Archive for the ‘As colunas’ Category
Bombardeio XVI – Anti-heróis
Todos nós conhecemos um personagem, seja da literatura ou do cinema, cujas atitudes não são nem um pouco dignas de um herói, mas seus fins o são. É, exatamente isso… Aquela coisa de os fins justificam os meios, sabe? Estamos falando de anti-heróis. Aquele personagem que, mesmo tendo todos os motivos para ser odiado, é idolatrado por muitos. Nesse domingo, os artilheiros convidaram @losersomething para falarem de seus anti-heróis favoritos.
Han Solo (Lucas)
Na saga Star Wars, é meio impossível não querer ser Han Solo. O garoto Skywalker até tem seus méritos, afinal de contas, ele é “o último Jedi” e traz equilíbrio à galáxia (ou não… mas essa é uma longa história), além de – obviamente – portar um sabre de luz. Mas Han Solo, ainda assim, consegue ser mais legal.
Homens, venhamos e convenhamos: nós sabemos que a maioria das garotas tem uma quedinha (pra ser educado) pelo tipo de cara personificado por Harrison Ford no papel. Meio cafajeste, meio sem-vergonha, engraçadinho, charmoso e muito bom no que faz. Esse é Han, que só oferece ajuda à Luke para receber algo em troca. Enquanto a Aliança Rebelde luta contra o Império para a libertação da galáxia perante o regime imposto pelo Imperador Palpatine, Han interessa-se (junto com seu amigo Chewbacca, um Wookie que faz você querer mais ainda ser Solo) apenas em recompensas. Solo tem o “melhor amigo” fodão, e o “carro maneiro”. Porque, falem o que quiser. Falem da Enterprise, ou de qualquer outra nave. Na história da ficção, nada supera a Millenium Falcon.
Se isso tudo não serviu pra te convencer, vou usar o argumento imbatível: ela fica com a mocinha no final. É fodeza demais para um personagem só.
“Princesa Léia: Eu te amo.
Han Solo: Eu sei.”
Lord Henry (Tauil)
O meu anti-herói escolhido só podia ser um dos personagens mais interessantes de toda a literatura ocidental: Lord Henry Wotton, criado por Oscar Wilde para seu livro O retrato de Dorian Gray. Pra quem não leu, fica a indicação. Pra quem já leu, sabe que Lord Henry é n vezes mais profundo que o próprio personagem principal, o ingênuo e jovem Dorian. Henry é o autor das melhores frases do livro (algumas delas bem famosas) e dizem que a pessoa que o inspirou foi seu próprio criador. Porque assim como Oscar, Lord Henry é cínico e hedonista, ou seja, valoriza a beleza e o prazer acima de tudo. E é ele quem alicia Dorian à sua ruína através de sua visão de mundo. Não fosse esse aristocrata pedante, O retrato de Dorian Gray certamente não seria um terço do que é. Sei que recentemente houve uma adaptação cinematográfica da obra. Ainda não vi, mas sempre temi pelo o que poderiam fazer com Lord Henry Wotton: um personagem desse naipe deveria ficar intacto nas páginas que o originaram. Pra fechar, dois dos muitos grifos de Lord Henry que fiz em meu exemplar:
“Certas criaturas têm a mania de dar bons conselhos, precisando tanto deles para si… É o que chamo de o cúmulo da generosidade”.
“Mas os poetas medíocres são encantadores. Quanto piores os versos, tanto mais pitoresco é o poeta. O simples fato de haver publicado um livro de sonetos de segunda ordem torna um homem absolutamente irresistível. Ele vive a poesia que não soube escrever. Os outros escrevem a poesia que não conseguem concretizar”.
Trent Reznor (Marcel)
O cara que para mim representa a fodeza de poder ser mau e adorado se chama Trent Reznor e está na música. Se você não o conhece, saiba que ele é vocalista, produtor musical, multiinstrumentista e líder da maior banda de rock industrial de todos os tempos, o Nine Inch Nails. Reznor tem um ego colossal, e todo mundo sabe de seus modos agressivos e negligentes em suas atitudes, ofendendo as crenças dos ouvintes, maldizendo tudo e a todos. Suas músicas fazem referências fortes e explicitas ao sexo, as drogas, a homossexualidade, ao ateísmo e, segundo a leitura de muitos, até ao satanismo. Mas de pé, no palco, acima daquele mar de fãs sedentos por sua atitude espontânea e incômoda, Trent Reznor é um desses personagens que estão num nível complexo e elevado demais para serem chamados apenas de herói.
