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Especial Artilharia Cultural – Clube da Luta (Parte III)

Quem é Tyler Durden?

por Luke

Antes de tudo, eu gostaria de agradecer. Agradecer por cada RT, por cada comentário, cada elogio, cada clique. Nós escrevemos cada palavra, aqui, para vocês. Não para o nosso ego, não por falta do que fazer. Dedicamos nosso tempo (e dinheiro) no Artilharia Cultural porque acreditamos que temos algo a oferecer e receber. O que oferecemos são textos, conjuntos de palavras e ideias que vocês podem encontrar em qualquer outro lugar da internet, com mais ou menos qualidade que encontram aqui. O que recebemos de vocês, todos esses comentários e o apoio de amigos, é o principal motivo que nos faz escrever aqui. Nem que um post receba apenas um comentário – seja pelo espaço reservado ao fim do post, no twitter ou no nosso e-mail -, é esse comentário que nos causa a sensação de dever cumprido. Que faz todo o tempo e todo o esforço ser recompensado. Acredito que não preciso falar mais nada além de que é um orgulho estar sendo lido por cada um de vocês.

Chega de carinho, porém. Estamos aqui pra porrada. E é porrada que vocês terão ali embaixo.

Feche bem os pulsos.

Todo livro ou filme, por mais banal que possa ser, acaba te passando uma lição. Com Duro de Matar eu aprendi que terroristas russos não sabem atirar. Com Star Wars eu aprendi que o Obi Wan é melhor que o Anakin, e que o Han Solo atira primeiro. Com Clube da Luta, porém, eu aprendi que qualquer um de nós pode ser Tyler Durden.

Quem aqui nunca se imaginou fazendo algo que a sua covardia impediu-o de realizar? Não, não venha com esse papo de “senso-comum” ou “o que as pessoas vão pensar de mim?”. As pessoas, no fim das contas, não ligam pra você. Se eu começar uma briga comigo mesmo no meio da Avenida Paulista, as pessoas vão achar isso (muito) estranho. Talvez alguém até pare para perguntar o que aconteceu, e esse pode ser o assunto do jantar de um ou outro… Mas quando elas acordarem, no outro dia, mal vão lembrar do meu rosto. A falta de ímpeto para ir atrás do que você quer é o que te faz recriar todas suas vontades em seu subconsciente. Ali, não existem jaulas. Todos seus desejos, todas suas vontades, todos seus ideais tomam forma. Mas, e quando isso não é o suficiente e, ao mesmo tempo, você ainda não encontra coragem para dar um passo à frente? É aí que conhecemos Tyler Durden. Mas ainda chegaremos lá… Primeiro, precisamos analisar uma figura tão importante quanto: a do Narrador.

Este (interpretado por um Edward Norton inspiradíssimo) é o retrato do cidadão comum. O meu retrato, e o seu retrato. Pare um pouco de ler essas palavras e pense: nesses últimos dias, existe alguma coisa que você teve vontade de fazer, mas acabou não fazendo por preocupar-se demais com os outros, ou com as conseqüências do ato em si? Se você conseguiu dizer “não” depois dessa pergunta, eu te parabenizo. O Narrador pode ser qualquer um de nós. Envoltos em uma sociedade que dita regras ridículas, que inventa preceitos que não, não devem ser seguidos.

“Você não é seu emprego. Você não é sua soma de dinheiro no banco. Você não é o carro que dirige. Não é o conteúdo da sua carteira. Não é a porra da sua calça cáqui. Você faz parte de toda a, dançante e cantante, merda do mundo.”

