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Adoniran Barbosa, o palhaço triste

Artilheiro Colaborador: Bruno Hoffmann

Um erro é considerar a obra de Adoniran Barbosa como algo alegre. A melancolia sempre foi a linha mestra de seus sambas tão paulistanos. “Eu sou um palhaço triste”, se definia.

Comecinho dos anos 1980. Estava para sair um disco em homenagem aos 70 anos de Adoniran Barbosa. Um executivo da gravadora EMI procurava alguém para fazer a ilustração da capa. O escolhido foi o artista plástico Elifas Andreato, um dos melhores capistas do país. Elifas, com sensibilidade, desenhou o compositor como um palhaço triste, com lágrimas aos olhos. A foto não agradou o executivo, que aconselhou: “Acho que o Adoniran não vai gostar nadinha de ser retratado como um palhaço”. O desenho foi refeito de um jeito tradicional, até careta. O disco saiu com esta nova capa. Alguns meses depois Adoniran viu a imagem original. Ligou para o artista plástico, com voz contrariada: “Ei, eu sou este palhaço triste, não aquele alemão que você pôs no disco”. Elifas se arrepende até hoje. “Seguir a opinião do executivo da gravadora é um dos maiores arrependimentos da minha carreira”, confessa.

É um erro comum confundir a obra de Adoniran como algo alegre. Boa parte de suas canções é melancólica: histórias de pobreza, desilusões amorosas, amarguras de tudo que é tipo. A mesma melancolia que trazia em si. Só que disfarçava pelo humor que só ele tinha. Poucas coisas são mais amargurantes que o clássico Saudosa Maloca: Que tristeza que nóis sentia / Cada talba que caía doía no coração… Mas os ouvintes conseguem cantarolá-la com um sorriso no rosto. Era o jeito Adoniran: fazer gracejo da tragédia, porém respeitando a dor.

Com centenário de nascimento completado este ano, João Rubinato, nascido em Valinhos, interior de São Paulo, veio ao mundo com predisposição para ser artista. Mesmo com a infância pobre, de muitas privações. Até que a família mudou-se para São Paulo. Logo tentou se ingressar como ator nos grupos da cidade. Mais tarde, a nova paixão seria o rádio. Totalmente correspondida. Em parceria com Osvaldo Moles, fez história em programas de humor no rádio. Em 1946, deu vida a nada menos que 16 personagens. Também brilhou no cinema. Era um humorista nato. Não significa que vivia de brincadeiras por aí. A frase é de Rolando Boldrin, parceiro musical e amigo de Adoniran. “Eu ri muito com ele. Só não poderia dizer que rimos juntos. Adoniran não ria. Verdadeiros humoristas nunca riem de suas próprias patacadas”.

Só nos anos 1950 começaria a enveredar pela música. Retratou, de maneira tão inédita e peculiar, os tipos da cidade: os paulistanos, os caipiras, os descendentes de italianos – como ele próprio. O primeiro sucesso nacional foi Saudosa Maloca, que ficou conhecida de uma forma mais alegre, quase brejeira, pela interpretação dos Demônios da Garoa, os maiores propagadores de sua obra. A inspiração para Saudosa Maloca começou num fim de tarde. Estava voltando para casa quando, do outro lado da rua, viu crianças chorando, cachorros latindo e adultos correndo, juntando os poucos pertences. Os tratores se preparavam para derrubar mais um cortiço na cidade, em nome do progresso. A imagem não saiu da cabeça de Adoniran. Na manhã seguinte estava pronta o maior clássico de seu repertório. Com o sucesso, a Revista do Rádio estampou na capa: “Humoristas também fazem músicas tristes”.

Adoniran não pararia mais de registrar a cidade em suas canções. É colocado ao lado de Noel Rosa, de Chico Buarque e de poucos outros na capacidade de retratar tão bem tipos humanos. Para o compositor Mário Lago, “Adoniran era um perfeito repórter. O repórter dos bairros pobres de São Paulo”. Uma marca característica era usar a fala popular nos versos. Fazia isso de propósito. “É difícil pra caramba escrever os sambas errado”, dizia. Mas gente chata nunca faltou. Não era incomum quem reclamasse nas rádios, nos bares, que Adoniran, com seu jeito de cantar, ensinava o povo a falar errado.

