Na mira: Antônio Xerxenesky
Não se sinta culpado se você nunca ouviu falar em Antônio Xerxenesky. Apesar do nome assustar algum leitor desatento, Antônio é ainda uma novidade nas prateleiras de literatura – mas não por muito tempo. Além de sua participação em algumas coletâneas, já publicou um livro de contos e um romance, o Areia nos dentes. Este último está sendo muito discutido na internet. Por quê? Oras, porque é um romance inovador, que mescla zumbis e faroeste! Antes de você ler a entrevista com Antônio, sugiro ler a resenha que a Anica, nossa colaboradora e valiosa aliada, fez para o romance, clicando aqui. Além de escritor, ele é também editor da Não Editora. Agora, com vocês, Antônio Xerxenesky, que gentilmente cedeu essa entrevista para provar a nossa tese de que a literatura no Brasil não morreu, ela só está escondida – e muito bem escondida.
1. Antônio, você, como escritor, já publicou um livro de contos, o Entre, e um romance, o Areia nos dentes. Como foi aceita essa temática de zumbis mesclados com o velho oeste? Seus leitores são essencialmente jovens? E, caso sejam, isso te incomoda de alguma maneira?
Foi bem aceita, no geral. Meus leitores são de todas as idades, gênero, estilo. Quando escrevi o livro, pensei que o romance agradaria apenas pessoas como eu, nerds recém ingressando na vida adulta. Que nada, recebo e-mails das mais diversas pessoas… Foi uma surpresa e uma alegria.
2. Além de escritor, você é também editor. Quais os critérios de uma editora para a publicação de algum autor novo? O mercado está de olho em quê?
Não posso falar do mercado em geral, apenas da Não Editora. A Não Editora procura o diferente e se orgulha justamente de não ter um eixo temático definido. Publicamos de contos de ficção científica até um romance mais tradicional, passeando pela poesia. É engraçado: não sei dizer como é um “não-autor”, mas ao ler um texto, sinto se ele tem ou não a “cara da Não Editora”.
3. A Não Editora recebe muitos originais para publicação? Muita gente nova? O Humberto Werneck disse, em entrevista pra gente, que estamos vivendo “um saudável estouro da boiada” porque com a internet todo mundo pode “pôr no ar a sua palavra”, mas que haverá, em breve, uma seleção natural do que realmente presta. Como você vê essa situação, como editor?
Recebíamos, quando estávamos abertos para isso. O problema é que tem tanta gente escrevendo que é impossível para uma editora conseguir ler todos os originais que chegam. Ainda mais quando é uma editora independente, quando fazemos isso no tempo livre por amor à camisa.
Seja como for, vejo com bons olhos essa situação. Tem muita gente publicando, é quase impossível acompanhar todos os lançamentos, verdade… Mas os livros realmente bacanas acabam se sobressaindo. A literatura brasileira está passando por uma excelente fase.
4. Mexer com livros no Brasil… vale a pena? Dá dinheiro?
Dinheiro? Não. Se é dinheiro que o escritor busca, que procure outro ofício. Qualquer outro. O mesmo acontece com uma editora independente como a Não. Dinheiro e lucro nunca foram nossos objetivos, e isso tem seu lado bom e ruim.
Agora, “valer a pena” implica outras coisas. Dá prazer mexer com livro no Brasil? De vez em quando. Escrever é completamente abominável, mas se no final relemos o texto e não sentimos uma profunda vergonha por aquilo, até bate um certo prazer. E quando um leitor, no meio da semana, manda um e-mail dizendo como o livro que você escreveu foi importante para ele, leitor, também temos a sensação de que vale a pena.
5. Você sofreu alguma influência direta para o Areia nos dentes?
Duas influências ridiculamente diretas, eu diria. Against the Day, do Thomas Pynchon e Onde os velhos não têm vez, do Cormac McCarthy. Pynchon foi quem me ensinou tudo que sei sobre narrador inconfiável, o cruzamento de linguagens e a mescla entre alta e baixa cultura. McCarthy, por sua vez, me ensinou que ainda é possível escrever um faroeste no século XXI.
6. As editoras estão preparadas para encarar a digitalização do livro? Isso é uma ameaça?
O livro digital, no Brasil, ainda não é uma realidade. Eu, que conheço dezenas de leitores, escritores e editores, nunca vi um leitor de e-books! Não tenho nada contra o livro digital, pelo contrário, adoraria ter minha biblioteca em formato digital, ocuparia bem menos espaço, apesar de todo o fetiche do livre impresso que tenho. A verdade é que não me sinto bem para fazer qualquer afirmação sobre mercado editorial e e-books no momento. Ninguém sabe o que vai acontecer. Falar qualquer coisa é especular sobre o futuro, coisa que não estou com vontade de fazer. Não hoje.