O Comediante (Gabs)
“Blake viu a face verdadeira da sociedade. E optou por ser uma paródia dela. Uma piada.”
Fala exatamente o que pensa, mata vietnamitas grávidas, fuzila rebeldes, estupra mocinhas que andam com roupinhas curtas e meia-liga de fora. Edward Blake, para mim, é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores anti-heróis da ficção. Além de ser todo bonitão e despertar calores no publico feminino inteligente, carrega em sua essência uma profundidade jamais esperada de um personagem como ele. Espelho de uma sociedade doente – a qual faz parte o seu contexto – O Comediante é um dos poucos que assume quem realmente é, e ainda faz questão de mostrar que toda humanidade carrega consigo a genética impiedosa.
Nessa situação, é extremamente difícil lhe expor em poucas palavras, assim como qualquer personagem de Watchmen. Mas vale lembrar que, mesmo carregando essa personalidade, ele ajudou a sociedade do único modo que conseguiria: matando. Fossem eles inimigos ou cidadãos, Edward Blake aniquilava qualquer imbecil que entrasse em seu caminho, sempre justificando com um afiado – e plausível – discurso: todos estamos corrompidos. E mesmo diante de toda carnificina, ele ainda consegue nos mostrar que a superficialidade não faz parte de sua essência.
“Um homem vai ao médico e diz que está deprimido. Que a vida parece dura e cruel, e que ele se sente sozinho neste mundo ameaçador. O médico diz: ‘O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade. Vá assisti-lo, isso vai alegrá-lo’. O homem começa a chorar copiosamente. Ele diz: “Mas doutor, eu sou o Pagliacci.”
Uma piada boa. Todos dão risadas. Rufem os tambores. Desçam a cortina.”
Palavreado XVI – Além das revistas velhas
Nunca tive medo de ir ao dentista. Não exatamente medo – sei lá o que as outras pessoas sentem -, já vi casos de sujeitos que sentiam a anestesia nem bem entrando no consultório, mas disso culpo os purificadores de ar. Desconforto? Cadeiras reclináveis não só garantem o bem-estar do paciente como têm botõezinhos ao alcance de sua mão, para serem apertados e ajustados de acordo com a sua vontade enquanto o profissional se vira para procurar as luvas descartáveis. Nunca tive medo provavelmente porque nunca tive nenhuma experiência traumática em uma dessas cadeiras, e porque sempre ganhava sorvete depois da anestesia (nunca contei à minha mãe que o frio prolongava o efeito – ignorância às vezes faz bem). E porque, apesar do pavor que tinha – e tenho! – do algodão, gostava – e gosto – muito das salas de espera.
Esperar não é algo lá muito agradável em situação alguma. Ainda mais quando a expectativa é de passar a próxima hora exibindo a arcada dentária a alguém. Salas de espera não se resumem a consultórios odontológicos, obviamente, mas as outras não têm a mesma tensão no ambiente que estas – salvo os casos de oncologistas ou ginecologistas com o resultado do seu exame de gravidez. Há um clima quase de cumplicidade entre os freqüentadores. Sempre que a porta que leva até a fatídica saleta é aberta, todos elevam os olhos àquela pobre criatura que a atravessa, que até tenta sorrir, mas teme que um dente lhe escapule da boca. Ou que está séria, talvez finalizando um pensamento iniciado com o silêncio congelante do lugar, esporadicamente quebrado pelo barulho do metal encontrando outro. Nenhum conhece o tratamento do que senta no sofá ao lado, mas mudamente percebe, a cada vez que um novo nome é chamado, que o futuro próximo de todos os presentes é o mesmo. E assim, relutantemente, aceita o seu.
Afora o entendimento mútuo praticamente inalável, temos o café frio e fraco, a água quente, a revista Caras do ano passado e o disputadíssimo jornal a que você jamais disporia alguns minutos de vida se tivesse opção. Mas, com medo ou não, aproveitando a oportunidade para conhecer melhor a pessoa que geme de dor mais próxima ou atualizando-se sobre mudanças no cotidiano das celebridades, nenhum ambiente oferece uma demostração tão clara da compreensão humana frente ao sofrimento alheio, ainda que pequeno.
E eu fui ao dentista hoje, não sei o que fizeram comigo. Mas não gostei. Tudo bem, o senhor ao lado precisava extrair dois dentes do siso.
