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Archive for the ‘Por trás da música’ Category

Por trás da Música – Circuladô de Fulô

O Por trás da Música é uma coluna musical, mas já que estamos num site que trata de tudo que é peça, por que não mesclar um pouco de literatura no balaio?

Circuladô de Fulô

Compositor: Haroldo de Campos (poema do concretista)

Intérprete: Caetano Veloso

Disco: Circuladô – 1991


O poeta mais barroco entre os concretistas, Haroldo de Campos nasceu no 1929 de crise financeira no mundo e faleceu no 2003 numa São Paulo mais plena que nunca. Campos deixou um acervo considerável de poemas inspiradores. Sua peça mais conhecida, “Circuladô de Fulô” foi musicado por Caetano Veloso numa versão fascinante. O próprio cantor baiano gostou tanto da versão que acabou apresentando a canção em três de seus discos.

Confira abaixo, o poema da escola Concretismo na íntegra:

Circuladô de Fulô

circuladô de fulô ao deus ao demo dará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
circuladô de fulô e ainda quem falta me dá
soando como um shamisen e feito apenas com um arame
tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino
mas para outros não existia aquela música
não podia porque não podia popular aquela música se não canta não é popular
se não afina não tintina não tarantina
e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria
física e doendo doendo
como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão
coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro prego cego
durando na palma polpa da mão ao sol
circuladô de fulô ao deus ao demo dará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
circuladô de fulô e ainda quem falta me dá
o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro
da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia
azeitava o eixo do sol
circuladô de fulô ao deus ao demo dará
que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
circuladô de fulô e ainda quem falta me dá
e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie
desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe
me esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto que
no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me
reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se
verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz
cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que
me ensinou já não dá ensinamento
circuladô de fulô ao deus ao demo dará
que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
circuladô de fulô e ainda quem falta me dá

A versão apresentado por Veloso em seus discos, segue a risca a leitura concretista do poema de Haroldo. No mais, deve se fazer um comentário sobre a maneira sombria com que a música e expressada. A poesia me fala do povo, essencialmente do brasileiro, mas tem ainda várias outras interpretações. Paratanto, é assim que, em meio a dois artistas de segmentos distintos, perdidos em meio a prêmios Jabiti ou discos de platina que “Circuladô de Fulô” deve ser enxergada por detrás.

Ouça a musicalização:

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Por trás da música – Chocolate

O Por trás da Música de hoje, é mais uma análise pessoal e intrigante de uma música que para muitos, até parece boba.

A cantora, intérprete e compositora Marisa Monte é, sem dúvida, uma das artistas mais estimuladas da MPB no Brasil nos dias de hoje. Tim Maia foi um dos grandes nomes do gênero. Carioca, multi-instrumentista, era conhecido por sua banda como o “síndico”, pela forma como colocava “a ordem na casa”.

A relação entre esses dois nomes se cruzam na canção “Chocolate” da década de 80. A composição de Tim tem uma intenção inocente e pouco enérgica.

Chocolate

Compositor: Tim Maia

Intérprete: Marisa Monte

Disco: Marisa Monte – 1988

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Chocolate! Chocolate! Chocolate!
Eu só quero chocolate
Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná
Prá mim é chocolate
O que eu quero beber…(2x)

Não quero chá
Não quero café
Não quero coca-cola
Me liguei no chocolate
Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná
Prá mim é chocolate
Que eu quero beber…

Chocolate! Chocolate! Chocolate!

Chocolate! Chocolate! Chocolate!
Eu só quero chocolate
Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná
Prá mim é chocolate
O que eu quero beber…(2x)

Não quero chá
Não quero café
Não quero coca-cola
Me liguei no chocolate
Eu me liguei!
Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná
Prá mim é chocolate
O que eu quero beber…

Chocolate! Chocolate! Chocolate!

-O Senhor aceita um cafezinho?
-Não! Eu quero chocolate!

Em 1989, o disco debutante de Marisa traria a canção de Maia com algumas alterações na letra.

Chocolate, chocolate, chocolate
Eu só quero chocolate….

Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim

É chocolate que eu quero beber
Não quero , não quero rapé
Não quero cocaína, me liguei no chocolate
Eu me liguei, só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber
Chocolate, chocolate, chocolate
Eu só quero chocolate….

Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber
Não quero chá, não quero café
Não quero coca-cola, me liguei no chocolate
Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber
Chocolate, chocolate, chocolate
Eu só quero chocolate…. ui ui é

Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber

Chocolate, chocolate, chocolate
Chocolate, chocolate, chocolate
chocolate, chocolate, chocolate
É proibido fumar, chocolate, ui, ui ui..
É proibido fumar
É proibido fumar

Particularmente, conheci a música através de uma amiga de escola no ensino fundamental. É claro que o apelo ao alimento desejado pelo sexo feminino dá uma visibilidade enorme para a canção. Mas a versão de Monte, talvez explicite o que Maia quis dizer em 80. Ou ainda, que ela use de uma canção famosa para uma mensagem um pouco diferente da original.

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Não é fácil de notar, na faixa interpretada por Marisa, trechos em que a cantora diz “Legalize Marijuana” ou ainda “É proibido fumar”. Além do que, esses trechos não estão na letra assinada por Tim Maia juntamente com outros que está escrito “Não quero pó” ou ainda “não quero cocaína, me liguei no chocolate”.

A observação que fiz então, diz sobre o que é o chocolate para Tim não é o que é para Marisa. Enquanto a versão original do “síndico” fala da fascinação pelo chocolate, a de Monte pode estar tentando dizer algo a mais. Mas isso fica por conta do soldado.

Uma ajudinha?

“Legalize Marijuana”

“Não quero Rapé

“Não quero Pó, cocaína

Por trás da música – Ideologia

A década de 80, para a música nacional foi toda feita de tumultos. Novos ícones no pop, novas influências sobre o rock. Entre esse fervor existia um garoto que “iria mudar o mundo”, um carioca que nunca ficava “em cima do muro”. Agenor de Miranda Araújo Neto ou Cazuza como era mais conhecido mostraria ao mundo uma das canções mais ácidas e amarguradas que a música nacional já fez. No final da década de 80, “Ideologia” ficaria nas principais paradas de sucesso e, apesar de nenhum dos artilheiros fosse nascido na época, não fica difícil entender do que se trata a peça que virou símbolo e hino de uma geração.

Compositor: Cazuza

Intérprete: Cazuza

Ano:  1988

Disco: Ideologia 1988

Em 1985 – dois anos antes do lançamento do disco que continha “Ideologia” “Brasil” e “Faz parte do meu show” – Cazuza descobriria seu real estado de saúde. A reação do cantor ao saber que era portador do vírus HIV foi suficientemente preocupante para que seus pais o levassem para um tratamento nos Estados Unidos. Dois anos depois, já de volta ao país, Cazuza começaria a gravação do disco Ideologia.

