Arsenal de assuntos

Posts Tagged ‘Chuck Palahniuk’

Suprimento Semanal IV

Boa noite, Artilheiros. Em dia de #FF no twitter (aliás, já me segue? Sou o @lucasbaranyi!), chegou a vez do #SS no AC. Um livro, um filme, um álbum, pra que você não tenha desculpa na hora de falar que não tem “nada pra fazer” no final de semana. Bora?

O livro

Assombro (Chuck Palahniuk)

É através de Guts, conto que já fez pelo menos 73 pessoas desmaiarem, ao ser lido em uma exibição pública, que a maioria das pessoas conhecem esse livro. Algumas também acabam conhecendo, dessa forma, Chuck Palahniuk, responsável por Clube da Luta e muitos outros sucessos. A história? 18 escritores recebem a proposta de escreverem seus “melhores livros”. Conseguirão isso ao se isolarem da sociedade por três meses. O que eles não sabiam, é que o local cujo isolamento ocorreria seria um teatro abandonado. Ali, presos e alvos de uma macabra “experiência”, eles acabam por escrever contos e poemas, no mínimo, perturbadores. O livro carrega a linguagem ácida e inteligentíssima de Chuck, e o conto supracitado é um dos pontos altos da obra. Você pode lê-lo (e ter uma base do que te espera) clicando aqui.

O filme

Código de Conduta (F. Gary Gray)

Eu tinha uma porrada de filmes pra indicar pra vocês, como devem imaginar… Mas Código de Conduta foi o filme que prendeu minha atenção por seu roteiro interessante: um homem (Gerard Butler) perde sua esposa e sua filha, assassinadas em um assalto à sua casa. Seu advogado (Jamie Foxx, a cada filme mais sensacional), para evitar que seu nível de condenações abaixe, decide optar por uma estratégia mais segura no julgamento e faz um acordo com o assassino. Toda a história, então, gira no quão longe pode ir um homem que não tem absolutamente nada a perder.

Com boas cenas de ação e diálogos interessantes, Código de Conduta é o tipo de filme para se assistir em um final de semana, com muita coisa pra beliscar ao lado.

O disco

The Resistance (Muse)

Já resenhado no AC, um dos melhores álbuns de 2009 é o conjunto de gravações mais contraditórios da banda européia, por fugir de suas origens pesadas para mergulhar de cabeça em um rock com influências clássicas e, por que não, melódicas?

The Resistance é o meu álbum favorito da banda e, em muitas faixas, me faz lembrar de Queen. As faixas recomendadas pelo Artilheiro que vos escreve para ouvir primeiro são Uprising, The Resistance e Guiding Light (esta última, com um solo que lembra de maneira assustadora Brian May, guitarrista do Queen).

Bombardeio X – Dia do Escritor

Hoje, dia 25 de Julho, celebra-se o Dia do Escritor. E, como vocês já devem ter percebido pelos posts gigantes e pelos comentários maiores ainda, o pessoal que frequenta e faz o Artilharia Cultural gosta (muito) de escrever. Tudo isso, porém, não aconteceu de repente. Independente de quando, de que forma ou em quais circunstâncias, todos aqueles que adquiriram o prazer de escrever, ganharam anteriormente o gosto em ler. Seja um gibi, uma história de contos de fadas ou o bilhetinho da primeira série, todo mundo que não aguenta ficar muito tempo sem escrever também não aguenta ficar sem ler. O nosso décimo bombardeio trouxe a equipe oficial do AC + 4 convidados para falar sobre seu autor favorito.

Manoel de Barros (@alicemariel)

De todos os nomes da lista quilométrica de pessoas que me fizeram gostar de ler, Manoel de Barros foi o único que me ensinou verdadeiramente a gostar de poesia. Lá no auge dos meus nove anos, enquanto eu devorava livros de escritores como José de Alencar e Machado de Assis e repudiava qualquer coisa que tivesse métrica e rimas imbecis, encontrei um livro miúdo, meio apagado, meio espremido entre os de literatura estrangeira na prateleira de uma livraria com mais teias de aranhas que clientes: o Livro das Ignorãças. Logo eu aprendi também que o Mato Grosso é dividido entre aqueles que não sabem quem é o cara e aqueles que morrem de orgulho da terra que o gerou. A simplicidade dos versos de Manoel me surpreendeu de tal forma que era impossível não me sentir tentada a dar uma chance àquilo que antes não parecia ser mais do que punhados de palavras vazias arranjadas para soar bonito. Manoel de Barros não só soava bonito pra mim como cada palavra trazia em si uma beleza daquelas que de tão delicadas você tem medo de pegar com a mão sem muito jeito e quebrar. Não precisa ser um gênio da literatura, mas se alguém é capaz de mudar sua maneira de encarar o mundo, sem dúvida é merecedor de respeito.

