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Archive for the ‘Literatura’ Category

Christine


É difícil falar de Stephen King. Um dos meus autores favoritos, foi ele um dos culpados pelo início da minha amizade com o Artilheiro Marcel. Enquanto eu me “apresentava” à sala, num ritual babaca de faculdade, e fazia piadinhas com relação à Crepúsculo, aproveitei para exaltar King. Nesse instante, Marcel – no fundo da sala – ergue um livro do mesmo autor. Foi um dos estopins para uma amizade que dura até hoje.

O americano de 62 anos é, inegavelmente, um dos escritores mais respeitados na literatura atual. Ganhou, recentemente, o respeito de muitos adolescentes anti-Twilight ao proferir a seguinte frase, durante uma entrevista onde lhe pediram para comparar J.K Roling (autora da série Harry Potter) com Stephenie Meyer (autora da série Crepúsculo). As palavras de King?

Ambas Rowling e Meyer, estão falando diretamente a pessoas jovens… A real diferença é que Jo Rowling é uma fantástica escritora e Stephenie Meyer não consegue escrever nada que preste. Ela não é muito boa. [...] Pessoas são atraídas por histórias, pelo ritmo, e no caso de Stephenie Meyer fica bem claro que ela está escrevendo para toda uma geração de garotas e abrindo algum tipo de clube seguro do amor e sexo nesses livros. É emocionante e agitado e não é particularmente ameaçador porque não é sexual demais. (…) Muito do lado físico da coisa se converge em coisas como, o vampiro tocará seu antebraço ou passará sua mão pela sua pele e ela então ruboriza em algo quente e frio. Isso para garotas é um resumo de todos os sentimentos com os quais elas não estão preparadas para lidar ainda.

Danadinho.

Ok, voltando ao livro…

Escrito em 1983, Christine acabou virando filme no mesmo ano, trazido por John Carpenter, e foi um dos grandes motivos para que eu lesse o livro, porque Stephen King não podia ter feito algo tão ruim. O filme é tão trash, tão trash, que você continua assistindo só pra ver o quão ruim aquilo ainda vai ficar. Mas o livro… Ah, o livro…

Arnie Cunningham é o típico garoto nerd-pega-ninguém-perdedor que todos nós já vimos (e lemos) várias vezes, em diversas histórias. Seu único amigo é Dennis Guilder, personagem que nos contará grande parte da história que envolve Arnie e Christine, um Plymouth 1958 vermelho. É assim que começa uma relação doentia entre um garoto de baixa auto-estima que enxerga, em seu carro, a oportunidade perfeita para um plot-twist de sua vida, com um carro que é muito mais do que simplesmente parece.

Até aí, você pode achar que o livro parece muito com o filme. A gritante diferença entre os dois, porém, é como a história – no livro – é tratada. Stephen King sempre consegue dar um toque sombrio e negro à suas histórias; o cara é tão talentoso que te faz ter medo de um carro. De um CARRO!

Os assassinatos cometidos por Christine durante a leitura são macabros, para dizer o mínimo. Podemos perceber uma sutil crítica ao que hoje chamamos de bullying, o que também é notável em Carrie, o primeiro romance de King (de 1974).

Basta pesquisar um pouco na internet para descobrir que o livro e o filme tem diferenças gigantescas… Mas não precisa ser nenhum gênio para saber que toda adaptação de livro para filmes, por melhor que possam ser, nunca passarão 100% da história para os cinemas. Como eu já devo ter falado em uns 15 posts, isso é impossível.

De qualquer modo, a recomendação do Artilheiro que vos escreve, para esse fim de sexta-feira, é simples: comprem Christine, ou peguem emprestado de algum amigo (eu tenho uma edição, se você for de São Paulo): vale a pena.

A Nova Gnomonia de Jayme Ovalle

Em algum momento do final dos anos 20, num café do Rio de Janeiro, Manuel Bandeira encontrou Jayme Ovalle e Augusto Frederico Schmidt envolvidos numa discussão sobre um político da época. Não chegavam a um consenso a respeito do figurão, cujo nome infelizmente se perdeu, e a certa altura Ovalle, pondo a mão sobre o joelho do amigo, quis encerrar a conversa:

- Seu Schmidt, vá por mim! Aquele sujeito é do Exército do Pará!

- Exército do Pará? – quis saber Bandeira, varado de curiosidade. Quando se levantou da mesa, horas mais tarde, o autor de Libertinagem levava assunto para um artigo que se tornaria célebre. Publicado no Diário Nacional, de São Paulo, em 17 de outubro de 1931, esse texto registrou aquela que foi, ao lado do “Azulão”, a mais famosa criação de Ovalle: a Nova Gnomonia.

