Especial Quentin Tarantino – Inglourious Basterds
A primeira coisa que alguém descobre sobre mim, quando falamos de cinema, é que eu sou apaixonado por filmes de guerra. Dentre elas, minhas duas favoritas são, em ordem de importância: a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnam. A segunda coisa que alguém descobre sobre mim, ao falar do assunto supracitado, é que meus diretores favoritos são, sem preferência definida: Quentin Tarantino, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola. Desses três diretores, até o ano passado, apenas um tinha feito um filme de guerra. Apocalypse Now, de Coppola, é – até hoje – um dos melhores longas do gênero, que conta com Marlon Brando (lembre desse nome), Martin Sheen (pai de Charlie Sheen, que atuou em Platoon) e até o Morpheus moleque, Laurence Fishburn. E por que diabos eu estou falando disso? Porque em 2009, Quentin Tarantino nos entregou um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos: Inglourious Basterds, ou, se vocês preferirem: Bastardos Inglórios.
O Mito
Quentin Tarantino demorou praticamente uma década para finalizar o roteiro de Bastardos Inglórios. Muita gente chegou a duvidar que o filme realmente seria feito um dia, mas o problema não era esse. Sabe quando você escreve alguma coisa, e isso tá muito bom, mas você sente que pode ficar melhor? Provavelmente o americano estava assim com relação à Bastardos. Ele sabia que aquela poderia ser sua obra prima, seu filme de maior sucesso, mas algo lhe dizia que faltava algo. E mais alguma coisa. E um toque de sangue ali. E um diálogo ácido acolá. E, em meio à diversas mudanças, ideias e planejamentos, o filme que era anunciado ano após ano finalmente teve suas filmagens iniciadas. Todos ficaram perplexos quando o roteiro vazou meses antes do filme estreiar, e ficou disponível para quem quisesse ler.
Eu comprei um livro com o roteiro original do filme. E, sabe, ler roteiro é uma coisa meio estranha. É totalmente diferente de ler uma história. Mas você consegue enxergar a alma do filme ali. E, como vocês puderam perceber… Ele não estava errado em ter demorado tanto tempo pra fazer a história.
Os Bastardos
Uma vez meu pai me disse: “filho, nunca discuta com uma mulher. De um jeito ou de outro, você vai perder”, e eu não ouvi. Talvez, exatamente por isso, eu sempre trave discussões sobre os mais variados assuntos com uma garota em particular. E essa garota odeia o Brad Pitt. Eu não entendo como alguém pode odiar o Tyler Durden e, mais que isso, o Lt. Aldo Rayne (homenagem ao ator e ex-veterano da 2ª guerra Aldo Ray). Pitt me lembrou, invariavelmente, Marlon Brando (eu falei pra você lembrar dele) durante diversas cenas, seja pelo rosto propositalmente estufado ou pelo jeito durão e imponente. Ele é o tipo de ator que não pode ser considerado “um dos melhores da sua geração”, mas ele é o tipo de cara que escolhe os melhores papéis para sua carreira (12 Macacos, Clube da Luta, Seven e o filme que estamos falando agora não me deixam mentir) e rouba a cena em quase todos eles.
Existem dois outros Bastardos que merecem destaque: Eli Roth, como o Sargento Donny Donowitz, não precisa atuar de maneira brilhante: ele é o Urso Judeu, temido por todos os nazistas que já ouviram falar dos Inglórios, tem apenas uma missão: ser brutal. E é isso que ele faz.
Já o alemão Til Schweiger recebeu uma missão mais dura: ser o Mr. Blond. Antes que você corte minha orelha fora, eu explico: Mr. Blond é o personagem turrão, que fala pouco e é, invariavelmente, o mais badass do grupo. A cara de mal de Schweiger, junto à cenas do loiro matando oficiais da Gestapo com uma narração de Samuel L. Jackson ao fundo são elementos que tornaram essa tarefa praticamente um passeio no parque, para o ator.
Existe um ator, porém, que merece um subtópico só para si: Christopher Waltz.
Hans Landa
Quando eu disse, três parágrafos acima, que Brad Pitt roubava a cena em quase todos os bons filmes que fazia, a explicação encontra-se no ator alemão que deu vida à um dos melhores vilões desde Darth Vader e Hannibal. Christopher Waltz é tão brilhante no papel do comandante da SS que nós torcemos para que ele apareça mais e mais. Nós torcemos para que existisse um filme só dele, com todas as suas crueldades, seus comentários insanos e suas demonstrações impressionantes de inteligência. Como o próprio diz, ele é um detetive. Um homem inteligentíssimo, que não admite derrotas. E como todo grande vilão tem um detalhe característico (Darth Vader tinha sua vestimenta especial, enquanto Hannibal era aprisionado à uma máscara), Tarantino deu à Hans Landa um enorme cachimbo, que causa risos à plateia quando retirado do bolso do comandante, naquela que é uma das melhores cenas de abertura da história do cinema moderno.