Ideologia – Cazuza

Meu partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato
Que eu nem acredito
Ah! eu nem acredito…

Que aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Frequenta agora
As festas do “Grand Monde”…

Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Eu quero uma pra viver…

O meu tesão
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs
Não tem nenhum rock ‘n’ roll
Eu vou pagar
A conta do analista
Pra nunca mais
Ter que saber
Quem eu sou
Ah! saber quem eu sou..

Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro
Em cima do muro…

Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Pra viver…

Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro
Em cima do muro…

Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Eu quero uma pra viver..
Ideologia!
Pra viver
Ideologia!
Eu quero uma pra viver…

A primeira faixa do disco tinha 4 minutos de um Cazuza nunca antes visto.”Ideologia” tem uma letra ácida e irônica. Duas características que são explicadas pelo estado frágil que Cazuza se encontrava. A aversão ao governo Sarney que foi de 85 até noventa e a mágoa de ser visto com preconceito por ser soropositivo por seus próprios irmãos brasileiros deram ao disco todo um teor de protesto. E numa escala, Ideologia é a canção que mais toca fundo na ferida.

Para explicar o pouco que fica sem explicação, eu deixo o soldado por conta de um texto escrito pelo próprio Cazuza.

“Ideologia, eu quero uma pra viver”

Cazuza sobre a sua Ideologia.

“A minha ideologia é a da mudança. Nada de partido político. É a coisa de mudar o Brasil, em qualquer dimensão. Eu não tenho Partido, sério. Mas estou com as pessoas que podem mudar alguma coisa, dou a maior força. Sou socialista por vocação, por natureza, por amor mesmo. Porque acho que o socialismo está no meio, está entre o comunismo ditatorial e o capitalismo selvagem, num ponto onde a iniciativa privada pode dar alguma coisa também. “

“Quando fiz “Ideologia”, nem sabia o que isso queria dizer, fui ver no dicionário. Lá estava escrito que indica correntes de pensamentos iguais e tal… A música, por sua vez, é muito pessimista, porque, na verdade, é a história da minha geração, a de 30 anos, que viveu o vazio todo. É meio amarga porque a gente achava que ia mudar o mundo mesmo e o Brasil está igual; bateu uma enorme frustração. Nos conceitos sobre sexo, comportamento, virou alguma coisa, mas deixamos muito pelo caminho. A gente batalhou tanto e agora? Onde chegamos? Nossa geração ficou em que pé? “

“Antes de mais nada, mudou o patriotismo. Pra mim, o patriotismo não é essa coisa símbolos, como a bandeira. Mexe muito mais com o sentimento. Quando me enrolei na bandeira, no Rock in Rio, eu estava acreditando. A coisa de cuspir na bandeira, três anos depois, foi contra aquele ato teatral do espectador. Eu estava cuspindo no símbolo, na bandeira que simboliza mesmo é a família Orleans e Bragança. Acho que não é hora de teatro com bandeira. O momento é de criticar, de virar a mesa, de sair da merda. Antes eu me enrolei foi aquele clima de Tancredo Neves. Eu estava, como todo povo, inebriado por um sentimento de mudança, de esperança. A coisa do vai-pra-frente, algo lindo, um movimento sincero que se esvaziou por erro dos políticos. No Rock in Rio, cantei por dez minutos com a bandeira, sonhei, acreditei. Quando eu era adolescente, também acreditava. A gente não tinha descoberto a vaselina, o conchavo. Entrava com garra mesmo. Nem sei mais se essa garra existe hoje com os novos adolescentes. “

“o meu prazer, agora é risco de vida”

Cazuza sobre a AIDS

“De qualquer maneira, a Igreja e a direita estão com a faca e o queijo na mão. Já nem acho que tenha sido a CIA que botou o vírus da AIDS no mundo. Eles simplesmente usaram a doença. Botam na tevê que a AIDS mata para as pessoas ficarem horrorizadas com aquilo. É tudo um complô mesmo. Tanto que, na Europa, a coisa é tratada diferente, sem esse moralismo medieval. Mas aqui eles usam a coisa legal mesmo. Usaram, mas não conseguiram. Eu vejo as pessoas se amando muito, está todo mundo ótimo, com camisinha ou sem camisinha. Eles não venceram, não. E isso é luz. No disco que vou lançar, as músicas são assim, muito felizes, muito pra cima, cheias de luzes.”

“meus inimigos estão no Poder”

Cazuza sobre o governo Sarney e o fim do regime militar de 89.

“Aquele show no Palace foi uma coisa muito louca, porque eu acho que ele foi histórico para São Paulo… Teve as eleições de 15 de novembro e no primeiro de dezembro eu estava lá. E tinha aquele clima de euforia, as pessoas querendo acreditar novamente que tudo vai mudar, que pode mudar… Tanto que eu considero ‘Ideologia’ , ‘Brasil’, e ‘O tempo não pára’ uma trilogia de Sarney ao PT no poder. É uma trilogia de esperança… Eu nunca tive medo de falar quando eu estava de baixo astral. Acho que a gente não pode ficar ‘tudo bem’ o tempo todo: o mundo é ruim, as pessoas são ruins, o mal sempre vence, então tem esse lado forte. Mas agora estou numas da corrente do bem. Tô nessa e acho genial. Tudo bem: o mal tá lá, as pessoas ruins estão lá, pessoas mesquinhas, mas não vão me atrapalhar mais. Não vou mais sofrer por causa delas”.

Por trás da música – O Mestre-sala dos Mares

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Em 1910, o militar Hermes da Fonseca foi eleito para a presidência. Nessa época, o Brasil era a terceira maior potência naval do mundo. Embora a escravidão já tivesse terminado havia algumas décadas, os trabalhadores dos navios eram em sua maioria negros que recebiam constantemente punições corporais, como se as péssimas condições a que se submetiam já não fossem suficientes. O uso da chibata já fora proibida em um dos primeiros atos do regime republicano, mas continuava sendo usado ilegalmente pelos oficiais. O marinheiro João Cândido Felisberto, analfabeto e filho de escravos, organizava uma revolta que pusesse fim à humilhação quando uma seção de tortura particularmente cruel apressou seus planos. Oficiais e comandantes são mortos, seis navios estão tomados pelos marinheiros e cerca de oitenta canhões estão apontados para o Palácio do Governo no Rio de Janeiro, ameaçando a cidade e o poder do presidente recém eleito. O episódio ficou conhecido como a Revolta da Chibata, que até atingiu seus objetivos, mas recebeu a resposta do governo logo depois com a perseguição desenfreada aos marinheiros. Somente João Cândido e João Avelino sobreviveram à prisão. Cândido, o líder, acabou internado em um hospício e morreu de câncer, esquecido pelo mundo, em 1969.
E foi dessa história que surgiu a canção O Mestre-sala dos mares, inicialmente intitulada Almirante Negro.