Não havia melhor jeito de fazer a introdução desse post, senão com um trecho do livro que o inspirou. Trata-se da biografia “O santo sujo – a vida de Jayme Ovalle“, do jornalista Humberto Werneck, lançada em 2008 numa belíssima edição de capa dura da Cosac. Eu a li na época do lançamento, e o prêmio Jabuti que recebeu como melhor biografia do ano realmente foi merecido. Confesso, no entanto, que li esse livro escondido, não queria que me vissem com ele para não ter que enfrentar a pergunta: “mas quem foi Jayme Ovalle?”. A cada nova tentativa de explicar quem foi essa figura tão fundamental ao modernismo brasileiro, esse compositor, esse poeta, eu me afundava mais e mais. Não bastava parafrasear Humberto, dizendo que embora a obra de Ovalle seja quase nula, ele tenha sido “um sol que iluminou a obra das pessoas com qum conviveu”, como Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, Sérgio Buarque de Holanda, Di Cavalcanti – e todos, sem exceção, escreveram sobre Jayme Ovalle. Ele foi, sobretudo, um mistério, uma figura mística até hoje pouco explicada, e a leitura de “O santo sujo” é indispensável para quem quiser saber mais do modernismo brazuca e do cenário intelectual da época. E, claro, para quem quiser também conhecer essa figura, responsável por uma das brincadeiras intelectuais mais interessantes já criadas, aquela que ficou conhecida como A Nova Gnomonia.

Sem delongas, munido do meu exemplar de “O santo sujo”, vou explicar a vocês no que consiste essa brincadeira de um “boêmio intelectual”, e não de um “intelectual boêmio”, como bem frisou Osório Borba: classificar a humanidade em cinco categorias:

1. Exército do Pará

Formado por “esses homenzinhos terríveis que vêm do Norte para vencer na capital da República”. Sujeitos “habilíssimos, audaciosos, dinâmicos”, visando “primeiro que tudo, o sucesso material, ou a glória literária, ou o domínio político”. Extrovertidos, vencem onde quer que chegam. O “Norte” logo deixou de se referir exclusivamente ao Pará e passou a englobar todo o canto do país, pois lembrou Bandeira que “quase toda a imprensa carioca está nas mãos de nortistas, e há dezesseis anos os coronéis da política brasileira são manejados pelos gaúchos”. Entre os paraístas, destacaram Padre Vieira, Inácio de Loyola e José de Anchieta. Como toda categoria tinha um anjo, para esta ficou sendo Osvaldo Orico, escritor que “numa roda [...] insinuará que é quem melhor escreve no Brasil, chegará a dizer que não vota nos concursos para ‘príncipe dos prosadores’ porque não lhe será lícito votar em si mesmo”.

2. Dantas

A categoria almejada por todos, onde “os homens de ânimo puro, nobres e desprendidos, indiferentes ao sucesso na vida, cordatos e modestos, ainda quando tenham consciência do próprio valor” se encaixam. “Não se exige dos Dantas virtudes permanentes. Há sempre Dantas trêfegos e pecadores. Mas eles devem acima de tudo amar a qualidade”, explica Ovalle. Entre seus representantes, São Francisco de Assis, o historiador Capistrano de Abreu, o Barão de Itararé e a dama francesa Elizabeth Leseur, que ao morrer deixou um diário que converteu seu viúvo ateu ao catolicismo a ponto de participar da ordem dos dominicanos. Como anjo, embora um pouco reprovado por Ovalle, ficou sendo San Thiago Dantas, jurista, professor, jornalista, ex-deputado federal, ex-ministro das Relações Exteriores e da Fazenda e representante do Brasil nas Nações Unidas.

3. Kernianos

“Indivíduos de bom coração, capazes de grandes sacrifícios pelos outros, deixam-se no entanto arrastar às vezes à prática dos atos mais condenáveis, não por maldade, mas por um impulso irresistível de cólera”. Assim disse Manuel Bandeira, que para melhor ilustrar um kerniano citou a história de um sujeito que, irritado, não se conteve com uma viúva e lhe deu um pontapé na barriga. A mulher morreu de imediato, pois estava grávida. O homem chorou, arrancou os cabelos, desculpou-se com o cadáver e acolheu os onze filhos que a mulher deixava, dando educação e o mesmo carinho que dedicava aos seus próprios filhos. São também exemplos de kernianos  o poeta Byron e o imperador D. Pedro I – eu me lembro de Werneck justificando a presença do imperador: “somente um kerniano puxaria uma espada e gritaria ‘indepedência ou morte!’”. De anjo, sobrou para Ari Kerner, pianista, jornalista, autor teatral e funcionário público, que, rindo, protestava: “por causa dessa história de anjo eu ainda acabo dando muito tapa em algum!” – o que confirmaria o seu posto de kerniano.

