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Especial FLIP 2010 – Dia 4

por Tauil

Hoje, infelizmente, é o último relato de viagem que escrevo para o Artilharia. Amanhã cedinho estou voltando pra casa, e trago comigo a experiência de mais uma Festa Literária Internacional de Paraty. A viagem sempre vale a pena, mas está cada vez mais custosa. No início, os ingressos para ver as conversas dos autores eram 20 reais, com direito à meia. Hoje subiu para 40 pilas. Inviável. Tem que selecionar. O negócio, já aprendi, é ficar menos apegado à programação da FLIP e explorar a cidade. Existe a Flipinha, para as crianças, e a Flipzona, para os adolescentes. Nem chego perto da Flipzona porque tenho muito medo de coisas feitas para adolescentes, elas geralmente vêm com um excesso de gírias que a gente não fala e nunca falou, e isso me deixa um pouco envergonhado. Tem também a OFF-FLIP, que funciona mais ou menos como um tapa na cara dos leitores: enquanto a FLIP traz nomes consagrados, na OFF você vê gente mais normal, de carne e osso, muitos escritores iniciantes e gente cheia de projetos na cabeça. Fora isso, é claro, há sempre algum sarau, um grupo de dança, um teatro na praça. Aliás, lamento muito que esses artistas mambembes estejam sendo varridos. Antigamente, eles estavam por toda a parte, é verdade que chegava a cansar um pouco as abordagens, mas é gente querendo mostrar seu trabalho. Eles estão concentrados em algumas ruas hoje, como se a prefeitura visse isso como um incômodo e fosse escondendo a sujeira embaixo do tapete. Era esse o tempero da cidade, como comentei hoje com a Izze enquanto tomávamos um sorvete.

De mesa, hoje, só vi uma. E para mim foi A mesa. E ela só perdeu para a do António Lobo Antunes do ano passado. Hoje, meus caros, eu ouvi Ferreira Gullar. Seu corpo de 80 anos não é o suficiente para segurar seu espírito de poeta, e quando ele fala, quando ele conta suas histórias, quando ele declama seus poemas, ele te transporta para outra dimensão. Poucos homens tem essa capacidade só com a oratória. Mesmo com um péssimo entrevistador, o Samuel Titan Jr., ele deu um show contando parte de sua biografia, sobre sua visão da poesia e da arte e do universo, tudo com muito humor. “Eu sou mesmo um gozador”, dizia ele. É a segunda mesa que o Samuel Titan conduz e para ele eu dou um grande fail. A primeira foi com Chico Buarque e Milton Hatoum e ele fez um trabalho de merda. Agora, com o Ferreira, outro trabalho de merda. Porra direção da FLIP, para de dar coisa grande pra ele entrevistar porque não rola! Ele tem um roteirozinho, e toda vez que o entrevistado entra em um outro assunto por conta própria, ele corta a asa do cara e o amarra na corrente da sua cola.

Se eu visse Ferreira Gullar na rua, não daria nada para aquele velho cheio de cacoetes e manias. Mas é uma pessoa interessantíssima. Aliás, não sou muito fã de seus poemas, acho que há alguns potes de ouro espalhados em seus livros, mas no geral não sou um grande admirador. Sou de sua pessoa, de sua vida. E é por isso que fiquei muito feliz em pegar um autógrafo para uma pessoa querida.

Pra fechar, faço um saldo positivo da Festa. É sempre bom para conhecer contatos, sangue novo, gente interessada em produzir. Isso é o melhor de tudo. Depois, como já disse, tem o clima da cidade, que é delicioso e eu não vejo em nenhum outro evento literário. Acho emocionante um enredo tão grande onde o personagem principal seja o livro. E ver tanta gente jovem envolvida me estimula a seguir em frente por esse caminho. Mas não sei como será as próximas edições, não. Cada vez mais gente, cada vez mais caro. Temo pela elitização intelectual da FLIP, ou pela cidade, que não está comportando esse tanto de gente, e um sinal claro disso é a quantidade de lixo no chão.

Agradeço a todos que acompanharam esse diário de bordo e estarei contente em cobrir a próxima FLIP aqui pro Artilharia – isso é, se novamente eles me derem esse patrocínio, esse salário milionário que recebi.

Por curiosidade, segue a lista dos livros que estou levando pra casa:

Muitas vozes – Ferreira Gullar

A divina comédia – Dante Alighieri

Como se não houvesse amanhã – Henrique Rodrigues (organização)

O avesso das coisas – Drummond

O inventário das sombras – José Castello

A violência da alma – Felipe Munhoz

A decadência dos seres não abstratos e outras peças – Marcio Aquiles

La isla bajo el mar – Isabel Allende

Do universo à jabuticaba – Rubem Alves

Especial FLIP 2010 – Dia 3

por Tauil 

 Hoje o dia foi muito mais calmo. Não sei o porquê, mas nada de errado aconteceu comigo – o que é, de fato, muito estranho. A começar pela manhã: não perdi a hora, não teve fila pra tomar banho e tinha até açúcar pro café. E os caras do albergue até pareciam sóbrios. Enfim, me arrumei e saí pra caminhada. Comprei uma água de coco, porque só existem três coisas que eu gosto em cidades litorâneas: ver o mar, sentir a brisa marinha e tomar água de coco. O coco daqui é diferente do coco de lá, cheguei à conclusão de que só vai para o interior a sobra da sobra da sobra.

Depois, encontrei alguns conhecidos e fui tomar um café com Humberto Werneck, que é um queridíssimo meu. Mesmo sem saber, ele é o meu padrinho literário, é quem me aconselha e me guia: leia isso, isso aqui não ficou bom, preste atenção nisso. E tomar café com o Werneck é conhecer gente interessante, porque é incrível como as pessoas gostam de acompanhá-lo e ouvi-lo. O que se dá devido ao seu bom humor e seu conhecimento literário: para tudo há uma citação, uma anedota, mas sem nunca esbanjar cultura a ponto de fazer os outros se sentirem envergonhados. E como não podia ser diferente, mais uma vez segui o seu conselho e fui ver a gravação de um programa chamado Jogo de Idéias, que vai ao ar em setembro pela TV Cultura. Foi gravado lá na Casa da Cultura, onde ocorre uma programação paralela à FLIP – às vezes mais interessante, sempre mais barato -, e consistia numa entrevista com o jornalista e escritor José Castello, acompanhado de Cristóvão Tezza e um outro que sinceramente não me recordo o nome e não estou muito pra pesquisas. Bem humorado, José Castello falou de um livro seu que vai ser lançado semana que vem, chamado Ribamar. O interessante do livro não é só o seu enredo – a angústia de um filho ao tentar conhecer melhor seu pai -, mas sim a forma que Castello deu à sua construção, baseado inteiramente na canção que seu pai cantava para niná-lo. Pretendo falar melhor sobre isso num post à parte quando o livro for lançado, mas para se ter noção, cada tom representava X caracteres que ele poderia escrever, cada nota representa um assunto (fá para infância, por exemplo: assim todo capítulo que fosse correspondente à nota fá seria sobre a sua infância). Muito curioso e penso que original.

