscas lá fora, voando por cima dos corpos.
E quando eu o chamei de novo e ele veio, quando ele veio de novo, reconheci que ele era uma voz conhecida, reconheci que era a voz de alguém e reconheci, quando ele veio eu reconheci, que ele era a minha voz que gritava no escuro. E ele gritava porque eu gritava e reverberava e ecoava e sumia e voltava e repetiarepetiarepetia e sumia e eu o chamava e ele voltava e eu queria gritar e ele vinha quando eu gritava porque ele era o meu grito. E eu me lembravamelembravamelembrava, tanto lembrava de tudo aquilo que não me forcei a esquecer, tanto lembrava e lembrava e lembrava que lembrei, quando ele veio eu me lembrei. Das batidas na porta de madeira podre da casa escura e suja e do meu desespero calado e que eu balbuciava alguma oração já esquecida e que eu talvez ainda soubesse na hora do medo. Eu lembrei que eu não queria que me achassem e que eu me escondi num canto escuro e o dia era escuro e chovia e eu gostava porque chovia porque eu gostava da chuva e eu queria que a chuva nunca parasse porque o medo nunca parava e eu sentia, ali, presa naquele canto escuro, calada do medo que nunca parava, eu sentia o corpo todo tremer e sentia o coração tremer em mim e sentia que tremia dentro de mim um grito contido tinha muitos anos, um grito que eu não conseguia soltar e que era o único capaz de me trazer liberdade. E eu lembrei que havia relâmpagos rompendo o escuro e havia o silêncio e o escuro. E então eu lembrei de um som e o som era a porta derrubada e o som era de passos e os passos vinham até mim e eu sabia que aqueles passos não podiam me achar e eu sabia que tinham me achado e que eu não queria isso e eles vinham e vinham e eles andavam rápido e eram fortes e repetidos e então pararam. E quando pararam era junto de mim.
E quando eu o chamei de novo e ele veio e eu vi que ele era um berro guardado e que era o meu berro e que me arrancava da garganta o sangue que as pedras que eu cuspia levavam no ar, quando eu vi que ele queria sair de mim como eu queria sair de mim, quando ele veio e eu me vi nele, só quando ele veio eu me lembrei.
Que havia braços, sim, braços sem corpos me carregando pelos braços. E que havia medo e corpos e moscas e lixo e carros e morros e horizontes e negro e que era escuro, era muito escuro, e que era frio e eu queria dormir. E quando ele veio eu me lembrei. Que eu senti meu corpo arrastado pela sujeira dos tapetes e depois pelas pedras duras e depois pelos corpos e depois pelas ruas e pela pedra lisa e pelo úmido e pelo frio da cela em que o meu grito vem me libertar.
Sobre o Artilheiro Colaborador
Milena Martins é contista e poeta. É autora dos livros Palácio de Pedra (Litteris, 2006) e Promessa Vazia (Multifoco, 2010). Cursa mestrado em Literatura Brasileira, pela UERJ, é mezzo-soprano, ambidestra, hipermétrope e metaleira. Pela internetosfera, é mais conhecida por seu alter ego muito mais interessante Victoria Page, que bloga compulsivamente em http://oraculosdosoculos.blogspot.com.
Lutar com palavras XV – O óbito da solidão
Artilheiro Colaborador: Bruna Coradini
O relógio marcava cinco da manhã num tique-taque insuportável que entrava na cabeça de Ruby, assim como uma agulha penetra um pano longe de ser maciço. Olhava o quarto. A tintura das paredes e a cor alva da penteadeira – com um espelho em formato de coração embutido nela, um pouco torto para direita.
O retrato na cabeceira era de uma mulher de longos cabelos dourados, que abraçava uma menina com os mesmos cabelos e olhos repulsantes. Ruby não conhecera seus pais. Mas não tinha retratos de seu pai, o que a tornava distante dele, considerando-o como um homem qualquer. Porém, aspirava um dia encontrar sua mãe, e nela reconhecer todos os sentimentos que o retrato lhe proporcionava. Uma certeza Ruby tinha: a menina ao lado de sua mãe no retratro era ela mais jovem. Ruby não sabia quando nem como viera parar no orfanato. Simplesmente um dia acordara lá, e observava as paredes, a penteadeira e o retrato. A Irmã Gorethe dissera-lhe que o retrato era de sua mãe. E, sobre sua família, era a única e benevolente coisa que sabia.
Ao coçar os olhos, Ruby escutou as batidas na porta de madeira corroída. Era Irmã Alice.