Crescemos achando que seremos especiais se continuarmos assim, vivendo em sociedade, de maneira alegre, como carneiros em um pasto. Mas, se o simples fato de se destacar dentre as pessoas pode ser positivo, isso só comprova que a sociedade, em si, é falha. É injusta. É desigual. E o Narrador é tão dependente desse preceito que, para curar sua insônia, freqüenta grupos de terapia apenas para saber que existem pessoas piores que ele. Saber da desgraça alheia pode te causar duas sensações: a indiferença, ou a massagem no ego. Ou aquilo não afetará sua vida de modo algum, ou ela servirá para que você saiba que não está tão ferrado assim. Quando a sua mãe fala para você terminar o prato de comida, porque tem gente passando fome na rua, ela não está preocupada com a criança que vai morrer em um dia ou dois, desnutrida. Tá preocupada com você, e só você. Não é compaixão; é egoísmo. E é justamente quando o Narrador acredita ter atingido o fundo do poço, que ele conhece seu messias – e, ao mesmo tempo, aquele que o mostrará REALMENTE onde fica esse fundo: Tyler Durden. Chegou, finalmente, a hora de responder a pergunta que entitula a parte final desse especial: Quem é Tyler Durden?


Ei, você me criou! Eu não criei nenhum alter-ego perdedor para me sentir melhor. Assuma a responsabilidade!

“Tudo o que você sempre quis ser… Esse sou eu. Eu pareço como você quer parecer, eu transo como você queria transar, eu sou inteligente, capaz e, mais importante, eu sou livre de todos os modos que você não é.”

É assim que Tyler (interpretado pelo fenomenal Brad Pitt) se apresenta para seu criador, quando este descobre toda a verdade. Como um soco no estômago – no dele e no do espectador -, descobrimos que Tyler Durden, na verdade, é o alter-ego de quem nos contou a história até então. Essa foi a válvula de escape dele. As pessoas fazem isso todos os dias, completa Tyler. Elas falam com si próprias, fingindo ser quem não são… Elas só não tem a coragem que você teve, de simplesmente ir em frente. Se eu sonho em ser um rockstar, eu acordo sabendo que me transformarei num jornalista. Se Tyler quer se libertar de todos os dogmas impostos pela sociedade, mas não tem coragem suficiente para, consciente, ir em busca disso… Ele cria um “eu” superior, que o faz.

Tyler Durden, diferente dos quatro Cavaleiros do Apocalipse, cavalga sozinho carregando a bandeira da anarquia. E, no fim das contas, o que é a anarquia? Ela seria um sistema perfeito, um sistema sem erros e sem falhas, que funcionaria em uma sociedade totalmente diferente da nossa. E é por isso que Durden arruma seu próprio meio de dar início à sua própria sociedade. O começo dela, como já falamos, foi o Clube da Luta. Este tem oito regras básicas que, por serem regras, fariam a tese da anarquia supracitada cair por terra. O grande mote é que as regras principais não funcionam. Elas parecem ter sido inventadas com o único propósito de serem quebradas. Tal é a ironia acerca disso, que a segunda regra não passa de uma repetição da primeira, como se Tyler sussurrasse: entendeu? É proibido falar do Clube da Luta… Você não pode fazer isso… E agora?

Essa, aliás, é uma bela definição para Durden. Ele é a voz que te sussurra, nas situações mais variadas, para ir em frente. Seja na hora de enfrentar seu chefe ou de tentar pegar aquela mulher em uma festa, é a voz que quase te implora: faça isso. Pare de pensar nos outros, ou no que pode acontecer amanhã. Você pode morrer hoje.

Existe, aliás, melhor exemplo do que a cena envolvendo Raymond K. Hessel? Se você não lembra (porque, se você chegou até aqui, com certeza assistiu o filme), nós te trazemos um vídeo (em italiano, o único idioma disponível no youtube) com o trecho supracitado.

This video was embedded using the YouTuber plugin by Roy Tanck. Adobe Flash Player is required to view the video.