Fui fechar o dia num restaurante chamado Buenos Aires. A dona, uma argentina que não faz nenhum esforço para aprender o português, deixava à mostra uns livros de uns craques argentinos, como o tal do Jorge Luis Borges. Os argentinos têm mesmo esse exagero de patriotismo cego, ainda mais em solo brasileiro. Sei que por um breve instante me passou pela cabeça furtar aquele Trabajos Completos de Jorge Luis Borges, mas passou rápido. Preciso tratar esse ímpeto de botar no casaco esses livros fodas que ficam servindo de enfeite – ou você acha que alguém vai ler Borges no original num restaurante?

De volta ao albergue, tive a impressão de que a moça que ontem estava dividindo a cama com um cara hoje está com outro. Mas acho que foi só impressão. Espero. Ah, ia me esquecendo de dizer que conheci a nossa colaboradora Izze! Ela faz suas resenhas no r.izze.nhas e está aqui cobrindo o evento para o nosso aliado Ambrosia. Simpaticíssima, mas já com essa síndrome de jornalista, essa mania de querer estar ocupada o tempo todo com compromissos. Vai morrer cedo de problema cardíaco, coitada.

Fico por aqui e amanhã tem Ferreira Gullar, porra!

Especial FLIP 2010 – Dia 2

por Tauil

Andar em Paraty é gastar a sola e ter calo nos pés. Os sádicos se divertem, porque não são raras as pessoas que confundem os passos nessas rochas irregulares do tempo do bisavô do seu trisavô e acabam de quatro, ou pior, no chão. Por pouco não entrei para esse time, pois de manhã eu andava como um zumbi. Também, ontem talvez tenha sido a pior noite de sono de todos os meus tempos, e olha que eu já acampei e já dormi em carro e tal. O motivo? Pernilongos. Os motherfuckers pernilongos. É um bicho detestável, com certeza foram feitos num dia de muita inspiração do diabo – ou de muito relaxo de deus, vai saber. O que me mata não é nem a coceira, pois isso passa – é o zumbido, esse zzz constante sobrevoando a cabeça da gente. Eu tinha duas opções: ou aceitar a derrota e entender que seria uma noite mal dormida, ou lutar pelas minhas horas de descanso.

Foi inútil perguntar se havia repelente na recepção, pois esses argentinos só sabem fumar maconha e dizer “hmm, no lo sei”, num portunhol que chega a ser engraçado. Não quis desistir tão fácil assim, e dei um prejuízo aos meus inimigos esmagando dois ou três deles contra a parede. Acabei armando uma tenda com o lençol que me protegeu um pouco. Pensei em convocar meu companheiro de quarto às armas, “vamos acordar e matar todos eles”, mas não soaria tão bem. Resolvi botar um braço meu pra fora, na inocência de que eles pegariam logo o meu sangue e me deixariam em paz, mas esses demônios são insaciáveis.

Depois dessa noite de merda, fui pegar o meu notebook e constatei um enorme “você se fodeu” escrito na tela. Metaforicamente, é claro – a tela assumia cores que iam do verde ao roxo, e eu até achei bonito isso, mas arrumar esse negócio de LCD com certeza vai me sair bem caro. Tirando isso, foi um dia bom. Comecei com a mesa de Edson Nery da Fonseca, uma sumidade cultural presa a um corpo de 90 anos, e Moacyr Scliar, médico e escritor. Tio Dison novamente levantou a FLIP em aplausos, falou muito bem e passou um bom tempo autografando e tirando fotos, mais do que um senhor de sua idade pareceria aguentar. Mais tarde, o grande destaque da feira apareceu: Isabel Allende, uma mulher encantadora de um metro e meio, conduzida pelas perguntas do sempre ilustre Humberto Werneck. Dessa mesa vi pouco, e lamento isso, mas precisei sair na metade para pegar um lugar na fila de autógrafos. Acho que essa fila só perdeu pra do Chico Buarque e pra do Neil Gaiman. E ela fez questão de burlar a regra de que seria apenas um livro por pessoa – “no, todos!”. Em seguida bati um papinho com Zuza Homem de Mello, que prometeu uma entrevista via e-mail pro Artilharia.

Andei pela praça, andei pelos becos da cidade, andei pelas avenidas e andei mais um pouco. Passei por outra coisa interessante, que era uma jazz band móvel, patrocinada pela Bohemia. Sax, clarinete, trompete e trombone andando pelas ruas e arrastando junto uma multidão. Pra fechar o dia, preciso dizer duas coisas: eu me senti muito cult comprando A Divina Comédia numa edição bilíngue da Editora 34 e a Regina Casé é realmente muito feia.

Por hoje é só. Voltei mais cedo na esperança de ver o debate mas esse albergue é tão cacareco que a TV não funciona. Ah, e eu comprei também um pote enorme de repelente, quero ver quem pode comigo essa noite.

Especial FLIP 2010 – Dia 1

por Tauil

Depois de duas horas e tanto de estrada, cheguei em Paraty e fui procurar a minha pousada. O meu albergue. Como já disseram, Paraty deveria ser receita médica. Aqui é sempre delicioso, bom para relaxar, desviar os pensamentos caóticos do cotidiano das cidades grandes.

O albergue é bem localizado, em um minuto e meio estou no centro histórico da cidade, que é onde rola tudo da FLIP. No entanto, este albergue é um pouquinho alternativo. Feito de mochileiros para mochileiros, se é que me entende. Sujo para caráleo e habitado por bichos-grilo – não me assustaria se eu tropeçasse, o assoalho cedesse e embaixo dos ladrinhos aparecessem pacotes e pacotes de drogas. Eu tenho que lavar a minha própria louça e dividir um só banheiro com mais dez machos. Fora isso, está tudo ótimo, obrigado.

Não consegui ingresso pra nada – na verdade, até consegui, mas uma velhinha passou a perna em mim e eu acabei gastando dez pilas com ingressos para idosos. Levantei a hipótese de jogar talco no meu cabelo e andar meio corcunda, mas achei melhor aceitar a derrota. Almocei, dei umas voltas pela cidade e achei linda a decoração da praça, embora ano passado estivesse mais caprichado, e também mais cheio. Essa edição, em função da Copa do mundo, não caiu nas férias, e não tem Chico Buarque nem Neil Gaiman. Ainda assim, o vazio da FLIP vem junto com filas intermináveis e discussões e protestos contra a desorganização da equipe do evento.