4. Mozarlescos

De acordo com Humberto Werneck, os mozarlescos seriam gente mais difícil de se classificar. Diz Bandeira: “os mozarlescos são sentimentais, acreditam no esperanto, choram nos cinemas”, “são pessoas que se exprimem ou obram de molde a fornecer aos que os observam uma impressão de coisas consideráveis, ao que todavia não corresponde o conteúdo de suas palavras ou das suas ações”. Difícil? Peraí: “Acreditam no sufrágio universal” e “manifestam decidido pendor pela pedagogia”. “Em todo poeta existe algo de mozarlesco”. Para Vinicius de Moraes, que estendeu a classificação também aos objetos, “mozarlesco é tudo que é primordialmente coração e vísceras”. O anjo não era Wolfgang Mozart, que sabidamente era um dantas, mas sim do jornalista, professor e escritor Francisco Mozart do Rego Monteiro.

5. Onésimos

De novo, Bandeira – a quem, percebe-se, deve-se todo o registro da Nova Gnomania: “o onésimo duvida, sorri, desaponta: diante dele ninguém tem coragem de chorar. [...] Os onésimos não são maus. O drama íntimo dos onésimos é não sentirem entusiasmo por nada, não encontrarem nunca uma finalidade na vida. Não obstante, se as circunstâncias os colocam inesperadamente num posto de responsabilidade, podem atuar (não todos, é verdade) com o mais inflexível senso do dever”. Para Vinicius de Moraes, “são as pessoas que têm o dom de esfriar ambientes, de modificar o metabolismo próprio das coisas, de deixar as pessoas mal à vontade”. Para Ovalle, nada mais onésimo que um árabe no elevador. Bandeira disse que os onésimos seriam, em geral, os humoristas, e cita o poeta Heine e também o sociólogo Gilberto Freyre. O anjo era Onésimo Coelho, homem capaz de esfriar uma roda de conversa sobre a salvação do país.

Certamente, enquanto lia esse post você deu uma risadinha porque lembrou de fulano, que só pode ser um kerniano, ou um dantas etc. Na época, era muito comum que se reunissem os intelectuais e brincassem de classificar todo mundo nessas cinco categorias. Ficou decidido, no entanto, que é muito normal um homem ter características que se encaixam tanto aqui quanto ali, neste caso ele fará parte da predominante. É importantíssimo também saber da teoria da gravitação, atribuída a Sérgio Buarque de Holanda: um sujeito não está preso somente a uma classificação pelo resto da vida, é possível que ele caminhe entre elas. Mais tarde, tentaram ampliar a Nova Gnomonia ao criar novas categorias, como por exemplo os Caetanos – não, não são pessoas que xingam a MTV porque seu anjo não era Caetano Veloso -, mas não colou.

Humberto Werneck reservou um capítulo inteiro de seu livro para essa brincadeira. Achei delicioso ler e escrever sobre a Nova Gnomonia. Lamento ter de usar tanta citação, mas achei que seria um bom tema para se mostrar aos leitores do Artilharia. Agora, procuro adeptos que queiram se juntar à causa e numa roda de boteco perguntar: fulano é o quê? e eu? e você?

Fernando Pessoa em exposição no Museu da Língua Portuguesa

As pessoas adoram reclamar que não temos incentivo cultural, que o povo é ignorante porque o governo não investe em cultura, e outras dezenas de desculpas esfarrapadas. Uma amiga já fez curso de latim na USP, de graça. Na Cinemateca, há um tempo atrás, fui em uma mostra de Roman Polanski. E, a partir de hoje, começa uma exposição que trará, como expoente, o poeta Fernando Pessoa.

Em Fernando Pessoa, plural com o universo, que fica em cartaz até o dia 30/01/2011,  no Museu da Língua Portuguesa, o público poderá acompanhar a obra do autor, cujas obras eram assinadas por seus heterônimos ou por “ele-mesmo”, assim como a interação de seus diversos personagens, criados durante toda sua existência. Personagens como Alberto Caeiro, Bernardo Soares, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e muitos outros juntam-se para contar um pouco da história do primeiro poeta português a ganhar espaço no Museu.

Cabines que exibirão trechos de poemas estarão dispostas para o público, assim como haverá um labirinto poético, cuja disposição mostrará trechos de poesias e imagens do poeta, como que identificando seus heterônimos.

Diversas relíquias – como a primeira edição do livro Mensagem, o primeiro e segundo exemplar da revista Orpheu, dentre muitas outras publicações de Pessoa – estarão na exibição; algumas, aliás, poderão ser folheadas virtualmente.

