Archive for the ‘Lutar com palavras’ Category
Lutar com palavras XXII – O que é o Corinthians?
O Corinthians é um fenômeno sociológico a ser estudado em profundidade.
Menotti del Picchia
O que é o Corinthians?
Corinthians é o time mais amado e mais odiado do mundo. O time que mais aparece na boca do povo, seja pra falar bem ou mal. Seja como forma de elogio ou xingamento. E eu não precisei consultar nenhuma pesquisa pra saber disso. Mas o Corinthians é só um time? Depende de quem fala.
O Corinthians é a minha seleção. Torço pro Corinthians, e depois para o Brasil. Porque se um dia fizessem um Brasil x Corinthians lá no Pacaembu, você pode me encontrar junto da Gaviões, empurrando o Timão pra frente.
Só quem é Corintiano sabe o que é ver o time entrar em campo. Só quem é Corintiano sabe que o jogo vai ficar difícil no segundo-tempo e só vai se resolver entre os 43 e 45. Ainda assim, toda vez que isso acontece, parece que é a primeira. As mãos suadas, a falta de vocabulário – porque os palavrões já foram gastos, e o jeito é inventar xingamento novo pra mãe do juiz -, o nervosismo e a sensação que o coração – corintiano, doutor, não precisa nem perguntar – vai parar a qualquer momento são características exclusivas dessa pequena parcela da população. E por pequena, você pode contabilizar mais ou menos 30 milhões. Temos mais torcedores que o país de Portugal tem em habitantes. Mais que o Chile, que a Argentina, que a Austrália.
E o que são 100 anos? 100 anos para uma pessoa é muito. Para uma nação, é pouco. E o Corinthians não é nada menos e nada mais que uma nação. Uma nação cuja população não se importa com as conquistas: isso é coisa pra torcedor de time de futebol, que, pra sentir-se grande, precisa ostentar suas conquistas. O Corinthians é o time do povo, e o time do povo gosta mesmo é de ver raça, de ver amor à camisa.
Nossa nação, nos anos 70, já tinha seus pensadores gregos. Nosso Dr. Sócrates já filosofava nos vestiários, organizando – junto com Wladimir, Zenon e Casão – as mudanças no clube que devia refletir sua torcida: a igualdade. Do roupeiro ao cartola, tudo deve ter o mesmo peso. Acredito, e essa é uma das minhas razões, que um time é o reflexo de sua torcida. Como eu não conheço nenhum outro caso no mundo no qual a torcida tem um time, nada mais justo que os dois serem reflexos um do outro.
Poderia me demorar na nossa criação, lá em 1910, com nossos operários e passar por toda nossa história, nossos títulos e nossas glórias… Poderia falar de 1977, ocasião na qual meu pai estava presente, ou de 1990. Poderia falar de 2000, ou de 2007, quando chorei mais do que qualquer outra vez que consigo me lembrar, em meus 18 anos.
O Corinthians faz 100 anos de história, com uma torcida que nunca o deixará morrer. Com uma torcida apaixonada. Roxa, preta, branca, japonesa, italiana, paulista, carioca, gaúcha, nortista, americana… Onde você procurar, encontrará um Corintiano.
E, por fim, deixo um recado ao amigo rival, que não está agüentando ver tantas camisas alvinegras na rua: guarde sua saliva. Falar de seus títulos, de suas Libertadores ou de seus Mundiais não afetará em nada o coração de um Corintiano. Lembre-se, no fim das contas, a diferença entre nós dois: vocês torcem para um simples time de futebol. Nós torcemos para o Corinthians.
Parabéns, Timão. E obrigado por me dar mais um motivo para sorrir, para chorar e para torcer.
Lutar com palavras XXII – Embate sempre há de pintar por aí
Artilheiro Colaborador: Lívia Palmieri
Há mais encontros acima (ou abaixo) da terra do que supõe nossa vã filosofia
Hunter Stockton Thompson, o jornalista considerado apenas escritor por alguns, quando chegou com seu pequeno foguete ao Paraíso (ou inferno, como queiram!), encontrou-se com Kant, o filósofo alemão. Precisava desabafar a sua presença terrena incompreendida e fez os ouvidos do filósofo de penico.
Reclamou de seu trabalho de copiador da revista Time, de free-lancer na América Latina e das publicações de seus romances medíocres. Sem contar as inúmeras lágrimas que derramou por sua vida pessoal e seu casamento em 1963.
Mencionar a década de 1960 foi como mágica; o descontentamento de Thompson transformou-se em felicidade e, eufórico como um jornalista que ganha o prêmio Pulitzer, começou a discorrer sobre os fatos vividos nesse período.