Novamente o stand é da Livraria da Vila, e eu fico um pouco angustiado de passar por lá, porque eu quero comprar tudo e não posso comprar nada. Depois de sair de mãos abanando da livraria, fui ver a conferência de abertura: Fernando Henrique Cardoso palestrando sobre Gilberto Freyre e sociologia em geral. Bacana, fala bem e tudo, manja do assunto, mas ao contrário do artilheiro Lucas não vou muito com a cara dele, e deixei passar. Estava mesmo ansioso para o que viria em seguida: o show do Edu Lobo – que trocou e-mail comigo e me prometeu uma entrevista pro AC!, oh yeah! O show estava marcado pras 21h30, mas começou às 22h, sem o Edu. Renata Rosa, Arthur Netrovisky, Marcelo Jeneci e banda comandaram um espetáculo que foi de Heitor Villa-Lobos a Ariano Suassuna. Seguraram as pontas por quase uma hora e meia, que foi quando Edu surgiu e assumiu a liderança do palco. Ótimo repertório de seu último disco, Tantas Marés, mas o cantor revelou-se um pouco cansado, errando alguns versinhos de suas parcerias com Paulo César Pinheiro e Chico Buarque. Mais uma meia horinha e acabou. Foi quase uma participação especial daquele que era para ser o principal – rimou.

Estou animado para amanhã, e acredito que devo soltar o próximo post nesse horário mesmo, começo da madrugada – que é quando eu tenho acesso à internet aqui improvisada. Agora vou bolar um plano para eu ir dormir sem acordar os outros que dividem o quarto comigo. Torçam por mim e até amanhã.

PS: perdoem qualquer erro de digitação ou coisa do tipo, estou escrevendo isso um pouco sob efeito do sono, do álcool e de reprovação, pois já estão olhando feio para esse cara que não pára de teclar.

Especial Anjos da Noite – Underworld

por Marcel

Final de férias e a necessidade de se lançar a algum afazer banal, para acabar com o tédio da sua rotina – se você tem, é quase indispensável. A vontade de fazer algo de útil do tempo de ócio pode ser facilmente saciada quando se encontra uma série que te envolve, um game que lhe interessa ou ainda um filme que o emocione.

Vou mostrar-lhe, soldado, uma forma interessante, assustadora e violenta – claro que tudo isso passara dentro do DVD – de aproveitar este tempo. Serão de longe, a maior dose de Vampiros, Lobisomens, tiroteios, história e Kate Beckinsale numa roupa de couro que poderá encontrar. E se gosta pelo menos de um destes elementos, estaremos falando na mesma língua.

O Vampiro

Ouvi dizer que o personagem do vampiro voltou ao cenário popular. Eu discordo. Entre minhas listas de melhores filmes de terror e suspense que tratam da figura, não existem menção alguma de um bom filme do tipo depois de 2003. Nem ao menos o último fervor causado pelos Best-sellers da Saga Crepúsculo onde a figura mítica do vampiro é completamente desfigurada por uma história de amor puritano, purpurina e Volvos.

Na humilde concepção do artilheiro que vos escreve, o ano de 2003 guardaria então o último bom título que trata da figura. Um filme que merecia continuação – e teve. Underworld, ou Anjos da Noite aqui no Brasil, foi um filme que me pegou desprevenido aos 13 anos. Não vi ali, nada mais que um filme de ação, algum suspense, bestas, armas e ação desenfreada. E como o filme havia sido lançado no circuito nacional poucos anos após ao Matrix (1999), muito se comparou, erroneamente. Sinceramente, meu desconhecimento sobre o roteiro permaneceu até o ano de 2009 quando tive a oportunidade de ver o terceiro filme de série. Só então neste ano, numa proposta indecente de uma , aceitei ver todos os três, e na seqüência cronológica. Depois de terminada, a experiência deu origem a este apanhado, que adotei como homenagem ao filme. Uma obra que, se não é algo épico, fez e fará despertar o interesse de uma nova geração as figuras do vampiro e lobisomem. Este especial nasceu com o intuito de comentar, opinar, mas, principalmente, sugerir que o soldado caia de cabeça no enredo, livre das tendências – que julgam o filme como ação e aventura – e ceda o pescoço aos Anjos da Noite.

O filme é escuro…

É importante o alerta: o filme é essencialmente escuro. A fotografia torna-se muito caricata por isso. O bom grado que há em ver as cenas num tom de penumbra é bem explorado. Com exceção de alguns momentos em que a vista se farta de tal falta de iluminação, o filme caminha bem e até consegue pontos ao ser a marca registrada da série.

e anacrônico

Uma dica de quem já viu: A produção dos filmes foi feitas na ordem de lançamento, não na linha cronológica. Isso causou certos transtornos à produção dos filmes seguintes da série, e é possível observar alguns erros de seqüência causados por isso. A jogada foi totalmente mercadológica visando continuar a série caso fosse lucrativa. Em outras palavras, se o soldado puder, mude a seqüência que vai vê-los. Comece por ver Anjos da Noite III como um prelúdio – pois a história do terceiro filme da série se passa antes do primeiro; e só depois veja os dois primeiros filmes na ordem exata.

Ordem sugerida:

  • Anjos da Noite – A rebelião III;
  • Anjos da Noite – Underworld I;
  • Anjos da Noite – A revolução II.

Curiosidade

Kate Beckinsale, musa do artilheiro, é casada com um dos maiores nomes por detrás da produção da franquia. Len Wiseman: e como o próprio sobrenome soa, foi um homem sábio em agarrar a morena.

Anjos da Noite I – Underworld

Atenção: esse artigo pode conter spoilers.

O primeiro filme da série começa na clássica cena de uma mulher em roupa de couro agachada num beiral. O ano é um aparente pós-século 21. Tempo atual. Selene (Kate Beckinsale) é uma matadora de lobisomens (que são tratados no filme e por todo este post de “Lycans”) e encontra-se cercada por eles numa estação de trem. O fato é que, do lado oposto de seu modo de vida – escondendo-se durante o dia, caçando monstros durante a noite, existe uma tribo de lobisomens devidamente organizada e pronta para virar a guerra contra os vampiros. Guerra que acontece há milênios.

Na verdade, os lobisomens – figuras selvagens, logo, ignorantes – parecem estar mais organizados do que nunca. No ataque aos vampiros na estação de trem só Selene, em um grupo de vampiros, sobra para contar o massacre. A guerreira foge com muita astúcia já que o duelo frente a um Lycan é quase que morte certa. Quando volta a mansão dos Anjos da Noite, a caçadora percebe que há algo de covarde no reinado de Kraven (Shane Brolly) que assumiu o o trono depois que Viktor (o excelente Bill Nighy) tirou seu século de férias e está dormindo. As respostas que Selene busca sobre os Lycans e a morte de seu lendário líder Lucian (o carismático Micheal Sheen) vão esbarrar em mais segredos podres sobre a sociedade vampiresca. Ela descobrirá que os Lycans tem um plano e ele envolve Michael Corvin (Scott Speedman), um sujeito aparentemente comum, mas que carrega em seu corpo um sangue de uma linhagem rara. O conflito passa então acontecer acerca do único humano da trama. Selene rebela-se contra Kraven e os vampiros e figura-se como aliada ao humano, mesmo sabendo quanta luta e perseguição isso causará.