Do Fazedor de Amanhecer até o Guardador de Águas, Manoel é pra onde eu vou quando preciso de férias. Não é, nem de longe, o meu escritor favorito, mas pouquíssimos deles conseguiram me conquistar assim como o poeta pantaneiro fez.

José Saramago (@omgcaio)

Não lembro de quando li o primeiro livro do Saramago, mas sei que quando li, vi ali um autor que tinha nascido num país errado. Era tudo tão livre e dotado de um jeito pessoal de falar que se não soubesse antes, acharia com facilidade que ele era brasileiro, dada ao jeito tranqüilo de expressar tudo que pensava e sem se ater a nenhuma regra certa, exceto à inexistência de todas elas. E o fato de também não me apegar tanto às regras quando escrevo só me deixou mais próximo dele; e acho ser um sentimento que é compartilhado por todos que escrevem e acham um autor que chega próximo do seu estilo pessoal.

Apesar de não lembrar quando, sei que o primeiro livro que li dele foi o não tão disseminado como “Ensaio sobre a Cegueira”, mas sim o “As intermitências da morte”. Achei bem estranho acompanhar um jeito tão peculiar de escrever, mas depois que o costume te atinge, consegue compreender tudo com facilidade fora do comum. A ironia e o seu jeito de criticar as coisas também me atraiu bastante, principalmente quando retrata um governo completamente despreparado e que não liga muito para o bem estar da população. Saramago escrevia sobre pessoas, era raro tratar um indivíduo como único e especial, tanto que nomes são coisas completamente irrelevantes, e logo no final do livro achei peculiar ele se focar na história de um homem que não conseguia morrer, já que ninguém era tão especial. Demorei bastante tempo para conseguir ver um auto-retrato do autor e do romance com a sua mulher, Pilar, inserido de forma tão genial num livro que buscava tratar dos humanos de forma bastante generalizada e dos seus dilemas e certezas fúteis. É um dos meus autores prediletos e com toda certeza bastante influente tanto no meu modo de pensar quanto no de escrever, afinal “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

Chuck Palahniuk (@noduro)

Chuck é um maestro. Sob sua regência estão seus personagens indomáveis, indecisos e incomuns. A plateia de seu espetáculo é qualquer mortal sortudo que tenha barrado com um de seus contos; qualquer ser humano que vive o martírio do século 21 onde as incertezas são maiores que a paixão e as verdades cruas são aos olhos brancos do preconceito pura bizarria.

O Clube da Luta, o romance de 1996, é o meu favorito. Mas devo considerar que a decisão foi deveras complicada ao lado de Cantigas de Ninar, Monstros Invisíveis e No Sufoco (todos os títulos já foram traduzidos para nossa língua).

Machado de Assis (@bielabagacera)

O que mais me fascina em Machado de Assis é o quanto ele se expõe em seus livros, antes mesmo dele ingressar de vez em sua fase Realista. Machado deixa muito claro em cada uma de suas narrativas a sua personalidade cética, sarcástica e perspicaz. Gosto de pensar que se hoje um Memórias Póstumas de Brás Cubas impressiona pela sua crueza, imagine só o quanto a obra machadiana não chocava a sociedade do século XIX. E ainda assim, ele era admirado e bem quisto. Um homem que consegue mesclar uma personalidade franca e realista sem se tornar uma pessoa desagradável aos olhos da sociedade que ele mesmo expõe, merece meu respeito.

Machado de Assis é o tipo de autor que eu leio e que fala por mim. Quando leio suas produções, sempre imagino que eu descreveria a situação do mesmo jeito. É uma identificação pessoal com seu jeito prático de ver os problemas e saber se eles podem ou não ser resolvidos. Assim como Machado de Assis, acho que sou uma conservadora. Gosto de ver a essência humana exposta, mas não de todo o seu íntimo. Isso tira a magia e nos transforma em meros animais.

Pra finalizar, recomendo que leiam as obras mais famosas de Machado porque simplesmente há determinadas coisas que não podem passar como desconhecidas por sua vida (e também porque provavelmente seus professores ou alguns vestibulares te obrigarão a ler). E então, leia A Mão e A Luva, uma produção da fase romântica do autor e que deixará bem claro o que quero dizer sobre o que é ter uma visão realista dentro de um romance.