(para o áudio original e uma tipografia sensacional, clique aqui)

“É fácil chorar quando a gente sente que as pessoas que amamos vão nos rejeitar ou morrer. Em pouco tempo, o índice de sobrevivência de todo mundo cairá a zero.”(PALAHNIUK, 1996, p.4)

Raymond é o exemplo que Tyler nos dá. O tipo de pessoa com um sonho, que acomodou-se com sua vidinha ridícula e estacionou no primeiro emprego que encontrou. Depois de afirmar que irá matá-lo, Tyler lhe dá uma última chance: Hessel irá sobreviver se voltar a estudar para ser um veterinário. Se a voz dentro da cabeça Raymond foi baixa demais para que ele escutasse-a, Tyler tomou o controle. A frase final dessa cena (que não consta no vídeo acima) encerra, com louvor, um dos momentos que mais me surpreendeu no filme. Tyler responde para o Narrador, que encontra-se indignado com o ocorrido, que amanhã será o dia mais lindo da vida de Raymond K. Hessel. Seu café da manhã terá um gosto melhor do que qualquer refeição que os dois já comeram em toda a vida.

Nós vivemos em stand-by. Ignorando todas as chances que aparecem. Não é sobre tornar-se alguém melhor. É sobre ser alguém, mesmo que esse alguém seja a pior parte que um ser humano pode demonstrar. Nas palavras de Tyler, may I never be complete. May I never be content. May the chips fall where they may (que eu nunca seja completo. Que eu nunca esteja satisfeito. Que as fichas caiam onde tiverem que cair).

Esse é o nosso recado. Esse é o recado do Tyler. Essa é a sua vida. E ela está acabando a cada minuto que passa.

ATENÇÃO:

O especial não acaba por aqui: o Artilharia Cultural aguarda ansiosamente por sugestões e textos de você, leitores, para serem publicados aqui. Nossa proposta, desde o início, sempre foi a de manter um diálogo aberto com nosso público. Se você tem algo a dizer, qualquer coisa, simplesmente o faça. Nosso twitter está ali pra isso.

Especial Artilharia Cultural – Clube da Luta (Parte II)

O Clube da Luta e um mundo sem controle

por  Luke

O que se vê no Clube da Luta é uma geração de homens criados por mulheres. (PALAHNIUK, 1996, p.22)

O Estado, segundo Freud, “proíbe ao indivíduo a prática de atos infratores, não porque deseje aboli-los, mas sim porque quer monopolizá-los”. É através dele que decisões são tomadas, vidas são afetadas e milhões são controlados. A ideia de estado é mais antiga do que se supõe, e apesar de suas mutações – em muitas civilizações, ele não era laico (aliás, era regido considerando uma hierarquia baseada em religião) -, este sempre deteve uma função única e vitalícia: a de unidade controladora. O Estado é a cola que mantém todos unidos, é o sistema que impõe o que é certo, o que é errado, o que deve ser feito e o que deve ser evitado. Regras, leis, preceitos, dentre outras características são praticamente criadas e sustentadas por um sistema, seja ele físico (como os Três Poderes) ou subjetivo (como o senso-comum, que cria tabus e regras para convívio).

O Clube da Luta apresenta-se, no filme, como um instrumento de libertação que, como um braço mecânico em uma máquina de brinquedos, estende-se e agarra de maneira voraz o indivíduo, arrancando-o do sistema. Suas regras são 8.

1 – Você não fala do Clube da Luta.

2 – Você NÃO FALA do Clube da Luta.

3 – Se alguém gritar “para!”, sinalizar ou apagar, a luta acaba.

4 – Somente duas pessoas por luta.

5 – Uma luta de cada vez.

6 – Sem camisa, sem sapatos.

7 – As lutas duram o tempo que for preciso.

8 – Se essa é sua primeira noite no Clube da Luta, você precisa lutar.

Um dos propósitos base do Clube da Luta é mostrar para o indivíduo que ele não passa de mais um número. Que não faz diferença se ele existe ou não, porque o mundo continua girando. Você não é um lindo e único floco de neve, diz Tyler Durden. E, se você considerar que é 1 em 6.000.000.000, Tyler não está errado. Para endossar mais essa teoria, cito aqui (para a revolta do Artilheiro Comunista Marcel), meu coleguinha de muito tempo: Adam Smith.