Elementos

Wiseman, e a dulpa que o deu uma mãozinha no roteiro trataram de ler e aprender muito sobre a figura clássica das bestas medievais. O vampiro e o lobisomen são muito bem caracterizados. O filme ainda tem muitos elementos, como Sci-fi nos aparatos, armas e equipamentos dos caçadores de Lobisomen, além dos efeitos especiais. O filme é banhado de ação, que dá conta de travar qualquer soldado sedento por sangue na cadeira. E por fim, a película trata da mitologia com pouco suspense. Não há um vampiro que se esconde nas cortinas para atacar a moça virgem, o que existe uma forte inversão desses valores: o vampiro é o foco, o coadjuvante, o herói e o vilão.

Mesmo que seja difícil de eleger um herói na obra. Alguns se identificam mais com o personagem de Lucian – um Lycan, outros torcem pelo triunfo dos Anjos da Noite, mas a maioria fica do lado de Selene e seu affair Micheal Corvin que passam o primeiro filme revelando segredos e matando todo mundo pelo caminho.

Portanto, leitor, se você procura um bom filme de ação com uma seqüência decente, comece quanto antes a ver Anjos da Noite. Não verá um clássico do gênero do terror ou do suspense, nem lhe prometem isso. Mesmo assim, a obra de Wiseman encherá seus olhos por uma boa hora. O filme corre eletrizante, com belíssimos efeitos especiais e atuações dignas de atores pouco conhecidos. Além do que, se você gostou, anime-se, esse é o pior filme da série.

Vá em frente, pegue Anjos da Noite e veja a maneira a qual se é original no roteiro e ao mesmo tempo se respeita a figura que Bram Stoker, autor do primeiro romance a tratar do vampiro que conhecemos, criou em 1897.

O Especial volta na semana que vem com o segundo filme da série.

Especial Quentin Tarantino – Pulp Fiction

ATENÇÃO:

Se você nunca assistiu Pulp Fiction, eu aviso: essa resenha contém spoilers e está mais confusa do que ano eleitoral. Se, ainda assim, você optar por ler, sugiro que siga a ordem numérica estipulada abaixo. Isso também serve pra quem não quiser arriscar ler na ordem estipulada no post. Hoje, às 19h00, ocorrerá o sorteio dos dois ingressos para Death Proof. O resultado sairá no twitter do AC.

5

O plot? A gente pode resumir isso, né? Afinal de contas, somos todos íntimos de Pulp Fiction. Essa, vale comentar, é a primeira resenha que eu faço sem senso nenhum de ridículo e/ou estética. Estou me imaginando em uma mesa de bar, conversando sobre um dos meus filmes favoritos. E o quão sensacional é pensar que a maleta que rende 2/3 das desgraças que acontecem no filme saiu de Cães de Aluguel? E, melhor ainda… Nós não sabemos o que tem nela. Pessoas especulam que é a alma de Marsellus (o band-aid na nuca dele, um dos pontos mais importantes do corpo, poderiam confirmar isso), enquanto outros, mais céticos, dizem ser apenas diamantes (isso explicaria o reflexo que ela causa, quando aberta).O que importa é que você não vê isso em outro filme. Tá, a Marvel Studios ta fazendo crossovers entre os filmes, mas o ano era 1994, cara. É quase a continuação do filme. E vale lembrar que não é só isso que acontece. Paralelamente, temos a história de Butch (Bruce Willis), boxeador que tinha um acordo com Marsellus, ferra tudo e depois tem que tentar consertar a besteira (com uma Hattori Hanzo) pra não perder a vida. E no meio de tiroteios, diálogos ácidos e inteligentíssimos, nós só teremos uma conexão entre tudo isso perto do fim do filme. Que, na verdade, não é o fim e… ah, dane-se. Vocês entenderam.

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Tarantino tem um talento que poucos diretores tem: ressuscitar atores. John Travolta era o cara do Grease e d’Os Embalos de Sábado à Noite, até aparecer em Pulp Fiction. Samuel L. Jackson não era ninguém. Falem o que falar, pra mim o melhor papel da carreira desses dois é Pulp Fiction. Jackson pode vencer qualquer discussão com aquela barba, e se começar a citar a Bíblia, é porque você perdeu feio. Travolta, então, não precisa fazer muito. Se dançar um pouco e enfiar uma injeção de adrenalina no peito de alguém, já ta de bom tamanho.

2

O que dizer de um filme que não tem começo, nem meio, nem fim? Ele não é dividido cronologicamente, como Bastardos Inglórios. Ele também não é “meio bagunçadinho”, como Reservoir Dogs. Pulp Fiction começa pela mesma cena que vai dar o fim ao filme, tem duzentas reviravoltas que não fazem sentido nenhum, e cenas antológicas o suficiente para quebrarem as pernas de qualquer filme que vocês colocarem na roda. Qualquer um. Sério. Eu conheço uma pessoa que não gosta de Tarantino, e a sorte dela é que ela é bonita, porque é meio complicado manter uma amizade com alguém desse tipo.

8

Por tudo isso que eu disse e por uma infinidade de motivos, Pulp Fiction pode ser considerado o filme de uma geração. O filme que representou os anos 90, e, principalmente, a grande obra-prima de Quentin Tarantino, que – com esse filme – conseguiu consolidar um estilo de filmagem, de diálogos, de roteirização… Seu próprio estilo, que é impossível de se copiar. Nenhum outro diretor teve tanto carinho com suas influências à ponto de homenageá-las em todos os filmes que realiza. Nenhum diretor teve tanta ousadia em misturar ultraviolência com roteiros inteligentes, não ao dosar as duas, mas criando uma overdose de todas as características que seus filmes carregam. Pulp Fiction é uma injeção de adrenalina direto no seu peito, fazendo efeito por 2 horas e 28 minutos. E, até hoje, é um dos melhores filmes já feitos.

4-6

Referências Tarantinescas. Você não tava esperando que isso fosse organizado como foi em Bastardos Inglórios, né? Estávamos na disciplina militar, lá. Aqui é terra de ninguém. Se você já assistiu Cães de Aluguel, deve ter percebido que Vic Vega, é irmão do personagem de John Travolta (Vincent Vega). E se você acha que Tarantino só deixou essa pista, olhe atentamente a cena em que o porta-malas do carro em que Jules e Vincent levantam o capô do carro, com o morto dentro. Ao lado dele, está o mesmo galão de gasolina usado por Blonde para colocar o policial de Reservoir Dogs em chamas. A ligação com Cães de Aluguel vai mais longe: Steve Buscemi é o garçom fantasiado de Buddy Holly que, quando interpretando Mr. Pink, recusava-se à dar gorjetas para garçonetes. Harvey Keitel tem sua participação em Pulp Fiction, como um enviado de Marsellus Wallace (o chefão da parada toda), para tentar dar um jeito no carro que Vega, ahm… Danificou.