Dizia a Kant que a partir de 1965 começou a se realizar profissionalmente e, nesse período, conheceu os membros da Hell Angels, uma gang de motociclistas. A experiência de conviver por um ano com esses motoqueiros resultou em um livro, seu primeiro sucesso.
Thompson continuava falando. Contou que também havia se envolvido com uma comunidade hippie e diversos tipos de drogas.
As experiências que o jornalista vivia serviam de base para matérias desenvolvidas por ele. Por exemplo: se a pauta era sobre o efeito que a droga X causava no organismo humano, ele vivenciava a situação, experimentando o produto do qual falaria antes de escrever.
Explicou para Kant que esse seu modo de vida havia dado origem a um novo estilo de jornalismo, o “Gonzo”, o qual dependia das experiências do jornalista para se concretizar.
Pensando filosoficamente os relatos de Thompson, Kant o indagou: “Para você, o bom jornalista depende apenas das experiências vividas? As idéias inatas não são relevantes quando se trata de colocar no papel informações para o interesse do público?”
O jornalista coçou a cabeça e disse: “A essência do bom jornalismo é a busca pela imparcialidade, deixando as idéias inatas de fora”.
Com um sorriso sarcástico estampado no rosto, o filósofo constatou: “Então as experiências vividas no decorrer do tempo não influenciam o autor do texto e o público tem em mãos um exemplar de imparcialidade.”
Sentindo-se ofendido com a ironia de Kant, Thompson franziu o cenho e ralhou com o filósofo: “Não me venha querendo usar de dialética para que eu caia em contradição. Sócrates e Platão é que sabem aproveitar esse método como se deve, também não recrimine minha forma de agir e pensar o jornalismo, a incompreensão de alguns já é o bastante.”
Kant, assustado com a rispidez de Thompson, pediu calma. “Eu só queria encaixar minha filosofia dentro das experiências que você relatou de modo que passasse pelo racionalismo, idéias inatas, antes de chegar ao empirismo e enriquecer minhas teorias segundo seus depoimentos”, disse.
Thompson conhecia as teorias do filósofo e, envergonhado com a explosão desnecessária, desculpou-se dando início a um novo diálogo, quando, com uma referência ao próprio Kant, concordou com ele: “não resta dúvida de que todo o nosso conhecimento começa pela experiência.”
Sobre a Artilheira Colaboradora
Lívia é uma estudante de jornalismo que não sabe se definir. Talvez seja apenas uma história contada, não um caso acontecido. Assim como Holden Caulfield, se comporta como se fosse alguém mais velho (às vezes), mas ai acha que ninguém repara. Como diz o anti-herói, ninguém repara nunca em nada.
Lutar com palavras XXI – O primeiro ato
Ainda posso lembrar a centenas de sabores que seu lábio roxo teve ao longo daquelas horas. Horas suadas. Horas em que éramos dois animais sedentos da mesma sede vadia. Escorríamos um pelo outro como duas correntes de pecado, de beijos molhados, mordidas devassas ódio e impuridade. Ao fundo, uma guitarra insinuante soava para fora da caixa de som de madeira; era a única fonte de humanidade que nos restava, como se fosse um porto seguro de nosso passado, uma corda guia a qual prendíamos um dos tímpanos para não nos perdermos para sempre naquele banquete infinito de nós mesmos.
Estávamos juntos em toda e cada parte de nós por dentro daquelas horas que durariam pelo resto do que vocês chamam de existência.
Os meus olhos eram a personificação do pecado. Brilhavam por tudo que ela podia chamar de céu dentro daquela noite eterna que cercava nossos corpos. Os seus eram duas luas de sangue cujo prazer quis saciar e pagar com a alma; o prazer só aumentava e o fim do universo estava ao toque de meus dedos. Braços guiados pelo meu egocentrismo a guiaram para todas as mais ignomínias posições que derrubam o amor como o pregam, chamando-o de bastante.
A mulher é um animal que se alimenta de corações partidos, e o meu já estava partido há duas décadas e meia. Desde então, eu escondia minhas vergonhas junto a alguma pureza que guardava da minha infância. Acordei bem cedo para descobrir que o mundo é controlado por quem pode eleger seu deus para mais pessoas e que o satanás tem um clitóris.
Todos os sonhos eróticos que ela teve desde sua mocidade pueril – colecionando prováveis pôsteres de Marlon Brando ou Brad Pitt – pertenceram a mim junto a todo o resto de sua mente, corpo e entranhas. Eu a senti na essência de sua vida, pulsando, acomodando-se a mim como uma escrava de meus modos. Modos estes, nada ambivalentes ao se tratar de uma menina de 14 anos: era certeiro, brusco e másculo.