Suprimento Semanal IX
Cheguei à conclusão, nesta manhã, junto com o Artilheiro Marcel, que o #SS é uma das colunas mais gostosas de fazer. Recebemos alguns elogios de leitores, apreciando as dicas aqui dadas, e é isso que nos dá mais tesão pra continuar escrevendo pra vocês.
Sem enrolar, ‘vambora’!
O livro
Obrigado por Fumar (Christopher Buckley)
Uma das maiores dádivas do cinema é adaptar bons livros. Um dos maiores problemas é descobrirmos só depois de um bom tempo que ótimos filmes são, na verdade, livros melhores ainda.
Até um tempo atrás, não sabia que Obrigado por Fumar era baseado em uma obra homônima da literatura. Depois de garimpar por um sebo virtual, consegui encontrar uma edição (por um preço muito mais baixo do que você vai encontrar em livrarias normais). Ainda não terminei o livro, mas é inevitável citar seu aspecto tão viciante quanto a nicotina o é. Obrigado por Fumar conta a história de Nick Naylor, representante da indústria do tabaco, e tem como missão defender as empresas. Sua maior arma são sua oratória rápida e sua dialética perpiscaz. Várias situações são parecidas com as do filme (como assim você ainda não assistiu?), como a que Nick está num programa de TV ao lado de um menino com câncer, e reverte toda uma situação à seu favor de modo explêndido. A leitura é obrigatória.
O filme
Full Metal Jacket (Stanley Kubrick)
Agora que eu percebi: como cacete eu nunca fiz uma resenha sobre um dos meus filmes de guerra favoritos? Full Metal Jacket (Nascido para Matar no Brasil, graças à inscrição no capacete do personagem principal) retrata o treinamento e a ida de jovens norte-americanos ao Vietnã, na guerra ocorrida no final da década de 50 e que teve fim no meio dos anos 70. Vemos a história pelos olhos de Joker (indiretamente, já que o filme não é narrado por ele), soldado que vai para a guerra como um jornalista-fotógrafo. Dentre as cenas memoráeis na história do cinema (como o suicídio de um dos soldados) e a participação de Lee Ermey (o militar que apresenta aquele famoso programa de armas no History Channel), muitos outros fatores fazem dessa, uma das obras primas de Stanley Kubrick.
O disco
Lullabies to Paralyze (Queens of the Stone Age)
O penúltimo álbum da banda americana, lançado em 2005, seria o meu favorito se todos os álbuns da banda norte-americana não fossem simplesmente deliciosos de ouvir.
Foi com esse álbum que, segundo muitos críticos especializados, a banda conseguiu amadurecer de fato. Algumas canções mais pesadas, e aqui eu abro espaço para recomendar a minha favorita do álbum, I Never Came, carregam uma letra e melodia consideravelmente pesadas. O baixo é quem guia, de forma sombria, a canção. Aliás, apenas pela capa você já consegue perceber o que vem pela frente, né? Menininha sombria do cacete, cara.
Minha dica é: ouça o álbum inteiro, em sua sequência, como deve ser feito. Aposto que não vai se arrepender. O Artilheiro fica por aqui, torcendo para que possa comparecer ao SWU e ver o show ao-vivo da banda.
Lutar com palavras XXII – O que é o Corinthians?
O Corinthians é um fenômeno sociológico a ser estudado em profundidade.
Menotti del Picchia
O que é o Corinthians?
Corinthians é o time mais amado e mais odiado do mundo. O time que mais aparece na boca do povo, seja pra falar bem ou mal. Seja como forma de elogio ou xingamento. E eu não precisei consultar nenhuma pesquisa pra saber disso. Mas o Corinthians é só um time? Depende de quem fala.
O Corinthians é a minha seleção. Torço pro Corinthians, e depois para o Brasil. Porque se um dia fizessem um Brasil x Corinthians lá no Pacaembu, você pode me encontrar junto da Gaviões, empurrando o Timão pra frente.
Só quem é Corintiano sabe o que é ver o time entrar em campo. Só quem é Corintiano sabe que o jogo vai ficar difícil no segundo-tempo e só vai se resolver entre os 43 e 45. Ainda assim, toda vez que isso acontece, parece que é a primeira. As mãos suadas, a falta de vocabulário – porque os palavrões já foram gastos, e o jeito é inventar xingamento novo pra mãe do juiz -, o nervosismo e a sensação que o coração – corintiano, doutor, não precisa nem perguntar – vai parar a qualquer momento são características exclusivas dessa pequena parcela da população. E por pequena, você pode contabilizar mais ou menos 30 milhões. Temos mais torcedores que o país de Portugal tem em habitantes. Mais que o Chile, que a Argentina, que a Austrália.