Tá faltando referência, né? Vou fazer melhor do que deixar aqui. Nesse link você vai encontrar uma bíblia sobre Tarantino. Todas as referências legais, as curiosidades… Tudo bacana mesmo sobre o diretor e seus filmes encontra-se aí. Então eu não vou encher esse post com informaçõe sque você mesmo pode buscar; to aqui pra falar do que me dá tesão nesse filme.

E venhamos e convenhamos, algumas cenas são psicologicamente afrodisíacas. Sabe quando você tem um orgasmo mental? Foi isso que eu senti com o diálogo entre Travolta e Thurman na lanchonete.

Mia Wallace: Você não odeia isso?

Vincent: Odeio o que?

Mia: Silêncios desconfortáveis. Por que sentimos que é sempre necessário falar sobre qualquer merda para que possamos nos sentir confortáveis?

Vincent: Não sei. É uma boa pergunta.

Mia: É nessa hora que você sabe que encontrou alguém realmente especial: quando você pode simplesmente fechar a droga da boca por um minuto e, confortavelmente, compartilhar do silêncio.

Ou então a participação de Tarantino, como Jimmie, tendo que ajudar Jules e Vincent a darem um jeito no carro todo manchado de sangue e cérebro. Falando nisso, o quão genial é a cena de Travolta simplesmente explodindo os miolos do cara do banco de trás? Não faz sentido algum, e ao mesmo tempo, é de – com o perdão do trocadilho – explodir cabeças. E, se tudo isso ainda não mexeu com você, eu duvido que você não ficou tenso com a agulhada no peito de Thurman quando ela tem uma overdose de pó.

1

Entrar para a história é para poucos. Se você ver um imbecil andando com um capacete do Darth Vader por aí, como se não houvesse amanhã, você reconhecerá o personagem. Saberá, ao menos, de onde ele veio.

E agora eu tomo alguns segundos do caro leitor para perguntar: você sabia que na França, o Quarteirão com Queijo não é chamado assim? Porque lá eles não usam o sistema métrico, e tal. O lanche é entitulado Royale with Cheese. Cara, você pode pedir uma cerveja em um Mc Donalds na França. Já o Big Mac é simplesmente Le Big Mac.

É referência o suficiente pra você? E se eu citar Ezekiel 25:17? Ou, talvez, a música You Never Can Tell, de Chuck Berry? Talvez se eu dançar um pouco de twist?

Eu já discuti com vários de fãs de Tarantino sobre minha preferência por Cães de Aluguel… Mas, quando você assiste com atenção o suficiente, quando você para pra olhar… Pulp Fiction é uma obra prima. Pulp Fiction é o tipo de filme que tem seu próprio gênero. E esse gênero é bad motherfucker.

7

Como eu havia dito alguns posts atrás, aliás, Tarantino é mestre em matar personagens badass da maneira mais caricata possível. E como você já assistiu o filme – se não tivesse assistido, não chegaria até aqui -, você deve se lembrar da morte de Vincent. Pô, cara, o Butch mata o cara porque se assustou com uma torradeira. Ele descarrega uma sub-metralhadora num cara que acabou de sair do banheiro. E quando você pensa que o cara da loja de armas vai ligar pra polícia, o desgraçado é um maníaco sexual que decide estuprar Marsellus.

Especial Quentin Tarantino – Inglourious Basterds

A primeira coisa que alguém descobre sobre mim, quando falamos de cinema, é que eu sou apaixonado por filmes de guerra. Dentre elas, minhas duas favoritas são, em ordem de importância: a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnam. A segunda coisa que alguém descobre sobre mim, ao falar do assunto supracitado, é que meus diretores favoritos são, sem preferência definida: Quentin Tarantino, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola. Desses três diretores, até o ano passado, apenas um tinha feito um filme de guerra. Apocalypse Now, de Coppola, é – até hoje – um dos melhores longas do gênero, que conta com Marlon Brando (lembre desse nome), Martin Sheen (pai de Charlie Sheen, que atuou em Platoon) e até o Morpheus moleque, Laurence Fishburn. E por que diabos eu estou falando disso? Porque em 2009, Quentin Tarantino nos entregou um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos: Inglourious Basterds, ou, se vocês preferirem: Bastardos Inglórios.

O Mito

Quentin Tarantino demorou praticamente uma década para finalizar o roteiro de Bastardos Inglórios. Muita gente chegou a duvidar que o filme realmente seria feito um dia, mas o problema não era esse. Sabe quando você escreve alguma coisa, e isso tá muito bom, mas você sente que pode ficar melhor? Provavelmente o americano estava assim com relação à Bastardos. Ele sabia que aquela poderia ser sua obra prima, seu filme de maior sucesso, mas algo lhe dizia que faltava algo. E mais alguma coisa. E um toque de sangue ali. E um diálogo ácido acolá. E, em meio à diversas mudanças, ideias e planejamentos, o filme que era anunciado ano após ano finalmente teve suas filmagens iniciadas. Todos ficaram perplexos quando o roteiro vazou meses antes do filme estreiar, e ficou disponível para quem quisesse ler.

Eu comprei um livro com o roteiro original do filme. E, sabe, ler roteiro é uma coisa meio estranha. É totalmente diferente de ler uma história. Mas você consegue enxergar a alma do filme ali. E, como vocês puderam perceber… Ele não estava errado em ter demorado tanto tempo pra fazer a história.

Os Bastardos

Uma vez meu pai me disse: “filho, nunca discuta com uma mulher. De um jeito ou de outro, você vai perder”, e eu não ouvi. Talvez, exatamente por isso, eu sempre trave discussões sobre os mais variados assuntos com uma garota em particular. E essa garota odeia o Brad Pitt. Eu não entendo como alguém pode odiar o Tyler Durden e, mais que isso, o Lt. Aldo Rayne (homenagem ao ator e ex-veterano da 2ª guerra Aldo Ray). Pitt me lembrou, invariavelmente, Marlon Brando (eu falei pra você lembrar dele) durante diversas cenas, seja pelo rosto propositalmente estufado ou pelo jeito durão e imponente. Ele é o tipo de ator que não pode ser considerado “um dos melhores da sua geração”, mas ele é o tipo de cara que escolhe os melhores papéis para sua carreira (12 Macacos, Clube da Luta, Seven e o filme que estamos falando agora não me deixam mentir) e rouba a cena em quase todos eles.

Existem dois outros Bastardos que merecem destaque: Eli Roth, como o Sargento Donny Donowitz, não precisa atuar de maneira brilhante: ele é o Urso Judeu, temido por todos os nazistas que já ouviram falar dos Inglórios, tem apenas uma missão: ser brutal. E é isso que ele faz.

Já o alemão Til Schweiger recebeu uma missão mais dura: ser o Mr. Blond. Antes que você corte minha orelha fora, eu explico: Mr. Blond é o personagem turrão, que fala pouco e é, invariavelmente, o mais badass do grupo. A cara de mal de Schweiger, junto à cenas do loiro matando oficiais da Gestapo com uma narração de Samuel L. Jackson ao fundo são elementos que tornaram essa tarefa praticamente um passeio no parque, para o ator.