Ela não era virgem, apesar da pouca idade; nem inocente, apesar da completa submissão das primeiras horas; tampouco triste, apesar de expelir cinco lágrimas salgadas quando eu comecei a ir a suas profundezas. Pérola era a cartomante, a maga e a sacerdotisa de seu próprio destino.
Se fosse velho o suficiente, talvez me preocupasse com as lágrimas dadas; e se a causa das tais seria por que não a embalsamei em meus braços de maneira a cortejá-la o suficiente. Se fosse um diretor italiano apaixonado por musas belas – e ali tínhamos uma dessas musas -, prometer-lhe-ia um longa-metragem depois do primeiro ato. Mas era um anjo rebelado desprovido da graça e da paz de espírito. E ainda sou. Não conseguia entender entre seus gemidos mais descontrolados de dor e euforia o porquê de sua presença e suas reclamações a mim. Já que o resto era bastante claro a mim; não poderia lhe dar nada mais que minha ereção áspera – ou algum fogo se ela fumasse; que o sexo aconteceria sempre em meu apartamento sujo; que ela, para mim, valia menos que os cinqüenta centavos que se pagam por uma alma em Hollywood, ou uma dançarina rota que caí bêbada e desprotegida dentro a rua escura de recheada de aproveitadores.
Eu era o aproveitador. Mas ela logo estaria nisso comigo.
Acabou-se o primeiro ato daquele dia que ficaria para a história de nossas unhas – imundamente recheada de carne alheia – e de nossas bocas lambuzadas de todos os líquidos que nossos corpos produziram em tantas horas.
Esse havia sido o primeiro ato que iniciava o resto de nossas vidas.
Lutar com palavras XX – Enquanto brincam
Artilheiro Colaborador: Bruna Maria
Abelha, zumbido, tudo. Olhei para o céu e mal pude ver a linha que zunia tão perto. Duas pipas coloridas, daquele papel mais fino, leve, prontíssimo para voar. E já voavam. Em alguma das ruas próximas, duas crianças feriam seus olhos encarando a iluminura do céu. O desejo de ver suas pipas dançando era maior. Cada vez mais alto, cada vez mais imponente, cada vez mais lá em cima.
Bailar no alto céu, e colorir um fundo que antes era apenas azul, mesclado talvez com alguns toques de branco, cá e lá – eis uma ambição deveras pretensiosa, essa a de mudar padrões do alto. Mas as crianças não sabem, nem sabem das próprias ambições. E continuam orquestrando todos os músculos do corpo para conseguir aquele efeito lá em cima, das pipas se movimentando tão graciosamente, tão coloridas.
Aqui em baixo, resta o zunido. Como inseto, como abelha, como uma colônia de bichos quaisquer com asas bem pertinho dos ouvidos quando queremos dormir.
Eu olho para o céu e vejo aqueles pontos itinerantes, cada hora num ângulo diferente. Se eu conseguisse ver as linhas que prendem tudo a esta terra, seguiria em busca das mãos que detêm a graça dos brinquedos lá no ar.
Quais crianças, quais mãos? É importante?
Para mim é importante, porque são crianças que manejam a cena que eu vejo.
Uma manhã de domingo assim, com mãos que pintam o céu, sem saber a dimensão do que fazem.
“Estão só brincando, saia logo dessa janela”, alguém me alerta, sem nada entender e nem ver.
Brincam, eu sei. Talvez eu os inveje justo por isso. Apenas brincam. Eles colorem o alto e imantam a cidade com a dança de suas pipas leves, enquanto a mim resta apenas o esforço, a dissimulação criada consciente, racional, na tentativa de prender-lhes as pipas em grades que sejam minhas.
E como eu queria também estar só brincando, sair dessa janela, estar lá fora, realmente, com eles…!
A tentativa que me cabe se dá no enredo que traço, apenas. O destino que me foi conferido. É a brincadeira, a minha brincadeira dissimulada em séria – palavras. E, quem sabe, de alguma forma, um dia, ela me será suficiente.
Aguardarei…
Sobre o Artilheiro Colaborador
Bruna Maria é formada em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e mestranda em Literatura Portuguesa, também pela mesma universidade. Atualmente escreve seu primeiro romance, com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional, por onde o romance foi selecionado para receber amparo do Programa Nacional de Apoio à Pesquisa. Além disso, atualiza regularmente seu blog pessoal, onde registra a rotina da escritura do romance, como também divulga alguns de seus textos inéditos.
Lutar com palavras XIX – As linhas movem o mundo
Artilheiro Colaborador: Álvaro Albuquerque
Seja a do Equador fazendo a inevitável divisão de rico e pobre;
Sejam as linhas de força na física mostrando a complexidade de tudo ao nosso redor.