Machadinho… Te dedico.

Luis Fernando Verissimo (@lucasbaranyi)

É complicado pra mim falar de Verissimo, quando ele foi um dos responsáveis pelo meu interesse em leitura. Mesmo quando eu não tinha idade o suficiente para entender as clássicas sacadas do autor, eu lia e me divertia. Executar o exercício hoje, então, é um deleite sem tamanho. E, cá entre nós, vamos deixar as palavras difíceis de lado, porque LFV não é disso. Apesar de inteligentíssimo, nunca foi de complicar suas histórias. Suas crônicas, que já deram títulos e recheio para vários livros (alguns dele que eu ostento com prazer em minha prateleira) se resumem ao cotidiano, à simplicidade. E é por isso que ele é um cronista tão bom. O gaúcho sabe guiar uma história, sabe denotar seu ritmo e sua mística, deixando geralmente uma reviravolta no fim (ou no começo mesmo, só pra variar).

Um traço curioso do autor é sua timidez. Apesar de muito criativo e despojado no papel, na hora de falar Verissimo se mostra um homem muito reservado e de poucas palavras. Uma característica que eu preciso falar aqui (e que fez com que eu também me identificasse muito com ele) é sua paixão pelo futebol. Verissimo é colunista no Estadão e, de vez em sempre, dá um pitaco ou outro sobre o mundo da bola. Como nem tudo é perfeito, porém, Luis é torcedor do Internacional de Porto Alegre. Isso, o vice da Copa do Brasil de 2009, que perdeu pro meu Corinthians. É, Verissimo. Eu lembro… E você também. Pra curar essa derrota, só com o analista de Bagé.

Jorge Amado (@larissagould)

Meu primeiro contato com a literatura adulta foi através de Jorge Amado e “Capitães da Areia”, e pasme, eu tinha nove anos.  Eu sempre me envolvo com os personagens, e não seria diferente com o livro que até hoje está entre meus preferidos, passei alguns meses dormindo com a obra, na minha inocência infantil de que assim os personagens sofreriam menos. Na verdade o que faz com que Jorge Amado seja meu autor preferido, mais do que a qualidade de seus livros e temas abordados, embora esses sejam simplesmente compatíveis com as minhas opiniões, é a linguagem usada por ele. Jorge Amado é a prova viva (ta, não viva) que escrever bem não é escrever difícil, ele põe fim a idéia de cultura erudita, aborda temas populares com mérito único. Jorge Amado escreve para todos, sem detrimento de excelência, mesmo suas obras que não possuem cunho político são densas, de qualidade.

Fernando Sabino (@tauiltter)

Vou ser franco, logo de cara: Fernando Sabino é o meu mestre. Apesar de nunca tê-lo conhecido, o que seria cronologicamente impossível, aprendi o pouco que sei com dois autores, e Fernando é um deles. Devido à felicidade do meu ex-professor de literatura Jura que nos pediu para ler “O grande mentecapto”, tive contato com o escritor mineiro. Não parei mais. Embarquei em suas crônicas, li seus suspenses, li seus romances, li seus contos, seus contos de ainda iniciante, suas cartas trocadas com Mario de Andrade, por exemplo. Vi também alguns de seus documentários, porque Fernando Sabino era também metido no cinema. E na música, porque amava um jazzinho.

Raríssimas vezes li alguma crônica sua empurrado, e mais raras vezes ainda fiquei com cara de “an?, que porra é essa?” no final de algum escrito seu. Por ter sido também jornalista, suas palavras são economizadas, quase exatas mesmo. Sem supérfluos, sem lingüiça enchida. Já que esse espaço é livre, vou indicar alguns de seus livros de minha preferência: O encontro marcado, romance. Deixa o Alfredo falar!, crônicas. A nudez de verdade, conto.

Acho que Sabino tem que ser leitura obrigatória, pra todo mundo aprender: “e isso é que eu acho de trágico, de dramático, no dilema do escritor e no seu destino de artista: é que escrever é um ato solitário. Ou ele fica sozinho, como um demônio, amando apenas a si mesmo, ou ele, como um santo, sai amando a humanidade inteira”.