Existe um ator, porém, que merece um subtópico só para si: Christopher Waltz.

Hans Landa

Quando eu disse, três parágrafos acima, que Brad Pitt roubava a cena em quase todos os bons filmes que fazia, a explicação encontra-se no ator alemão que deu vida à um dos melhores vilões desde Darth Vader e Hannibal. Christopher Waltz é tão brilhante no papel do comandante da SS que nós torcemos para que ele apareça mais e mais. Nós torcemos para que existisse um filme só dele, com todas as suas crueldades, seus comentários insanos e suas demonstrações impressionantes de inteligência. Como o próprio diz, ele é um detetive. Um homem inteligentíssimo, que não admite derrotas. E como todo grande vilão tem um detalhe característico (Darth Vader tinha sua vestimenta especial, enquanto Hannibal era aprisionado à uma máscara), Tarantino deu à Hans Landa um enorme cachimbo, que causa risos à plateia quando retirado do bolso do comandante, naquela que é uma das melhores cenas de abertura da história do cinema moderno.

E é nessas horas que o destino mostra-se gentil com obras primas como esta. A primeira opção de Quentin Tarantino para o papel do comandante era Leonardo DiCaprio. Independente das qualidades de atuação do ator (as quais eu admiro)  é certo que nenhum outro ator cairia tão bem como Waltz. Se o prêmio de melhor ator no festival de Cannes (2009), o Globo de Ouro (2010) e o Oscar (2010) por melhor ator coadjuvante não te dão certeza disso, as palavras de Tarantino talvez surtam algum efeito: segundo o diretor, Waltz “deu o filme de volta à Tarantino”. A explicação para essa frase é simples; Hans Landa, segundo Quentin, foi o melhor personagem que ele já inventou em toda sua vida. Até o austríaco aparecer, porém, era o tipo de papel que parecia impossível de se atuar. Podemos considerar que, se não fosse o ator, o filme talvez nunca tivesse saído do papel.

O ponto alto de Hans Landa, talvez, seja o fato do personagem não flertar com as ideias nazistas. Fica claro, durante o filme, que apesar de usar as roupas de um nazista, ele não flerta com sua ideologia. O Caçador de Judeus, como ele se auto-intitula, tem como prazer mostrar que é o melhor no que faz. E nós sabemos que essa é a mais pura verdade.

The Tarantino Way

Existe algo em filmes de guerra que é consideravelmente desagradável: nazistas falando inglês. Franceses falando inglês. Russos falando inglês. Diretores deviam saber que não adianta você obrigar um cara a falar inglês com um sotaque soviético: vai continuar sendo inglês. Mas nós não estamos falando de um diretor qualquer, aqui: estamos falando de Tarantino. E qual é seu modus-operandi? Traduzindo em bom português: se vai fazer, faz direito. E ele fez, de novo.

Na cena inicial, na qual Hans Landa interroga um fazendeiro francês que esconde vizinhos judeus em seu sótão, o diálogo inicial entre o nazista e o dono da propriedade é travado em francês. À pedido do personagem de Waltz, eles começam a conversar em inglês. O melhor: com um motivo. O palpite de Landa é que os vizinhos, fugitivos, não sabiam falar inglês. E, de fato, não sabiam.

Hitler e os oficiais alemães falam, graças à Deus, alemão. Uma cena memorável do filme (apesar que todas o são) mostra um diálogo entre Aldo Rayne e um oficial alemão que não fala inglês, precisando, então, da necessidade de um tradutor (um dos Bastardos, alemão). A opção por utilizar o inglês (ou simplesmente eliminar essa cena), que salvaria minutos de filme, foi ignorada pura e simplesmente para manter uma semelhança com a realidade.

Vale lembrar, igualmente, da cena que passa-se em uma taverna, depois de um jogo de adivinhações entre os Bastardos, Bridget von Hammersmark (Diane Krueger) e oficiais da Gestapo. O motivo que desencadeia uma sequência de ação só poderia sair da cabeça de Tarantino. E já que falamos nisso, a ultraviolência está lá, como não poderia faltar. Seja na execução de um oficial nazista com um taco de baseball (nota do artilheiro: na terceira vez que fui ao cinema para assistir Inglórios, procurei algumas pessoas que também assistiam o filme, com os cantos dos olhos, nas cenas de maior violência. Poucos olharam durante o tempo todo a execução do alemão ou o método de persuasão que Aldo Rayne usou em Mimieux) ou na apresentação de Hugo Stiglitz, Tarantino mostra que não perdeu a mão.

Once Upon a Time, in a Nazi Occupied France…

Soldados americanos (e judeus) são largados na França, como civis, com uma única missão: matar o máximo de nazistas que puderem. Não existe uma missão explanada, complexa, que possa ser interferida por militares do alto escalão, em uma mirabolante rede de intrigas: os Bastardos devem aterrorizar os nazistas, e destruir o máximo de oficiais alemães que conseguirem. Dentre seus métodos, o escalpelamento é, sem sombra de dúvidas, o mais criativo. Mais que uma missão de encontrar e destruir, os Inglórios sempre deixam um soldado vivo, para voltar ao Fuhrer e contar a história.

Durante duas horas e meia, temos a chance de observar Quentin Tarantino reescrever a história, usando suas inúmeras referências (é quase desnecessário comentar o quão incrível é que o plot todo da história acabe por girar na exibição de um filme de guerra em uma sessão que abrigará todo o grande comando nazista, e a possibilidade de matar todos ali mesmo) e utilizando diversos estilos de se fazer cinema para criar, como sempre, o seu próprio.

O artilheiro que vos escreve preferiu não falar de Melanie Laurent, que interpreta a judia Shosanna Dreyfus, porque não quero me apaixonar de novo.

Para mandar os soldados de volta para Hitler, como já mencionado aqui, Aldo Rayne lhe desenha uma suástica, talhando o desenho na testa do nazista com uma faca. Ao fazer isso novamente, na cena final do filme, Danny Donowitz olha para seu comandante e diz as seguintes palavras: acho que o senhor acabou de fazer sua obra-prima. Essa cena, rodada com a marca registrada de Tarantino, a “tomada do porta-malas”, na qual os atores olham para baixo, me deu a nítida impressão que esse foi um recado direto de Tarantino para nós. Bastardos, junto com Cães de Aluguel, é considerado a obra-prima do diretor. E, apesar de – por motivos pessoais – preferir Cães de Aluguel, Inglórios está na minha lista definitiva dos meus 10 filmes favoritos de todos os tempos. E se não está na sua, ainda, tá na hora de assistir de novo.