Suponhamos que o grande império da China, com suas miríades de habitantes, fosse subitamente engolido por um terremoto, e vamos considerar como seria afetado um cidadão humanitário, na Europa, ao receber a terrível notícia dessa calamidade. Acredito que em primeiro lugar ele iria expressar com veemência toda sua tristeza pela desgraça daquele infeliz povo, fazendo muitas reflexões melancólicas sobre a precariedade da vida humana… E quando toda essa bela filosofia tivesse terminado, quando todos esses sentimentos humanísticos já tivessem sido devidamente expressos, ele iria dar prosseguimento a seus negócios ou seu divertimento, repousar ou se distrair com a mesma calma e tranquilidade de antes, como se nada tivesse ocorrido… Se no dia seguinte tivessse de amputar o dedo mindinho, passaria a noite inteira sem dormir, mas… Ele vai roncar com a mais profunda tranquilidade sobre a ruína de centenas de milhares de irmãos seus.


Por mais bondoso que você se considere, uma catástrofe envolvendo milhares de pessoas não muda sua vida. Você chegar atrasado no seu trabalho é pior para você do que saber que milhares estão desempregados, e no fim das contas isso não é a “maldição do Capitalismo” ou qualquer título imbecil que pessoas ignorantes atribuem a um fator simples: a natureza humana. E é esse o propósito do Clube da Luta: arrancar o indivíduo desses preceitos, do senso-comum, e mostrar que, no fim das contas, todos nós somos inúteis e estamos destinados a transformarmo-nos em adubo de terra. O que você pode fazer, porém, é se exilar desse mundo de imagens e conceitos falhos, para descobrir que ser esse pedaço de lixo não é tão ruim.

Eu descobri, ao reassistir o filme diversas vezes, o modo intrínseco com o qual a sociedade é tratada. O Narrador não passa da representação de qualquer um de nós, envolto em uma sociedade que representa aquela em que vivemos. Não com as mesmas pessoas, mas com as mesmas funções e as mesmas dúvidas. E a nossa geração, bem… Deixarei Tyler explicá-la, novamente.

Nós somos os filhos do meio da história, sem propósito ou lugar. Não tivemos Grande Guerra, não tivemos Grande Depressão. Nossa grande guerra é a guerra espiritual, nossa grande depressão é a nossa vida. Fomos criados pela televisão para acreditar que um dia seríamos ricos, estrelas de cinema e da globo. Mas não seremos. E estamos aos poucos aprendendo isso. E estamos muito , muito revoltados.

Imagem meramente ilustrativa.

Essa geração inteira criada por mães reflete a intenção de Chuck Palahniuk em usar, ao mínimo, mulheres no livro. Tanto nele quanto no longa, apenas Marla tem seu verdadeiro papel de destaque. Isso se reflete no Clube da Luta, que admite apenas homens. Podemos abstrair disso, também, que o laço com a mulher é o fator mais iminente para manter um homem dentro do sistema. Quando jovem, sua mãe manda você procurar um emprego, se formar, estudar, casar. Quando você casa, sua esposa, de um jeito ou de outro, terá uma influência grande em suas decisões. Quando o Clube da Luta te tira do sistema, você ignora a sociedade e, consequentemente, qualquer outra influência. Você vive para o Clube, vive à par da sociedade.

Conforme o Clube evolui e ganha mais membros, tem início o Projeto Caos (Project Mayhem), que tem como intuito a destruição completa das vigas de sustentação econômica da sociedade (o que caracteriza, novamente, a ideologia da obra como anarquista, ao observarmos que o propósito de Tyler Durden é destruir completamente as estruturas que fazem com que as pessoas sejam diferentes, seja por sua conta bancária ou por seu emprego. Seguindo também o preceito pacífico do anarquismo, que prega a destruição do estado mas também a boa convivência entre todos, os prédios que são derrubados ao fim do filme, como explicado por Tyler minutos antes do ocorrido, estavam vazios. Nem mesmo os seguranças estavam presentes, considerando que estes também faziam parte do Clube da Luta.

Um ponto cuja importância merece ser colocada em xeque – e devidamente explicada – é o questionamento sobre o anarquismo e as regras do Clube da Luta. Uma sociedade anárquica não tem regras, e o Clube da Luta, por ser o prelúdio dessa sociedade, também não poderia ter. O que, muitas vezes, não é reparado, é que a primeira – e mais importante – regra do Clube é sumariamente ignorada e violada por todos, o que denota o teor de transgressão do sistema imposto (qualquer sistema).