Stephen King (@muriloandrade)

O escritor que eu indico não é exatamente o meu predileto, mas foi um dos que tive o prazer de ler uma grande quantidade de obras, Stephen King. Stephen King foi um dos muito escritores que marcaram a minha vida. Você pode dizer o que quiser dele, de que é literatura barata, que existe muito escritor é melhor que ele, menos de que ele não cumpre o que promete fazendo grandes obras de suspense, superiores à maioria dos livros do gênero que vemos atualmente nas livrarias. Descobri a obra do Rei do Terror ainda na adolescência a partir do tijolão que é o Apanhador de Sonhos. A partir daí passei meus catorze e quinze anos lendo Iluminado, Carrie, Quatro Estações, A Torre Negra, À Espera de um Milagre, O Talismã, A Hora do Vampiro, A Coisa, entre outros dele. Ao contrário do que a maioria pensa a força das suas histórias não está em seus monstros, hotéis mal assombrados e carros assassinos. Eles são apenas uma válvula para que King possa explorar seus personagens em situações extremas e as atitudes que elas tomam. É como no clássico Drácula, onde o vampirão só aparece em uns 20% do livro e ainda assim a tensão e horror do livro são indizíveis.

Acho que pra qualquer fã do Stephen King não é fácil escolher a melhor obra. Mas um dos meus favoritos é O Talismã, escrito por King e por Peter Straub. O estilo um pouco mais poético de Straub aliado ao aprofundamento psicológico de Stephen King. O Talismã é muito mais que um romance, mas uma aula sobre a perda da infância e nos leva a refletir sobre nós mesmos.

Obrigado Stephen King por dar a nós aficcionados por horror grandes obras do gênero. Um dia eu escrevo um texto mais completo sobre você.

Especial Artilharia Cultural – Clube da Luta (Parte III)

Quem é Tyler Durden?

por Luke

Antes de tudo, eu gostaria de agradecer. Agradecer por cada RT, por cada comentário, cada elogio, cada clique. Nós escrevemos cada palavra, aqui, para vocês. Não para o nosso ego, não por falta do que fazer. Dedicamos nosso tempo (e dinheiro) no Artilharia Cultural porque acreditamos que temos algo a oferecer e receber. O que oferecemos são textos, conjuntos de palavras e ideias que vocês podem encontrar em qualquer outro lugar da internet, com mais ou menos qualidade que encontram aqui. O que recebemos de vocês, todos esses comentários e o apoio de amigos, é o principal motivo que nos faz escrever aqui. Nem que um post receba apenas um comentário – seja pelo espaço reservado ao fim do post, no twitter ou no nosso e-mail -, é esse comentário que nos causa a sensação de dever cumprido. Que faz todo o tempo e todo o esforço ser recompensado. Acredito que não preciso falar mais nada além de que é um orgulho estar sendo lido por cada um de vocês.

Chega de carinho, porém. Estamos aqui pra porrada. E é porrada que vocês terão ali embaixo.

Feche bem os pulsos.

Todo livro ou filme, por mais banal que possa ser, acaba te passando uma lição. Com Duro de Matar eu aprendi que terroristas russos não sabem atirar. Com Star Wars eu aprendi que o Obi Wan é melhor que o Anakin, e que o Han Solo atira primeiro. Com Clube da Luta, porém, eu aprendi que qualquer um de nós pode ser Tyler Durden.

Quem aqui nunca se imaginou fazendo algo que a sua covardia impediu-o de realizar? Não, não venha com esse papo de “senso-comum” ou “o que as pessoas vão pensar de mim?”. As pessoas, no fim das contas, não ligam pra você. Se eu começar uma briga comigo mesmo no meio da Avenida Paulista, as pessoas vão achar isso (muito) estranho. Talvez alguém até pare para perguntar o que aconteceu, e esse pode ser o assunto do jantar de um ou outro… Mas quando elas acordarem, no outro dia, mal vão lembrar do meu rosto. A falta de ímpeto para ir atrás do que você quer é o que te faz recriar todas suas vontades em seu subconsciente. Ali, não existem jaulas. Todos seus desejos, todas suas vontades, todos seus ideais tomam forma. Mas, e quando isso não é o suficiente e, ao mesmo tempo, você ainda não encontra coragem para dar um passo à frente? É aí que conhecemos Tyler Durden. Mas ainda chegaremos lá… Primeiro, precisamos analisar uma figura tão importante quanto: a do Narrador.

Este (interpretado por um Edward Norton inspiradíssimo) é o retrato do cidadão comum. O meu retrato, e o seu retrato. Pare um pouco de ler essas palavras e pense: nesses últimos dias, existe alguma coisa que você teve vontade de fazer, mas acabou não fazendo por preocupar-se demais com os outros, ou com as conseqüências do ato em si? Se você conseguiu dizer “não” depois dessa pergunta, eu te parabenizo. O Narrador pode ser qualquer um de nós. Envoltos em uma sociedade que dita regras ridículas, que inventa preceitos que não, não devem ser seguidos.

