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Watchmen

Um dia, conversando com um grande amigo, falando sobre cinema e, mais especificamente, adaptações dos quadrinhos para as telonas, começamos com Kick-Ass e chegamos em Watchmen, para estender o papo por mais uns 20 minutos. É exatamente por isso que, com muito orgulho, eu reposto no Artilharia Cultural a minha antiga resenha de um dos meus filmes favoritos.

Aviso: Se você assistiu Watchmen sem ter lido os quadrinhos, muito provavelmente sua concepção é que esse filme é horrível. Tome muito cuidado, porém, com essa afirmação. Watchmen é a única história em quadrinhos a figurar na lista dos 100 melhores romances da revista Time. A única HQ detentora de uma honraria no aclamado Prêmio Hugo (referente à literatura de ficção científica). Estamos falando, aqui, de uma das histórias mais aclamadas e respeitadas de todos os tempos, escrita por ninguém menos que Alan Moore, o mago dos quadrinhos.

Depois de muitas reclamações provenientes de um público acostumado a desastres “quadrinhológicos” referentes à obra de Alan Moore (eu ouvi alguém falar “Liga Extraordinária” ou foi impressão?), tudo parecia dar certo. Os trailers eram impactantes, os personagens estavam bem caracterizados (muito bem caracterizados, eu diria); até quem não conhecia a obra começou a correr atrás. O dia 06/03 chegou, e…

Eu só havia aplaudido um filme no cinema, durante toda minha jornada nerd. Este filme havia sido Batman: O Cavaleiro das Trevas. Lembro-me bem de levantar-me da cadeira assim que a bat-kawasaki sumiu de cena, para então – junto de muitos outros nerds – ovacionar um filme sensacional de super-herói. Qual foi a minha reação com Watchmen?, vocês perguntam. E a minha resposta é simples: eu fiquei sentado. Em silêncio. Estático. Alguns batiam palmas, outros gritavam, comentavam entre si, xingavam (acreditando que a obra havia sido mal-adaptada e esquecendo de, ahm… Do Inferno?). E eu estava estático. Eu havia visto ali, diante dos meus olhos, nas aproximadamente duas horas e quarenta minutos que passaram voando, um filme que escalava, frame a frame, a minha lista de filmes prediletos.

A obra tem início com uma sequência genial de abertura. Bob Dylan canta The Times They Are A-Changin enquanto um breve resumo da história passa diante dos nossos olhos. Os heróis nos são apresentados, e diversos acontecimentos retratados. O Artilharia Cultural, porém, traz agora as referências que você pode não ter percebido.

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Nota do Editor: Todos os vídeos dos créditos iniciais não podem ser incorporados em páginas fora do youtube. Basta clicar aqui, porém, para assistí-lo direto do player de vídeo.

0:10 O Coruja impede um assaltante naquilo que parece ser a saída dos fundos de um teatro. Podemos ver um casal de alta-classe ao fundo. Até aí, isso não nos diz muita coisa. Olhe ao fundo, porém. No canto direito, podemos ver diversos cartazes da Edição #1 do Batman. Alan Moore nos joga na cara que o querido Coruja impediu a existência do homem-morcego.

0:57 Silk Spectre, uma das heroínas, aparece desenhada no Enola Gay (avião utilizado para lançar a bomba atômica em Hiroshima, na 2ª Guerra Mundial).

1:09 É retratada de uma maneira, digamos, diferente (e melhor, na vã opinião deste que vos escreve) a clássica foto de um soldado beijando uma enfermeira ao fim da segunda guerra mundial.

1:27 Duas palavras: pão e vinho.

2:46 A resposta para a pergunta que não queria calar.

3:40 O artilheiro Marcel com certeza gostou.

4:02 Andy Warhol. Por que Marilyn quando temos Coruja?

4:36 Quem seriam os ilustres rapazes à esquerda do vídeo? Dizem que um deles tem relação com umas aranhas provenientes de Marte.

Imagem meramente ilustrativa. O texto tá aqui embaixo.

