OK Computer – Radiohead
Artilheiro Colaborador: Matt Idioteque
A história musical pode ser dividida entre antes e depois de alguns artistas. Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin, Radiohead e alguns outros. Sim, você leu certo, Radiohead. Thom Yorke, Jonny Greenwood, Ed O’Brien, Colin Greenwood e Phil Selway fizeram algo que nenhum (eu disse NENHUM) outro grupo dos anos 90 fez: música nova e de boa qualidade. Nem as bandas Grunges, nem o britrock, nem o inicio do renascimento do rock americano chegaram perto disso.
Com letras depressivas e uma melodia que deixaria para baixo o mais feliz dos mortais, Thom Yorke e sua turma conquistaram seu sucesso no inicio dos anos 90, com o lançamento do Pablo Honey, em 1993, álbum onde está a faixa Creep, provavelmente a mais famosa da banda. Em 1995, o Radiohead lançou The Bends, onde são encontrados algumas das melhores canções da banda, como Fake Plastic Trees, High and Dry e Just.
Mas foi em 1997, com o Ok Computer que a banda marcou o seu nome, completando assim uma das melhores trilogias de discos de todos os tempos (na minha opinião, só não consegue superar o Pink Floyd com Dark Side of the Moon, Wish You Were Here e Animals) com a sua obra-prima, a cereja do bolo ou seja lá como você queira chamar o melhor álbum dos anos 90.
O Ok Computer é daqueles discos que você ouve a primeira vez e se sente sem ar, sem acreditar que aquilo aconteceu. Aí ouve mais uma vez e se apaixona.
Então, para começar a ler esse texto, coloque o Ok Computer para tocar, prenda a respiração e viva esses 53 minutos de pura genialidade.
Airbag
Airbag, a primeira faixa, com seu ritmo cru e com os já conhecidos vocais arrastados de Thom, mostra em seus primeiros acordes o que o grupo queria fazer. A letra faz uma analogia entre o airbag de um carro e as chances que a vida nos dá, e no melhor verso da música: “… I’m amazed that I survived / An airbag saved my life”, a voz de Thom, combinada com uma melodia perfeita, faz qualquer um se apaixonar pela banda e ter vontade de continuar a ouvir o cd.
9,5/10
Paranoid Android
Logo a seguir, vem aquela que certamente é a obra máxima de Thom Yorke, a faixa que deve ser colocada em qualquer lista das 20 melhores século, Paranoid Android.
Paranoid Android começa leve e vai mostrando sua genialidade ao decorrer dos seus 6 minutos, fazendo com que você queira se agarra a qualquer coisa pela frente enquanto Thom grita “What’s that…?” e uma voz suave e robótica no fundo avisa: “I may be paranoid, but not an android”
Logo após, a canção segue em uma cadência contagiante, até a virada, onde os vocais gritam “You don’t remember / You don’t remember / Why don’t you remember my name?” e o ritmo violento junto a guitarra de Greenwood soam como um soco no estômago. Um agradável soco no estômago.
Na terceira parte, que é a minha favorita, a batida antes perturbadora se transforma em algo melancólico, com Thom Yorke quase chorando nos vocais e um sentimento de profunda angústia é sentido por quem estiver ouvindo. Nos últimos versos, quando Thom canta “The panic, the vomit / The panic, the vomit / God loves his children / God loves his children, yeah!” e mais uma vez uma guitarra pesada invade a faixa e a termina, fazem você perceber que acabou de ouvir uma obra perfeita.
11/10 (Isso mesmo, 11)
Subterranean Homesick Alien
Após Paranoid Android, qualquer coisa deveria parecer medíocre, porém Subterranean Homesick Alien consegue dar a continuidade perfeita ao álbum. A letra, que fala sobre uma abdução alienígena, pode ser entendida como uma analogia a fuga de alguém da cidade grande, isso é percebido no verso “I live in a town / where you can’t smell a thing / you watch your feet / for cracks in the pavement.”, onde a insatisfação com os problemas da cidade é mostrada.
Mais uma vez Yorke mostra seu completo domínio vocal, carregando a música perfeitamente e adicionando o toque de loucura certo para ela.
9/10
Exit Music (for a film)
Exit Music (For a Film) é a consagração da música downer. Apesar do próprio Yorke não gostar nem um pouco desse rótulo, é impossível não ficar abalado. Essa faixa tem um sentido especial para mim, então, do primeiro ao último acorde, da primeira à última palavra, é impossível não sentir o choro preso na garganta. A vontade de morrer a cada verso fica mais forte quando Thom diz “Breathe, keep breathing / don’t lose your nerve. / Breathe, keep breathing / I can’t do this alone.” e explode no final, com o sufocante verso “we hope that you choke / that you choke”.