Para retratar tão bem o jeitão do paulistano da periferia, vivia a caminhar pelas ruas. Houve uma época que saía quase diariamente pela cidade com um caderninho no bolso. Se via um tipo interessante, parava, conversava com o sujeito, e tratava de fazer anotações que poderiam se transformar num samba. “Todo mundo tem uma história pra contar”, explicava.

O resultado: sambas maravilhosamente sofridos com a cara de São Paulo. “A sua obra é fantástica. Só que há essa confusão de retratá-la como algo alegre, pra cima. São poucas músicas de Adoniran que não falam de tristeza, que não tenham desfecho trágico”, entende Elifas. Os exemplos são inúmeros, como Iracema (sobre a morte por atropelamento da personagem da canção, 20 dias antes do casamento. Como lembrança, só sobraram as meias e o sapato), Despejo na Favela (“Minha mudança é tão pequena que cabe no bolso de trás / Mas essa gente aí, como é que faz?”), Não Quero Entrar, e por aí vai.

Uma das mais intrigantes e comoventes é Apaga o Fogo Mané, de 1956. A começar pela melodia, triste de doer. A letra é sobre uma separação do casal, sem explicar os motivos. Fica tudo solto no ar. Tudo começa quando a mulher, Inês, diz que irá comprar pavio pro lampião. E ressalta: “Pode me esperar, Mané, que eu já volto já”. O marido acende o fogão, põe água pra esquentar e fica no portão à espera da amada. Só que anoitece e nada da moça voltar. O personagem sai pela cidade, desesperado, a procura de Inês. Busca até no hospital. Na volta, desconsolado, encontra um pedaço de papel perto do fogão, com a letra da mulher: “Pode apagar o fogo, Mané, que eu não volto mais”. É quase cinematográfico.

E assim levou sua obra e vida, entre melancolia, humor e boemia. Só que décadas tomando sereno (e bebida, além do cigarro) lhe causaram um enfisema pulmonar. Ao mesmo tempo, com a bossa nova e a jovem guarda, sua música era cada vez menos tocada nas rádios. Sentia-se triste com o esquecimento e, às vezes, reclamava: “Por que não tocam mais minhas músicas? Todos dizem que sou um bom compositor”. Fez até uma canção sobre o tema. Claro, com o deboche disfarçando a tristeza: “ Eu gosto dos meninos destes tal de iê-iê-iê / Porque com eles canta a voz do povo/ E eu que já fui uma brasa / Se assoprarem posso acender de novo”.

Aos poucos foi sendo revalorizado por artistas como Elis Regina. No fim dos anos 1970 novamente começou a ser requisitado para entrevistas. Este reconhecimento lhe enchia de alegria. Mas a saúde continuava fraca. Preferia disfarçar. Negava-se a usar a palavra “morte”, mesmo no leito do hospital. Uma das poucas vezes que falou sobre o assunto foi com a fiel companheira Matilde. Ao visitar o Cemitério da Paz, no velório do sogro, disse que queria ser enterrado no local. O motivo: o ambiente parecia alegre: “E tem até música”. É onde Adoniran mora desde 1982.

Sobre o Artilheiro Colaborador

Bruno Hoffmann é jornalista. Só gosta de música brasileira, e ainda não sabe bem se isso é motivo de orgulho ou de vergonha. Mantém um blog com belas histórias sobre a música popular, especialmente samba (Eu quero um samba) e também uma conta no twitter. Há 31 anos sofre pelo Corinthians.

Para aquele que morou no subúrbio e andou de trem atrasado

Artilheiro Colaborador: Gabriel Deslandes

Sou impaciente. Nem sei se isso soa como uma brincadeira, mas, de fato, a paciência é uma virtude a qual o Criador não fez questão de me privilegiar. Quem me conhece sabe. Aliás, só Ele tem ciência de quanto eu penei para escrever esse texto a pedido do soberano Tauil. O tema segue um clima paradoxal a meu estilo de vida e talvez seja por isso mesmo que sou, desvairado e alucinado por seu personagem central na exata proporção em que Tauil é por Chico Buarque.