Watchmen é a história de um grupo de Super-Heróis cujo único herói com reais poderes é Dr. Manhattan, um ser onisciente e onipotente. Este nasce graças a um acidente ocorrido com Jon Osterman (vivido pelo mediano Billy Crudup), um físico que fica preso em meio a uma experiência com átomos e tem o corpo completamente modificado. Ao seu lado, diversos heróis sem poderes. Vigilantes, pessoas que fantasiam-se e fazem justiça com as próprias mãos. A população revolta-se com isso, e o governo os proíbe de exercer suas patrulhas. Ironicamente, porém, Dr. Manhattan continua trabalhando para o governo. O próprio Coruja (interpretado por Patrick Wilson) tem sua importância. A relação heterogênea entre os heróis – adicionando um renegado (Rorschach) na fórmula, uma mulher (Silk Spectre), um herói megalomaníaco e, para ser educado, excêntrico (Ozymandias), além daquele que, para muitos, é o herói mais controverso e interessante da trama: o Comediante (na pele do sensacional Jeffrey Dean Morgan) – é mais um diferencial na história. Eles não são apenas diferentes porque usam roupas diferentes. Suas mentes são diferentes. A maneira que enxergam a palavra “herói” e o mundo ao seu redor difere. E é isso que torna a graphic novel tão importante e tão inovadora.

Se Watchmen fosse uma comida, seria uma deliciosa refeição que precisa, porém, ser degustada lentamente, com atenção a cada ingrediente, a cada diferente gosto que ela pode proporcionar. Se fosse uma música, seria aquela cujos acordes fazem a total diferença, cuja melodia é uma poesia inigualável aos ouvidos. Não é fast-food, não é um enlatado da indústria feito para angariar fãs e vender muito. Watchmen cumpre o papel da Graphic Novel homônima pois mostra-se tão complexo e adulto quanto sua inspiração. É a adaptação que mudou o que precisava ser mudado e respeitou fãs, conceitos e estilos. Watchmen é, em termos técnicos, a adaptação perfeita de uma mídia para a outra. E um dos melhores filmes de Super-Herói já produzidos por Hollywood. Sinto muito, Sr. Moore. Dessa vez a sua birra foi sem motivo.

Watchmen

Nota AC: 10

Lançamento: 200

Direção: Zack Snyder

Duração: 162 min

Elenco: Malin Akerman, Billy Crudup, Matthew Goode, Jackie Earle Haley, Jeffrey Dean Morgan, Carla Gugino, Patrick Wilson

Down with the Clown – A verdade por trás do Coringa

Vilões são geralmente tão conhecidos quanto heróis, afinal de contas, eles são a outra parte da história. O outro lado da moeda. O outro gume da faca. Tidos como “ruins”, “malfeitores”, a maioria destes antagonistas destacou traços de sua personalidade que marcaram o público. A presença assustadora de Freddy Krueger, pronto para invadir seus sonhos, a dialética plenamente convincente e sedutora de Al Pacino em O Advogado do Diabo, a onipotência de Darth Vader… até em animações os vilões são lembrados. São poucos aqueles que não se deliciam com o cinismo apresentado por Jeremy Irons para encarnar o Scar, em O Rei Leão.

Todos esses vilões – e a maioria de todos eles – têm algo em comum: uma motivação. Seja por uma série de traumas, por dinheiro, por poder; todas suas ‘maldades’ são feitas em prol de um objetivo que lhes interessa. Como, então, combater um inimigo que não tem objetivo algum, senão a auto-destruição? Depois desta breve introdução, senhoras e senhores, convido-lhes a discorrer sobre aquele que, para mim, caracteriza um dos melhores vilões de todos os tempos – seja nas HQs ou no cinema: o Coringa.

Segure-se, leitor(a), e… Why so serious?

Batman: A Piada Mortal

Atenção: este artigo contém spoilers

Se você ainda não leu A Piada Mortal, recomendo que compre uma edição ou simplesmente baixe da internet; esta não é simplesmente uma história em quadrinhos. É uma obra-prima. Considerem-se avisados.

Nessa, que é considerada uma das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos, o Coringa foge do Asilo Arkham e decide mostrar ao Homem-Morcego que basta um dia ruim para que uma pessoa normal enlouqueça. E ele decide testar essa hipótese justamente no Comissário Gordon. O Coringa vai até a casa dele, e atira em sua filha – Bárbara Gordon, até então a Batgirl. Em seguida, nos é sugerido de maneira subjetiva que ele a violenta sexualmente, documentando o ocorrido em fotografias.

Gordon é levado até um parque de diversões, torturado psicologicamente pelo Coringa que chega a colocá-lo em uma montanha russa, exibindo durante o percurso as fotos que tirou da própria filha de Jim. Quando Batman chega, encontra Gordon miraculosamente são. Ele decide, então, ir atrás do Coringa, para capturá-lo.

A história termina de uma maneira genial: o Coringa conta uma piada sobre dois loucos que desejavam fugir do manicômio; eles sobem no telhado da instituição e vêem outro prédio próximo. Um deles pula, e consegue escapar. O outro, porém, fica com medo de cair. Seu amigo diz: “Ei! Eu tenho uma lanterna aqui. Vamos fazer assim: Eu a ligo, e você vem até aqui caminhando pelo facho de luz”. No que o outro responde, depois de balançar negativamente a cabeça: “Eu não! Acha que eu sou louco? Você vai desligar a lanterna no meio do caminho!”.