A Fundação Roberto Marinho em parceria com o Governo do Estado de São Paulo são os responsáveis pela mostra. O ingresso custa R$6,00; menores de 10 anos e maiores de 60 não pagam entrada, e estudantes pagam meia. O Museu funciona de terça à domingo, das 10h às 18h

Praça da Luz, s/nº, Centro

Tel.: (11) 3326-0775

(11) 3326-0775

Companhia das Letras promove encontro literário

A editora Cia. das Letras, para comemorar seu selo de união com a Penguin, promoverá um encontro literário em São Paulo e Rio de Janeiro. Como as publicações do selo são de obras clássicas – havendo já Os sertões, de Euclides da Cunha, traduzido para o inglês -, o mote do evento é “Os clássicos que eu li”.

São Paulo

dia 30 de agosto (segunda-feira), às 19h, com Alfredo Bosi (professor de literatura brasileira da USP, crítico literário, membro da ABL), José Miguel Wisnik (professor de literatura brasileira, músico, compositor, escritor) e Milton Hatoum (escritor e tradutor).

LIVRARIA CULTURA – TEATRO EVA HERZ
Av. Paulista, 2073
Telefone: [11] 3170-4033

Rio de Janeiro

dia 25 de agosto (quarta-feira), às 19h, com Alberto Costa e Silva (diplomata, historiador, membro da ABL), Evaldo Cabral de Melo (escritor, diplomata, historiador) e Lilia Moritz Schwarcz (escritora, professora do departamento de Antropologia da USP)

LIVRARIA DA TRAVESSA
Shopping Leblon – 2º piso
Av. Afrânio de Melo Franco, 290
Telefone: [21] 3138-9600

Para mais informações: www.penguincompanhia.com.br e @cialetras

Não é por nada, gente, mas os paulistanos levaram essa – e de lavada. Todos os três convidados são fuedas. Não perderia essa oportunidade se eu morasse na Paulicéia.

Humberto Werneck lança livro no Rio

Eu sei que você deve estar pensando “lá vem esse cara que fala sempre das mesmas coisas”, mas a repetição, se fora do programa dos Teletubbies, às vezes vem para o bem. Ainda mais quando é para falar de Humberto Werneck, jornalista, escritor e amigo do Artilharia. Ele é autor da reportagem biográfica do Chico Buarque, o “Tantas palavras”. Da biografia do misterioso Jayme Ovalle, o “Santo sujo”. De um livro sobre os escritores e jornalistas de Minas Gerais, o “Desatino da rapaziada”. De “O pai dos burros”, um divertido dicionário de frases feitas. De “Pequenos fantasmas”, um apanhado de contos. E organizou algumas coletâneas, como o volume “Boa companhia: crônicas”, e outros livros com o trabalho de Murilo Rubião e Ivan Ângelo, por exemplo.

Chega de apresentá-lo, porque o leitor do AC já o conhece, inclusive como nosso colaborador. Esse post está aqui para convocar todos os nossos soldados cariocas a prestigiarem o lançamento de mais um livro do Humberto, “O espalhador de passarinhos”, uma coletânea de crônicas – gênero, aliás, submisso à pena experiente do escritor mineiro. Como ele mesmo disse, “o autor lá estará autografando livros, o que não mais acontecerá se estiverem certos os arautos do apocalipse que pressagiam a morte do livro impresso. Portanto, é aproveitar a oportunidade!”.

O espalhador de passarinhos & outras crônicas

12 de agosto, quinta-feira, a partir das 20h

Na livraria da Travessa – Rua Visconde de Pirajá, 572, Ipanema

Mais informações: [21] 3205-9002 ou www.travessa.com.br

Eu mesmo já li e confirmo que trata-se de um ótimo livro, essas crônicas só não levam selo de qualidade porque não existe tal coisa na literatura. Indico, empresto e espalho panfletos.

O colar de veludo (Alexandre Dumas)

Artilheiro Colaborador: N

Paris, França pós-revolução. Uma época onde pessoas eram julgadas, condenadas e levadas à place de la Révolution para serem executadas na guilhotina, às 4h da tarde. É neste mesmo tempo que ambienta-se O Colar de Veludo, romance escrito por Alexandre Dumas.

Hoffman é um jovem pintor, músico e poeta possuidor de uma imaginação peculiar e faculdades mentais nem sempre tão equilibradas. Na cidade alemã Mannheim, onde morava, apaixona-se pela bela Antonia, que passaria a ser sua noiva. Após ter cancelado a tão sonhada viagem para Paris com o amigo Werner, o jovem começa a ser tentado pelo desejo de ir à capital francesa. Com o consentimento de Antonia, mas não sem antes de fazer um juramento pela vida da amada, Hoffman parte em destino à cidade-luz.