Seja a linha do horizonte que se perde próximo ao crepúsculo vermelho-alaranjado e ativa a nossa linha do raciocínio;
Seja esta que nos leva às reflexões inefáveis e aos devaneios simbólicos e filosóficos na busca de desvendar os mistérios do mundo.
Sejam as linhas telefônicas que trazem o longe para o perto e aliviam a saudade de quem não está presente ao seu lado;
Seja a linha do trem, que ultrapassa fronteiras com um único destino, assim como as linhas de Deus que, tortas ou não,descrevem a linha da vida, podendo ser esta curta ou longa, difícil ou não e, dentro dessa trajetória, nos guia à única certeza que temos:
O fim da linha.
Sobre o Artilheiro Colaborador
Álvaro é de Recife e tem 22 anos. Poeta e buarqueano, você pode segui-lo no twitter ou no seu blog, @alvinhow e http://alvaroalbuquerque.blogspot.com/, respectivamente.
Lutar com palavras XVIII – Do grito
Artilheiro Colaborador: Milena Martins
“Porque há o direito ao grito.
Então eu grito.”
(Clarice Lispector)
Eu tinha chorado quando ele veio.
Da primeira vez que eu o chamei, ele saiu rasgando as paredes da garganta. Bateu nas paredes de limo verdescurecido sobre as pedras lisas. Eu vi suas ondas reverberando no ar e morrendo em ecos tardios pelo escuro. Nenhuma luz acompanhava o som que ele trazia e que era a essência de sua chegada. Porque era tudo muito negro. E havia o escuro aqui e havia a luz meio azulada do desconhecido mostrando sua presença lá fora. E havia um feixe claro ao longe e havia o escuro aqui. O silêncio e o escuro. E a gota líquida que descia das frestas infiltradas pela água que rachava caminho no teto de pedra fazia seu bater ritmado no chão úmido de pedra. E cortava o silêncio como o desconhecido rompia o escuro. E era o silêncio. E era o esquecimento. E o esquecimento, o escuro e o silêncio. E depois do silêncio, ele voltou. Seus ecos tardios reverberando de novo. Agudos, cortantes, altos, prolongados. Ele voltou negro, sangrando, cravando seu desespero gris nos tijolos de pedra, o chão liso de pedra, pedra no teto e no chão, pedra nos olhos de pedra limosa, úmida, endurecida.
E havia o escuro aqui. Porque era tudo muito negro. Tudo o que eu via – a cela, as grades de ferro, as pedras, o tempo de minutos iguais, a gota luminosa surgindo na fresta do teto para despir-se em som desaparecendo no escuro. E caía. E era só escuro e silêncio. A cela – ar azulado do claustro. E ele ainda reverberava em ecos tardios como uma voz conhecida, porque eu o tinha chamado e ele tinha vindo e desaparecido e voltado e sumia, sumia, e sumia. E eu o queria de novo porque tinha gostado muito daquela presença de som e de esperança no escuro. E eu o queria encontrar de novo, porque estava perdida no escuro. E era tudo muito negro e muito azulado e era tudo de pedra e de claustro e de sonho e o sonho era mau e eu era só e o só era escuro. E eu o queria de novo. E sozinha de novo, de novo chamei.
Da segunda vez que ele veio, cuspi pedras. E as pedras se chocaram nas paredes de pedra. E eu vi seus estilhaços de pedra brilhando no escuro. Da segunda vez, as pedras saíram arrancando sangue das paredes da garganta e o sangue pintou as paredes, verdes de limo, de vermelho também. E o vermelho brilhou e sumiu. Da segunda vez que eu o chamei, ele veio também, e também gritou e também sumiu. E depois voltou também e também ecoou e também sumiu.
E no escuro eu lembrei. Enquanto ele gritava comigo nas paredes de pedra do escuro eu lembrei. Só então eu me lembrei. De lá de fora e das ruas e da fumaça azul dos dias grises e das manhãs cinzentas do meu mundo e do lixo e das moscas e do pavor e dos mortos e das noites sem estrelas e dos carros e dos morros escurecendo no horizonte e das nuvens pesadas enegrecendo os morros que escureciam no horizonte.
Só então eu me lembrei.
Daquela casa e da chuva que eu não queria que terminasse e do grito que não saía e do medo e do medo que era muito e ainda maior porque eu não sabia gritar. E quando ele veio eu me lembrei, lembrei que eu me escondia e que eu sabia que eu precisava me esconder e que eu trancava as portas e as janelas e que eu não conseguia respirar de medo e não comia de medo e não queria mais viver porque era tudo um grande medo mas tinha medo de não viver. E me lembrei que só queria dormir e que não podia dormir e me lembrei que mesmo assim eu me deitava na cama e me encobria com o lençol e enrolava a cabeça e apertava os pés contra a coberta e puxava e puxava e puxava muito e sentia relaxarem os músculos naquele esforço e sentia as pernas descansarem e sentia que eu queria dormir. E sentia, quando ele veio eu me lembrei que eu sentia, muita saudade do tempo em que eu podia deitar e descansar e dormir. Mas nunca lembrei, nem mesmo quando ele veio, o que era que fazia eu não poder mais dormir agora que tinha tanto medo e me escondia naquela casa de cantos sujos e corpos amontoados lá fora e moscas lá fora e chuva lá fora.