No fim das contas, o Clube da Luta é mais uma utopia. Um estado dentro de um estado, feito por homens libertários e revoltados com sua própria situação. E o maior destes homens é Tyler Durden. Mas isso você confere amanhã, na nossa Parte III do Especial Artilharia Cultural – Clube da Luta.

Especial Artilharia Cultural – Clube da Luta (Parte I)

O Clube

por Luke

Se existe um filme e um livro que os Artilheiros Luke e Marcel realmente idolatram, é Clube da Luta. Parceiros de faculdade, os dois desenvolveram um trabalho de metodologia em cima da obra supracitada. Luke leu o livro 3 vezes, perdeu a conta de quantas assistiu o filme, e Marcel parecia ter encarnado a persona de Tyler Durden. O Artilharia Cultural não perdeu a chance e roubou o trabalho dos dois; o resultado de tudo isso você confere essa semana. Se você ainda não assistiu o filme, porém, começamos o especial com uma resenha do filme supracitado.

Em 1999, David Fincher adaptou uma das obras literárias mais impactantes dessa década: Clube da Luta, de Chuck Palahniuk, não falava sobre uma guerra de nação vs. nação. Não citava conflitos envolvendo centenas de pessoas, e cenas espetaculares de ação. Tudo o que foi divulgado antes do lançamento do filme foi uma vã tentativa dos estúdios de não fracassar tanto nas bilheterias: a película foi vendida como um filme de pura ação, com momentos cômicos, quando na verdade trata de algo muito mais intrínseco, muito mais psicológico. Como esperado, o filme rendeu muito pouco nos cinemas, tornando-se apenas um símbolo cult quando alcançou as prateleiras de DVD e pode ser apreciado como deve: como um soco no estômago.

Atenção: este artigo contém spoilers

Conhecemos o Narrador (Edward Norton) como um homem típico: trabalha em um escritório, num emprego que não gosta, e resume sua existência em comprar móveis que vê em um catálogo. Sem perspectiva de vida, é o tipo de pessoa que, quando em um avião, imagina as possibilidades de um desastre iminente, culminando na sua morte e na daqueles que o cercam. Ele funciona como mais um número no sistema, que circula sem falhas, até que conhece Tyler Durden (Brad Pitt), homem que parece ser seu oposto: é despreocupado, rápido, vivente. Desde o primeiro instante em que ele aparece para o Narrador, notamos que eles representam dois opostos. E o lado mais fraco, obviamente, tende a declinar.

É o que acontece quando o apartamento do Narrador simplesmente explode, e ele se vê tentado a ir morar com Durden. Como “agradecimento” pela aceitação da oferta, Tyler pede apenas uma coisa: que o Narrador o acerte, com um soco, o mais forte que puder. Sem sentido, sem aviso-prévio e sem cinto de segurança, é esse o começo de uma jornada que, a cada minuto, te faz grudar mais e mais na cadeira, à espera de mais um ganho de direita. E eles vem… Um atrás do outro. Talvez, o maior deles, é a fundação do Clube da Luta, um tipo de sociedade alternativa que vocês irão descobrir, de modo mais apurado, no próximo post desse especial.

Em meio à essa coqueluche de acontecimentos, encontramos a única personagem mulher de destaque na trama: Marla Singer (Helena Bonham Carter), que mantém uma relação ambíguia e, no mínimo, controversa, com Tyler e o Narrador.

Clube da Luta é o tipo de filme que não te deixa respirar. Que, seja em uma sequência movimentada, em um diálogo ríspido ou em um momento WTF, você mal tem tempo para assimilar as coisas. Com uma pancada atrás da outra, tudo o que você tem a fazer é tentar absorver o máximo de ideias e conceitos que conseguir, pela primeira vez… Porque, definitivamente, não será a única em que você assistirá o filme.