E é nessas horas que o destino mostra-se gentil com obras primas como esta. A primeira opção de Quentin Tarantino para o papel do comandante era Leonardo DiCaprio. Independente das qualidades de atuação do ator (as quais eu admiro) é certo que nenhum outro ator cairia tão bem como Waltz. Se o prêmio de melhor ator no festival de Cannes (2009), o Globo de Ouro (2010) e o Oscar (2010) por melhor ator coadjuvante não te dão certeza disso, as palavras de Tarantino talvez surtam algum efeito: segundo o diretor, Waltz “deu o filme de volta à Tarantino”. A explicação para essa frase é simples; Hans Landa, segundo Quentin, foi o melhor personagem que ele já inventou em toda sua vida. Até o austríaco aparecer, porém, era o tipo de papel que parecia impossível de se atuar. Podemos considerar que, se não fosse o ator, o filme talvez nunca tivesse saído do papel.
O ponto alto de Hans Landa, talvez, seja o fato do personagem não flertar com as ideias nazistas. Fica claro, durante o filme, que apesar de usar as roupas de um nazista, ele não flerta com sua ideologia. O Caçador de Judeus, como ele se auto-intitula, tem como prazer mostrar que é o melhor no que faz. E nós sabemos que essa é a mais pura verdade.
The Tarantino Way
Existe algo em filmes de guerra que é consideravelmente desagradável: nazistas falando inglês. Franceses falando inglês. Russos falando inglês. Diretores deviam saber que não adianta você obrigar um cara a falar inglês com um sotaque soviético: vai continuar sendo inglês. Mas nós não estamos falando de um diretor qualquer, aqui: estamos falando de Tarantino. E qual é seu modus-operandi? Traduzindo em bom português: se vai fazer, faz direito. E ele fez, de novo.
Na cena inicial, na qual Hans Landa interroga um fazendeiro francês que esconde vizinhos judeus em seu sótão, o diálogo inicial entre o nazista e o dono da propriedade é travado em francês. À pedido do personagem de Waltz, eles começam a conversar em inglês. O melhor: com um motivo. O palpite de Landa é que os vizinhos, fugitivos, não sabiam falar inglês. E, de fato, não sabiam.
Hitler e os oficiais alemães falam, graças à Deus, alemão. Uma cena memorável do filme (apesar que todas o são) mostra um diálogo entre Aldo Rayne e um oficial alemão que não fala inglês, precisando, então, da necessidade de um tradutor (um dos Bastardos, alemão). A opção por utilizar o inglês (ou simplesmente eliminar essa cena), que salvaria minutos de filme, foi ignorada pura e simplesmente para manter uma semelhança com a realidade.
Vale lembrar, igualmente, da cena que passa-se em uma taverna, depois de um jogo de adivinhações entre os Bastardos, Bridget von Hammersmark (Diane Krueger) e oficiais da Gestapo. O motivo que desencadeia uma sequência de ação só poderia sair da cabeça de Tarantino. E já que falamos nisso, a ultraviolência está lá, como não poderia faltar. Seja na execução de um oficial nazista com um taco de baseball (nota do artilheiro: na terceira vez que fui ao cinema para assistir Inglórios, procurei algumas pessoas que também assistiam o filme, com os cantos dos olhos, nas cenas de maior violência. Poucos olharam durante o tempo todo a execução do alemão ou o método de persuasão que Aldo Rayne usou em Mimieux) ou na apresentação de Hugo Stiglitz, Tarantino mostra que não perdeu a mão.
Once Upon a Time, in a Nazi Occupied France…
Soldados americanos (e judeus) são largados na França, como civis, com uma única missão: matar o máximo de nazistas que puderem. Não existe uma missão explanada, complexa, que possa ser interferida por militares do alto escalão, em uma mirabolante rede de intrigas: os Bastardos devem aterrorizar os nazistas, e destruir o máximo de oficiais alemães que conseguirem. Dentre seus métodos, o escalpelamento é, sem sombra de dúvidas, o mais criativo. Mais que uma missão de encontrar e destruir, os Inglórios sempre deixam um soldado vivo, para voltar ao Fuhrer e contar a história.
Durante duas horas e meia, temos a chance de observar Quentin Tarantino reescrever a história, usando suas inúmeras referências (é quase desnecessário comentar o quão incrível é que o plot todo da história acabe por girar na exibição de um filme de guerra em uma sessão que abrigará todo o grande comando nazista, e a possibilidade de matar todos ali mesmo) e utilizando diversos estilos de se fazer cinema para criar, como sempre, o seu próprio.
O artilheiro que vos escreve preferiu não falar de Melanie Laurent, que interpreta a judia Shosanna Dreyfus, porque não quero me apaixonar de novo.
Para mandar os soldados de volta para Hitler, como já mencionado aqui, Aldo Rayne lhe desenha uma suástica, talhando o desenho na testa do nazista com uma faca. Ao fazer isso novamente, na cena final do filme, Danny Donowitz olha para seu comandante e diz as seguintes palavras: acho que o senhor acabou de fazer sua obra-prima. Essa cena, rodada com a marca registrada de Tarantino, a “tomada do porta-malas”, na qual os atores olham para baixo, me deu a nítida impressão que esse foi um recado direto de Tarantino para nós. Bastardos, junto com Cães de Aluguel, é considerado a obra-prima do diretor. E, apesar de – por motivos pessoais – preferir Cães de Aluguel, Inglórios está na minha lista definitiva dos meus 10 filmes favoritos de todos os tempos. E se não está na sua, ainda, tá na hora de assistir de novo.