E quando ele veio eu me lembrei de tudo o que eu não tinha me forçado a esquecer e lembrei tanto e tanto e de tanto eu me lembrei quando ele veio que me lembrei que eu descansava esperando a dor e me escondia fugindo da dor. E essa lembrança doeu quando ele veio. Essa lembrança foi o que mais doeu quando ele veio.
E ele gritava comigo quanto mais eu lembrava e ele sabia e eu sabia que eu só me lembrava porque ele estava comigo. E quando ele veio e enquanto ele esteve comigo gritando e cuspindo pedras nas paredes de pedra do escuro, enquanto ele esteve comigo eu me lembrei. Que eu tinha feito todo mundo acreditar que eu era feliz. E do medo e da chuva e das moscas lá fora, voando por cima dos corpos.
E quando eu o chamei de novo e ele veio, quando ele veio de novo, reconheci que ele era uma voz conhecida, reconheci que era a voz de alguém e reconheci, quando ele veio eu reconheci, que ele era a minha voz que gritava no escuro. E ele gritava porque eu gritava e reverberava e ecoava e sumia e voltava e repetiarepetiarepetia e sumia e eu o chamava e ele voltava e eu queria gritar e ele vinha quando eu gritava porque ele era o meu grito. E eu me lembravamelembravamelembrava, tanto lembrava de tudo aquilo que não me forcei a esquecer, tanto lembrava e lembrava e lembrava que lembrei, quando ele veio eu me lembrei. Das batidas na porta de madeira podre da casa escura e suja e do meu desespero calado e que eu balbuciava alguma oração já esquecida e que eu talvez ainda soubesse na hora do medo. Eu lembrei que eu não queria que me achassem e que eu me escondi num canto escuro e o dia era escuro e chovia e eu gostava porque chovia porque eu gostava da chuva e eu queria que a chuva nunca parasse porque o medo nunca parava e eu sentia, ali, presa naquele canto escuro, calada do medo que nunca parava, eu sentia o corpo todo tremer e sentia o coração tremer em mim e sentia que tremia dentro de mim um grito contido tinha muitos anos, um grito que eu não conseguia soltar e que era o único capaz de me trazer liberdade. E eu lembrei que havia relâmpagos rompendo o escuro e havia o silêncio e o escuro. E então eu lembrei de um som e o som era a porta derrubada e o som era de passos e os passos vinham até mim e eu sabia que aqueles passos não podiam me achar e eu sabia que tinham me achado e que eu não queria isso e eles vinham e vinham e eles andavam rápido e eram fortes e repetidos e então pararam. E quando pararam era junto de mim.
E quando eu o chamei de novo e ele veio e eu vi que ele era um berro guardado e que era o meu berro e que me arrancava da garganta o sangue que as pedras que eu cuspia levavam no ar, quando eu vi que ele queria sair de mim como eu queria sair de mim, quando ele veio e eu me vi nele, só quando ele veio eu me lembrei.
Que havia braços, sim, braços sem corpos me carregando pelos braços. E que havia medo e corpos e moscas e lixo e carros e morros e horizontes e negro e que era escuro, era muito escuro, e que era frio e eu queria dormir. E quando ele veio eu me lembrei. Que eu senti meu corpo arrastado pela sujeira dos tapetes e depois pelas pedras duras e depois pelos corpos e depois pelas ruas e pela pedra lisa e pelo úmido e pelo frio da cela em que o meu grito vem me libertar.
Sobre o Artilheiro Colaborador
Milena Martins é contista e poeta. É autora dos livros Palácio de Pedra (Litteris, 2006) e Promessa Vazia (Multifoco, 2010). Cursa mestrado em Literatura Brasileira, pela UERJ, é mezzo-soprano, ambidestra, hipermétrope e metaleira. Pela internetosfera, é mais conhecida por seu alter ego muito mais interessante Victoria Page, que bloga compulsivamente em http://oraculosdosoculos.blogspot.com.
Lutar com palavras XVII – Ao egoísmo
Artilheiro Colaborador: Gabriel de Souza
Vais mostrar-me o altruísmo sincero
que tu supões conter aquele que ama?