Em resumo, se minha existência é o que chamam de “a fina flor do samba”, um de seus principais jardineiros se chama Martinho José Ferreira, o da Vila. Não vou bancar uma de Sérgio Cabral Pai, querendo intelectualizar um indivíduo “inintelectualizável”, contudo confesso que sou obrigado a tirar várias e várias vezes meu chapéu de bamba para o “bom crioulo”. É uma questão de coerência. Ao analisar o conjunto de sua obra, admirá-lo é uma obviedade.

Talvez o problema esteja aí: sua imagem como pessoa e artista foi desvirtuada pela mídia massificada. Afinal, para quem não o conhece, a figura de Martinho da Vila se limita a de um sujeito com ar de malandro beberrão e um sorriso falso que vai, de vez em quando, ao programa do Faustão para cantar pérolas como “É devagar, devagarinho” ou “Já tive mulheres”. O pior é que essas músicas nem são dele…

O maior equívoco da sua carreira foi indiscutivelmente ter apoiado a onda do “pagodismo” da segunda metade dos anos 80. A originalidade de suas melodias e a riqueza poética de seus sambas a partir daí decaíram de forma lastimável. A coisa degringolou de vez no momento em que ele conseguiu a proeza de vender 1,5 milhões de cópias de seu CD “Tá delícia, tá gostoso” (urgh!), de 1995. Acontece que os modismos da cultura pop são passageiros e, quando um sambista passa a rebaixar uma instituição eterna como o samba verdadeiro a este nível, é porque algo está errado. Impulsionado por uma gravadora comercial, Martinho acabou por prejudicar a reputação do samba (que “competia” com a praga das bandas de pagodejo mauricinho), sujando inclusive seu nome. Antes disso, inexistia cafonice em se dizer sambista. Ainda hoje, gostar de Cartola soa como “cult”.

De qualquer maneira, lamenta-se que a “história oficial” insista em registrar apenas aquilo que existe de mais superficial. Entretanto, não sou obrigado de modo algum a me conformar com isto. Meu designo está além de exemplificar o que há de mais rico na obra de Martinho. A verdade é uma só: Martinho José Ferreira revirou a música popular brasileira e o samba de cabeça para baixo. Ora bolas, isso é a prova concreta que seu “lado B” consegue ser muito mais amplo que o próprio trabalho como compositor. Trata-se de algo ausente nos micro-sulcos dos velhos discos de vinil ou nos megabytes zipados disponibilizados aos montes nos blogs de música pela grande rede.

Em 1968, com Donga, compositor do primeiro samba gravado

Filho de meeiros, Martinho nasceu em 1938, em Duas Barras, interior do Estado do Rio, vindo para a capital com quatro anos ao lado dos pais. Fora criado na Serra dos Pretos Forros, em Lins Vasconcelos. Durante a adolescência, cursou o SENAI e formou-se auxiliar de químico industrial (preparador de óleos, ceras, sabões e graxas), exercendo a profissão como laboratorista do LQFEx (Laboratório Químico Farmacêutico do Exército). Por influência do próprio laboratório, ingressou, aos 18 anos, no serviço militar, tornando-se sargento-escrevente, contador e arquivista na Intendência do Ministério da Guerra.

Didatismos à parte, a música inevitavelmente esteve sempre presente em seu cotidiano. Ainda em Duas Barras, Martinho teve contato com o calango, ritmo caboclo oriundo das zonas rurais, estruturado em versos de improviso, elaborados no momento do canto, e tocado com sanfona de oito baixos, viola e pandeiro. Também já compunha, entre os amigos de futebol, marchinhas de carnaval e paródias para os sucessos das rádios dos anos 50. Entretanto a influência maior veio do ambiente em que vivia. Na Serra dos Pretos Forros, localizara-se a modesta escola de samba Aprendizes da Boca do Mato. Martinho, folião inexorável, passou a ser presidente de ala e, mais tarde, ritmista. Aos 15 anos, compõe “Piquenique”, seu primeiro samba, narrando um passeio de domingo à Ilha de Paquetá. Tal feito foi suficiente para levar Tolito, diretor de harmonia da Boca do Mato, a convidá-lo a participar da ala de compositores da escola. No ano seguinte, a agremiação levou um samba-enredo seu à avenida, “Carlos Gomes”.