O Coringa começa a rir. Batman começa a rir. Os dois se aproximam, rindo muito… e a história acaba. Isto coloca em xeque toda a credibilidade do Homem-Morcego. Esse final genial, criado por Alan Moore, nos faz pensar: Batman é um herói, sim. Ele luta pelo crime. Mas é tão louco quanto o Coringa… afinal de contas, o homem veste uma fantasia de morcego e sai por aí combatendo marginais. Será que ele e o seu arqui-inimigo são tão diferentes assim?

Essa questão é levantada no filme que, para mim, é o melhor de 2008. Numa das melhores adaptações de super-herói para a tela do cinema (na minha opinião, perdendo apenas para Watchmen). O filme imortalizou Heath Ledger e enterrou de vez os videoclipes de Joel Schumacher (que eu me recuso a sequer proferir os títulos). Falaremos, a seguir, de: Batman: O Cavaleiro das Trevas. E o melhor Coringa de todos os tempos.

Batman: O Cavaleiro das Trevas

Atenção: este artigo contém spoilers

Batman sempre esteve acostumado a lidar com bandidos. Mafiosos. Pessoas que, por algum evento ou série de acontecimentos, só deseja – e só quer fazer – o mal a todos. Para eles, basta alguns socos e o Asilo Arkham – ou a cadeia.

No final de Batman Begins, porém, o Comissário Gordon entregou uma carta para Batman que fez todos os fãs ficarem com a sobrancelha erguida e o coração acelerado: a carta do Coringa. Durante anos, ficamos com a eterna dúvida: seria outro fiasco à la Joel Schumacher, ou dessa vez teríamos o filme de ação definitivo? Afinal de contas, se em Begins – que conseguiu, com maestria, contar a história do Batman – já tivemos alguns vilões… seria essa a hora de meter o pé na porta, para cravar a ferro e fogo o “filme definitivo e insuperável do homem-morcego”?

Graças a Deus, para todos os fãs de cinema… sim. E, como fã, não digo que a atuação de Christian Bale foi excepcional. Tiro aqui meu chapéu para Gary Oldman, Morgan Freeman e Michael Caine. Tiro todos os meus valores morais e possibilidades de respeito, porém, para apenas um ator: Heath Ledger. Heath Ledger fez o que, por muito tempo, soou como dúvida para fãs e críticos. Fez algo inimaginável. Indescritível. Insuperável. Heath Ledger nos trouxe o mesmo Coringa maníaco que pudemos observar em A Piada Mortal. Duvidam? Mergulhemos uma vez mais, então.

Pulemos para a cena do interrogatório (o que é uma lástima, pois eu adoraria comentar a mágica do lápis, mas…): o Coringa foi preso. Está na sala de interrogatório. Comissário Gordon entra lá e é recebido com um educado “Boa noite, Comissário” (dito de uma maneira tão macabra que me faria, no lugar do Comissário, dar um “boa noite” de volta e sair dali naquele instante). Apesar das perguntas de Gordon, o Coringa mantém-se irrefutável. Cínico. Medonho. O Comissário sai de cena e, nesse instante, se inicia um dos meus momentos favoritos do filme. Batman e o Coringa, frente a frente.

Bruce está nervoso. Quer respostas. Quer agilidade. O Coringa parece desfrutar, com prazer, de cada instante perto do Batman. O humor frio e real não vai embora. Enquanto Batman mantém-se direto e rápido, o Coringa analisa a situação como um todo. Vejam um pedaço desse diálogo; um dos diálogos que me lembraram muito de A Piada Mortal:

- Por que você quer me matar?

- AhAhAHAHAhA! Eu não quero matá-lo! O que eu faria sem você? Voltar a roubar mafiosos? Não, não… Você… Você me completa.

Batman não passa do criador do Coringa. Se o homem vestido de morcego não existisse, o palhaço não existiria também. Talvez ele não aparecesse em Gotham. Se no filme a única exigência do Coringa é que o Batman revele sua verdadeira identidade… se ele não existisse, em primeiro lugar, nada disso aconteceria. Se este morresse, à essa altura do campeonato, nada mais faria sentido para o palhaço.