9,5/10
Let Down
Minha resenha sobre Let Down seria completamente diferente da que farei agora, por nunca ter sido uma das minhas favoritas. Mas quando comecei a ouvi-la em loop por algumas horas, percebi o erro que cometeria, deixando passar mais uma obra-prima de Thom Yorke.
Musicalmente, Let Down se encaixa muito bem no cd, mas não chega a ser perfeita. O que se destaca nessa canção é a letra: poética, profunda, intensa, ou seja lá como você queira chamar.
Falando sobre sentimentos sem controle, a música carrega um dos melhores versos da banda: “the emptiest of feelings / disappointed people, clinging on to bottles / and when it comes it’s so, so, disappointing”.
9,5/10
Karma Police
Depois de cinco faixas incontestavelmente sensacionais, chegamos a Karma Police, o hit do cd, e junto com Creep, a música mais conhecida da banda. Karma Police tem o feeling exato do Ok Computer, explicitando todo o sentimento do disco. Exatamente por ser um hit, tem uma levada mais pop, mas sem abandonar o estilo melancólico, próprio do Radiohead.
A música transmite a mensagem de que tudo que vai, volta, e que a “Karma Police” sempre estará lá para se certificar de que isso realmente irá acontecer. A própria melodia da música é concebida nessa ideia de vai e volta, indo de uma nota até voltar a ela novamente. Também pode-se perceber uma inclusão do próprio Thom, referindo a si mesmo como uma pessoa que sempre erra e acaba atingido pelo carma: “I’ve given all I can/It’s not enough/I’ve given all I can/But we’re still on the payroll”, levando a crer que não adianta o quanto você tente fugir a “Karma Police” sempre chegará em você.
9/10
Fitter Happier
Fitter Happier é a faixa mais genial desse álbum. Obviamente não falo do lado musical, já que a música é composta apenas por uma base de piano e um sintetizador de voz do Mac, mas sim pela mensagem que ela passa. Sua letra é composta por regras sociais que levariam a felicidade, e no encarte do cd, é a única que está escrita corretamente e em ordem. Tudo isso é feito para mostrar que as máquinas são perfeitas, diferente dos humanos, que não conseguiriam manter essa perfeição, já que estamos suscetíveis a erros a cada segundo de nossas vidas.
10/10
Electioneering
Electioneering é uma música completamente diferente do resto do disco, diria eu que se parece muito mais com qualquer coisa do Queens Of The Stone Age do que com algo do Radiohead. Mas a voz de Yorke, como sempre, consegue dar o diferencial perfeito junto as guitarras arranhadas. Com uma letra quase auto-crítica, a propaganda eleitoral é uma metáfora para as obrigações com shows que a banda deve cumprir.
9/10
Climbing up the walls
Quase chegando no fim do álbum, encontramos Climbing Up the Walls, mais uma das obras-primas do Radiohead. Acho que nem Thom Yorke conseguiria dizer sobre o que essa música fala. Um monstro invisível? Uma perseguição? Uma doença mental? Ela chega a incomodar, por parecer tão assustadora e irreal. A orquestra que a acompanha, unida aos sons eletrônicos faz tudo parecer mais perturbador, principalmente quando o vocalista diz: “And either way you turn/ I’ll be there / Open up your skull / I’ll be there / Climbing up the wall”. Não sei se o problema sou eu, mas olhe para a sua cabeça agora:
Ele está lá.
10/10
No surprises
E seguindo perfeitamente o álbum, após uma música perturbadora, vem No Surprises: uma música que chega a parecer infantil, com a introdução em um xilofone e um vocal suave, mas que vai amadurecendo durante os seus 4 minutos. O espetacular alcance vocal de Yorke fica explicito nessa música, que mesmo já sendo muito boa, fica perfeita graças a sua entonação completamente emocionante. Sua letra fala de alguém que não aguenta mais sua vida cansativa e procura descanso. Ela pode ser entendida como a busca de uma vida feliz, uma aposentadoria e uma velhice confortável, mas na minha opinião, a letra está diretamente ligada a morte e ao paraíso prometido após ela.
Independente disso, o refrão “No alarms and no surprises / no alarms and no surprises / no alarms and no surprises, please.”, mesmo sendo muito simples, contagia e emociona.
10/10
Lucky
Ao chegar na décima primeira música, é impossível não repetir os elogios. Mas Lucky é mais uma das obras perfeitas desse disco. Tecnicamente completa, ela foi toda composta em cima do riff que a introduz, fazendo assim uma faixa sem nenhum erro, mais uma vez sendo melhorada por Thom Yorke, que nesse momento já deixou maravilhado qualquer um que esteja ouvindo-o. A letra é incrivelmente feliz e encorajadora, e a vontade de mudar e alcançar a felicidade a define, como em “It’s gonna be a glorious day! / I feel my luck could change.”