“Você não é seu emprego. Você não é sua soma de dinheiro no banco. Você não é o carro que dirige. Não é o conteúdo da sua carteira. Não é a porra da sua calça cáqui. Você faz parte de toda a, dançante e cantante, merda do mundo.”

Crescemos achando que seremos especiais se continuarmos assim, vivendo em sociedade, de maneira alegre, como carneiros em um pasto. Mas, se o simples fato de se destacar dentre as pessoas pode ser positivo, isso só comprova que a sociedade, em si, é falha. É injusta. É desigual. E o Narrador é tão dependente desse preceito que, para curar sua insônia, freqüenta grupos de terapia apenas para saber que existem pessoas piores que ele. Saber da desgraça alheia pode te causar duas sensações: a indiferença, ou a massagem no ego. Ou aquilo não afetará sua vida de modo algum, ou ela servirá para que você saiba que não está tão ferrado assim. Quando a sua mãe fala para você terminar o prato de comida, porque tem gente passando fome na rua, ela não está preocupada com a criança que vai morrer em um dia ou dois, desnutrida. Tá preocupada com você, e só você. Não é compaixão; é egoísmo. E é justamente quando o Narrador acredita ter atingido o fundo do poço, que ele conhece seu messias – e, ao mesmo tempo, aquele que o mostrará REALMENTE onde fica esse fundo: Tyler Durden. Chegou, finalmente, a hora de responder a pergunta que entitula a parte final desse especial: Quem é Tyler Durden?


Ei, você me criou! Eu não criei nenhum alter-ego perdedor para me sentir melhor. Assuma a responsabilidade!

“Tudo o que você sempre quis ser… Esse sou eu. Eu pareço como você quer parecer, eu transo como você queria transar, eu sou inteligente, capaz e, mais importante, eu sou livre de todos os modos que você não é.”

É assim que Tyler (interpretado pelo fenomenal Brad Pitt) se apresenta para seu criador, quando este descobre toda a verdade. Como um soco no estômago – no dele e no do espectador -, descobrimos que Tyler Durden, na verdade, é o alter-ego de quem nos contou a história até então. Essa foi a válvula de escape dele. As pessoas fazem isso todos os dias, completa Tyler. Elas falam com si próprias, fingindo ser quem não são… Elas só não tem a coragem que você teve, de simplesmente ir em frente. Se eu sonho em ser um rockstar, eu acordo sabendo que me transformarei num jornalista. Se Tyler quer se libertar de todos os dogmas impostos pela sociedade, mas não tem coragem suficiente para, consciente, ir em busca disso… Ele cria um “eu” superior, que o faz.

Tyler Durden, diferente dos quatro Cavaleiros do Apocalipse, cavalga sozinho carregando a bandeira da anarquia. E, no fim das contas, o que é a anarquia? Ela seria um sistema perfeito, um sistema sem erros e sem falhas, que funcionaria em uma sociedade totalmente diferente da nossa. E é por isso que Durden arruma seu próprio meio de dar início à sua própria sociedade. O começo dela, como já falamos, foi o Clube da Luta. Este tem oito regras básicas que, por serem regras, fariam a tese da anarquia supracitada cair por terra. O grande mote é que as regras principais não funcionam. Elas parecem ter sido inventadas com o único propósito de serem quebradas. Tal é a ironia acerca disso, que a segunda regra não passa de uma repetição da primeira, como se Tyler sussurrasse: entendeu? É proibido falar do Clube da Luta… Você não pode fazer isso… E agora?

Essa, aliás, é uma bela definição para Durden. Ele é a voz que te sussurra, nas situações mais variadas, para ir em frente. Seja na hora de enfrentar seu chefe ou de tentar pegar aquela mulher em uma festa, é a voz que quase te implora: faça isso. Pare de pensar nos outros, ou no que pode acontecer amanhã. Você pode morrer hoje.

Existe, aliás, melhor exemplo do que a cena envolvendo Raymond K. Hessel? Se você não lembra (porque, se você chegou até aqui, com certeza assistiu o filme), nós te trazemos um vídeo (em italiano, o único idioma disponível no youtube) com o trecho supracitado.

This video was embedded using the YouTuber plugin by Roy Tanck. Adobe Flash Player is required to view the video.