Pouco a pouco, Martinho acabou virando um freqüentador assíduo de toda e qualquer roda de samba que surgisse. Sua presença era cativa nos terreiros e botequins do mundo afora. A vida boêmia já havia se apoderado por completo de sua inspiração e, justamente nesta época, o rapaz abraça uma vertente do samba pouquíssimo divulgada – o partido-alto, herança dos negros escravos e gênero harmonicamente simples, o qual consiste em um refrão constante e outras partes soladas em versos improvisados, frutos da criatividade do sambista, gerando um eventual desafio entre um grupo de compositores. A marcação rítmica é feita na palma das mãos ou com prato e faca.

Não demorou muito para sagrar-se um exímio partideiro. Eis que ocorre a primeira revolução. Martinho decide aliar seus dois estilos de samba – samba-enredo e partido-alto. Os sambas-enredo das décadas de 50 e 60 geralmente tinham melodias tradicionais e letras longas, explicando de forma detalhada todo o tema abordado pela escola. Seus sambas para a Aprendizes da Boca do Mato eram bem mais curtos e possuíam a dolência assobiável dos sambas-de-roda. Sendo assim, começou correr o boato entre os bambas de que um certo “garoto do Exército” estava apontando novos rumos para o carnaval carioca. Vários sambistas lendários foram à Boca do Mato conhecê-lo, como Walter Rosa (Portela), Padeirinho (Mangueira) e Silas de Oliveira (Império Serrano). O próprio Martinho se viu desorientado: “Eu nem sabia quem era quem. Achava, por exemplo, que Cartola era coisa de séculos passados. Só descobri quem era quando ele veio me visitar!”.

Em 1965, depois de vários carnavais pela Boca do Mato e já morando em Pilares, Martinho se desligou da agremiação. Foi o momento em que Paulo Brazão e Rodolpho de Souza, membros da desconhecida Unidos de Vila Isabel, o convidaram para a ala de compositores da escola. Transferência feita (houve quem o chamasse de “vira-casaca”), Em 1967, Martinho compôs, ao lado de Gemeu, o samba-enredo “Carnaval de ilusões”, o qual foi responsável por um desfile antológico e assegurou a escola em sua melhor colocação até então – 4º lugar. Martinho José Ferreira, agora, era o Martinho da Vila.

No mesmo ano, fervilhava o histórico III Festival da TV Record de São Paulo, o maior acontecimento sócio-cultural do Brasil, o qual atuou de maneira decisiva na consagração de um número infindo de cantores e compositores dos mais diversificados gêneros. Por insistência de amigos, Martinho enviou uma fita cassete com “Menina moça”, um de seus sambas de partido-alto, à organização do festival. Não possuía qualquer expectativa de ver sua música classificada. Gravou-a à capela, batucando no próprio gravador, e, por falta de recursos, nem teve condições de contratar um maestro para escrever a partitura com a melodia, conforme exigia o regulamento. Contrariando tudo e a todos, a música conseguiu fazer parte da competição. Quem a defenderia em palco seria Jamelão. Aliás, a idéia inicial do velho Jamela era de utilizar os músicos do Teatro Record para orquestrar o samba. Martinho interveio, alegando que se tratava de um partido-alto e que tal atitude retiraria a singeleza da música. “Esse garoto não sabe das coisas!”, replicou Jamelão, porém o pedido fora atendido, com a apresentação realizada com acompanhamento do Regional do Caçulinha. “Menina moça” acabou por não ganhar nada além de um elogio de Augusto de Campos à letra, contudo foi, sem dúvida, um marco na divulgação de seu trabalho como compositor.

Em 1968, Martinho deixa claro seu retorno ao IV Festival. Hospedara-se no Hotel Danúbio, onde conheceu pessoalmente alguns dos cantores concorrentes, como Chico Buarque e Eliana Pittman. A música, um clássico: “Casa de bamba”. Em meio aos exotismos tropicalistas de guitarras elétricas e roupas extravagantes, eis que o próprio resolve ir ao palco cantar seu samba. Era a primeira vez que se expunha ao grande público, o qual incluía não só os expectadores esbaforidos do Teatro Record, como todo o Brasil que o assistia pela televisão. Vestido de prata e acompanhado pelo grupo Os Originais do Samba, Martinho vê toda a platéia levantar-se ao som de seu samba, resultando em uma das melhores apresentações da noite. Embora tivesse saído sem prêmios, sabia que, no mínimo, aquele momento, era avant-première de uma explosão prestes a acontecer.