10/10
The tourist
E chegamos ao final. Aquela sensação de que você está completo já toma conta, mas The Tourist ainda está ali, para fazer o papel mais importante: deixar a última impressão. E consegue fazer isso impecavelmente. Uma música calma, que consegue tirar toda a tensão do disco, e que nos faz refletir sobre tudo aquilo que acabamos de ouvir. Certamente, a letra, escrita por Jonny Greenwood e que fala sobre as coisas que um turista deixa passar enquanto observa algo mais importante, fica em segundo plano, quando ouvimos pela última vez Thom Yorke cantar: “Hey man, slow down, slow down / idiot, slow down, slow down.”, os últimos acordes são tocados e se ouve um triângulo encerrando a música. Se o Ok Computer fosse um filme, nesse momento todos levantariam da cadeira e aplaudiriam, emocionados.
10/10
O Radiohead mostrou que é possível escrever uma obra magistral com 12 músicas e pouco menos de uma hora. E que não é preciso de técnica completamente apurada ou membros perfeitos para isso.
Agora solte a respiração. Valeu a pena? Se você é fã de Radiohead, ouça o Ok Computer até cansar, mas se não é: baixe-o ou compre-o. Agora.
(Agradecimentos ao @seubrownie e ao @ravifreitas, que me deram uma força aqui)
OK Computer
Artista: Radiohead
Nota Colaborador: 10
Gravadora: Parlophone Records e Capitol
Ano de Lançamento: 1997
Sobre o Artilheiro Colaborador
Mateus Alves é estudante, tem 15 anos (sim, 15!) e é um apaixonado por Radiohead, Elliott Smith e Tarantino. Carioca, futuro estudante de jornalismo e em busca de qualquer coisa que se pareça com música, ele pode sempre ser encontrado no @mattidioteque.


Cara, só faltou vc dizer 2 coisas:
1 – ok computer é um disco que fala do Guia do Mochileiro das Galáxias, do início ao fim. Paranoif Andróid é o Marvin
2 – A banda muda tudo a partir deste disco. Embora o The Bends seja um baita disco, ele ainda não chegava onde o radiohead chegou. O Ok computer prepara a mudança estética e o Kid A e, na minha opinião, o grande marco.
9,5/10 pra sua resenha.
vai dorme
“fizeram algo que nenhum (eu disse NENHUM) outro grupo dos anos 90 fez: música nova e de boa qualidade”
Tudo bem que o Ok Computer foi um divisor de águas na carreira da banda, e ditou novos parametros em termos de produção dos álbuns a partir daí, mas musicalmente o Radiohead não estava tão longe de muitas bandas que figuraram fora do mainstream ‘mtvístico’, ou que não faziam um perfil totalmente grunge. Nesta mesma década, nomes como Pantera, Rage Against the machine, Sepultura e Counting Crows, apenas para citar alguns exemplos, fizeram música nova e de boa qualidade também.
Ah, mas a resenha esta muito boa, parabéns!
Voce descreveu o que senti logo que ouvi a primeira vez o OK Computer, a falta de ar. Sem duvida é o melhor album que já ouvi de todas as bandas existentes, até mesmo, ganhando do Pinck Floyd.
Por ser um álbum consegue descrever: Certeza,erro,medo,coragem, perfeição robotica (produto nosso),melancolia, alegria, sem ar, com ar, recolhimento, vontade,desespero,calma,dor, alivio, febre, doença, cura, ilusão,desilusão,fogo,chuva,sol,dia,noite,muro,asfalto,jardim,urbanismo,fuga,amor,ódio,política,convulsão,Ciências, desapontamento,máximo, mínimo,insatisfação, satisfação, reação química,grito,penúria,perseguição etc
O álbum consegue ser equilibrado do inicio ao fim, as faixas se complementam para que uma maquina possa tocar o sentido da alma humana nos seus pontos altos e baixos.
O álbum é uma admissão, ok, precisamos fazer isso.
Exepcional: essa é a palavra que define o Radiohead. Não vi nenhuma banda ter a mesma genialidade que Radiohead tem. Um post é pouco pra falar de Radiohead, sinceramente.
Ok Computer é realmente um disco forte e marcante, e sem dúvida o melhor de Radiohead.
Paranoid Android e Fitter Happier são as músicas mais geniais de Ok Computer, especialmente Fitter Happier, a música e toda a produção dela.
Sério, parabéns pelo teu texto, você soube pegar as ~mensagens~ da música certinho! Parabéns mesmo, de verdade!
Muito amor pelo Ok Computer. Eu, de fato, não descreveria melhor.
Com certeza OK Computer é o melhor disco dos anos 90, deixando para trás os ótimos discos: Nirvana – Nevermind, Oasis – Definitely Maybe, Blur – Parklife, R.E.M. – Automatic For The People.