Hás de começar tua busca em Homero,
ler suas estórias, suas épicas tramas.
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De nada importa que exaltes o esmero
nas falácias de poesias, canções, dramas.
Afinal, há coisas que não tolero
como mentiras munidas de fama.
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Expondo, então, um velho vaticínio
espero romper com vil fascínio
gerado em ti por tão cruel simulacro.
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Às sombras há de se contrapor a luz.
E, enfim, enxergarás através da cruz
um sentimento de beleza real.
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Sobre o Artilheiro Colaborador
Gabriel do Amaral Castilho de Souza tem 20 anos, a maior parte deles vividos no mundo real, ou não se adotarmos a ótica de Berkeley. Fica difícil dizer. Considera-se naturalmente inclinado à literatura, entretanto, nas horas vagas, cursa Geografia na Universidade de São Paulo.
Após passar dois anos e meio na ilha da fantasia decidiu retornar ao continente para aventurar-se na intrépida jornada dos escritores ocasionais. Vocês conhecem o tipo: o saudoso Vinícius de Moraes, o velho Chico, Machado de Assis, entre outros. Atualmente mora em São Paulo, contudo periodicamente encontra-se em Taubaté, sua cidade natal.
Não almeja fama, contudo não a subestima. Espera conseguir com as palavras saciar os outros e satisfazer aos seus próprios devaneios. Você pode encontrá-lo no e-mail gabriel7sc@hotmail.com, no skoob ou no orkut.
Lutar com palavras XVI – Sobre boquete
Artilheiro Colaborador: Gabriela Lima
Todo mundo tem aqueles dias ruins. Aqueles dias em que tudo parece estar dando errado e que fazem com que todas as coisas boas ao redor percam o significado. Nesses dias, seus amigos precisam que você os escute e os ajude. Tem gente que oferece chá. Tem gente que oferece uma massagem. Tem gente que oferece um ombro amigo. Eu ofereço um boquete.
“- Pô, Biela, tô brigado com todos os meus amigos, meus pais não me ligam, minha namorada terminou comigo…
- Cara… Que zica, heim?
- Pois é…
- Quer um boquete pra animar teu dia?”
Ou
“- Cara, tô puto. Meu chefe tá um saco e acho que vou ser demitido.
- Uou! E não tem nada que cê possa fazer?
- Pior que acho que não.
- Hmm… Quer um boquete pra aliviar a tensão?”
Existem duas reações iniciais comuns pra esse tipo de oferta:
Reação Susto: A pessoa arregala os olhos, se afasta um pouquinho de você e fica te olhando como se tivesse acabado de descobrir que você tem três olhos.
Reação Gargalhada: A pessoa começa a rir convulsiva e descontroladamente.
Se uma dessas reações aconteceu, você alcançou seu objetivo. No caso da primeira, você chocou tanto a pessoa que por um instante ela até esqueceu dos seus problemas diante do seu evidente desprendimento social e oral (o sentido fica pra vocês escolherem). Na segunda, você conseguiu ser tão incoerente que fez a pessoa desligar-se do momento ruim e dar uma bela de uma gargalhada. Por experiência própria, geralmente depois do susto vem um “Cê é meio perturbada, né?” e depois da gargalhada vem um “Eu te amo, cara.”. De um jeito ou de outro, você atingiu seu propósito. Parabéns, você venceu na vida.
Uma das desvantagens desse método é que ele é dose única. Uma vez que você já tenha oferecido um boquete a uma pessoa, ela cria uma reação-padrão (que costuma ser variáveis da frase “só se for agora”) e assim, o objetivo estará perdido. Outra desvantagem é o fato de que eu não sei que efeito esse método causa às mulheres (por favor, se você decidir fazer o teste, nos envie uma cartinha contando. Contamos com sua colaboração).
Também não me responsabilizo pela efetividade desse método com pessoas que você não tenha muita intimidade, mas se você for pensar bem, só o fato de ela vir chorar as pitangas no seu ouvido já merece o oferecimento de boquete. Se não funcionar do jeito citado acima, ao menos assusta a pessoa que irá embora correndo pensando que você é um tarado e você fica livre das reclamações.
Bem crianças, espero que tenham aprendido a lição direitinho e que usem o boquete para fazer um mundo melhor. Há apenas última recomendação que gostaria de fazer: saibam quando usar esse método.
“- Minha mãe morreu.
- Pô, cara, sinto muito. Senta aqui, vou buscar um chá pra você.”
Por que né? Bom senso, boquete e Biela começam com a letra B.
Att.