E o que são 100 anos? 100 anos para uma pessoa é muito. Para uma nação, é pouco. E o Corinthians não é nada menos e nada mais que uma nação. Uma nação cuja população não se importa com as conquistas: isso é coisa pra torcedor de time de futebol, que, pra sentir-se grande, precisa ostentar suas conquistas. O Corinthians é o time do povo, e o time do povo gosta mesmo é de ver raça, de ver amor à camisa.
Nossa nação, nos anos 70, já tinha seus pensadores gregos. Nosso Dr. Sócrates já filosofava nos vestiários, organizando – junto com Wladimir, Zenon e Casão – as mudanças no clube que devia refletir sua torcida: a igualdade. Do roupeiro ao cartola, tudo deve ter o mesmo peso. Acredito, e essa é uma das minhas razões, que um time é o reflexo de sua torcida. Como eu não conheço nenhum outro caso no mundo no qual a torcida tem um time, nada mais justo que os dois serem reflexos um do outro.
Poderia me demorar na nossa criação, lá em 1910, com nossos operários e passar por toda nossa história, nossos títulos e nossas glórias… Poderia falar de 1977, ocasião na qual meu pai estava presente, ou de 1990. Poderia falar de 2000, ou de 2007, quando chorei mais do que qualquer outra vez que consigo me lembrar, em meus 18 anos.
O Corinthians faz 100 anos de história, com uma torcida que nunca o deixará morrer. Com uma torcida apaixonada. Roxa, preta, branca, japonesa, italiana, paulista, carioca, gaúcha, nortista, americana… Onde você procurar, encontrará um Corintiano.
E, por fim, deixo um recado ao amigo rival, que não está agüentando ver tantas camisas alvinegras na rua: guarde sua saliva. Falar de seus títulos, de suas Libertadores ou de seus Mundiais não afetará em nada o coração de um Corintiano. Lembre-se, no fim das contas, a diferença entre nós dois: vocês torcem para um simples time de futebol. Nós torcemos para o Corinthians.
Parabéns, Timão. E obrigado por me dar mais um motivo para sorrir, para chorar e para torcer.
Na mira – Reinaldo José Lopes
O nosso entrevistado do mês de agosto é jornalista e já escreveu para as mais importantes revistas de ciências do país. Publicou ano passado o livro “Além de Darwin“, pela editora Globo, sobre Evolução (“o que sabemos sobre a história e o destino da vida”). Atualmente, mantém o blog Carbono 14 e é um dos cabeças do Valinor, o maior site brasileiro a respeito do professor J.R.R. Tolkien. Com vocês, Reinaldo José Lopes!
1. Perguntinha que costumamos fazer a todos os jornalistas: é possível fazer jornalismo com imparciabilidade?
Não, é impossível. Digo mais: não é desejável fazer jornalismo com “imparcialidade”, porque é uma espécie de 171 com o leitor, já que seres humanos (e, ouso dizer, outros bichos também) agem com base num sistema de valores, sempre, mesmo que queiram mascarar isso. O mero fato de eu, por exemplo, achar que uma sacanagem praticada pelo governo é pauta significa que estou escrevendo com base num sistema de valores, que está longe de ser imparcial. Acho mais negócio, e mais justo, deixar claro para o leitor qual o sistema de valores que você está usando.
Agora, o que é realmente necessário é tentar enxergar múltiplos ângulos de uma questão, e nunca ignorar fatos desconfortáveis na hora de escolher como você aborda uma questão. Mas isso está muito longe do ideal bobo da imparcialidade.
2. Sendo um membro dessa nova geração de jornalistas brasileiros, como você encara o atual cenário da profissão?
Bom, faço dez anos de carreira ano que vem, então pra muita gente eu já sou veterano, uma vez que jornalismo é profissão de moleque, hehehe…
Anyway, acho que estamos numa encruzilhada. O mercado de trabalho nunca esteve tão aquecido desde o ponto baixo no começo da década. Por outro lado, estamos vendo cada vez mais a ascensão dos veículos online (tipo o G1) em termos de número de leitores, enquanto os impressos parecem naufragar. E isso é trágico jornalisticamente, porque a cobertura na internet, voltada maciçamente para a audiência como é feita hoje, tende a se pautar pela produção de porcaria feita para agradar leitores que requisitam justamente porcaria, entretenimento tosco mal disfarçado de jornalismo.
Então, eu sou cautelosamente pessimista em relação à qualidade do jornalismo que conseguiremos produzir daqui pra frente, se as tendências atuais se mantiverem.