Curiosidades:
- Adam Sandler foi sondado para interpretar Danny Donowitz; devido à problemas na agenda, o papel ficou com Eli Roth.
- Hugo Stiglitz é o nome real de um ator mexicano.
- Eli Roth ganhou 15kg para interpretar o Urso Judeu
- Michael Madsen (Mr Blond) participaria do filme como Babe Buchinsky; nem Madsen, nem o personagem aparecem no filme.
- Tarantino é o primeiro soldado nazista a ser escalpelado pelos Inglórios
- Harvey Keitel (Mr White) é quem faz a voz do negociador que tenta um acordo com Hans Landa
Referências:
- Once Upon a Time in West, filme com Henry Fonda e Charles Bronson, foi a inspiração de Tarantino para o primeiro capítulo do longa.
- Na cena do tiroteio no cinema, Donny Donowitz está intencionalmente na mesma posição e com a mesma expressão de Tony Montana (Al Pacino) em Scarface.
- “Duas batidas: eu te bato, você bate no chão”, frase que Donowitz profere, foi retirada do filme O Clube dos Cinco.
- Existe uma alusão ao Clube da Luta quando Brad Pitt diz: “Você sabe, lutar em um porão oferece muitas dificuldades. A número um é, você está lutando em um porão.”
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Bastardos Inglórios foi um dos filmes mais divertidos que eu vi nos últimos anos. Quando Tarantino começou a por no papel suas idéias para o filme acabaou saindo tão grande que ele por um tempo pensou em fazer uma minissérie invés de um filme. Mas depois cortou bastante e conseguiu colocar tudo num filme de duas horas e pouco.
Quando vejo Bastardos noto o esforço do Tarantino em fazer algo tão marcante quanto sues filmes anteriores, mas com um pouco de receio. Receio porque há anos que ele falava que ia fazer um filme ambientado na Segunda Guerra e a expectativa geral era muita. E cara, ele conseguiu. Até hoje repito algumas frases do filme. Merecia o Oscar daquele ano.
Bom, pra começar o Bastardos Inglórios humilha e escalpela o vencedor do Oscar, Guerra ao Terror.
Dito isso, eu só posso dizer que esse filme é fodastico.
O Christopher Waltz arrebentou, como já citado, se não fosse ele não teria o filme, pois tinha que ser um ator que falasse várias línguas e ainda arrebentasse em cena. Concordo com você, ele tornou-se um dos melhores vilões da história!
Uma parte que eu ri bastante no filme:
Quando o Hans Landa fez os bastardos de bobos, fazendo com que eles repetissem em Italiano (idioma que o T. Aldo Rayne sabe falar muito bem…hahahaha)seus nomes na entrada do cinema.
Falando do Waltz ainda, ele me lembrou muito um outro ator muito bom. Depois eu vou fazer um post falando sobre.
Obra-prima. De Tarantino, do Lt. Aldo Raine e por que não, do artilheiro responsável por essa resenha. Essa é a palavra que realmente define ‘Bastardos’, e, juro, sempre que a vejo ligada ao filme, dá uma sensação foda.
A resenha ficou fenomenal, um tanto parecida com uma que escrevi há um tempo atrás, no bom e velho Word mesmo. Uma das coisas que nos levam a gostar de uma obra é isso, nos identificarmos com ela. E com certeza me identifiquei, sendo também grande fã do filme (confesso que mesmo assim desconhecia a maioria das curiosidades citadas, exceto por Tarantino ser o primeiro ‘escalpeado’ e pelo memorável ’2 hits: I hit you, you hit the ground’, imortalizada na voz de Emilio Estevez no citado ‘O Clube dos Cinco’, do falecido John Hughes e repetida por Donny Donowitz no futuro… ou seria no passado?).
Dito isso, nem tenho muito mais o que comentar. A resenha foi muito bem escrita, com uma excelente abordagem da essência desse filme espetacular. Não cheguei a ler todos seus posts ainda, Lucas, mas repito aqui a frase dita na cena final do filme pelo Lt. Aldo Raine (abro parênteses aqui para corrigir este pequeno e ímpar deslize do post: o personagem de Brad Pitt usou a célebre citação que mais parece ter saído de Tarantino, em diálogo com Utivich. Donny morreu durante o atentado praticado pelos Bastardos Inglórios na véspera, no cinema em Paris): “acredito que esta seja uma obra-prima”.
Caralho, é tudo tão foda que eu nem sei se posso falar mais alguma coisa. O Tarantino, o filme, o Brad Pitt, o Cristoph Waltz, tudo muito completo.
Parabéns, Lucas, uma das melhores resenhas que já li, me deu vontade de assistir esse filme mais quinhentas vezes.