Durante o decorrer da história entramos em contato com a obsessão do rapaz pela sedutora Arsène, sua loucura, angústias, tormentos e fértil imaginação. No outro lado, há ainda a tensão que assombra a atmosfera parisiense.

O Colar de Veludo conta com uma narrativa envolvente, arrebatadora, além de um desfecho emocionante. Vale ressaltar também a presença de uma carinhosa homenagem póstuma ao escritor Charles Nodier, o homem que contou a história que o leitor leu – presente na edição da L&PM Pocket.

“[...]

- Estou louco!

A exclamação de Hoffman nada tinha de exagerada: essa divisão frágil que testa além da medida as faculdades cerebrais do poeta, essa divisão frágil, como dizíamos, que, separando a imaginação da loucura às vezes parece prestes a romper-se, estalava em sua cabeça com o ruído de uma muralha que se fende.

[...]

Então Hoffman tentou explicar o que lhe acontecera desde a noite da véspera. Contou o jogo, o ganho. Como, os bolsos cheios de ouro, correra para a rue de Hanovre; como a mulher que procurava não estava mais lá; como, dominado pela paixão que o incendiava, percorrera as ruas de Paris; como, passando pela place de la Révolution, encontrara a mulher sentada ao pé da guilhotina; como ela o conduzira para um hotel da rue Saint-Honoré e como ali, após uma noite durante a qual se sucederam todos os tipos de embriaguez, ele encontrara repousando entre seus braços não apenas uma mulher morta, mas ainda uma mulher decapitada.”

Sobre Alexandre Dumas, o autor

Alexandre Dumas nasceu em 1802, em Villers-Cotterêts, filho do general Dumas – grande figura militar do Exército Napoleônico. O escritor começou sua carreira redigindo principalmente peças teatrais, dentre elas, Henrique III e sua corte. Depois de mais alguns espetáculos, passou a escrever romances.

Entre suas principais obras, destacam-se: Rainha MargotO Conde de Monte CristoOs Romances de D’Artagnan (Os Três MosqueteirosVinte Anos DepoisO Visconde de Bragelonne – do qual faz parte O Homem Com a Máscara de Ferro).

Morre em 1870, em Puys, França, depois de uma vida extravagante e muita produção literária. Deixa um filho, também chamado Alexandre Dumas, que seguiu sua carreira de escritor, sendo autor de A Dama das Camélias.

Sobre o Artilheiro Colaborador

Nathalia Brandão – mais conhecida como “N” – tem 15 anos e tenta conciliar suas obrigações de estudante do ensino médio com as suas paixões: literatura, música e cinema. É daquelas que precisa escrever desde devaneios até resenhas e redações. Talvez seja futura jornalista, mas a indecisão pré-vestibular ainda a atormenta. Pode ser encontrada em @heil e escreve para o  C-Sides, site parceiro do AC, além do seu mais recente blog pessoal – que prefere não divulgar por ser modesto demais.

Especial FLIP 2010 – Dia 4

por Tauil

Hoje, infelizmente, é o último relato de viagem que escrevo para o Artilharia. Amanhã cedinho estou voltando pra casa, e trago comigo a experiência de mais uma Festa Literária Internacional de Paraty. A viagem sempre vale a pena, mas está cada vez mais custosa. No início, os ingressos para ver as conversas dos autores eram 20 reais, com direito à meia. Hoje subiu para 40 pilas. Inviável. Tem que selecionar. O negócio, já aprendi, é ficar menos apegado à programação da FLIP e explorar a cidade. Existe a Flipinha, para as crianças, e a Flipzona, para os adolescentes. Nem chego perto da Flipzona porque tenho muito medo de coisas feitas para adolescentes, elas geralmente vêm com um excesso de gírias que a gente não fala e nunca falou, e isso me deixa um pouco envergonhado. Tem também a OFF-FLIP, que funciona mais ou menos como um tapa na cara dos leitores: enquanto a FLIP traz nomes consagrados, na OFF você vê gente mais normal, de carne e osso, muitos escritores iniciantes e gente cheia de projetos na cabeça. Fora isso, é claro, há sempre algum sarau, um grupo de dança, um teatro na praça. Aliás, lamento muito que esses artistas mambembes estejam sendo varridos. Antigamente, eles estavam por toda a parte, é verdade que chegava a cansar um pouco as abordagens, mas é gente querendo mostrar seu trabalho. Eles estão concentrados em algumas ruas hoje, como se a prefeitura visse isso como um incômodo e fosse escondendo a sujeira embaixo do tapete. Era esse o tempero da cidade, como comentei hoje com a Izze enquanto tomávamos um sorvete.