A cena que se segue mostra o Coringa denotando sua primeira faceta anarquista: ele deseja que Batman quebre sua única regra, que consiste em não matar. Para encerrar esta cena, irei apenas ressaltar seu grand finale: após revelar que Rachel também foi seqüestrada, Bruce perde a paciência e começa a agredir mais seriamente o Coringa. Ele ri. Ri gostosamente, enquanto tenta explicar que o Homem-Morcego terá que escolher apenas uma vida para salvar. Ao levar outro soco, ele ri de uma maneira que arrepia o espectador. Uma das minhas frases favoritas de todo o filme:

-Você não tem nada… Nada que possa usar para me ameaçar. Nada a fazer com toda sua força.

Batman decide ir buscar Rachel. Gordon vai atrás de Dent. Os lugares, como vocês sabem, foram dados em sua ordem contrária pelo Coringa. Agora, porém, avancemos para o instante primordial do filme: A cena do hospital.

Vestido de enfermeira, o Coringa mata um dos policiais que entra na sala e então vira-se para Dent, que acorda lentamente. O palhaço tenta convencê-lo que a morte de Rachel não fora sua culpa. Que, enquanto tudo acontecia, ele estava preso na sala do interrogatório. Percebemos suas reais intenções no seguinte diálogo:

- Seus homens. Seus planos.

- Eu pareço mesmo um cara com um plano? Sabe o que eu sou? Sou um cachorro perseguindo um carro. Eu não sei o que faria com um, se o pegasse! A máfia tem planos. Os policiais têm planos. Gordon tem planos. Eles são planejadores. Planejadores tentando controlar seus pequenos mundinhos. Eu não sou um planejador. Eu tento mostra-los quão patéticas suas tentativas de controlar as coisas realmente são. Então… Quando eu digo – venha aqui – que você e sua namorada não foram nada pessoal… Você sabe que eu estou falando a verdade. São os planejadores que o colocaram onde você está. Você era um planejador… Você tinha planos… E, bem… Olhe onde isso te levou!

Acham que acaba por aqui? Não… Ele vai mais longe.

- Eu só fiz o que faço de melhor. Eu peguei seu planozinho e o virei contra você! Olha o que eu fiz com essa cidade, apenas com alguns galões de gasolina e umas balas. Hm? Sabe… Ninguém se apavora se tudo acontece como o planejado. Mesmo se o plano for aterrorizante! Se amanhã eu falar à imprensa que um caminhão cheio de soldados explodirá, ninguém se aterroriza. Porque é tudo parte do plano. Se eu disser, porém, que um prefeitozinho velho vai morrer… Todo mundo perde a razão! Introduza um pouquinho de anarquia… Mude a ordem pré-estabelecida, e tudo se torna… Caos. Eu sou um agente do caos. E sabe a coisa boa dele? É justo.

Muitos devem ter se perguntado: qual a ligação do Coringa d’A Piada Mortal com o d’O Cavaleiro das Trevas? E aqui está a minha visão:

N’A Piada Mortal, Coringa tenta mostrar ao Batman que basta um dia ruim para levar um homem aos seus instintos mais primários. Nesse caso, ele usa Gordon, o Comissário de Polícia. No filme, o Coringa leva Dent, o cavaleiro branco de Gotham, para o nível mais baixo: o nível de um vilão. Ao mesmo tempo, tenta utilizar dois grupos de pessoas e colocá-los em confronto, com a premissa que, para sobreviverem, teriam que assassinar muitos outros.

O que somos nós, senão o contrário do Coringa? Metidos em nossas vidas com rotina e planos. Sabemos tudo o que faremos durante a semana, talvez até durante todo o mês. E, se algo sai fora do planejado, enlouquecemos. Ficamos nervosos, ansiosos, quase loucos. Um mundo de regras inventadas por nós mesmos. Regras que aparentam não podem ser quebradas, mas… Fomos nós que as inventamos. Somos nós que podemos destruí-las. Da mesma maneira que todos nós temos um Tyler Durden dentro de nossos corpos (tema para outro post tão extenso quanto este, aliás), todos também carregamos um Coringa, e, no fundo, estamos loucos para libertá-lo.

Não o faça agora. Não o faça do nada. Não o faça completa e inteiramente. Mas saiba que ele está aí. Rindo. Sem poder acreditar em como você consegue fingir que tudo vai ficar bem só porque você acha que amanhã vai fazer o que acha que vai fazer. E, toda vez que você se deita, ele pergunta em voz baixa: Why so serious?

Por que Sandman é tão importante?

Artilheiro Colaborador: Breno C.