3. Você é, também, um expert em Tolkien. Como isso começou? O contato com a obra do Professor influenciou de alguma maneira seus escritos?
Começou quando ouvi falar pela primeira de Tolkien jogando RPG Gurps (é, eu sou vintage) no começo dos anos 1990. Em algum lugar do Gurps Modelo Básico dizia-se que, no fim do SdA [O Senhor dos Anéis], Merry e Pippin já eram personagens de 100 pontos. E eu doido pra ler SdA, sem nunca conseguir achar o livro (e sem grana pra comprá-lo, mesmo que o achasse).
Aí, em 1998, meu primeiro ano de faculdade na USP, um veterano, o saudoso Fábio Duracell, emprestou-me O Silmarillion em inglês. Li e gamei na hora. Daí pra ler os outros livros, sempre no original, e pra procurar grupos de discussão e sites na internet sobre Tolkien, foi um pulo. Juntei-me aos meus queridos amigos da Valinor já nessa época e desde então não paro de ler e escrever sobre Tolkien. Agora estou fazendo meu doutorado sobre a obra do professor.
Acho que Tolkien influenciou MUITO a minha maneira de escrever, em especial nos textos maiores e mais soltos (em jornalismo do dia-a-dia é mais difícil incorporar isso). É um jeito de dizer as coisas, uma certa predileção por alguns tipos de fraseado e, acredite se quiser, acho que a disposição ética em relação a muitos assuntos também.
4. Você encontrou algum tipo de resistência para a publicação de “Além de Darwin” [Leia a nossa resenha do livro aqui]? Qual o retorno que você recebeu, tanto do público quanto da crítica?
Resistência para a publicação em si, ou seja, para o livro ser aceito para publicação, se é isso o que você quer dizer, apenas a usual de convencer os editores de que o projeto valia a pena.
O retorno da crítica foi praticamente nulo – infelizmente resenhistas dos grandes jornais e revistas basicamente ignoraram o livr0. Mas o do público tem sido bastante positivo, dada a falta de divulgação que o livro teve, com exceção da minha aparição no Programa do Jô. Muita gente blogou a respeito, escreveu para elogiar, quis comprar o livro autografado diretamente comigo. Aliás, quem quiser fazer isso com desconto a coisa ainda está valendo!
Já cientistas-blogueiros falaram bastante do livro. A maior parte das críticas veio de quem não gostou da minha abordagem conciliadora em relação à religião. Faz parte.
5. Como explicar para o leitor de “Além de Darwin” que um cientista como você é religioso? Para você, ciência e religião podem andar juntas calmamente?
Vamos deixar as coisas claras: sou jornalista de ciência, um entusiasta da ciência, creio que compreendo bem o método científico e sei muito sobre biologia — mas não sou cientista nem de formação nem de profissão.
Isso posto, acho que há muita mistificação quando se fala da suposta briga entre religião e ciência. A maioria dos historiadores da ciência concorda, só pra começar, que a ciência moderna só pôde nascer porque o monoteísmo judaico-cristão popularizou a ideia de que o Universo foi dotado de leis claras pelas mãos de um Criador. A ciência, em outras palavras, nasceu como tentativa de entender a mente de Deus, em certo sentido.
De lá para cá é fato que essas coisas ficaram descoladas uma da outra – embora até físicos ateus gostem de usar a metáfora da mente de Deus. Mas o que nós descobrimos é que existem coisas que o método científico é incapaz de apontar com clareza — do tipo como devemos viver nossas vidas. No mínimo, as religiões têm insights valiosos a oferecer nesse sentido. Portanto, desde que você não queira transformar sua crença religiosa num statement científico, e desde que você não falseie o que sabemos sobre o mundo só pra corroborar o que a sua fé diz, as coisas podem, e até devem, conviver.
6. E quais são os seus projetos futuros? Podemos esperar algo no campo da lingüística? Ou falar inglês, espanhol, italiano, francês, grego e élfico é só um hobbie?
Eu adoraria escrever uma história natural da linguagem humana e da evolução das línguas, mas acho que não tenho bala na agulha pra isso ainda ;-) Meu interesse por línguas é em larga medida estético: é o prazer de encontrar novas associações entre significante e significado.
Projetos futuros de longo prazo não faltam, o duro é o tempo de executá-los. Entre eles: um romance de fantasia; um livro sobre a história dos 300 de Esparta, que foi meu TCC, está “pronto”, mas precisa ser muito revisado; um livro que explique os achados mais recentes da arqueologia e da crítica histórica sobre o surgimento do monoteísmo.