O mestre-sala dos mares

Compositores: Aldir Blanc e João Bosco

Intérprete: João Bosco / Elis Regina

Ano:  1973

Disco: Caça à raposa / Elis 1974

A letra original foi censurada, como explica o próprio Aldir Blanc:

Almirante Negro

(Letra original)

Há muito tempo nas águas da Guanabara

O dragão do mar reapareceu

Na figura de um bravo marinheiro

A quem a história não esqueceu

Conhecido como o almirante negro

Tinha a dignidade de um mestre sala

E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas

Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas

Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas jorravam das costas

dos negros pelas pontas das chibatas

Inundando o coração de toda tripulação

Que a exemplo do marinheiro gritava então

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias

Glória à farofa, à cachaça, às baleias

Glória a todas as lutas inglórias

Que através da nossa história

Não esquecemos jamais

Salve o almirante negro

Que tem por monumento

As pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo.

“Tivemos diversos problemas com a censura. Ouvimos ameaças veladas de que o CENIMAR não toleraria loas e um marinheiro que quebrou a hierarquia e matou oficiais, etc. Fomos várias vezes censurados, apesar das mudanças que fazíamos, tentando não mutilar o que considerávamos as idéias principais da letra. Minha última ida ao Departamento de Censura, então funcionando no Palácio do Catete, me marcou profundamente. Um sujeito, bancando o durão, ficou meio que dando esporro, mãos na cintura, eu sentado numa cadeira e ele de pé, com a coronha da arma no coldre há uns três centímetros do meu nariz. Aí, um outro, bancando o ‘bonzinho’, disse mais ou menos o seguinte: ‘Vocês não então entendendo… Estão trocando as palavras como revolta, sangue, etc. e não é aí que a coisa tá pegando…’ Eu, claro, perguntei educadamente se ele poderia me esclarecer melhor. E, como se tivesse levado um telefone nos tímpanos, ouvi, estarrecido a resposta, em voz mais baixa, gutural, cheia de mistério, como quem dá uma dica perigosa:

‘O problema é essa história de negro, negro, negro...

Eu havia sido atropelado, não pelas piadinhas tipo tiziu, pudim de asfalto etc, mas pelo panzer do racismo nazi-ideológico oficial. Decidimos dar uma espécie de saculejo surrealista na letra para confundir, metemos baleias, polacas, regatas e trocamos o título para o poético e resplandecente ‘O Mestre-Sala dos Mares’, saindo da insistência dos títulos com Almirante Negro, Navegante Negro, etc. O artifício funcionou bem e a música fez um grande sucesso nas vozes de Elis Regina e João Bosco. Tem até hoje dezenas de regravações e foi tema do enredo ‘Um herói, uma canção, um enredo – Noite do Navegante Negro’, da  Escola de Samba União da Ilha, em 1985.

Orgulho-me de, por causa deste samba, ter recebido a Medalha Pedro Ernesto, com João Bosco e o próprio Edmar Morel – infelizmente também já falecido – na presença dos filhos de João Cândido.”

O mestre-sala dos mares

(Letra após a censura do regime militar)

Há muito tempo nas águas da Guanabara

O dragão do mar reapareceu

Na figura de um bravo feiticeiro

A quem a história não esqueceu

Conhecido como o navegante negro

Tinha a dignidade de um mestre sala

E ao acenar pelo mar na alegria das regatas

Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas

Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas jorravam das costas

dos santos entre cantos e chibatas

Inundando o coração do pessoal do porão

Que a exemplo do feiticeiro gritava então

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias

Glória à farofa, à cachaça, às baleias

Glória a todas as lutas inglórias

Que através da nossa história

Não esquecemos jamais

Salve o navegante negro

Que tem por monumento

As pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo

Por trás da música – Sabiá

O ano era o emblemático 1968. O Brasil vivia a parte mais darkside e underground de sua ditadura militar. A música popular, a chamada MPB, estava em alta, e os seus festivais eram a grande atração geral. Seus festivais eram disputadíssimos, e justamente num deles é que se passa a história dessa música – a minha preferida entre todas desse mundo, diga-se de passagem.

Sabiá

Compositores: Chico Buarque e Tom Jobim

Intérprete: Chico Buarque

Ano: 1968

Disco: Coletânea Não vai passar vol. 4

Sabiá, na verdade, já existia fazia um tempo. Tom Jobim a tinha composto no piano, instrumental mesmo, e num primeiro momento foi batizada de “Gávea”. Depois, foi conhecer Chico Buarque quando seu amigo Aloísio de Oliveira os apresentou, num encontro do apartamento do maestro. Chico, ainda tímido, mostrou o seu “Pedro pedreiro”, e Tom gostou. Os dois se aproximaram e assim começou a parceria. Primeiro com “Retrato em branco e preto”, depois com “Pois é”, e, finalmente, “Sabiá”. Inscreveram a canção no III Festival Internacional da Canção, promovido pela ainda novata Rede Globo. Chico, descrente de uma possível aprovação, até porque a música realmente não tem clima de festival, foi viajar para o exterior.

Foram defender a música as meninas Cynara e Cybele, ambas do Quarteto em Cy. Como o festival era internacional, primeiro havia uma etapa de classificação entre as músicas brasileiras, e daí, as selecionadas iriam concorrer em outra noite com as músicas dos outros países. Essa primeira eliminatória, no Maracanãzinho, Tom enfrentou sozinho, pois Chico ainda estava em Veneza. A rival de “Sabiá” era “Pra não dizer que não falei das flores”, ou simplesmente “Caminhando” (mais fácil, né), de Geraldo Vandré. Sua letra era totalmente panfletária, de rimas fáceis pela pretensão de se tornar um hino de resistência aos militares. E realmente se tornou – era a preferida pelo público, que a entoava a plenos pulmões desafiando os milicos.

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiá

Debaixo de uma sonoríssima onda de vaias, foi anunciado que “Sabiá” havia vencido a etapa nacional, e, portanto, seria a representante brasileira na outra fase do festival. Há quem diga que os militares não permitiram que a música de Vandré vencesse, prevendo uma possível euforia entre a oposição. Não se sabe se é verdade, mas de um jeito ou do outro, Tom Jobim, enquanto dirigia de volta para sua casa, chegou a encostar o carro para chorar. A vaia tinha sido mais forte que a que soterrou Caetano Veloso com a sua “É proibido proibir”, algumas semanas antes. Depois, Tom enviou a Chico um telegrama, que foi interpretado como uma brincadeira – típica do parceiro.

(clique para ampliar)

Chico regressou a tempo de pegar a finalíssima do FIC, e os dois autores foram representar sua música, dando uma força para Cynara e Cybele. Esta última etapa, “Sabiá” também venceu – mas não mais abafada por tantas vaias, mas ainda assim por diversas críticas. Alegavam que era uma composição fora do contexto social da época, até alienada. Poucas pessoas viram beleza e, inclusive, crítica ao exílio na música. Ao longo do tempo, ela foi interpretada por diversos artistas, como Elis Regina, Clara Nunes, MPB-4 e até Frank Sinatra, em uma versão em inglês feita por Tom.