Com Clara Nunes, 1979

Não deu outra: Jair Rodrigues grava “Casa de bamba”, resultando em um sucesso absurdo nas rádios. Até hoje, quem não conhece o refrão “Na minha casa, todo mundo é bamba: todo mundo bebe, todo mundo samba”? A euforia se fez presente entre as familiares, os colegas do Exército e, principalmente, os amigos sambistas, dos quais fez questão de se aproximar cada vez mais. Percebeu neste mesmo entusiasmo a necessidade tida pelos compositores suburbanos em divulgar suas obras. Aos poucos, Martinho passava a ter ciência de alguma coisa havia de ser feita com urgência para que a memória do sambista de morro não fosse perdida.

Com apoio da esposa Anália Mendonça (com quem teve os filhos Tinho Antônio, Analimar e Mart’nália), desenvolveu o projeto “Nem todo crioulo é doido”, o qual culminou em LP homônimo. No repertório, composições membros de várias escolas de samba, como Darcy da Mangueira; Silas de Oliveira (Império Serrano); Zuzuca e Bala (Salgueiro); Colombo, Picolino e Noca (Portela); Marinho da Muda (Império da Tijuca); Sidney da Conceição (Unidos de São Carlos); Cabana (Beija-Flor). Todos participavam das rodas de samba promovidas por Teresa Aragão no Teatro Opinião, na Zona Sul do Rio. Este trabalho visionário, entre outros, o sagraria como um dos maiores preservadores do samba e de tantos outros ritmos.

Em meados de 1969, o produtor musical Rildo Hora convida Martinho a gravar um LP somente com suas composições. Mesmo com a proposta de um contrato sólido na RCA Victor, de imediato, vem a recusa. Desde jovem, sempre sonhou em ver algum samba seu gravado, todavia, apesar de já ter aparecido diversas vezes publicamente, nunca antes havia ocorrido, em seu imaginário, a idéia de se tornar um cantor profissional. Rildo, depois de muita insistência, o convence a gravar um disco-demo não-comercializável apenas com a função de registrar suas músicas fonograficamente a fim de exibi-las, em um futuro, a algum intérprete interessado. Trato feito. Como músicos, Martinho solicita o esteio dos amigos mangueirenses Mané do Cavaco e Darcy da Mangueira (violonista). O pandeiro e o tantã foram tocados pelo próprio Martinho.

O resultado foi excelente. O balde de água fria é entornado neste momento. Em uma decisão arriscadíssima e quase insana, o diretor-artístico da RCA Victor, Romeo Nunes, determina, sem consultar Martinho, a mixagem e prensagem do disco e a distribuição às lojas de cerca de 50 mil cópias. Por ironia do destino, tal fato não poderia ser mais bem-sucedido. Em menos de um mês de lançamento, cinco das quinze faixas já estavam entre as mais tocadas nas rádios, entre elas o carro-chefe do trabalho, o qual se transformaria em um verdadeiro hino dos brasileiros: “O pequeno burguês”, samba irreverente, inspirado em um “causo” de um colega de Exército que se formou em Direito, porém não teve condições financeiras de participar de sua própria formatura.

De um modo geral, o disco é uma prova de como Martinho é, de fato, revolucionário, a começar pelo repertório – entre excelentes sambas-enredo e sambas-canção, basicamente a metade do repertório consistia em sambas de partido-alto. Acontece que, desde os tempos de Noel, o partido-alto era visto com maus olhos pelas gravadoras, as quais o apelidavam preconceituosamente de “estribilho”, “samba-de-chula” ou até “crioulismo” e não o consideravam um sub-gênero de samba a ser levado a sério. Martinho chuta este tabu para escanteio. Outro ponto interessante a ser observado são os arranjos, extremamente rudimentares e ausentes de qualquer influência acadêmica. Não há orquestras, seja sinfônica ou de sopro. Hermínio Bello de Carvalho já havia realizado trabalhos semelhantes com Clementina de Jesus e o Conjunto Rosa de Ouro, porém nada com a mesma repercussão. A sonoridade é simples, “suja”, gerando um clima quase carnavalesco próximo aos dos grandes terreiros. Em outras palavras, é um álbum como todo álbum de samba deveria ser.