Eu poderia, sim, falar mais de Clube da Luta. Isso, porém, será feito no decorrer desse especial. Mais que isso, eu sugiro que você alugue, compre, baixe ou roube o filme de algum amigo, porque você não vai se arrepender. Clube da Luta é o tipo de filme que muda sua visão de mundo. Mudou a minha, mudou a do Marcel, e provavelmente vai mudar a sua.

Amanhã, no Especial Clube da Luta Artilharia Cultural: O Clube da Luta e a Anarquia.

Nota do Artilheiro: Essa é uma resenha breve e sucinta, que tem como viés apenas apresentar de modo simplório a história e os personagens. Ela não se enquadra no tipo de resenha padrão do Artilharia Cultural, que visa um aprofundamento em conceitos técnicos e na própria história da obra. Tais feitos serão realizados nos próximos posts desse especial.

Para além das revoluções

Todo período histórico tem angústias que parecem eternas quando as questões padecem de uma resposta convincente. Tal sentimento incessante açoita principalmente o coração dos jovens cidadãos que anseiam por um futuro melhor. O jovem é, então, o principal ativista para um futuro digno, já que o encontrado por eles é sempre o mais degradável possível.

Autores como Henry Thoreau, Jack Kerouac, músicos como Kurt Cobain, John Lennon, personagens como Che Guevara, Zumbi dos Palmares representam, em épocas e atuações diferentes, a atitude frente ao absoluto desconforto quanto ao futuro.

Zumbi, líder negro de todas as raças

Zumbi dos Palmares, um dos personagens negros mais conhecidos da história escravagista do Brasil sofreu diversas tentativas de aculturação por parte de seus senhores, sem jamais deixar os princípios de liberdade para seu povo de lado. Zumbi ou Francisco viveu num século XVI onde o negro era tratado como peça da máquina do progresso. Quando o escravo teve uma única oportunidade, liderou os negros do Quilombo dos Palmares contra o antigo líder do quilombo, Ganga Zumba, além da opressão imposta pela Coroa Portuguesa. Mais tarde, traído, o personagem de Zumbi simboliza a resistência e luta pelos ideais, mesmo que estes sejam contrários à maré.

Henry Thoreau e a desobediência civil

O mais antigo dos autores citados acima foi um ensaísta revolucionário e transcendental que viveu entre 1817 e 62 e viu um mundo sujo, confuso e explorador. Escravismo e grandes colônias. O homem ainda escravizava o próprio homem e isso nunca deixou o escritor estadunidense em paz consigo. Deu vida ao pensamento libertador em seu ensaio “Desobediência Civil” além de ser um dos precursores do pensamento “carpe diem” e do Naturalismo no Ocidente. Henry David Thoreau foi uma importante fonte onde bebem músicos, atores e outros escritores até os dias de hoje.

Indicamos: “Walden” (Thoreau).


O “Beat” por Jack Kerouac


Foi o precursor do movimento beat nos anos 50-60. O poeta e romancista era um jovem universitário em plenos anos 50. Um ar tenebroso pairava sobre as Américas. A Guerra Fria começava no mundo despertando um preto e branco de sinistro, o medo era de que o mundo explodisse com um simples aperto de botão. Kerouac, então, juntamente com William Burroughs, trouxe uma palheta de cores infinitas para postar sobre o monocromático. A geração beat seria conhecida mais tarde como movimento hippie e reconhecida como o mais forte movimento cultural da década.

Indicamos: Na estrada”(Kerouac) e “Almoço Nu” (Burroughs).


Cobain e a década de 90

Foi o mais completo sinônimo do jovem americano dos anos 1990. A derradeira década do século XX foi tomada por um total conflito entre o passado e o moderno. Dessa insatisfação nasceria uma camada de revolucionários sem uma revolução.