Escolhi dois vídeos para ilustrar a postagem. O primeiro foi gravado para um especial da Band, na casa de Tom, com o coro dos parentes e amigos. O segundo é um “antes e depois”, com imagens do festival de 1968 mescladas ao programa “Chico & Caetano”. Gosto mais do primeiro.

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Por trás da música – Chega de mágoa

Em 1985, enquanto a Ditadura Militar estava capengando, o Nordeste sofreu um grande problema em relação à chuva. Mas não porque faltou, pelo contrário: a região foi inundada, varrida por grandes enchentes que deixaram milhares de desabrigados. Uma turma musical, ainda muito unido pelo espírito da Diretas Já, juntou seus vocais para gravar um LP com duas músicas. De um lado, “Chega de mágoa”, e de outro, “Seca d’água”. Espelhados no “USA for Africa”, o projeto do We are the world, todo o dinheiro arrecadado com as vendas do compacto seria destinado às vítimas nordestinas.

Chega de mágoa

Compositores: Vários

Intérprete: Vários

Ano: 1985

Disco: Nordeste Já

A música, quem fez, foi Gilberto Gil. A letra teve participação do próprio Gil, do Chico Buarque, Milton Nascimento, Fagner e Erasmo Carlos, mas decidiram que seria divulgado como “criação coletiva”. Ao todo participaram 155 músicos, entre cantores e instrumentistas, em três sessões de gravação na Barra da Tijuca. Os arranjos e a regência ficaram por conta de Dori Caymmi, filho ilustre do mestre Dorival. A Caixa Econômica patrocinou a tiragem inicial de 500 discos.

Sem muitos problemas, pois todos decidiram que os destaques da gravação deveria ficar com os nomes mais populares do momento, foram escalados Tom Jobim, Rita Lee, Milton Nascimento, Gal Costa, Djavan, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Fagner, Elba Ramalho, Gonzaguinha, Caetano Veloso, Simone, Chico Buarque, Fafá de Belém, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Elizeth Cardoso, Paula Toller do Kid Abelha, Roger do Ultraje a Rigor e Tim Maia.

Veja o clipe:

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A introdução, feita por Milton e o piano do maestro soberano Tom Jobim, é, na verdade, palavras de Tancredo Neves, num discurso otimista que anunciava o fim da ditadura. Depois, entram o coro e os artistas já citados aqui. Interessante dizer que a Elizeth Cardoso foi escalada para representar a velha guarda, enquanto a dupla Paula & Roger representava a nova geração musical brazuca. Apesar de ser talvez o maior encontro da música popular brasileira, não deu muito certo. A crítica dizia que as vozes estavam muito desencontradas, o que dificultava no entendimento da letra. E também não pegou muito no povão, tanto é que uma música desse naipe não era para estar esquecida.

“Nós não vamos nos dispersar
Juntos, é tão bom saber
Que passado o tormento
Será nosso esse chão”
Água, dona da vida
Ouve essa prece tão comovida
Chega, brinca na fonte
Desce do monte, vem como amiga
Te quero água de beber
Um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero orvalho toda manhã
Terra, olha essa terra
Raça valente, gente sofrida
Chama, tem que ter feira
Tem que ter festa, vamos pra vida
Te quero terra pra plantar
Te quero verde
Te quero casa pra morar
Te quero rede
Depois da chuva o Sol da manhã
Chega de mágoa
Chega de tanto penar
Canto e o nosso canto
Joga no tempo uma semente
Gente, olha essa gente
Olha essa gente, olha essa gente
Te quero água de beber
Um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero terra pra plantar
Te quero verde, hum
Te quero casa pra morar
Te quero rede
Depois da chuva o Sol da manhã
Canto e o nosso canto
Joga no tempo uma semente
Gente (quero te ver crescer bonita)
Olha essa gente (quero te ver crescer feliz)
Olha essa gente (olha essa terra, olha essa gente)
Olha essa gente (Gente pra ser feliz, feliz)
Te quero água de beber
Um copo d’água
Marola mansa da maré
Mulher amada
Te quero terra pra plantar
Te quero verde
Te quero casa pra morar
Te quero rede
Depois da chuva o Sol da manhã
Chega de mágoa
Chega de tanto penar
Chega de mágoa
Chega de tanto penar

Nelson Motta conta em sua biografia do Tim Maia, que este ofereceu bebida e drogas pra turma no estúdio. Elizeth Cardoso ficou incomodada e recusou: “Tirem esse elefante daqui!”.

É interessante, pra quem gosta, assistir ao clipe e ir tentando reconhecer os artistas. No entanto, segue a lista completa de pessoas envolvidas no projeto e me diz se é pouca bosta:

Aizik, Alceu, Alceu Valença, Alcione, Alves, Amelinha, Antônio Carlos, Aquiles (MPB-4), Baby Consuelo, Bebeto, Belchior, Beth Carvalho, Bussler, Caetano Veloso, Camarão, Carlinhos Vergueiro, Carlão, Celso Fonseca, Charlot, Chico Buarque, Cláudio Nucci, Cristina, Cristovam Bastos, Dadi, Daltro de Almeida, Dinorah (as gatas), Dorinha Tapajós, Dori Caymmi, Ednardo, Edu, Edu Lobo, Eduardo Dusek, Elba Ramalho, Elifas Andreato, Elisete Cardoso, Elza Soares, Emilinha Borba, Eunydice, Erasmo Carlos, Fafá de Belém, Faini, Fátima Guedes, Fernando Brant, Gal Costa, George Israel, Geraldo Azevedo, Gereba, Gilberto Gil, Golden Boys, Gonzaguinha, Guilherme Arantes, Ivan Lins, Jamil, Jacques Morelembaum, Joana, João Mário Linhares, João do Vale, José Luiz, Joyce, Kleiton e Kledir, Kid Vinil, Lana, Leoni, Leo Jaime, Lúcio Alves, Luiz Avellar, Luiz Carlos, Luiz Carlos da Vila, Luiz Duarte, Luiz Gonzaga, Luiz Melodia, Lulu Santos, Magro (MPB-4), Malard, Manassés, Maria Bethânia, Marina, Marlene, Martinho da Vila, Marçal, Maurício Tapajós, Mauro Duarte, Mazola, Miguel Denilson, Mirabô, Miltinho (MPB-4), Milton Banana, Milton Nascimento, Milton Araújo, Miúcha, Moraes Moreira, Olívia Byington, Olívia Hime, O Quarteto, Paulinho da Viola, Patativa do Assaré, Paula Toller, Pareschi, Penteado, Perrotta, Perrottão, Pepeu Gomes, Raimundo Fagner, Rafael Rabello, Reinaldo Arias, Ricardo Magno, Rita Lee, Roberto de Carvalho, Roberto Carlos, Roberto Ribeiro, Roberto Teixeira, Rosane Guedes, Roger (Ultraje a Rigor), Rosemary, Rubão, Rui (MPB-4), Sandra de Sá, Sérgio Ricardo, Simone, Sílvio Cézar, Sueli Costa, Stephani, Tânia Alves, Tavito, Teo Lima, Telma, Telma Costa, Terezinha de Jesus, Tim Maia, Tom Jobim, Tunai, Verônica Sabino, Vilma Nascimento, Virgílio, Yura, Wagner Tiso, Walter, Zenilda, Zé da Flauta, Zé Ramalho, Zé Renato, Zizi Possi.