De mesa, hoje, só vi uma. E para mim foi A mesa. E ela só perdeu para a do António Lobo Antunes do ano passado. Hoje, meus caros, eu ouvi Ferreira Gullar. Seu corpo de 80 anos não é o suficiente para segurar seu espírito de poeta, e quando ele fala, quando ele conta suas histórias, quando ele declama seus poemas, ele te transporta para outra dimensão. Poucos homens tem essa capacidade só com a oratória. Mesmo com um péssimo entrevistador, o Samuel Titan Jr., ele deu um show contando parte de sua biografia, sobre sua visão da poesia e da arte e do universo, tudo com muito humor. “Eu sou mesmo um gozador”, dizia ele. É a segunda mesa que o Samuel Titan conduz e para ele eu dou um grande fail. A primeira foi com Chico Buarque e Milton Hatoum e ele fez um trabalho de merda. Agora, com o Ferreira, outro trabalho de merda. Porra direção da FLIP, para de dar coisa grande pra ele entrevistar porque não rola! Ele tem um roteirozinho, e toda vez que o entrevistado entra em um outro assunto por conta própria, ele corta a asa do cara e o amarra na corrente da sua cola.

Se eu visse Ferreira Gullar na rua, não daria nada para aquele velho cheio de cacoetes e manias. Mas é uma pessoa interessantíssima. Aliás, não sou muito fã de seus poemas, acho que há alguns potes de ouro espalhados em seus livros, mas no geral não sou um grande admirador. Sou de sua pessoa, de sua vida. E é por isso que fiquei muito feliz em pegar um autógrafo para uma pessoa querida.

Pra fechar, faço um saldo positivo da Festa. É sempre bom para conhecer contatos, sangue novo, gente interessada em produzir. Isso é o melhor de tudo. Depois, como já disse, tem o clima da cidade, que é delicioso e eu não vejo em nenhum outro evento literário. Acho emocionante um enredo tão grande onde o personagem principal seja o livro. E ver tanta gente jovem envolvida me estimula a seguir em frente por esse caminho. Mas não sei como será as próximas edições, não. Cada vez mais gente, cada vez mais caro. Temo pela elitização intelectual da FLIP, ou pela cidade, que não está comportando esse tanto de gente, e um sinal claro disso é a quantidade de lixo no chão.

Agradeço a todos que acompanharam esse diário de bordo e estarei contente em cobrir a próxima FLIP aqui pro Artilharia – isso é, se novamente eles me derem esse patrocínio, esse salário milionário que recebi.

Por curiosidade, segue a lista dos livros que estou levando pra casa:

Muitas vozes – Ferreira Gullar

A divina comédia – Dante Alighieri

Como se não houvesse amanhã – Henrique Rodrigues (organização)

O avesso das coisas – Drummond

O inventário das sombras – José Castello

A violência da alma – Felipe Munhoz

A decadência dos seres não abstratos e outras peças – Marcio Aquiles

La isla bajo el mar – Isabel Allende

Do universo à jabuticaba – Rubem Alves

Especial FLIP 2010 – Dia 3

por Tauil 

 Hoje o dia foi muito mais calmo. Não sei o porquê, mas nada de errado aconteceu comigo – o que é, de fato, muito estranho. A começar pela manhã: não perdi a hora, não teve fila pra tomar banho e tinha até açúcar pro café. E os caras do albergue até pareciam sóbrios. Enfim, me arrumei e saí pra caminhada. Comprei uma água de coco, porque só existem três coisas que eu gosto em cidades litorâneas: ver o mar, sentir a brisa marinha e tomar água de coco. O coco daqui é diferente do coco de lá, cheguei à conclusão de que só vai para o interior a sobra da sobra da sobra.