- Ruby, vamos! O café está servido na mesa, e vamos tirá-lo às seis em ponto. Vista-se rapariga. Não esqueça das saias passadas que colocamos em seu armário – dizia ela num tom áspero com uma certa quantidade de simpatia.
Ruby levantou-se, colocou as vestes, e olhou seu reflexo no espelho torto da penteadeira. Com uma escova esmeralda, penteava seus cabelos, alisando-os, para ficarem parecidos com os da mãe. Na gaveta ao lado, pegara uma fita púrpura e fez dela um laço perfeito. Desceu para o café.
A escadaria que levava ao refeitório era grande e cansativa, porém o anseio da fome que transbordava em suas veias era definitivamente maior. Mal esperava para as aulas de latim, espanhol, inglês e matemática básica. Ruby se interessava em aprender.
No final do dia, após o banho diário, Ruby ia ao seu quarto e se olhava na penteadeira de novo. Quando iria sair dali? Ficaria para cá todo o sempre? Ruby não tinha certeza, mas sabia que ficaria lá por um bom tempo.
Enquanto deitava na cama, ela sussurava a música que embalava seus sonhos, todas as noites: ” Durma bem, durma bem, que mal não tem. A noite está chegando, o dia indo embora, durma menina, que já é hora”. Cantava-a até dormir.
Profunda fora a melodia naquela noite. Ruby não parara de a cantar. A luz a clamava alto, fazendo-a novamente sussurrar a melodia. E olhando para o retrato, seus olhos caíram estagnados, e seu corpo permaneceu em ócio.
O relógio marcava cinco horas da manhã, o tique-taque não incomodava agora. O quarto com suas paredes e cores, e a penteadeira alva não receberam olhares curiosos nessa manhã. Irmã Alice batia na porta:
- Ruby, vamos! O café está servido na mesa, e vamos tirá-lo às seis em ponto. Vista-se rapariga, não esqueça as saias. Ruby, anda-lhe!
Dados trinta minutos, Alice voltara à porta corroída.
- Que passas com tu, rapariga? Hei de chamar a irmã superior, está me escutando Ruby? Está me deixando preoucupada. Ruby, respon..
Sobre o Artilheiro Colaborador
Bruna Coradini é estudante, amante de cappuccino e boa música. Você pode segui-la no twitter e ler seu blog pessoal.
Lutar com palavras IX – Uma memorável noite
Artilheiro Colaborador: Gabriel de Souza
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Uma memorável noite (por Gabriel de Souza)
Definitivamente as mulheres não são as mesmas por aqui. Tão convidativas, tão deslumbrantes, tão amigáveis, tão suspeitosamente carinhosas. Fatores que contrastam de modo escandaloso com aquelas encontradas para além deste recinto. Bom, provavelmente a razão disso está escondida em mim. Não necessariamente em mim na verdade, mas no meu bolso traseiro. O que estou fazendo? Eu não preciso ficar remoendo essa detestável noção nesse instante. Tenho uma bela dose de whisky doze anos munida de duas pedrinhas de gelo, uma encantadora visão perfeitamente disposta para o meu deleite e uma sensação maravilhosa de poder que há tempos não tenho acesso. Logo, qual a finalidade de fomentar reflexões tão desagradáveis se posso simplesmente desfrutar da sensualidade que este lugar emana? Tenho consciência que em poucas horas o sol, pontual como sempre, surgirá no horizonte, contudo também tenho a certeza que ele não me encontrará enquanto aquele gorila estrondosamente obeso encostado próximo à saída não vier me buscar. E como é feio. Observá-lo é indescritivelmente desagradável. Tal rapaz me faz lembrar a viagem que realizei ao rio São Francisco. Acho que foi inspirado nele que a população local obteve a inspiração necessária para desenvolver as feições encontradas nas carrancas. Um aspecto é inquestionável: um rosto daquele aliado ao corpanzil desconjuntado que a ele é peculiar e ao terno barato que veste, certamente é capaz de afugentar qualquer mau espírito que estiver rondando por aqui. E, não há discussão, são muitos. Talvez eu seja um deles.