Ufa. Sentiu o time?

Fonte:

Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia (Nelson Motta)

Por trás da música – O Bêbado e a Equilibrista

Mais uma que surgiu durante a ditadura. A repressão nos proporcionou uma riqueza cultural imensurável devido à atmosfera de tensão vivida pelo povo que, sem outra opção, precisava encontrar uma maneira de protestar através da arte. Dentre toda a produção musical do período ditatorial, “O Bêbado e A Equilibrista” é uma das canções mais conhecidas. Tornou-se símbolo da luta pela Anistia e um hino pela liberdade de expressão.

O Bêbado e a Equilibrista

Compositores: João Bosco e Aldir Blanc

Intérprete: Elis Regina

Ano: 1979

Disco: Essa Mulher

Fim da década de 70. A pressão para uma abertura democrática no Brasil vem de todas as formas, mas é duramente reprimida. Havia os exilados, os presos, os torturados e o resto, que não tinha armas com que lutar contra o governo, embora também não pudesse continuar como estava. Isso só acabaria com a Lei da Anistia, sancionada no mesmo ano de criação dessa música, depois da luta por liberdade que não parecia ter fim. O Bêbado e a Equilibrista – a utopia e a esperança – traz, em cada verso, um pequeno pedaço de cada batalha.

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A música

Caía a tarde feito um viaduto

Cair a tarde” é mais do que um anoitecer – é algo forte, brutal, se a referência à escuridão já não for suficiente. Era quando as sessões de tortura do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) começavam. Refere-se à queda de uma parte do Viaduto Paulo Frontin (que, claro, era uma obra do  governo), no Rio de Janeiro, em 1971, que deixou 48 mortos.

E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos

Carlitos era um dos personagens mais conhecidos de Charlie Chaplin. Um andarilho usando chapéu-coco, bigode e um paletó muito apertado que, apesar de pobre, age como um cavalheiro. Fica clara a contradição entre “bêbado” e “luto”:  a alegria do vagabundo que tenta driblar a situação e o estado melancólico da sociedade brasileira.

A lua, tal qual a dona do bordel,
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

A Lua não tem brilho próprio, mas como proprietária do prostíbulo, rouba-o das suas empregadas; um brilho fosco e falso.  Há quem defenda a teoria de que a Lua seria a Rede Globo, a dona do bordel da mídia e um dos maiores instrumentos de manipulação na época (não que já tenha perdido o título). Foi justamente durante a ditadura que a Globo se estruturou e ganhou a confiança dos telespectadores que tem hoje. Outros dizem que representa os políticos que se colocaram ao lado do regime militar em troca de benefícios pessoais, mas qualquer música está sujeita a interpretações e eu não estou aqui para decidir a melhor por vocês.

E nuvens, lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas, que sufoco!
Louco, o bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil

Para quem nasceu depois de a caneta esferográfica ter sido inventada, mata-borrão é um papel que absorve a tinta em excesso das canetas-tinteiro para evitar erros, representando alguém em um alto cargo. Como “céu” remete a religiosidade, a alusão é à Igreja Católica, que demorou até assumir uma posição no cenário político, mas acabou pendendo para a democratização do país. É evidente o protesto contra a violência que era usada, em uma noite em que só um bêbado poderia sentir-se alegre, a loucura alcoólica como única justificativa para a aceitação passiva do regime.

Meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete

Chora a nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil

Henfil era na verdade o cartunista, jornalista e escritor Henrique Filho, e o irmão do Henfil, Herbert José de Souza, sociólogo e ativista dos direitos humanos.  Herbert foi um dos exilados, como tantos outros que partiram. “[Pegar um] rabo de foguete” é uma expressão equivalente a “entrar numa fria”, algo feito às pressas e que obviamente vai dar errado.

Já Clarice era esposa do jornalista Vladimir Herzog, que fazia parte do movimento de resistência contra o regime e teve um suicídio por enforcamento muito mal forjado em uma cela do DOI-CODI. Maria, por sua vez, era esposa do metalúrgico Manuel Fiel Filho, torturado até a morte sob a acusação de fazer parte do Partido Comunista Brasileiro, embora seu real crime tenha sido ler o jornal A Voz Operária.  No plural, “Marias e Clarisses” são todas as mulheres, sejam mães, filhas ou esposas, que sofreram por alguém que fora torturado ou exilado.

Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar

A expressão artística, única arma disponível para defender a democratização, seria usada exaustivamente pelos artistas que não se conformavam com a opressão. O comportamento da sociedade vivia na corda bamba, sempre por um triz de ser pego fora da linha estipulada pelos militares. Mas… Azar! O show tem de continuar.

Por trás da música – Roda Viva

Assim como o Artilheiro Scognamiglio, eu curso Jornalismo. Nós estamos indo para o terceiro semestre e, se posso fazer algum comentário relevante perante o que aprendemos sobre a história de nosso país – e da Ditadura em si -, é que foi um tempo muito complicado no que se diz à liberdade de imprensa. Não estou falando aqui daquilo que muitos defendem erroneamente como a “chance pra falar mal de quem quiser, a hora que quiser”. Refir-me à simples possibilidade de expressar sua opinião. Não se podia criticar o governo (no nosso caso, a Ditadura Militar), e possíveis tentativas de fazê-lo eram reprimidas com uma dura censura. Certas composições, porém, passavam à vista dos censores. Uma delas é, até hoje, uma das músicas favoritas do artilheiro que vos escreve. A composição de Chico Buarque, para uma peça de mesmo nome, é – até hoje – uma das mais belas letras já escritas na música nacional. E, em homenagem a Chico Buarque e, mais que isso, ao Artilheiro Tauil (fã ferrenho do intérprete), dediquei-me a analisar toda a letra da canção, que carrega mensagens subliminares e sutis, em alusão à luta contra a ditadura. Espero que vocês gostem.

Roda Viva

Compositor: Chico Buarque

Intérprete: Chico Buarque e MPB-4

Ano: 1967

Disco: Chico Buarque de Hollanda Vol. 3

Tocada em qualquer roda de samba, citada em qualquer discussão de estudantes de comunicação social, presente na ponta da língua de todo comunista (beijo, @aalecram), Roda Viva é o tipo de música que não enjôa. Que ultrapassa os limites do tempo para tornar-se imortal e única, como poucas músicas conseguem. Em meio à seus 36 versos, esconde mensagens que são captadas de imediato por nossas almas, mas talvez precisem de um pouco mais de atenção para serem absorvidas por nosso intelecto. E, sem mais delongas, vamos à esta.