Depois, encontrei alguns conhecidos e fui tomar um café com Humberto Werneck, que é um queridíssimo meu. Mesmo sem saber, ele é o meu padrinho literário, é quem me aconselha e me guia: leia isso, isso aqui não ficou bom, preste atenção nisso. E tomar café com o Werneck é conhecer gente interessante, porque é incrível como as pessoas gostam de acompanhá-lo e ouvi-lo. O que se dá devido ao seu bom humor e seu conhecimento literário: para tudo há uma citação, uma anedota, mas sem nunca esbanjar cultura a ponto de fazer os outros se sentirem envergonhados. E como não podia ser diferente, mais uma vez segui o seu conselho e fui ver a gravação de um programa chamado Jogo de Idéias, que vai ao ar em setembro pela TV Cultura. Foi gravado lá na Casa da Cultura, onde ocorre uma programação paralela à FLIP – às vezes mais interessante, sempre mais barato -, e consistia numa entrevista com o jornalista e escritor José Castello, acompanhado de Cristóvão Tezza e um outro que sinceramente não me recordo o nome e não estou muito pra pesquisas. Bem humorado, José Castello falou de um livro seu que vai ser lançado semana que vem, chamado Ribamar. O interessante do livro não é só o seu enredo – a angústia de um filho ao tentar conhecer melhor seu pai -, mas sim a forma que Castello deu à sua construção, baseado inteiramente na canção que seu pai cantava para niná-lo. Pretendo falar melhor sobre isso num post à parte quando o livro for lançado, mas para se ter noção, cada tom representava X caracteres que ele poderia escrever, cada nota representa um assunto (fá para infância, por exemplo: assim todo capítulo que fosse correspondente à nota fá seria sobre a sua infância). Muito curioso e penso que original.

Fui fechar o dia num restaurante chamado Buenos Aires. A dona, uma argentina que não faz nenhum esforço para aprender o português, deixava à mostra uns livros de uns craques argentinos, como o tal do Jorge Luis Borges. Os argentinos têm mesmo esse exagero de patriotismo cego, ainda mais em solo brasileiro. Sei que por um breve instante me passou pela cabeça furtar aquele Trabajos Completos de Jorge Luis Borges, mas passou rápido. Preciso tratar esse ímpeto de botar no casaco esses livros fodas que ficam servindo de enfeite – ou você acha que alguém vai ler Borges no original num restaurante?

De volta ao albergue, tive a impressão de que a moça que ontem estava dividindo a cama com um cara hoje está com outro. Mas acho que foi só impressão. Espero. Ah, ia me esquecendo de dizer que conheci a nossa colaboradora Izze! Ela faz suas resenhas no r.izze.nhas e está aqui cobrindo o evento para o nosso aliado Ambrosia. Simpaticíssima, mas já com essa síndrome de jornalista, essa mania de querer estar ocupada o tempo todo com compromissos. Vai morrer cedo de problema cardíaco, coitada.

Fico por aqui e amanhã tem Ferreira Gullar, porra!

Especial FLIP 2010 – Dia 2

por Tauil

Andar em Paraty é gastar a sola e ter calo nos pés. Os sádicos se divertem, porque não são raras as pessoas que confundem os passos nessas rochas irregulares do tempo do bisavô do seu trisavô e acabam de quatro, ou pior, no chão. Por pouco não entrei para esse time, pois de manhã eu andava como um zumbi. Também, ontem talvez tenha sido a pior noite de sono de todos os meus tempos, e olha que eu já acampei e já dormi em carro e tal. O motivo? Pernilongos. Os motherfuckers pernilongos. É um bicho detestável, com certeza foram feitos num dia de muita inspiração do diabo – ou de muito relaxo de deus, vai saber. O que me mata não é nem a coceira, pois isso passa – é o zumbido, esse zzz constante sobrevoando a cabeça da gente. Eu tinha duas opções: ou aceitar a derrota e entender que seria uma noite mal dormida, ou lutar pelas minhas horas de descanso.

Foi inútil perguntar se havia repelente na recepção, pois esses argentinos só sabem fumar maconha e dizer “hmm, no lo sei”, num portunhol que chega a ser engraçado. Não quis desistir tão fácil assim, e dei um prejuízo aos meus inimigos esmagando dois ou três deles contra a parede. Acabei armando uma tenda com o lençol que me protegeu um pouco. Pensei em convocar meu companheiro de quarto às armas, “vamos acordar e matar todos eles”, mas não soaria tão bem. Resolvi botar um braço meu pra fora, na inocência de que eles pegariam logo o meu sangue e me deixariam em paz, mas esses demônios são insaciáveis.

Depois dessa noite de merda, fui pegar o meu notebook e constatei um enorme “você se fodeu” escrito na tela. Metaforicamente, é claro – a tela assumia cores que iam do verde ao roxo, e eu até achei bonito isso, mas arrumar esse negócio de LCD com certeza vai me sair bem caro. Tirando isso, foi um dia bom. Comecei com a mesa de Edson Nery da Fonseca, uma sumidade cultural presa a um corpo de 90 anos, e Moacyr Scliar, médico e escritor. Tio Dison novamente levantou a FLIP em aplausos, falou muito bem e passou um bom tempo autografando e tirando fotos, mais do que um senhor de sua idade pareceria aguentar. Mais tarde, o grande destaque da feira apareceu: Isabel Allende, uma mulher encantadora de um metro e meio, conduzida pelas perguntas do sempre ilustre Humberto Werneck. Dessa mesa vi pouco, e lamento isso, mas precisei sair na metade para pegar um lugar na fila de autógrafos. Acho que essa fila só perdeu pra do Chico Buarque e pra do Neil Gaiman. E ela fez questão de burlar a regra de que seria apenas um livro por pessoa – “no, todos!”. Em seguida bati um papinho com Zuza Homem de Mello, que prometeu uma entrevista via e-mail pro Artilharia.