Biela, usando pornografia pelo bem da humanidade
Sobre o Artilheiro Colaborador
Gabriela tem vinte e dois anos e atualmente é empregada pública federal. Mora em Goiânia com um amigo e trancou a faculdade de Direito na UFG alegando que não nasceu com o gene jurídico. Está em fase de adaptação à vida adulta e não sabe se está ou não gostando disso. É corint(h)iana fanática, joga RPG, lê compulsivamente, dança até perder as forças nos joelhos e tem suas próprias teorias sobre praticamente qualquer assunto. Sempre soube o que queria da vida, mas infelizmente, muda de opinião muito rápido então, fica a certeza, mudam os objetivos. No momento, escreve no seu blog por esporte enquanto seu chefe toma café. Twitter e blog.
Lutar com palavras XV – O óbito da solidão
Artilheiro Colaborador: Bruna Coradini
O relógio marcava cinco da manhã num tique-taque insuportável que entrava na cabeça de Ruby, assim como uma agulha penetra um pano longe de ser maciço. Olhava o quarto. A tintura das paredes e a cor alva da penteadeira – com um espelho em formato de coração embutido nela, um pouco torto para direita.
O retrato na cabeceira era de uma mulher de longos cabelos dourados, que abraçava uma menina com os mesmos cabelos e olhos repulsantes. Ruby não conhecera seus pais. Mas não tinha retratos de seu pai, o que a tornava distante dele, considerando-o como um homem qualquer. Porém, aspirava um dia encontrar sua mãe, e nela reconhecer todos os sentimentos que o retrato lhe proporcionava. Uma certeza Ruby tinha: a menina ao lado de sua mãe no retratro era ela mais jovem. Ruby não sabia quando nem como viera parar no orfanato. Simplesmente um dia acordara lá, e observava as paredes, a penteadeira e o retrato. A Irmã Gorethe dissera-lhe que o retrato era de sua mãe. E, sobre sua família, era a única e benevolente coisa que sabia.
Ao coçar os olhos, Ruby escutou as batidas na porta de madeira corroída. Era Irmã Alice.
- Ruby, vamos! O café está servido na mesa, e vamos tirá-lo às seis em ponto. Vista-se rapariga. Não esqueça das saias passadas que colocamos em seu armário – dizia ela num tom áspero com uma certa quantidade de simpatia.
Ruby levantou-se, colocou as vestes, e olhou seu reflexo no espelho torto da penteadeira. Com uma escova esmeralda, penteava seus cabelos, alisando-os, para ficarem parecidos com os da mãe. Na gaveta ao lado, pegara uma fita púrpura e fez dela um laço perfeito. Desceu para o café.
A escadaria que levava ao refeitório era grande e cansativa, porém o anseio da fome que transbordava em suas veias era definitivamente maior. Mal esperava para as aulas de latim, espanhol, inglês e matemática básica. Ruby se interessava em aprender.
No final do dia, após o banho diário, Ruby ia ao seu quarto e se olhava na penteadeira de novo. Quando iria sair dali? Ficaria para cá todo o sempre? Ruby não tinha certeza, mas sabia que ficaria lá por um bom tempo.
Enquanto deitava na cama, ela sussurava a música que embalava seus sonhos, todas as noites: ” Durma bem, durma bem, que mal não tem. A noite está chegando, o dia indo embora, durma menina, que já é hora”. Cantava-a até dormir.
Profunda fora a melodia naquela noite. Ruby não parara de a cantar. A luz a clamava alto, fazendo-a novamente sussurrar a melodia. E olhando para o retrato, seus olhos caíram estagnados, e seu corpo permaneceu em ócio.
O relógio marcava cinco horas da manhã, o tique-taque não incomodava agora. O quarto com suas paredes e cores, e a penteadeira alva não receberam olhares curiosos nessa manhã. Irmã Alice batia na porta:
- Ruby, vamos! O café está servido na mesa, e vamos tirá-lo às seis em ponto. Vista-se rapariga, não esqueça as saias. Ruby, anda-lhe!
Dados trinta minutos, Alice voltara à porta corroída.
- Que passas com tu, rapariga? Hei de chamar a irmã superior, está me escutando Ruby? Está me deixando preoucupada. Ruby, respon..
Sobre o Artilheiro Colaborador
Bruna Coradini é estudante, amante de cappuccino e boa música. Você pode segui-la no twitter e ler seu blog pessoal.