7. Tornou-se polêmica a sua crítica apontando os erros do bestseller “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, de Leandro Narloch. Como biólogo, quais são as piores besteiras que você vê sendo reproduzidas por aí como verdades? Por exemplo, a história do aquecimento global.
Again, não sou biólogo. O aquecimento global é um mau exemplo de cascata sendo reproduzida acriticamente — na verdade a ciência por trás da conclusão de que o homem está ajudando a mudar o clima é muito, muito sólida. Se eu fosse pegar um elemento da minha seara no livro, acho que o pior é manter a distinção estanque entre homem, “animal racional”, e os demais seres vivos. Essa distinção é muito, muito menor do que qualquer visão clássica sobre a humanidade deixa entrever.
8. O que você tem lido, ultimamente?
Bilhões de coisas. Fora Tolkien, ando relendo Baudolino, do Umberto Eco, começando A Jangada de Pedra e O Cavaleiro Inexistente e lendo a excelente coletânea sobre o Brasil Holandês organizada pelo Evaldo Cabral de Mello.
9. Como nosso site engloba outras áreas da cultura, pedimos que você cite os três livros, os três filmes e os três discos que mais te marcaram.
Livros: O Silmarillion (Tolkien), O Nome da Rosa (Umberto Eco), The Third Chimpanzee (Jared Diamond).
Discos: The Dark Side of the Moon (Pink Floyd), Help (The Beatles), The Joshua Tree (U2).
Filmes: Contato, Inteligência Artificial, Wall-E.
10. É padrão do Artilharia encerrar as entrevistas com o Tiro Certeiro e a Medalha de Honra. Explicamos: o Tiro Certeiro você dá para alguma coisa, subjetiva ou não, que você acha que vai de mal a pior (ex.: fulano de tal, política, educação, editoras etc.), e a Medalha de Honra é a mesma coisa, só que pro lado positivo (algo que merece seus aplausos).
Tiro certeiro: Jornalismo online no Brasil.
Medalha de honra: Movimento dos open courses nas universidades americanas, que permite que qualquer um possa a assistir a um semestre de aula no MIT ou em Yale.
Para sintonizar com Reinaldo, siga-o no twitter @reinaldojlopes. Se você se interessou pelo livro, envie um e-mail ao autor [reinaldojoselopes@hotmail.com] para comprá-lo autografado e com um ótimo desconto – eu recomendo fortemente, foi uma das minhas melhores leituras de 2009.
Bombardeio XIV – Heróis
Você já viu o nosso Bombardeio sobre os vilões. Agora, com a participação especial do artilheiro colaborador @filipekiss, chegou a vez de falar sobre os benfeitores, os mocinhos, aqueles que lutam contra o mal, salvam o dia e ainda têm tempo de estudar, trabalhar ou envolver-se em um relacionamento amoroso complicado: os heróis! Acompanhe a seleção destas figuras que estão no imaginário popular desde os mais remotos tempos da humanidade:
Batman (Filipe Kiss)
Mau-humorado, talvez até revoltado e com um sentimento de vingança e justiça além do comum. Um homem sozinho que, devido a um trauma que sofreu na infância, hoje usa toda sua riqueza pra colocar bandidos atrás das grades. Apesar de algumas vezes contar com a ajuda de seus parceiros, geralmente trabalha sozinho e prefere assim. Não conta com super-poderes propriamente ditos, mas sua capacidade intelectual e a vontade de descer a porrada fazem dele um ótimo justiceiro. É o herói que Gotham merece. Mas não o que ela precisa. Não é um herói. É um guardião. Batman.