7. Pergunta da leitora Izze: “aproveitando o andamento do gauchão de literatura, como você avalia os ‘jogos’ até agora?” Já no gancho dessa pergunta, o que você acha desses eventos literários que têm brotado por aí, como a FLIP e outras feiras? [O campeonato gaúcho de literatura é um evento que confronta livros de contos publicados em 2008 e 2009 por escritores gaúchos]
Uma de cada vez.
Izze: o Gauchão trouxe jogos divertidíssimos. Muitos me convenceram a não ler os livros resenhados, mas me fizeram aplaudir o resenhista. Acredito que o potencial de concursos como esse é descobrir ótimos livros perdidos no meio do ruído branco causado por tantos lançamentos, tanta gente publicando. O Gauchão, assim como a Copa de Literatura, tem uma função muito importante, em minha opinião.
Quanto às feiras, aplaudo com vigor eventos como a FLIP. A FLIP aproxima nós, leitores, de autores que, de longe, parecem semideuses. Caminhando pelas ruas de Paraty podemos ver McEwan bebendo cachaça e Coetzee dançando um sambinha. Como não aprovar isso? Muitos reclamam de uma suposta “glamourização” da literatura. Ora, parem de reclamar! Além de desenhar o ato de ler como algo “bacana” de se fazer, mostra que até os grandes autores são pessoas normais…
8. Cá entre nós: como você vê essa deturpação dos monstros atuais? Zumbis que correm, vampiros que brilham, lobisomens depilados etc.?
Não me afeta em nada. Sério mesmo. Nunca assisti a um filme da série Crepúsculo, não vi os últimos filmes de lobisomem, não li esses livros… Zumbis que correm? Se for bem dirigido, que mal tem? Basta lembrar “Extermínio”, do Danny Boyle.
9. E o que você tem lido, ultimamente?
Tenho lido com paixão dois escritores: o suíço Robert Walser, um contista maravilhoso que permanece injustamente inédito no Brasil, e Javier Marías, um romancista espanhol com uma prosa de ser ler em voz alta, parando de cinco em cinco páginas para gritar para os céus: “gênio”.
10. Como nosso site engloba outras áreas da cultura, pedimos que você cite os três livros, os três filmes e os três discos que mais te marcaram.
Livros: “Dom Quixote” (Miguel de Cervantes), “O Arco-Íris da Gravidade” (Thomas Pynchon) e “2666” (Roberto Bolaño).
Filmes: “Três Homens em Conflito” (Sergio Leone), “Suspiria” (Dario Argento), “Anjos Caídos” (Wong Kar-Wai)
Discos: “Lift Your Skinny Fists Like Antennas To Heaven” (Godspeed You Black Emperor), “Come On Die Young” (Mogwai) e “Ys” (Joanna Newsom)
11. É padrão do Artilharia encerrar as entrevistas com o Tiro Certeiro e a Medalha de Honra. Eu explico: o Tiro Certeiro você dá para alguma coisa, subjetiva ou não, que você acha que vai de mal a pior (ex.: fulano de tal, política, educação, editoras etc.), e a Medalha de Honra é a mesma coisa, só que pro lado positivo (algo que merece seus aplausos).
Tiro certeiro: pro cinema independente americano, que está em uma péssima fase.
Medalha de honra: pras cervejas artesanais gaúchas.
Para sintonizar com Antônio, você pode segui-lo no twitter, aqui no @xerxenesky



Tá aí! Adorei a entrevista e acabei de ler a resenha sobre Areia nos Dentes. Vai estar na minha estante em breve!
Adorei a entrevista!
E já digo que quero ler a reedição de Areia pela Rocco. xD
E ele é uma boa pessoa para se seguir no Twitter, verdade.
Foi por causa do livro do Xerxenesky, posso dizer, que eu comecei a ler bem mais autores aqui do RS. Foi algo que abriu os olhos para ver que realmente tem boas coisas sendo produzidas por aqui.
Muito boa a entrevista com o Xerxenesky. Há tempos tenho vontade de ler o “Areia nos dentes” uma pena não se encontrar tão facilmente pelas lojas virtuais, agora já estou na espera da reedição pela Rocco.
Legal a pergunta sobre as influências, apesar de ainda não ter lido, pelo que me falavam do “Areia…” eu sempre pensava no McCarthy.