Em Abril os leitores de quadrinhos ganharam um presente da Panini: a editora lançou Sandman Edição Definitiva e já colocou seu primeiro volume no mercado, deixando os fãs do Neil Gaiman loucos. O efeito desse lançamento me fez repensar na importância que a história do “João Pestana” tem sobre o mundo dos quadrinhos. Provavelmente não vou comprar esse relançamento de Sandman, porque a verba está baixa e não permite compras repetidas. E essa postagem também não será uma um review do compensado, até porque outros sites já estão cobrindo essas postagens. Então, numa tentativa pretensiosa, farei dessa postagem uma forma de explicar a importância de Sandman para o mundo dos quadrinhos e para a cultura jovem dos anos 80.

Antes de começarmos a falar da obra, seria legal deixar um pouco mais claro quem é o autor. Neil Gaiman é um escritor inglês que produz um tipo de literatura “fora do comum”. Seus livros e HQs costumam abordar temas “ocultistas” (não consegui achar palavra melhor), onde os personagens podem ser pessoas normais ou entidades cósmicas, etéreas e deuses que estão expostos a problemas que muitas vezes não significam nada isoladamente, mas no final compõem um cenário maior. Gaiman não é como o Moore (o autor de Watchmen), ele matém um contato amigável com outras formas de mídias e com os próprios fãs, dando espaço nítido para colaborações indiretas da opinião crítica de quem está lendo suas obras. O ponto legal é que ele não é marcado pelo comportamento “anormal”, o brilhoestá no que produz e não no seu estilo..

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Sandman, na minha opinião, foi a obra mais importante que Gaiman já fez. Em termos de complexidade, as histórias dentro dos arcos, são exemplos de como um autor pode criar mundos e não ficar perdido em seus próprios labirintos. A HQ fala sobre um dos Perpétuos conhecido como Sonho, que é, oras responsável pelo mundo dos sonhos – território para onde a humanidade e mais outros seres são transportados quando dormem. Mas o que precisamente é um perpetuo? Entidades, mas não simples deuses ou espíritos. Os Perpétuos, assim como o nome já diz, são seres que duram eternamente, sendo que cada um deles representa um elemento comum da psique humana (e de alguns alienígenas). Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio são os sete que formam esse panteão e são personagens de importâncias diferentes em cada um dos arcos da revista e com o tempo vão se mostrando mais complicados do que os leitores percebem inicialmente. Morpheus, ou Sonho, é o personagem principal de boa parte das histórias e de certa forma tudo o que é contado tem uma ligação com ele ou se torna parte de sua história com o passar das edições. É um personagem que tem uma forte carga dramática e se aproxima muito da condição autocontestadora que estava se desenvolvendo no final dos anos 80, quando a HQ começou a ser lançada. As situações e formas com que Morpheus tem de lidar com elas, sempre vivenciado uma indagação de seu comportamento e de suas emoções, são o grande diferencial, gerando uma profundidade e densidade ao personagem de forma tão clara que se torna anormal para os quadrinhos da época. E é justamente com esse posicionamento que vamos começar as comparações e validações da qualidade da obra.

Quando Sandman foi lançado, já existiam histórias em quadrinhos que tinham esses aspectos introspectivos. Os X-men, por exemplo, já faziam o trabalho de chocar os leitores com questões como racismo e políticas extremistas, assim como os Novos Titãs estavam presentes para aproximar o mundo “adolescente” e criar elos com a realidade do público alvo. Porém, foi com Sandman que os leitores, independentemente da idade, encontraram um ícone para desabar seus sentimentos emotivos. Morpheus, e quase todos os personagens dos arcos, são dotados de uma complexidade existencialista tão forte que é possível criar uma série para cada um, como aconteceu com sua irmã mais velha (Morte) e uma de suas namoradas (Tessália).

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O grande trunfo de Sandman no que diz respeito a manter seus leitores é a forma como as tramas são construídas. Quem está acompanhando um arco pode se identificar com algum personagem, se ligar a atmosfera de suspense ou estar interessada em todo o “mundo a parte” que é desenvolvido, porque existe um pouco de cada um desses elementos presentes na trama. Sandman é o tipo de leitura que pede um certo nível de dedicação e envolvimento, mas tudo isso é compensando pelo estímulo à mente e a recompensa de no final se emocionar com os desfechos. É literalmente um entretenimento com qualidade. Sandman criou um público fiel quando foi lançado pela primeira vez, então, nada mais natural que esteja sempre nas listas de leituras básicas de grandes nomes. Também está na minha lista, mas não por uma questão de ser o representativo de uma geração, acredito que o mais importante em Sandman é justamente o diferencial que ele ditou nos quadrinhos, exigindo que os posteriores fossem tão profundos e densos quanto. Fica como minha indicação pessoal a todos que querem começar a ler HQs.

Sobre o Artilheiro Colaborador

Breno é um ávido leitor de HQs e mantém um blog musical, o C-sides. Você pode segui-lo em seu twitter, o @brenocs