Lutar com palavras XIV – Observações em Paris
Dando continuidade à coluna Lutar com palavras, já que o clima é futebolístico, resolvemos escolher uma crônica de reflexões sobre a vida (?). Se quiser publicar seu texto aqui, fale conosco pelo e-mail artilhariacultural@gmail.com
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Artilheiro Colaborador: Amanda Capistrano
Sentada à mesa de um tradicional café parisiense, à beira do Sena, vejo o quão encantadora é esta cidade e o quanto as pessoas são felizes nela. À minha frente está sentado um jovem casal. Dezesseis no máximo. Começam simplesmente tentando se olhar, mas quando seus olhares se encontram, eles fogem. Talvez isso seja demais para jovens corações. Aos poucos começam a conversar e riem. Sim, aquele provavelmente era seu primeiro encontro. Ele, por fim, toma a iniciativa e coloca sua mão sobre a dela. Os dois enrubescem. Ah, como é fascinante o primeiro amor…
Numa mesa mais distante, ainda mais discreto, há um casal de idosos. Eles sorriem. Imagino que já passaram por muitas coisas ao longo de sua vida, já terão os filhos crescidos, com uma penca de netos. Passaram juntos por muitos momentos felizes, e talvez algumas crises, mas superaram todas, juntos, felizes e unidos como nunca haviam sido antes. Mas agora vendo melhor, noto que ele tira algo do bolso e mostra a ela. É uma aliança. Ele a está pedindo em casamento. Eu estava enganada, não viveram a vida toda juntos, mas se conheceram já na maturidade da vida, já devem ser viúvos, perdidos do amor que os acompanhara a vida toda. Ou talvez já se conhecessem de outrora, talvez tenham se amado na juventude e o destino os separara, se unindo muito tempo depois, na velhice.
Há também um casal de adultos, com cerca de 40 anos. Mas, diferentemente dos outros dois, eles não parecem estar muito felizes. Discutem. Ela provavelmente fala sobre os problemas dos filhos na escola, ou talvez sobre as dívidas do lar. Ele começa a se exaltar. Posso ouvi-la gritando algo como aquela rapariga. É isso, ele provavelmente a traiu com outra, talvez a melhor amiga dela ou a secretária dele. Ela se levanta. Está chorando. Vai embora. Ele também chora. Paga a conta e se vai. Aquele deveria ser o fim de anos de vida em comum, de promessas de amor não cumpridas, de uma paixão que se dilacerou com o passar do tempo.
E ao meu lado há um rapaz. Não tão jovem quanto o casalzinho que já está mais próximo, nem tão velho quanto os dois que discutiam. Eu diria que ele não é mais velho do que eu sou. É belo. E está sozinho. É a única outra pessoa no café que não tem companhia alguma. Ele também me observa. Nossos olhares se cruzam a todo instante. Só que já não somos tão tímidos a ponto de desviá-los. O que será que ele está pensando? Eis uma coisa que eu gostaria de saber.
Vejo que ele também toma notas em um caderno. Talvez também esteja escrevendo uma crônica. Ele se levanta e se aproxima de mim. Meu coração começa a bater mais forte. O que será que ele quer? Ele traz a crônica consigo. Talvez queira comparar as nossas observações. Ele se senta a minha frente. Me mostra o pedaço de papel em sua mão. É um esboço. Sou eu. Estava mais uma vez enganada. Ele estava me desenhando. E era um lindo retrato. Eu o tenho agora mesmo em minha mão. Eu estou com um rosto diferente do qual estou acostumada a ver no espelho. Meus olhos eram a parte mais interessante da obra. Tinham um ar observador. Reais, mas mais bonitos do que são na verdade. Eu disse isso a ele, que me respondeu que quem me disse isso não deveria enxergar muito bem. Nós sorrimos.
Estávamos nos reencontrando após muito tempo. Tínhamos tudo e nada em comum. Gostávamos de escrever e descrever o comportamento humano. Só que de maneiras diferentes. Enquanto meu principal instrumento era as palavras, o dele eram os pincéis.
Anos depois, já no fim da vida, vejo que todas aquelas personagens que encontrei um dia, num pequeno café em Paris, representavam toda a minha vida, toda a minha essência. Sim, um dia eu fui aquela jovem garota, às voltas com o primeiro amor. Também era eu a mulher de meia idade que discutia com o marido após imaginar uma traição. E me descubro também como aquela velha senhora, refazendo na velhice, o amor de toda a vida.
Muitos anos vivi, muita coisa passei, muita coisa sofri. Mas nunca o amor deixou de bater dentro de mim.
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Sobre o Artilheiro Colaborador
Meu nome é Amanda, mas todos me chamam de Amandinha (acho que é por causa do meu desprovimento de altura). Amo livros desde que aprendi a ler, passei um longo período lendo literatura infanto-juvenil de mistério e somente agora estou chegando à literatura de verdade. Gosto de usar as palavras do meu jeito, mesmo que algumas (muitas) vezes elas não estejam no seu mais correto sentido. Mas isso não importa, pois eu acho que escrever é um ato que não precisa de regras e definições, mas sim de liberdade e sinceridade. Mantenho o blog Palavra Sem Nexo.