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A composição de Chico foi feita para trilha sonora de uma peça de teatro homônima, como já dito no início do post; o que não lhes foi dito, porém, é que essa peça – com um alto teor crítico à ditadura graças ao diretor, Zé Celso – foi alvo de ataque de um grupo de extrema-direita, o CCC (Comando de Caça aos Comunistas). Para alguns, os militares foram impedir a Feira Paulista de Opinião, e, não encontrando a peça dirigida por Augusto Boal, derrubaram o Roda Viva para não perder a viagem. Em São Paulo e em Porto Alegre, posteriormente, o grupo atacou o cenário e o elenco, visando impedir que a peça continuasse a ser encenada. Pode ter dado certo – o grupo Oficina, dirigido por José Celso Martinez Correia, parou com as apresentações -, mas anos depois a música foi lançada ao público em um dos LP’s de Chico. Daí, até hoje, é impossível escutar Roda Viva sem pensar em tudo que foi vivido para que a liberdade nos fosse permitida.

Roda Viva

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu…

É nítido o sentimento de impotência que acometia a parcela da população que sabia o tamanho do perigo que o país encontrava-se ao passar por uma Ditadura. Seja ela militar ou não, de direita ou de esquerda… Ditaduras servem apenas para mergulhar um país em ruínas. Para atrasá-lo, se não de modo econômico, mas de modo cultural e social. A maior parte da população era envolta por um véu, achando que estava tudo bem. E aqueles que sabiam que algo estava não podiam fazer muito, podendo sofrer sérias consequências. Era como se não estivessem mais ali (como quem partiu). Como se o mundo já fosse grande demais para eles, e a esperança, pequena. Vale lembrar que o termo estancar remete à sangue (o estancamento de uma ferida, por exemplo), o que denota todo o sofrimento de uma pátria.

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá…

Roda-viva é um movimento contínuo, que não tem fim. É a metáfora, então, da Ditadura, que – sempre atuante e sempre presente – não permite que mudanças sejam feitas. Os dois primeiros versos mostram a vontade de lutar contra tudo o que acontecia, enquanto os dois últimos apenas confirmam a impotência descrita na estrofe nº1. Apesar de querer melhorar tudo, a roda-viva carrega o destino (a mudança) para longe.

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração…

O refrão (repetidos mais algumas vezes e exposto apenas uma vez, em nossa análise) é dono de uma particular beleza, citando diversas palavras com o termo “roda”. Roda mundo, roda gigante, roda moinho e roda pião, dispostos em sequência, dão a sensação de repetição e de continuidade, tal qual a roda-viva, que não para em momento algum. Em alusão à primeira estrofe, que fala do mundo ter crescido sem que se percebesse, isso apenas reafirma que, por mais que você tente ou não mudar algo, consiga ou não… A roda viva não para. O mundo não para para esperar, ou para ajudar.

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá…

Se uma tag pudesse ser inserida nessa análise, eu escolheria a palavra impotência. Ela já foi e continuará sendo repetida aqui e, por mais cansativa que possa ser essa repetição, faz-se necessária. Não existe palavra que faça mais sentido, aqui. Observemos os primeiros quatro versos dessa estrofe. Nos dois primeiros, percebemos que existe a tentativa de causar mudanças e reflexões. Ir contra a corrente é ignorar a massa ignorante (no caso, ignorante por manipulação da própria Ditadura) e tentar elucidá-los. Nos próximos dois versos, porém, admitem que nem tudo foi feito. A “volta do barco” é o retorno, a volta ao ponto inicial. E é aí que enxerga-se que ainda faltava muito. Os quatro últimos versos, assim como na 2ª estrofe, fazem alusão à roda viva. Mais que o desejo de ter “voz ativa”, a esperança é cultivada, coisas boas são plantadas e aqui retratadas como uma “roseira” que, assim como todo o resto, é levado pela imponente roda viva.

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou…

É notável a tristeza que instaura-se na estrofe acima. A saia da mulata não roda mais; não há mais dança, não há mais serenata, não há mais roda de samba. Ignorando por um instante a genial utilização da palavra roda na estrofe, é preciso admirar a genialidade e sutileza de Buarque ao retratar a quietude de um povo frente à censura que, impedido até de lutar pelo seu país, aquieta-se. Cala-se.

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá…

Faz-se, aqui, uma repetição da ideia de lutar contra a corrente. Chico não chegou a participar de muitos protestos (alega ter participado de apenas um), mas é visível a ideia que não só protestos fariam a diferença: a figura da viola representa a música, as composições que poderiam fazer alguma diferença e são levadas pela roda viva… Censuradas pela Ditadura.

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou…

Depois de tanto lutar em vão, desiste-se de fazer a diferença. Na letra, depois do movimento ser estagnado, da roda viva carregar o destino, a roseira e a vila, a esperança já não tem mais forças. Tudo isso, então, fica parecendo uma ilusão passageira… Como se a Ditadura, de fato, tivesse vencido, e qualquer resquício de mudança fosse ilusório, e tivesse sido levado por uma brisa qualquer.

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá…

Talvez o mais triste dos versos, mostra que já não há mais vontade de mudar. Existe a saudade no peito, aquela vontade de que as coisas voltem a ser como antes eram… Mas já existe tanto descontentamento, tanta tristeza, que é mais uma coisa que a roda-viva ceifa do peito de todos: a saudade. Vale observar, também, que nos últimos instantes da música, a repetição do refrão acontece cada vez mais rápido, como se a música estivesse dentro dessa roda, que não para de se movimentar, e deixa tudo mais confuso. Deixa-nos cada vez mais desnorteados… Até que, de repente, chega ao fim.

Imortal, incomparável, inigualável. Roda Viva é uma canção que continua, até hoje, aberta às mais variadas interpretações. Essa é mais uma delas, e você pode concordar, discordar e, sem sombra de dúvidas, esperar um texto gigante do Tauil na seção de comentários… Se você ainda não conhecia essa canção, vá ouví-la agora mesmo,  procure saber mais sobre Chico Buarque (modéstia à parte, o Artilharia Cultural é um bom lugar pra começar) e leia um pouco sobre nossa Ditadura.

E cuidado, sempre, com a roda-viva. Não é porque estamos fora desse período que ela não existe em outras formas, atuando de outras maneiras e vestida com outras roupas.

Por trás da música – Hurricane

Se você tem uma vida, e preza por ela, tem de ouvir, ver e degustar algumas obras indispensáveis. Esse sempre foi meu propósito no compromisso com a arte que consumo, devoro, bebo e faço a digestão. Como o artilheiro @tauiltter bem mencionou em seu post inaugural desta coluna, não vamos interpretar a canção para você, e sim mostrar as passagens secretas para que você, raro leitor, entenda-a num sentido mais completo.

Bob Dylan – Hurricane

Daquelas obras obrigatórias, quem está, com toda certeza presente é Chico Buarque e sua produção musical de toda uma vida. Mas se no post anterior o leitor pode ler um pouco sobre a música brasileira, agora vamos falar de um dos maiores artistas do mundo, e seu nome é Bob Dylan.