Novamente eu sinto que devo censurar-me. Apenas uma mente doentia como a minha é capaz de desvirtuar de tal modo os pensamentos incríveis que vinha tendo. Talvez deva voltar a focar a visão que mencionei, exemplo fiel da beleza pura buscada por tantos filósofos ao longo da história. Ah, se os malditos pederastas da Grécia Antiga tivessem posto os olhos na mulher que tenho o prazer de observar, é bem possível que tivessem renunciado a noção podre que nutriam das divinas obras de essência feminina. Eu sei que não deveria fazer uma análise tão preconceituosa, ressaltada, sobretudo, por juízos oriundos do valor que dou a criatura à minha frente, mas como não fazê-la? Como não me apaixonar por essa sedutora Vênus, ainda mais quando ela fulmina meus olhos com sua expressão de gueixa e vagarosamente retira seu sutiã rendado. Sim, sim, ainda falta a calcinha. Todavia, não tenho certeza se desejo o desaparecimento dessa peça, um pouco de mistério há de gerar fantasias, imprescindíveis ao surgimento do amor. Os homens sentados ao meu lado jamais entenderão minha perspectiva. Nojentos! Como eu desprezo tais abutres. Rodeiam-na como tais aves de rapina voam ao redor de uma fétida carniça. Manifestam o interesse que têm na queda desse adereço, afinal em uma situação como essa uma calcinha não passa de um adereço, vociferando injúrias à minha musa. São capazes de corromper todo o ambiente com as poucas palavras que conhecem esses cretinos! Eu deveria acabar com isso, ou com eles. Mas não agora, eu posso esperar um pouco mais. Por enquanto apenas apreciarei os passos minuciosamente ensaiados por minha amada, seria deveras insensível ignorá-los.
É no mínimo estranho pensar que há dois dias minha vida estava em ordem. Se é que se pode relacionar a palavra ordem ao que chamo de cotidiano. Acordar às seis horas, tomar um café e depois uma dose de Jackie acompanhada por um cigarro. Seguir para o chuveiro e então para a maldita universidade em que, infelizmente, leciono. Dar uma cheirada no intervalo para suportar as aulas seguintes. Eis que chega o fim da tortura, ao menos por duas horas. Almoçar nesses termos parece uma benção, mas o que falar do cigarrinho e do whisky para abrir o apetite? Todavia, o dever me carrega novamente para a sala de aula. Nada me deixa mais infeliz do que uma questão bem formulada por um dos meus satânicos alunos. Quando isso acontece quase chego a gostar deles. Essa sensação dura pouco, pois sempre há um imbecil que desenvolve uma elaborada introdução para tentar suprimir a imbecilidade intrínseca à suposta contribuição para a discussão em pauta. Como se o próprio levantamento feito não entregasse aos berros a miserável tentativa de mostrar conhecimento. Dessa forma, eu volto a odiá-los. Ao terminar esse processo de flagelação intelectual, sigo para a minha sala onde outras doses e outros cigarros me esperam. O que ocorre posteriormente é sempre um mistério.
Pensar nisso me faz lembrar o pacote que está no bolso do meu blazer. Um cigarro agora me ajudará a esquecer a amarga lembrança de minha antiga existência. Droga, o cheiro doce de mentolados insiste em permanecer no ar! Logo vejo a origem. Aqueles desgraçados, só poderia vir deles. Que tipo de homem fuma mentolado? O whisky na mesa deve me acalmar. Ou os movimentos suaves da moça no alto do pedestal. Realmente, a segunda opção faz mais efeito. Não consigo expressar de forma concreta a significação da majestosa entrada dessa mulher em minha vida. E como eu tentei nesses dois dias. Não obtive muito êxito, eu confesso, mas ela entendeu o recado. Acho que foi a forma com que transamos. A cumplicidade dos olhares, a sutileza dos toques, os orgasmos alcançados. Da primeira vez duvidei da eficácia de minha atuação, afinal, prostitutas são peritas em falsas demonstrações de êxtase na cama. Mas na cama, no chuveiro, na escada do meu prédio, na minha cozinha, na minha sala na universidade, entre outros locais? Bom, não gostaria de exagerar nas considerações indutivistas supervalorizando a veracidade obtida nas experimentações, mas, racionalmente falando, as possibilidades de engano quanto a esse assunto são ínfimas. E como ela dança. Talvez eu seja o único homem por aqui que compreende a arte por trás da carnalidade do show. Talvez não, eu sou! Não possuo a mediocridade necessária para me masturbar por baixo da mesa como faz o companheiro ao meu lado. Acho que o “carranca” também não apreciou a indelicadeza.
- Adeus, idiota!