A fala de Tyler Duden, personagem de “Clube da Luta”, de Chuck Palahniuk, é ideal para contextualizar os anos 1990:

“Cara, eu vejo no Clube da Luta os homens mais fortes e inteligentes que já viveram. Vejo todo esse potencial, e vejo ele desperdiçado. Que droga, uma geração inteira enchendo tanques de gasolina, servindo mesas, ou escravos do colarinho branco. Os anúncios nos fazem comprar carros e roupas, trabalhar em empregos que odiamos para comprar as porcarias que não precisamos. Somos uma geração sem peso na história, cara. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Grande Guerra. Nem uma Grande Depressão. Nossa Grande Guerra é a guerra espiritual… nossa Grande Depressão é nossas vidas. Todos nós fomos criados vendo televisão para acreditar que um dia seríamos milionários, e deuses do cinema, e estrelas do rock. Mas nós não somos. Aos poucos vamos tomando consciência disso. E estamos muito, muito revoltados.”

Kurt Cobain foi o vocalista do Nirvana, uma banda de grunge que tinha um espírito de discórdia plena aos conceitos do mundo moderno. Seu tédio,  descaso, e  receio são retratados na então lendária faixa um de Nivermind, “Smells like a teen spirit”.

As letras do roqueiro perturbavam os adultos e tornaram-se hinos para os jovens do século sem nenhum peso na história.

Smells Like a Teen Spirit

Carregue suas armas e traga seus amigos
É divertido perder e fingir
Ela está entediada e auto-confiante
Oh não, eu sei um palavrão

Olá, olá, olá, que baixo

Com as luzes apagadas é menos perigoso
Aqui estamos nos agora, nos divirta
Me sinto estúpido e contagioso
Aqui, estamos nós agora, nos divirta
Um mulato, um albino, um mosquito
Meu libido
Yeah!

Sou o pior no melhor que faço
E por esta dádiva me sinto abençoado
Nosso pequeno grupo sempre existiu
E sempre existirá até o fim

E eu esqueci por que eu provei
Oh sim, acho que me faz sorrir
Eu achei difícil, é difícil de achar
Bem, que seja não se preocupe (nevermind).

Indicamos: “Nevermind” (Nirvana), “Fight’s Club” (David Fincher) e “Fight’s Club” (Chuck Palahniuk)


Che, o símbolo da revolução


Ernesto Guevara de la Serna nasceu em Rosário, Argentina, um ano antes da grande crise econômica do capital de 1929. El Che, como ficou conhecido, encontrou em sua juventude um mundo dividido por duas idéias.

Em uma viagem no lugar de sua formatura na faculdade de Medicina, ele encontraria na Guatemala motivos suficientes para se intitular revolucionário.  O movimento revolucionário de 26 de julho e tantos outros feitos ao lado de Fidel Castro mudaram completamente o rumo de sua vida. De estudante de medicina até guerrilheiro.

“Deixe dizer-lhe, com o risco de parecer ridículo, que o revolucionário verdadeiro está guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário autêntico sem esta qualidade. Quiçá seja um dos grandes dramas do dirigente […]. Todos os dias temos que lutar para que esse amor à humanidade vivente se transforme em fatos concretos, em atos que sirvam de exemplo, de mobilização”

O revolúcionário não representa apenas uma escolha entre as duas bandeiras então postas: a azul do capital e vermelha do comunismo. Gostem ou não, Che é o mais perfeito símbolo da luta contra o monopólio do saber e do poder. O sentimento de angústia e intranqüilidade numa época de miséria e desigualdade lhe faria dar a vida em prol da causa que julgava a maior de todas.

Indicamos: Diários de Motocicleta (Walter Salles).

As semelhanças entre os personagens acima são os principais motores para a mudança da sociedade. O intuito de reunir alguns do principais nomes das épocas que considero cruciais para a formação da realidade como conhecemos nasceu para indicar – principalmente – as obras de arte que eles produziram, ou que foi produzido à partir deles.

A revolução não é, nem deve existir apenas dentro de um partido político esquerdista, ou um modo de vida caótico e apocalíptico em que se renega todo o mundo como é. A revolução deve ser mantida dentro dos corações e praticada nos momentos certos, oportunos. Para que então libertemos-nos de nossas angústias através da luta – de ideias, palavras e noções.

Dispensados, soldados.