(para o áudio original e uma tipografia sensacional, clique aqui)

“É fácil chorar quando a gente sente que as pessoas que amamos vão nos rejeitar ou morrer. Em pouco tempo, o índice de sobrevivência de todo mundo cairá a zero.”(PALAHNIUK, 1996, p.4)

Raymond é o exemplo que Tyler nos dá. O tipo de pessoa com um sonho, que acomodou-se com sua vidinha ridícula e estacionou no primeiro emprego que encontrou. Depois de afirmar que irá matá-lo, Tyler lhe dá uma última chance: Hessel irá sobreviver se voltar a estudar para ser um veterinário. Se a voz dentro da cabeça Raymond foi baixa demais para que ele escutasse-a, Tyler tomou o controle. A frase final dessa cena (que não consta no vídeo acima) encerra, com louvor, um dos momentos que mais me surpreendeu no filme. Tyler responde para o Narrador, que encontra-se indignado com o ocorrido, que amanhã será o dia mais lindo da vida de Raymond K. Hessel. Seu café da manhã terá um gosto melhor do que qualquer refeição que os dois já comeram em toda a vida.

Nós vivemos em stand-by. Ignorando todas as chances que aparecem. Não é sobre tornar-se alguém melhor. É sobre ser alguém, mesmo que esse alguém seja a pior parte que um ser humano pode demonstrar. Nas palavras de Tyler, may I never be complete. May I never be content. May the chips fall where they may (que eu nunca seja completo. Que eu nunca esteja satisfeito. Que as fichas caiam onde tiverem que cair).

Esse é o nosso recado. Esse é o recado do Tyler. Essa é a sua vida. E ela está acabando a cada minuto que passa.

ATENÇÃO:

O especial não acaba por aqui: o Artilharia Cultural aguarda ansiosamente por sugestões e textos de você, leitores, para serem publicados aqui. Nossa proposta, desde o início, sempre foi a de manter um diálogo aberto com nosso público. Se você tem algo a dizer, qualquer coisa, simplesmente o faça. Nosso twitter está ali pra isso.

Especial Artilharia Cultural – Clube da Luta (Parte II)

O Clube da Luta e um mundo sem controle

por  Luke

O que se vê no Clube da Luta é uma geração de homens criados por mulheres. (PALAHNIUK, 1996, p.22)

O Estado, segundo Freud, “proíbe ao indivíduo a prática de atos infratores, não porque deseje aboli-los, mas sim porque quer monopolizá-los”. É através dele que decisões são tomadas, vidas são afetadas e milhões são controlados. A ideia de estado é mais antiga do que se supõe, e apesar de suas mutações – em muitas civilizações, ele não era laico (aliás, era regido considerando uma hierarquia baseada em religião) -, este sempre deteve uma função única e vitalícia: a de unidade controladora. O Estado é a cola que mantém todos unidos, é o sistema que impõe o que é certo, o que é errado, o que deve ser feito e o que deve ser evitado. Regras, leis, preceitos, dentre outras características são praticamente criadas e sustentadas por um sistema, seja ele físico (como os Três Poderes) ou subjetivo (como o senso-comum, que cria tabus e regras para convívio).

O Clube da Luta apresenta-se, no filme, como um instrumento de libertação que, como um braço mecânico em uma máquina de brinquedos, estende-se e agarra de maneira voraz o indivíduo, arrancando-o do sistema. Suas regras são 8.

1 – Você não fala do Clube da Luta.

2 – Você NÃO FALA do Clube da Luta.

3 – Se alguém gritar “para!”, sinalizar ou apagar, a luta acaba.

4 – Somente duas pessoas por luta.

5 – Uma luta de cada vez.

6 – Sem camisa, sem sapatos.

7 – As lutas duram o tempo que for preciso.

8 – Se essa é sua primeira noite no Clube da Luta, você precisa lutar.

Um dos propósitos base do Clube da Luta é mostrar para o indivíduo que ele não passa de mais um número. Que não faz diferença se ele existe ou não, porque o mundo continua girando. Você não é um lindo e único floco de neve, diz Tyler Durden. E, se você considerar que é 1 em 6.000.000.000, Tyler não está errado. Para endossar mais essa teoria, cito aqui (para a revolta do Artilheiro Comunista Marcel), meu coleguinha de muito tempo: Adam Smith.