Seiya de Pégaso (Marcel)
Eu não sei onde estive enquanto todos os meus amigos liam HQ’s. Tive uma infância meio sem muitas referências fictícias, não via muitos filmes, nem tinha contato com a literatura. Eu soltava é pipa e arrancava as tampas do meu dedão. No fim, ao ver que o Bombardeio falaria de heróis, me vi encurralado a colocar meu pai aqui. É, também acho que não ficaria legal, apesar de ficar bonito e tal. Acabei mudando de idéia. Resolvi pensar: tentei de tudo pra lembrar em que eu me espelho, quem é o herói destemido que envolve todas aquelas características que admiro para me espelhar; até regressão eu tentei para ver se eu me recordava, mas não rolou muito. No fim das contas, o que esteve mais firme na minha recordação foi o Seiya de Pégaso, dos Caveleiros dos Zodíaco. Aquele cara do cabelo armado que vive gritando, chorando e sendo envenenado. Enfim, se você conhece o Seyia, provavelmente o odeia (opa, rimou). E se odeia, o faz por não suportar sua chatice e teimosia para salvar sua Saiori, sua deusa. Tá certo, que fanatismo, religiosidade e etc. não são lá coisas que eu venero, ou que me valem algum centavo, mas taí um alienado que eu gostaria de ser. Ele está sempre a liderar, a encorajar seus companheiros. Seus dias nunca começam pelo pé esquerdo (ele sempre se fode) e mesmo assim não abaixa a cabeça. Se você ainda não se convenceu saiba que o rapaz luta contra imperadores, deuses míticos, reis e espectros do inferno e tem apenas treze anos. Isso mesmo, treze anos e um puta currículo vitae de cavaleiro de bronze. Pois então, que a coragem, a teimosia e principalmente a capacidade de fazer tudo errado e ainda vencer no final do Seyia, esteja com todos nós!
E um salve ao Masami Kurumada e ao meteóóóóóro de pégasuuus.
Foi mal Goku!
Isaac Newton (Alice)
Ele não tinha super poderes. Ele nunca lutou contra as forças do mal. Ele é odiado por grande parte da classe estudantil que se recusa a decorar suas leis. Ele foi arrogante, sarcástico, antipático, solitário, intolerante e um dos maiores gênios que o mundo já teve.
Além de realizações medianas, como ter formulado as tais leis que regem os movimentos dos corpos e a lei da gravitação universal, ter desenvolvido o que ficou conhecido como “binômio de Newton” e o “cálculo fluxional” e ter feito descobertas importantes sobre óptica, ele definiu uma data para o apocalipse e deixou outros estudiosos da época no chinelo. Sabe aquela frase que você encontra em perfis de redes sociais atribuída a ele, “se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes”? O gigante em questão era o cientista Robert Hooke, de quem Newton gentilmente surrupiou dados por ele calculados e que tinha uma estatura bastante abaixo da média. Tem como não amar?
Isaac Newton foi físico, matemático, filósofo, astrônomo, alquimista e teólogo. Duvido que o Lanterna Verde carregue tantos títulos quanto ele. Ou que o raciocínio do Flash mereça as mesmas honras que o desse cara. Certo, ele morreu virgem, com problemas renais e sem um único amigo, mas poucos deixaram um legado tão importante para a humanidade. Ganhe dessa, Super Homem.
Chapolin Colorado (Tauil)
Se você está se perguntando “ué, como assim Chapolin Colorado?”, saiba que sua vida foi até aqui em vão. Não conhecê-lo ou não achá-lo digno de figurar numa lista ao lado do Batman, por exemplo, para mim é quase um crime. Criado e interpretado pelo mestre Roberto Bolaños, o mesmo do Chaves, o Pequeno Polegar, como também era chamado, representa a essência da infância de muita gente. Podê-lo ver ajudar as donzelas e combater os malfeitores todas as tardes no SBT era risada garantida. Munido apenas de sua marreta biônica e suas anteninhas de vinil, Chapolin já enfrentou piratas, discos voadores, bebês gigantes, criaturas sobrenaturais e inclusive já foi a Marte. Superpoderes? Besteira. Chapolin só precisa de sua astúcia (com a qual vocês não contavam) para fazer valer a pena os episódios da série que hoje, infelizmente, não estão mais no ar. Assim os bons não podem mais segui-lo, mas podem torcer para que o SBT tenha mais um surto e mude toda a sua grade de programação, como acontece sempre.
Palavreado XV – Opinião privada sobre os banheiros
Eu me lembro de ter lido, há um bom tempo, um post da Deborah Garcia sobre os banheiros masculinos. Isso me levou a pensar sobre os banheiros de modo geral: não te parece estranho termos em nossa casa um local destinado a despejar os despejos de nosso corpo? E pior ainda: a moça passa horas se embelezando no mesmo lugar em que defeca? É algo que vai contra à boa lógica, e para mim é tão contra-senso quanto um paulistano falar “tu”.