Não havia como não agradecer a Romeo Nunes. Martinho, no mesmo ano, abandona seu posto no Exército para se dedicar exclusivamente à música. De lá para cá, foram-se mais de quatro décadas de carreira agradando a gregos e troianos e, sem ele, a situação do samba hoje seria inimaginável. O disco de 1969 vendeu nada mais, nada menos que 300 mil exemplares. As gravadoras voltaram a abrir as portas para o samba em sua essência, isento da influência do jazz ou do choro. A década de 70 foi a década do samba, talvez até mais que a de 30. Duvida? Então, por que será que Cartola, Nelson Cavaquinho, Adoniran Barbosa, João Nogueira, Candeia, Élton Medeiros, Monarco, Mano Décio da Viola, entre tantos outros sambistas sem grande potencial vocal, somente gravaram seus discos de intérprete a partir deste ano? Por que Clara Nunes e Beth Carvalho, até então cantoras românticas, decidiram virar sambistas? Será que haveria, no decorrer desses anos, todos os projetos existentes de preservação das composições das velhas-guardas das escolas de samba? Será que, nos anos seguintes, os discos de sambas-enredo bateriam os mesmo recordes de vendas, ultrapassando até Roberto Carlos?

Martinho também já demonstrou inúmeras vezes ser um compositor preocupado com a preservação da música popular, não só do samba. Por esta mesma razão, fez questão de perpassar pelos mais diversos ritmos brasileiros, gravando marchas, sonatas, salsas, maxixes, ancestrais, xaxados, congos, cirandas, pontos de macumba, batucajés, frevos e até blues. Em 1972, Martinho faz uma excursão a Angola em sua primeira viagem internacional, apresentando-se ao lado do conjunto Os Cunha em uma casa de shows. Era a primeira vez em que tivera contato com a cultura africana, pela qual se apaixonou imediatamente. “Passamos a vida inteira sem informações sobre a África. É muito importante mostrarmos a África como ela é!”, apregoa. Sendo assim, entre 1980 a 1983, liderou o projeto “Kalunga”, dirigido por Fernando Faro, levando uma caravana de artistas brasileiros a Angola, incluindo Dorival Caymmi, Chico Buarque, Gilberto Gil, Edu Lobo, Djavan, Francis Hime, João Nogueira, Clara Nunes, Dona Ivone Lara e Elba Ramalho. Em 1984, tomou o caminho inverso em “O canto livre de Angola”, trazendo artistas angolanos a shows no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.

Com os parceiros João Bosco e Paulinho da Viola

Com os parceiros João Bosco e Paulinho da Viola

Ao longo de sua trajetória artística, Martinho viu parte de sua obra tomar como empréstimo o talento de outros compositores renomados do samba e da música brasileira em geral. Foi parceiro de João Bosco, João Donato, Paulinho da Viola, Paulo César Pinheiro, Wagner Tiso, Moacyr Luz, Hermínio Bello de Carvalho, Candeia, Nei Lopes, Carlinhos Vergueiro, João Nogueira, Ivan Lins, Élton Medeiros, Leci Brandão, Nelson Sargento, Walter Alfaiate e Luiz Carlos da Vila.

Teve o privilégio de trabalhar com alguns dos maiores violonistas do Brasil, a começar por Rosinha de Valença, o “Baden Powell de saias”, a qual Martinho conheceu durante o V Festival Internacional da Canção (Rede Globo de 1970, em que ela defendeu a seu lado “Meu laia-raiá”) e o acompanhou ao longo de sua carreira. Também contou com o dedilhar de Darcy da Mangueira, Manoel da Conceição, Raphael Rabello, João de Aquino, Ruy Quaresma e Cláudio Jorge. Aliás, o próprio Martinho não entende nada de instrumentos de cordas, porém toca tamborim, surdo, pandeiro, reco-reco, agogô, cuíca e caixa de fósforos. Compõe todas as músicas “de ouvido”, dom herdado do pai versador.