Suponhamos que o grande império da China, com suas miríades de habitantes, fosse subitamente engolido por um terremoto, e vamos considerar como seria afetado um cidadão humanitário, na Europa, ao receber a terrível notícia dessa calamidade. Acredito que em primeiro lugar ele iria expressar com veemência toda sua tristeza pela desgraça daquele infeliz povo, fazendo muitas reflexões melancólicas sobre a precariedade da vida humana… E quando toda essa bela filosofia tivesse terminado, quando todos esses sentimentos humanísticos já tivessem sido devidamente expressos, ele iria dar prosseguimento a seus negócios ou seu divertimento, repousar ou se distrair com a mesma calma e tranquilidade de antes, como se nada tivesse ocorrido… Se no dia seguinte tivessse de amputar o dedo mindinho, passaria a noite inteira sem dormir, mas… Ele vai roncar com a mais profunda tranquilidade sobre a ruína de centenas de milhares de irmãos seus.


Por mais bondoso que você se considere, uma catástrofe envolvendo milhares de pessoas não muda sua vida. Você chegar atrasado no seu trabalho é pior para você do que saber que milhares estão desempregados, e no fim das contas isso não é a “maldição do Capitalismo” ou qualquer título imbecil que pessoas ignorantes atribuem a um fator simples: a natureza humana. E é esse o propósito do Clube da Luta: arrancar o indivíduo desses preceitos, do senso-comum, e mostrar que, no fim das contas, todos nós somos inúteis e estamos destinados a transformarmo-nos em adubo de terra. O que você pode fazer, porém, é se exilar desse mundo de imagens e conceitos falhos, para descobrir que ser esse pedaço de lixo não é tão ruim.

Eu descobri, ao reassistir o filme diversas vezes, o modo intrínseco com o qual a sociedade é tratada. O Narrador não passa da representação de qualquer um de nós, envolto em uma sociedade que representa aquela em que vivemos. Não com as mesmas pessoas, mas com as mesmas funções e as mesmas dúvidas. E a nossa geração, bem… Deixarei Tyler explicá-la, novamente.

Nós somos os filhos do meio da história, sem propósito ou lugar. Não tivemos Grande Guerra, não tivemos Grande Depressão. Nossa grande guerra é a guerra espiritual, nossa grande depressão é a nossa vida. Fomos criados pela televisão para acreditar que um dia seríamos ricos, estrelas de cinema e da globo. Mas não seremos. E estamos aos poucos aprendendo isso. E estamos muito , muito revoltados.

Imagem meramente ilustrativa.

Essa geração inteira criada por mães reflete a intenção de Chuck Palahniuk em usar, ao mínimo, mulheres no livro. Tanto nele quanto no longa, apenas Marla tem seu verdadeiro papel de destaque. Isso se reflete no Clube da Luta, que admite apenas homens. Podemos abstrair disso, também, que o laço com a mulher é o fator mais iminente para manter um homem dentro do sistema. Quando jovem, sua mãe manda você procurar um emprego, se formar, estudar, casar. Quando você casa, sua esposa, de um jeito ou de outro, terá uma influência grande em suas decisões. Quando o Clube da Luta te tira do sistema, você ignora a sociedade e, consequentemente, qualquer outra influência. Você vive para o Clube, vive à par da sociedade.

Conforme o Clube evolui e ganha mais membros, tem início o Projeto Caos (Project Mayhem), que tem como intuito a destruição completa das vigas de sustentação econômica da sociedade (o que caracteriza, novamente, a ideologia da obra como anarquista, ao observarmos que o propósito de Tyler Durden é destruir completamente as estruturas que fazem com que as pessoas sejam diferentes, seja por sua conta bancária ou por seu emprego. Seguindo também o preceito pacífico do anarquismo, que prega a destruição do estado mas também a boa convivência entre todos, os prédios que são derrubados ao fim do filme, como explicado por Tyler minutos antes do ocorrido, estavam vazios. Nem mesmo os seguranças estavam presentes, considerando que estes também faziam parte do Clube da Luta.

Um ponto cuja importância merece ser colocada em xeque – e devidamente explicada – é o questionamento sobre o anarquismo e as regras do Clube da Luta. Uma sociedade anárquica não tem regras, e o Clube da Luta, por ser o prelúdio dessa sociedade, também não poderia ter. O que, muitas vezes, não é reparado, é que a primeira – e mais importante – regra do Clube é sumariamente ignorada e violada por todos, o que denota o teor de transgressão do sistema imposto (qualquer sistema).