Hurricane

Compositor: Bob Dylan e Jacques Levy

Intérprete: Bob Dylan

Ano: 1975

Disco: Desire

O décimo sétimo disco de estúdio de Bob Dylan, Desire (álbum favorito do artilheiro)  introduzia a faixa de nome Hurricane. Voltamos a 1976, quando Dylan ainda segurava-se firme com a Columbia e seu produtor era Don DeVito. Dez anos antes do lançamento do disco Rubin “Hurricane” Carter, o campeão de boxe dos pesos médios era acusado por um homicídio triplo ocorrido num bar em Nova Jersey. Mas a história do pugilista tinha um longo histórico de outras acusações e envolvimentos como o crime. O fato é que, a acusação de 1966 o levou à cadeia e nos árduos anos que lá passou começara sua própria autobiografia “The Sixteenth Round” ou “O Décimo Sexto Round“.

Dylan advogado

Dylan em aparição ao lado do pugilista Hurricane

Bob Dylan teve contato com o livro escrito a punho por Rubin Hurricane que lhe foi enviado por seu passado de compromisso com os direitos civis. Aqui podemos citar exemplos como “The Lonesome Death of Hattie Carroll” ou ainda “The Death of Emmett Till”, músicas em que Dylan protestava contra injustiças sociais. Agora faria da vida sofrível de Carter, ao lado de Jacques Levy (com quem dividiu a autoria da canção) um motivo para falar do racismo que assolava a sociedade americana.

Depois de ler a autobiografia do boxeador – que jazia preso em Nova Jersey -, Bob Dylan, segundo o próprio Levy, não sabia ao certo como conduziria uma canção com tal historia. “Ele poderia começar a canção com alusões a cenas de cinema, do script: ‘Pistol shots ring out in a ballroom night…. Here comes the story of the Hurricane.’ Boom! Títulos. Vocês sabe, Bob ama filmes (…).Bob Dylan resolveria encontrar-se com Rubin na cadeia e mais tarde com seus familiares e defensores.

Em 1975, Bob Dylan atingiria o topo com sua canção de nome Hurricane, lançada no supracitado Desire,  levando à tona a historia do pugilista campeão mundial nos pesos médio Rubin “Hurricane” Carter à toda sociedade norte-americana.

Hurricane (tradução) – Bob Dylan e Jacques Levy

Furacão
Tiros de revólver ressoam na noite dentro do bar
entra Patty Valentine vinda do salão superior
ela vê o garçon numa poça de sangue
solta um grito “Meu Deus, mataram todos eles!”
aí vem a história do Furacão,
o homem que as autoridades acabaram culpando
por algo que ele nunca fez.
colocando numa cela de prisão, mas houve um tempo
em que podia ter sido o campeão mundial

Três corpos deitados ali é o que Patty vê
e outro homem chamado Bello rodeando misteriosamente
“Eu não fiz isso”ele diz e joga os braços pra cima
“Estava só roubando a registradora , espero que você entenda.
“Eu os vi partindo” ele diz e pára
“É melhor um de nós ligar pros tiras”
e assim Patty chama os tiras
e eles chegam na cena com suas luzes vermelhas piscando
na noite quente de New Jersey

Enquanto isso, bem longe, em outra parte da cidade
Rubin Carter e uns dois amigos estão dando algumas voltas de carro.
O pretendente número um à coroa dos pesos-médios
não tinha idéia do tipo de merda que estava para baixar
quando um tira o fez parar no acostamento
igualzinho à vez anterior e à outra vez antes dessa
em Paterson é assim mesmo que as coisas rolam
se você é negro, melhor nem aparecer na rua
a não ser que queira atrair uma batida policial.

Alfred Bello tinha um parceiro e ele soltou um papo atrás dos tiras
Ele e Arthur Dexter Bradley estavam só fazendo uma ronda
Ele disse “Vi dois homens sairem correndo, pareciam pesos-médios
Pularam dentro de um carro branco com a placa de outro estado”
E a senhorita Patty Valentine apenas assentiu com a cabeça.
Um tira disse, “Esperem um minuto, rapazaes, este aqui não está morto”
Então o levaram à enfermaria
E embora esse homem mal pudesse enxergar
Disseram a ele que podia identificar os culpados.

As 4 da manhã eles arrastam Ruby consigo,
O levam para o hospital e o trazem escada cima
O homem ferido olha pra cima através de seu único olho moribundo
Diz, ” Por que vocês o trouxeram aqui dentro? Não é esse o cara!”
Sim, eis aqui a história do Furacão,
O homem que as autoridades acabaram culpando
Por algo que ele nunca fez.
Colocando numa cela de prisão, mas houve um tempo
Em que podia ter sido o campeão mundial.

Quatro meses depois, os guetos estão em chamas,
Rubin está na América do Sul, lutando por seu nome
Enquanto Arthur Dexter Bradley continua no ramo do assalto
E os tiras estão apertando-o, procurando alguém pra culpar.
“Lembra daquele assassinato que aconteceu num bar?”
“Lembra que você disse ter visto o carro fugitivo?”
“Você acha que está a fim de brincar com a lei?”
“Não acha que talvez tenha sido aquele lutador que você viu correndo pela noite?”
“Não se esqueça de que você é branco”

Arthur Dexter Bradley disse “Não tenho muita certeza.”
Os tiras disseram, “Um rapaz como você precisa de uma folga da polícia
Te pegamos por aquele serviço no motel e agora estamos conversando com seu amigo Bello
Agora,você não querter de voltar pra cadeia, seja um sujeito legal.
Você estará fazendo um favor a sociedade.
Aquele filho-da-puta é valente e está ficando cada vez mais.
Nós queremos botar o rabo dele pra fritar
Queremos pregar esse triplo assassinato nele
O cara não é nenhum cavalheiro”

Rubin podia apenas nocautear um cara com apenas um soco
Mas nunca gostou muito de falar sobre isso
“É meu trabalho”, diria, “E eu o faço para ser pago
E quando isso termina, prefiro cair fora o mais rápido possível
Na direção de algum paraíso
Onde riachos de trutas correm e o ar é ótimo
E andar a cavalo ao longo de uma trilha.”
Mas aí o levaram para a cadeia
Onde tentaram transformar um homem num rato.

Todas as cartas de Rubin já estavam marcadas
O julgamento foi um circo de porcos, ele não teve a menor chance.
O juiz fez das testemunhas de Rubin bêbados das favelas
E para os brancos que assistiam, ele era um vagabundo revolucionário
E para os negros, apenas mais um crioulo maluco.
Ninguém duvidava que ele tinha apertado o gatilho.
E embora não conseguissem produzir a arma,
O promotor público disse que era ele o responsável
E o juri, todos de brancos, concordou

Rubin Carter foi falsamente julgado
O crime foi de assassinato “em primeiro grau” adivinha quem testemunhou?
Bello e Bradley,e ambos mentiram descaradamente
E os jornais, todos pegaram uma carona nessa onda.
Como pode a vida de um homem desses
Ficar na palma da mão de algum tolo?
Vê-lo obviamente condenado numa armação
Não teve outro jeito a não ser me fazer sentir vergonha
De morar numa terra onde a justiça é um jogo.