Um a menos, faltam três. O ceifeiro bem que podia levá-los, assim a madrugada ficaria perfeita. Contudo eu duvido que ele o faça, afinal não temos um bom relacionamento desde ontem. Acho que eu o fiz trabalhar demais. O desgraçado deve estar exausto. Sem problemas, ele terá a noite inteira para descansar. O que eu preciso agora é de uma cheirada, espero que ainda reste um pouco de cocaína com Jasmine. Nunca entendi esses nomes de garotas de programa. A finalidade é óbvia, mas a constante existente é no mínimo bizarra. Natasha, Katrine, Jasmine! Não tenho certeza se conseguirei esperar até o fim da apresentação, estou sem uma carreira há horas. Bom, não tenho muita escolha, o Jackie vai ter que servir.
Finalmente! O show acabou. Não que eu desejasse isso, afinal o efeito que Jasmine gera em mim quando dança é tão entorpecente quanto os mais finos artigos do gênero, porém preciso saciar outras necessidades e apenas ela conhece os meus segredos. Como sempre terei que esperar por alguns minutos. Ela deve estar se arrumando para mim nesse momento. Não existe algo que se compare ao prazer de sentir o gosto adocicado dos beijos que recebo após as apresentações, a não ser o de me deliciar com o cheiro sutil provindo de seu pescoço recém perfumado.
Já faz quase meia hora e ela não veio ao meu encontro. O que será que ocorre com essa mulher? Ou com as mulheres em geral? Alguns minutos de espera são benéficos, afinal uma branda ansiedade é capaz de elevar extraordinariamente o encanto que produzem, mas alimentar uma expectativa ao ponto de torná-la exagerada corre o risco de promover desesperanças, ou até desespero. Este traduz melhor o que sinto no momento. Procurá-la-ei, então, não suporto mais observar o girar dos ponteiros. Ela deve estar em seu camarim, se é que se pode denominar desse modo aquela sala minúscula separada das demais por apenas uma cortina empoeirada.
Não posso acreditar no que vejo e no que ouço. Em ocasiões habituais ver Jasmine nua é a mais fabulosa das visões, mas encará-la de tal forma enquanto sistematicamente movimenta os quadris em cima de outro homem é insuportável. Seus gemidos de prazer me assombrarão por toda vida. Será que a singularidade das transas que tivemos foi puro devaneio? Desgraçado! Perceber que o rapaz por baixo de minha amada é um dos animais que assistiam ao strip-tease torna a situação ainda pior. Veremos se ele consegue manter a ereção com a lâmina do meu canivete perfurando sua traquéia.
O cheiro de sangue tomou conta do ambiente. Ah, quanta satisfação o soluçar moribundo deste demônio forneceu-me. Seus olhos lacrimejando perdiam a luz com lentidão enquanto eu torcia a faca em sua garganta. Nada como a poesia da morte. Entretanto tenho que suportar o olhar desaprovador de Jasmine no canto do camarim.
- O que queria que eu fizesse?
Um surto de raiva subitamente tomou conta de meu corpo após uma seqüência de lágrimas percorrem o rosto de Jasmine. Ela chora por este homem? Não posso encontrar outra explicação. Minha mão rendendo-se ao anseio inconsciente de vingança segura com firmeza o canivete. Logo, a idéia de cortar o pescoço da prostituta encolhida à minha frente não parece tão insana. E é o que faço.
É fato que, quando o sol encontrar minhas retinas, as lembranças do que fiz com minha querida Helena afugentarão qualquer resquício de sanidade que insistir em permanecer em minha mente. Seria assaz sensato finalizar esta trágica noite com uma despedida amargurada da vida. Talvez seja isso o que farei, contudo somente ao amanhecer. A madrugada ainda está pela metade e posso sentir o sangue correndo vagarosamente pelas veias de Jasmine.
- Nossa despedida será gloriosa, minha querida. A noite ainda não chegou ao fim.
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Sobre o Artilheiro Colaborador
Gabriel do Amaral Castilho de Souza tem 20 anos, a maior parte deles vividos no mundo real, ou não se adotarmos a ótica de Berkeley. Fica difícil dizer. Considera-se naturalmente inclinado à literatura, entretanto, nas horas vagas, cursa Geografia na Universidade de São Paulo.
Após passar dois anos e meio na ilha da fantasia decidiu retornar ao continente para aventurar-se na intrépida jornada dos escritores ocasionais. Vocês conhecem o tipo: o saudoso Vinícius de Moraes, o velho Chico, Machado de Assis, entre outros. Atualmente mora em São Paulo, contudo periodicamente encontra-se em Taubaté, sua cidade natal.
Não almeja fama, contudo não a subestima. Espera conseguir com as palavras saciar os outros e satisfazer aos seus próprios devaneios. Você pode encontrá-lo no e-mail gabriel7sc@hotmail.com, no skoob ou no orkut.