No fim das contas, o Clube da Luta é mais uma utopia. Um estado dentro de um estado, feito por homens libertários e revoltados com sua própria situação. E o maior destes homens é Tyler Durden. Mas isso você confere amanhã, na nossa Parte III do Especial Artilharia Cultural – Clube da Luta.

Especial Artilharia Cultural – Clube da Luta (Parte I)

O Clube

por Luke

Se existe um filme e um livro que os Artilheiros Luke e Marcel realmente idolatram, é Clube da Luta. Parceiros de faculdade, os dois desenvolveram um trabalho de metodologia em cima da obra supracitada. Luke leu o livro 3 vezes, perdeu a conta de quantas assistiu o filme, e Marcel parecia ter encarnado a persona de Tyler Durden. O Artilharia Cultural não perdeu a chance e roubou o trabalho dos dois; o resultado de tudo isso você confere essa semana. Se você ainda não assistiu o filme, porém, começamos o especial com uma resenha do filme supracitado.

Em 1999, David Fincher adaptou uma das obras literárias mais impactantes dessa década: Clube da Luta, de Chuck Palahniuk, não falava sobre uma guerra de nação vs. nação. Não citava conflitos envolvendo centenas de pessoas, e cenas espetaculares de ação. Tudo o que foi divulgado antes do lançamento do filme foi uma vã tentativa dos estúdios de não fracassar tanto nas bilheterias: a película foi vendida como um filme de pura ação, com momentos cômicos, quando na verdade trata de algo muito mais intrínseco, muito mais psicológico. Como esperado, o filme rendeu muito pouco nos cinemas, tornando-se apenas um símbolo cult quando alcançou as prateleiras de DVD e pode ser apreciado como deve: como um soco no estômago.

Atenção: este artigo contém spoilers

Conhecemos o Narrador (Edward Norton) como um homem típico: trabalha em um escritório, num emprego que não gosta, e resume sua existência em comprar móveis que vê em um catálogo. Sem perspectiva de vida, é o tipo de pessoa que, quando em um avião, imagina as possibilidades de um desastre iminente, culminando na sua morte e na daqueles que o cercam. Ele funciona como mais um número no sistema, que circula sem falhas, até que conhece Tyler Durden (Brad Pitt), homem que parece ser seu oposto: é despreocupado, rápido, vivente. Desde o primeiro instante em que ele aparece para o Narrador, notamos que eles representam dois opostos. E o lado mais fraco, obviamente, tende a declinar.

É o que acontece quando o apartamento do Narrador simplesmente explode, e ele se vê tentado a ir morar com Durden. Como “agradecimento” pela aceitação da oferta, Tyler pede apenas uma coisa: que o Narrador o acerte, com um soco, o mais forte que puder. Sem sentido, sem aviso-prévio e sem cinto de segurança, é esse o começo de uma jornada que, a cada minuto, te faz grudar mais e mais na cadeira, à espera de mais um ganho de direita. E eles vem… Um atrás do outro. Talvez, o maior deles, é a fundação do Clube da Luta, um tipo de sociedade alternativa que vocês irão descobrir, de modo mais apurado, no próximo post desse especial.

Em meio à essa coqueluche de acontecimentos, encontramos a única personagem mulher de destaque na trama: Marla Singer (Helena Bonham Carter), que mantém uma relação ambíguia e, no mínimo, controversa, com Tyler e o Narrador.

Clube da Luta é o tipo de filme que não te deixa respirar. Que, seja em uma sequência movimentada, em um diálogo ríspido ou em um momento WTF, você mal tem tempo para assimilar as coisas. Com uma pancada atrás da outra, tudo o que você tem a fazer é tentar absorver o máximo de ideias e conceitos que conseguir, pela primeira vez… Porque, definitivamente, não será a única em que você assistirá o filme.

Eu poderia, sim, falar mais de Clube da Luta. Isso, porém, será feito no decorrer desse especial. Mais que isso, eu sugiro que você alugue, compre, baixe ou roube o filme de algum amigo, porque você não vai se arrepender. Clube da Luta é o tipo de filme que muda sua visão de mundo. Mudou a minha, mudou a do Marcel, e provavelmente vai mudar a sua.

Amanhã, no Especial Clube da Luta Artilharia Cultural: O Clube da Luta e a Anarquia.

Nota do Artilheiro: Essa é uma resenha breve e sucinta, que tem como viés apenas apresentar de modo simplório a história e os personagens. Ela não se enquadra no tipo de resenha padrão do Artilharia Cultural, que visa um aprofundamento em conceitos técnicos e na própria história da obra. Tais feitos serão realizados nos próximos posts desse especial.