Agora todos os criminosos em seus paletós e gravatas
Estão livres para beber martinis e assitir o sol nascer
enquanto Rubin fica sentado como Buda em uma cela de 3 metros
Um inocente num inferno vivo.
Essa é a história do Furacão,
Mas não terá terminado enquanto não limparem seu nome
E devolverem a ele o tempo que serviu.
Colocado numa cela de prisão, mas houve um tempo
Em que podia ter sido o campeão mundial.

Desdobramentos

A história de Carter mostra muitas controvérsias, e isso pode ser notado quando se contempla as diferentes óticas em que ela foi enxergada nas obras culturais. Na canção de Dylan ou no filme de Norman Jewison lançado em 1999 (com Denzel Washington) a história do personagem mostra um Rubin inocente e vitimado, apesar do comportamento altamente agressivo. As acusações anteriores a Carter são mostradas de uma maneira falha no filme.  Já na canção de Dylan, o histórico de acusações é simplesmente suprimido mantendo o foco nas vitórias – no boxe – de Rubin e da derrota que sofrera em 1966, padecendo pelo racismo da sociedade americana da época.

Três curiosidades

Dylan foi processado por citar o nome de Patty Valentine, uma das testemunhas do assassinato.

Zé Ramalho regravou a melodia de Hurricane em seu “Frevoador”.

A faixa de Dylan teve de sofrer diversas modificações por imposições judicias desde sua versão original lançada no álbum Desire.

Em 1985, 19 anos após sua condenação em New Jérsei, Rubin seria solto por uma anulação de sua acusação. Rubin ainda foi condecorado com um ato respeitoso da sociedade: um cinturão de Campeão do Peso Médio referente ao ano em que ele competiria como favorito ao titulo e estava preso.

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Por trás da música – Apesar de você

Hoje começa essa nova coluna do Artilharia Cultural, a interessantíssima Por trás da música. Como o nome indica, escolhemos uma canção e a destrinchamos, contando sua história, seus bastidores e suas curiosidades. Não é uma análise, mas serve de base para uma, já que para compreender uma música é preciso entender as circunstâncias que a fizeram nascer.

Vamos englobar diferentes estilos musicais e esperamos ter a contribuição dos leitores nos comentários. E, como fiquei encarregado de começar a coluna, nada mais justo que escolher uma música do Chico Buarque – não falei que você ainda ia se cansar de ler esse nome por aqui?

Apesar de você

Compositor: Chico Buarque

Intérprete: Chico Buarque

Ano: 1970

Disco: 1978 (Samambaia)

Pode ser que você conheça “Apesar de você” dos botecos da vida, porque hoje ela integra o repertório de qualquer músico mambembe intelectualizado, juntamente com “Chão de giz“, “Sozinho” e “Oceano“. Acontece que há algum tempo, “Apesar de você” foi hino de uma geração insatisfeita com o regime militar instalado no Brasil. Vamos à história:

O auto-exílio na Itália

Em 1969, Chico Buarque foi à França para se apresentar no Midem, a grande feira mundial da indústria fonográfica. Acompanhado de sua esposa, a atriz Marieta Severo, acharam por bem prolongar um pouco a temporada  na Europa. Aqui, no Brasil, o AI-5 corria solto e Chico recebia notícias de vários artistas que eram exilados, como por exemplo Caetano Veloso e Gilberto Gil, que foram para Londres. Com medo, o afamado compositor de “A Banda” resolveu ficar por Roma, onde já havia morado quando criança, até que a tensão no Brasil diminuísse um pouco. O problema é que Marieta estava grávida e a situação financeira não ia bem. Foi justamente a renomada “A Banda”, que havia sido gravada em italiano por Mina, que segurou as pontas do casal. Assim, Chico conseguiu fazer pequenas apresentações, recebeu um adiantamento da sua gravadora no Brasil e acabou parindo, à força mesmo, um disco totalmente conturbado: Chico Buarque de Hollanda n° 4. Além de traduzir algumas de suas músicas para a indústria fonográfica italiana, é claro.

Entre vários bicos – como abrir o show de Josephine Baker tocando “Mamãe eu quero” -, que talvez sejam tema de uma outra postagem, Chico recebia o conforto de Vinicius de Moraes, embaixador do Brasil, que acabou sendo padrinho de Silvia, a primeira filha de Marieta. Em uma conversa com o poeta, Chico disse que havia recebido uma carta que assegurava uma crescente calmaria no panorama brasileiro, que as coisas estavam melhorando, que pensava em voltar. Vinicius disse, então, que ele voltasse. Mas que voltasse fazendo barulho.

O barulhento regresso

Chico acatou o conselho do poetinha e voltou de forma quase apoteótica. Com especial da Rede Globo, shows marcados na boate Sucata e o lançamento do quarto disco, Chico balançou o meio artística do Rio de Janeiro. O problema foi constatar que a carta que havia recebido era uma fraude: a situação do regime militar só havia piorado. Vendo circular pelas ruas os automóveis com o adesivo “Brasil: ame-o ou deixe-o“, o compositor se viu obrigado a reagir com sua melhor arma: a música. E assim nasceu “Apesar de você”:

Apesar de você – Chico Buarque

Hoje você é quem manda Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal Etc. e tal

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Como já vigorava a censura prévia, Chico enviou a letra ao órgão crente de que ela seria vetada. Mas não. A música foi liberada, lançaram um compacto com “Apesar de você” de um lado e “Desalento” de outro, e em uma semana mais ou menos quase cem mil cópias foram vendidas. A música já era adotada como hino de resistência aos militares quando um jornal publicou uma notinha dizendo que o “você”, na verdade, era o general Médici. Chamado para depor, Chico disse que a música era para uma mulher muito mandona, mas não colou. A música foi proibida de ser executada e todos os compactos recolhidos e queimados.

No entanto, a matriz da gravação continuou intacta e pôde ser aproveitada oito anos mais tarde, quando a música foi liberada pela censura. Embora o artista já estivesse em outros caminhos e com outros projetos, “Apesar de você” foi incluída no disco de 1978, popularmente conhecido como Samambaia, só para fazer parte de sua discografia, como documento mesmo.

Pra finalizar

Anos mais tarde, Chico diria que o “você” da música não era um general, e sim uma generalidade. Foi uma reação frente à situação negativa da época. É uma de suas poucas músicas feitas realmente com um intuito político. Depois desse episódio, o censor que liberou a música foi despedido, e a marcação em cima de Chico aumentou e muito.

Para saber mais,

“Tantas Palavras“, de Humberto Werneck

“Histórias de canções”, de Wagner Homem