Acima de todas suas características, deixa claro que nenhuma pode ser mais referenciada que a fato de ser Vila Isabel. A Vila Isabel levou sambas-enredo seus à avenida em dez carnavais: 1967, 1968, 1969, 1970, 1972, 1980, 1984, 1987, 1993 e 2010. Sim, o samba deste ano, cujo tema era o centenário de Noel Rosa, era de Martinho, apesar de identificável na correria repugnante das gravações de sambas-enredo. Não só isso: a atual quadra da Vila é um presente do próprio Martinho e foi ele o responsável, por vários anos, pelo desenvolvimento dos enredos, inclusive no antológico carnaval de 1988, “Kizomba, a festa da raça”, comemorando o centenário da Abolição da Escravatura extasiadamente. Mesmo atolada em dívidas, a escola proporcionou um espetáculo inesquecível, tamanha garra de seus componentes e conseguiu ser, pela primeira vez, campeã.

Paulinho da Viola, recentemente em entrevista, definiu Martinho da Vila como um “sambista moderno”. Errou redondamente, coitado. Sambista moderno é ele, pós-bossanovista. Martinho da Vila se apossou do estilo mais antigo existente do samba. Trata-se de um sambista do início do século XX desgarrado nas décadas de 60 em diante. É um compositor que segue à risca a linhagem folclórica da “Velha África”, reduto do Rio de Janeiro para o qual as Tias Ciatas trouxeram da Bahia os rudimentos do que seria samba carioca, ainda fortemente mesclado com o lundu e o maxixe. Martinho bebe diretamente da fonte. Suas influências provem dos pioneiros primitivistas como Donga, João da Baiana, Ismael Silva, Bucy Moreira, Príncipe Pretinho, Gastão Viana, Kid Pepe, Heitor dos Prazeres, entre outros. Martinho bravamente mantém acesa a chama da cultura afro-brasileira, oriunda de quatro séculos de escravidão e preconceito.

Como disse, o samba-enredo da Vila deste ano, “Noël, a presença do poeta da Vila” é de Martinho. A versão do samba, em uma cadência suave, gravada em estúdio na voz do próprio autor é uma exclusividade do Artilharia Cultural. Clique aqui para baixar.

Tauil me pediu para enumerar os melhores álbuns de Martinho. Como este tratado já está grande demais, resolvi dividir esta postagem em duas. Confira a lista que selecionei clicando aqui.

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Sobre o Artilheiro Colaborador

Gabriel Deslandes, morador da Região Serrana do Rio e estudante da 3ª série do Ensino Médio, é um admirador dos gêneros musicais brasileiros, em especial o samba e o choro. Violonista e cavaquinista, começou a se interessar pela cultura popular graças às letras dos grandes sambas-enredo e, hoje, escreve ocasionalmente artigos para o site Sambario. Tem interesses centralizados na preservação da música popular brasileira e, principalmente, pelo resgate da verdadeira poesia dos subúrbios, oriunda dos ditos excluídos. Apesar de todas as inversões de valores, acredita seriamente que, em um país tão carente de leitores, as escolas de samba possuem um papel histórico irrepreensível de divulgação da literatura nas camadas mais baixas da sociedade.

Coleção Raízes da MPB

Aos moldes da coleção comemorativa de 50 anos da Bossa Nova, a Folha agora anunciou o lançamento da coleção “Raízes da Música Popular Brasileira”. São 25 livros-CD sobre compositores importantíssimos que deram base à MPB que conhecemos hoje.

Cada CD tem 14 faixas e 64 páginas de biografia e curiosidades acerca do compositor. O exemplar é semanal e é vendido a R$14,90 nas bancas de jornais, sendo que ao comprar o primeiro volume, você leva o segundo. Relação dos compositores:

01. Noel Rosa

02. Lamartine Babo

03. Cartola

04. Pixinguinha

05. Ataulfo Alves

06. Lupicínio Rodrigues

07. Adoniran Barbosa

08. Dolores Duran

09. Ary Barroso

10. Luiz Gonzaga

11. Nelson Cavaquinho

12. Dorival Caymmi

13. Braguinha

14. Herivelto Martins

15. Jackson do Pandeiro

16. Paulo Vanzolini

17. Silvio Caldas

18. Chiquinha Gonzaga

19. Jacob do Bandolim

20. Ernesto Nazareth

21. Ismael Silva

22. Assis Valente

23. Geraldo Pereira

24. Waldir Azevedo

25. Sinhô

O acabamento é em capa dura e o disco faz uma imitação do vinil – bem bacaninha. Para os interessados em adquirir a coleção inteira, veja mais informações no site da Folha.