Andei pela praça, andei pelos becos da cidade, andei pelas avenidas e andei mais um pouco. Passei por outra coisa interessante, que era uma jazz band móvel, patrocinada pela Bohemia. Sax, clarinete, trompete e trombone andando pelas ruas e arrastando junto uma multidão. Pra fechar o dia, preciso dizer duas coisas: eu me senti muito cult comprando A Divina Comédia numa edição bilíngue da Editora 34 e a Regina Casé é realmente muito feia.

Por hoje é só. Voltei mais cedo na esperança de ver o debate mas esse albergue é tão cacareco que a TV não funciona. Ah, e eu comprei também um pote enorme de repelente, quero ver quem pode comigo essa noite.

Especial FLIP 2010 – Dia 1

por Tauil

Depois de duas horas e tanto de estrada, cheguei em Paraty e fui procurar a minha pousada. O meu albergue. Como já disseram, Paraty deveria ser receita médica. Aqui é sempre delicioso, bom para relaxar, desviar os pensamentos caóticos do cotidiano das cidades grandes.

O albergue é bem localizado, em um minuto e meio estou no centro histórico da cidade, que é onde rola tudo da FLIP. No entanto, este albergue é um pouquinho alternativo. Feito de mochileiros para mochileiros, se é que me entende. Sujo para caráleo e habitado por bichos-grilo – não me assustaria se eu tropeçasse, o assoalho cedesse e embaixo dos ladrinhos aparecessem pacotes e pacotes de drogas. Eu tenho que lavar a minha própria louça e dividir um só banheiro com mais dez machos. Fora isso, está tudo ótimo, obrigado.

Não consegui ingresso pra nada – na verdade, até consegui, mas uma velhinha passou a perna em mim e eu acabei gastando dez pilas com ingressos para idosos. Levantei a hipótese de jogar talco no meu cabelo e andar meio corcunda, mas achei melhor aceitar a derrota. Almocei, dei umas voltas pela cidade e achei linda a decoração da praça, embora ano passado estivesse mais caprichado, e também mais cheio. Essa edição, em função da Copa do mundo, não caiu nas férias, e não tem Chico Buarque nem Neil Gaiman. Ainda assim, o vazio da FLIP vem junto com filas intermináveis e discussões e protestos contra a desorganização da equipe do evento.

Novamente o stand é da Livraria da Vila, e eu fico um pouco angustiado de passar por lá, porque eu quero comprar tudo e não posso comprar nada. Depois de sair de mãos abanando da livraria, fui ver a conferência de abertura: Fernando Henrique Cardoso palestrando sobre Gilberto Freyre e sociologia em geral. Bacana, fala bem e tudo, manja do assunto, mas ao contrário do artilheiro Lucas não vou muito com a cara dele, e deixei passar. Estava mesmo ansioso para o que viria em seguida: o show do Edu Lobo – que trocou e-mail comigo e me prometeu uma entrevista pro AC!, oh yeah! O show estava marcado pras 21h30, mas começou às 22h, sem o Edu. Renata Rosa, Arthur Netrovisky, Marcelo Jeneci e banda comandaram um espetáculo que foi de Heitor Villa-Lobos a Ariano Suassuna. Seguraram as pontas por quase uma hora e meia, que foi quando Edu surgiu e assumiu a liderança do palco. Ótimo repertório de seu último disco, Tantas Marés, mas o cantor revelou-se um pouco cansado, errando alguns versinhos de suas parcerias com Paulo César Pinheiro e Chico Buarque. Mais uma meia horinha e acabou. Foi quase uma participação especial daquele que era para ser o principal – rimou.

Estou animado para amanhã, e acredito que devo soltar o próximo post nesse horário mesmo, começo da madrugada – que é quando eu tenho acesso à internet aqui improvisada. Agora vou bolar um plano para eu ir dormir sem acordar os outros que dividem o quarto comigo. Torçam por mim e até amanhã.

PS: perdoem qualquer erro de digitação ou coisa do tipo, estou escrevendo isso um pouco sob efeito do sono, do álcool e de reprovação, pois já estão olhando feio para esse cara que não pára de teclar.