Curiosidades:

  • Adam Sandler foi sondado para interpretar Danny Donowitz; devido à problemas na agenda, o papel ficou com Eli Roth.
  • Hugo Stiglitz é o nome real de um ator mexicano.
  • Eli Roth ganhou 15kg para interpretar o Urso Judeu
  • Michael Madsen (Mr Blond) participaria do filme como Babe Buchinsky; nem Madsen, nem o personagem aparecem no filme.
  • Tarantino é o primeiro soldado nazista a ser escalpelado pelos Inglórios
  • Harvey Keitel (Mr White) é quem faz a voz do negociador que tenta um acordo com Hans Landa

Referências:

  • Once Upon a Time in West, filme com Henry Fonda e Charles Bronson, foi a inspiração de Tarantino para o primeiro capítulo do longa.
  • Na cena do tiroteio no cinema, Donny Donowitz está intencionalmente na mesma posição e com a mesma expressão de Tony Montana (Al Pacino) em Scarface.
  • “Duas batidas: eu te bato, você bate no chão”, frase que Donowitz profere, foi retirada do filme O Clube dos Cinco.
  • Existe uma alusão ao Clube da Luta quando Brad Pitt diz: “Você sabe, lutar em um porão oferece muitas dificuldades. A número um é, você está lutando em um porão.”

Não se esqueça de participar da nossa promoção À Prova de Morte, que vai te dar dois ingressos pra qualquer cinema Playarte que esteja exibindo o último filme de Tarantino lançado no Brasil! Basta dar RT nesse tweet e seguir o AC!

Especial Artilharia Cultural – Admirável Som Novo (Parte III)

Novos sons

por Marcel

Bem vindo à última parte do especial Admirável Som Novo concedido exclusivamente aqui no Artilharia Cultural.

Prometi trazer aos leitores, boas indicações musicais que nasceram nesse novo século. Mas antes de simplesmente citar os grupos que merecem atenção é preciso fazer uma ressalva a como eles, habitualmente chegam lá.

Como já dito na primeira parte,  a inclusão digital de boa parte do mundo virou a indústria fonográfica de penas para o ar. Contando que o pólo era dominado por corporações graúdas como Sony e Warner. Logo, na segunda parte, falamos desse novo terreno, a demanda musical aumentou e até o usuário dos sites de música, ou os que simplesmente baixavam músicas, evoluiu. E como resultado de toda essa ebulição, ganhamos muito, no que se diz em variedade.

Assim, a Arte ficou mais disputada pelos novos gêneros, os modismos pré-estabelecidos pegavam cada vez menos. A recente corrente emocore, foi absolutamente disseminada por bandas novas, em suas páginas em sites de relacionamento como Purevolume e só depois incorporados pelas grandes empresas com contratos e tudo mais. Assim, a moda que envolve a música parou de ser uma exclusividade das grandes empresas já que o ouvinte pôde optar melhor.

As mudanças no mundo da música ainda não cessaram, nem ao menos adaptamo-nos as primeiras mudanças e novidades surgem por todos os cantos. O especial cuidou de falar do que está mais latente e talvez você não conhecia. Mas no fim das contas o ouvinte que tem um leque quase infinito de títulos e gêneros para escolher, merece saber que existe sim, coisa melhor do que aparece nos grandes veículos.

O que há de fresco:

Começamos falando de Rock, e terminaremos falando de Rock…

No País da Rainha

A banda Arctic Monkeys formada em 2002 representa bem as diversas outras bandas de valor que surgiram com o que há de recente no rock britânico. Se você já conhece e gosta, tem mais indicações aqui: Kaiser Chiefs, Franz Ferdinand, e Editors.

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Nos EUA

Amem ou odeiem Kings of Leon é um dos maiores achados do rock dos Estados Unidos nesses últimos anos. A banda mistura bem a vocalização forte que embalou o blues com as guitarras e efeitos do que há de mais moderno. Ainda existem outras indicações vindas do país do Tio Sam depois da era digital: 30 seconds to mars, Incubus, Fall Out Boy, The Killers e The Black Keys.

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Brazucas – O que há de novo aqui

Os anos 90 foram inesquecíveis para o gênero aqui no Brasil. Nasceram hits de Raimundos, Charlie Brown Jr., Nação Zumbi e O Rappa. Isso fez com que muitos afirmassem que o estilo decairia com a internet que espalharia tudo o que é bom por aí. O tempo passou e realmente pouca coisa boa apareceu. Entre os sucessos dividiram prêmios de revelação bandas como Pitty, Fresno, Nx Zero e Cine. Mas a única das supracitadas que o artilheiro indica pela evolução em qualidade é a banda gaúcha liderada por Beto Bruno. Portanto, se ainda não ouviu os últimos trabalhos do Cachorro Grande, procure mais, principalmente o disco Todos os Tempos. Ainda cito entre as indicações duas bandas fresquinhas que andam dando ar para o gênero: Sabonetes e Vivendo do ócio.

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Mais indicações do Artilharia para todos os gostos além do Rock?

Conheça a coluna Com vocês.

Eu fico por aqui, foi um prazer. Comentem e sugiram mais.

Especial Quentin Tarantino – Reservoir Dogs


Como vocês já devem ter percebido, eu sou cinéfilo de carteirinha. Acredito que devo ser o Artilheiro que menos varia entre assuntos e editorias: minha praia acaba sendo, invariavelmente, o cinema. Explicar-lhes-ei um dos motivos que me atraem tanto, quando chega a hora de falar da sétima arte:

Dizem que a música nos faz ir para outro universo, viajar, sair de nós… E eu acredito que o cinema consegue fazer isso de uma maneira ainda mais poderosa. Ele nos apresenta elementos audiovisuais. Nos dá o mundo ali, entregue. Seja na sala de cinema (onde o efeito é consideravelmente maior, levando em conta o ambiente e o tamanho da tela) ou no conforto da sua casa, quando você está assistindo um filme, você está dentro dele. Você se coloca no lugar dos personagens, sente, torce, sofre, ri, chora. E nós precisamos convir que sempre existiu uma maneira “certa” de se fazer filmes. Começo, meio, plot twists (uma reviravolta na história) e um final. Tudo isso acompanhado de uma certa linearidade (os eventos ocorrem em uma ordem, sem misturar as partes do filme, no máximo com a introdução de flashbacks para explicar a história).

Mas de repente, um cara nascido em Knoxville (estado do Tennessee, e se eu fosse você eu lembraria disso até o fim desse especial), que assistia muitos filmes, começou a fazer alguns roteiros. Roteiros bons, que os estúdios gostariam, mas não o deixariam dirigir… Você precisa ser alguém, primeiro. O que ele fez? Vendeu dois roteiros para os estúdios, e, assim que tornou-se um nome conhecido entre os figurões dos estúdios, partiu para dirigir aquele que é considerado, por muitos, o melhor filme de Quentin Tarantino e um dos melhores filmes de todos os tempos: Cães de Aluguel.

O que dizer de um filme que começa pelo meio, avança para perto do fim, volta pro começo e depois acaba indo direto para o final? Vamos mais longe: o que dizer de um filme que começa com cerca de 8 caras em uma mesa (dentre eles o já consagrado Harvey Keitel, o sensacional Steve Buscemi e o próprio Quentin Tarantino, que é quem comanda o diálogo) discutindo sobre a música Like a Virgin, da Madonna. A cena inicial do filme é tão desconexa e tão genial que criou, por si só, uma referência em qualquer conversa sobre Tarantino. É impossível não ficar extasiado com a sagacidade descrita ali.

Somos apresentados, então, depois desse prólogo, aos Cães de Aluguel. Ladrões, homens cujo passado desconhecemos, que aparentam estar juntos para roubar um banco. A sequência de créditos que segue, dando nome aos atores, de repente acaba e a cena é cortada para Mr. Orange (Tim Roth) e Mr. White (Keitel) dentro de um carro, fugindo. Orange está ferido, e… Ué. Eles não haviam acabado de começar o filme? Pois é. It’s the Tarantino way. O assalto já aconteceu, e a gente sabe que algo deu errado. Para onde eles estão indo? Um galpão abandonado, que serviu de lugar de encontro para os meliantes.

Lá, White e Orange encontram Mr. Pink (Buscemi), outro que conseguiu fugir com uma maleta. Em meio à discussões acaloradas que envolvem levar ou não Orange – gravemente ferido – para o hospital e o que fazer com a mala, surge o típico personagem que rouba a cena nos filmes de Tarantino: Mr. Blond (Michael Madsen). Você deve ter assistido Bastardos Inglórios (que vai aparecer por aqui em breve); lembra de Hugo Stiglitz? É o Mr. Blond com mais armas. O elemento violência, aliás, é uma máxima nos filmes de Tarantino.

A história se divide em atos, cada um explicando um pouco de cada personagem e o que, de fato, aconteceu. Tarantino ignora qualquer linearidade, e passa a nos providenciar cenas memoráveis. Passo a passo, começamos a acreditar que estamos entendendo tudo… Mas acabamos por esquecer que estamos assistindo um filme de um diretor que revolucionou a maneira de fazer cinema.

Cães de Aluguel, com sua “singela” uma hora e quarenta minutos, consegue fazer mais do que muito filme policial tentou em duas horas e meia. Sem precisar de explosões, de sequências de perseguição ou de um elenco conhecidíssimo, é o tipo de filme que te causa algumas das sensações descritas no início desse post: angústia (não há palavra melhor para descrever uma cena peculiar entre Mr. Blonde, um policial capturado e uma faca), raiva (de um dos personagens que, como só saberemos no final, traiu o resto dos Cães de Aluguel), expectativa (que nunca se satisfaz, já que tudo acontece quando menos esperamos) e muito mais. Meu conselho é apenas um: assista Cães de Aluguel quantas vezes puder, durante toda sua vida. Vai valer à pena.

Acha que o post acabou? Agora vem a parte legal. Quentin Tarantino é conhecido por utilizar inúmeras referências em seus filmes. Listaremos, então, algumas encontradas em Cães de Aluguel.

  • Straw Dogs (Sob o Domínio do Medo – 1971, com Dustin Hoffman) foi uma das inspirações do diretor para o título do filme.
  • The Talking of Pelham 123 (O Sequestro do Metrô 123 – 1974, versão original) foi o filme que deu a ideia para Tarantino utilizar, com codinomes para os bandidos, nomes de cores.
  • A Better Tomorrow II (1987, de John Woo) foi a inspiração para que todos os “cães” usassem ternos, assim como os personagens desses filmes.
  • Na sequência inicial, Mr. White diz a seguinte frase: “Se você atirar em mim enquanto sonha, é bom que acorde e se desculpe”. A frase é baseada no boxeador Muhammad Ali que, certa vez, disse: “Se você um dia chegar a sonhar em me bater, é melhor que acorde e se desculpe”.
  • Em uma determinada cena, Mr. Orange menciona o filme The Lost Boys (Os Garotos Perdidos – 1987, na época que o diretor, Joel Schumacher, ainda não havia colocado mamilos no Batman); acredita-se que é proposital, pois o vilão do filme supracitado trabalhava em uma locadora de filmes, assim como Quentin.

Chegamos ao fim da nossa primeira parte do Especial Quentin Tarantino. Curte Cães de Aluguel? Tem um Mr. preferido? O que achou do final? Comenta aí embaixo, e não esquece de participar da nossa promoção À Prova de Morte, que vai te dar dois ingressos pra assistir o último filme do mestre! Basta dar RT nesse tweet e seguir o AC!

Amanhã eu vou falar de Pulp Fiction, e espero você por aqui.

Avante, soldados!

Promoção AC te leva pro cinema – À Prova de Morte

Os escritores do Artilharia Cultural nunca ganharam um real com o site. Ele começou com uma brincadeira de faculdade entre os artilheiros Lucas e Marcel (ambos são estudantes de Jornalismo, em São Paulo). Com o passar do tempo, felizmente, o que teve início como uma brincadeira foi tornando-se coisa séria, e hoje o AC (apesar de ainda ser bancado do próprio bolso de seus integrantes) registra uma média de 500 visitas diárias.

Por mais que pareça pouco, o site mal completou um ano, e cada visita significa muito. Saber que vocês passam por aqui e gastam seu tempo (algo que, nos dias de hoje, é muito valioso) para ler o que escrevemos é o que nos dá tesão para continuar escrevendo. Independente de 5, 50 ou 500 visitas, o que nos faz feliz é saber que existem pessoas por aí que gostam do que nós escrevemos, que fogem do senso-comum, das notícias enlatadas, das futilidades e de, sei lá, Crepúsculo.

Indo direto ao assunto, agora, já que você deve ter lido isso aqui numa velocidade igual à que o @lucasbaranyi correria se visse a Scarlett Johansson na rua, o negócio é o seguinte:

O AC descolou dois ingressos para o filme À Prova de Morte, último longa do sensacional Quentin Tarantino. E ao invés de utilizarmos os ingressos, nós vamos sorteá-los pra você, leitor. Tudo o que você tem que fazer é dar RT nesse tweet e seguir o Artilharia Cultural (@artilhariacult). A promoção começa hoje, dia 25, e acaba na sexta-feira (30). Aí você me pergunta: por quê DIABOS 6 dias de espera? Porque a partir de amanhã, caro soldado, o AC vai promover um Especial Quentin Tarantino. O artilheiro Lucas escolheu seus 5 filmes favoritos que Quentin dirigiu e/ou roteirizou, e irá resenhá-los, um por dia, para vocês. Consideremos isso como uma prévia do que você assistirá em À Prova de Morte. Aliás, que já seja feito um convite aqui: você, o futuro ganhador do par de ingressos, está convocado para resenhar o filme para nós!

Importante!

O sorteio ocorrerá de forma aleatória, no sorteie.me, e os ingressos são válidos para qualquer sala de cinema PLAYARTE. Nós entraremos em contato com o vencedor via DM para combinar o envio dos ingressos.

Que a sorte esteja com vocês!

Avante, soldados!