Mas tenho o maior respeito pelos banheiros. Sou, inclusive, mais um que passa um bom tempo em suas dependências, às vezes não fazendo nada além de se olhar no espelho. E não há nessa afirmação nenhum traço de vaidade, há somente o estranho hábito de se olhar e divagar sobre você mesmo: quem sou?, de onde vim? e para onde eu vou?. Aliás, o banheiro é naturalmente o cômodo mais propício às reflexões. Aposto que se fosse hoje em dia, a casa de Platão iria se resumir a um quarto, uma cozinha e quatro ou cinco banheiros. Ou quase isso. É debaixo do chuveiro, mesmo que num banho quente, que a cabeça se esfria e as idéias fluem melhor. O banho está para a solução de problemas assim como a caminhada, que é uma outra solução para a criação de projetos e idéias. Imagino que os melhores romances e filmes tenham tido seu primeiro indício de vida no banheiro.
Isso se explica talvez por ser um dos poucos momentos do dia em que nos encontramos com nós mesmos. Eu e o meu chuveiro, eu e a minha privada, eu e o meu espelho. E esse silêncio ao nosso redor é o primeiro passo para que os ruídos internos, os sons da mente ou da alma, queiram se manifestar.
Mas não me iludo pensando que somente existe filosofia e reflexão nesse ambiente de ladrilhos. Os públicos, principalmente, são um antro de sujeira. Não me entra na cabeça o que mijar para fora e cuspir no chão têm a ver com masculinidade, mas é assim que alguns machos se portam. Não quero sujar essa crônica como eles sujam e rabiscam as portas com telefones carentes e palavrões. Prefiro aliená-la quanto ao submundo dos sanitários e deixar sua latrina e seus ladrinhos limpos ao brilho do desinfetante moral.
Suprimento Semanal VIII
Só para que conste, para o artilheiro que vos escreve, este é o dia mais feliz da semana. E o Suprimento Semanal (#SS) é tão precioso para eu que escrevo quanto é pra você que acaba de constar que hoje é sexta-feira.
Larguemos de papo furado e vamos desplugar um pouco dessa máquina chamada semana. Abaixo, um livro, um filme e um disco que vão lhe ocupar e ensinar muito mais que aquele relatório de 234 páginas que você fez.
O livro
A metamorfose – Franz Kafka
Incentivar a leitura é a missão de vida de muitas pessoas. Eu sempre achei que literatura era algo totalmente desvendado depois de ler algumas grandes peças de romance, mas nunca é tarde para virarmos nossa percepção de cabeça para baixo. Até ler Kafta, sabia muito, realmente muito pouco sobre a literatura mundial. O autor alemão é um dos grandes magos da escrita. A Metamorfose, se não é a maior obra do autor, é a que envolve mais elementos da filosofia e de reflexões sobre as concepções profundas do ser. O livro, como todos os grandes romances, pode ter centenas de leituras diferentes pelo seu alto grau metafórico. A história agonizante do caixeiro-viajante que acorda de sonhos intranqüilos na forma de um inseto gigante em sua cama é uma dos maiores clássicos da literatura mundial, e o soldado que não conhece, deveria descobrir o porquê.
O filme

O Labirinto do Fauno
Guillermo Del Toro disseca muitos costumes numa fábula que é, em mesma medida, sombria, enigmática e metafórica. O filme lançado no ano de 2006 conta a história de Ofélia, menina que viaja com sua mãe para a casa de seu padrasto. A partir deste dia, a cada momento, ela se descobre mais e mais envolvida pela fantasia do local. Entre as referências que o longa faz a outras obras cinematográficas estão “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”, “O Mágico de Oz” e, obviamente “Alice no País das Maravilhas”. Adianto que o filme é muito mais que um simples entretenimento, se assim for tratado. Del Toro dá vida, de forma muito rica, a todo um mundo de fantasia. Só para lembrar, o filme ainda contou com a participação do talentosíssimo Iñárritu entre os produtores.
O disco

Phoenix – Wolfgang Amadeus Phoenix
Lançado em 2009, o quarto disco da banda francesa Phoenix mistura synthpop com rock inglês e é uma ótima pedida para quem gosta do gênero. O soldado ainda vai encontrar letras incomuns onde fica o evidente bom trato que o vocalista Thomas Mars tem para com a poesia. Apesar da naturalidade dos integrantes, as letras são em inglês. Entre as dez canções do disco, as mais notáveis são “Lasso”, “1901″, “Love Like Sunset” (trilha do novo filme dirigido pela namorada de Mars, Sophia Coppola, “Somewhere”) e é claro, o grande sucesso da banda “Lisztomania”.
Veja o trailer de lançamento do filme sob a trilha da banda francesa.
Lutar com palavras XXII – Embate sempre há de pintar por aí
Artilheiro Colaborador: Lívia Palmieri
Há mais encontros acima (ou abaixo) da terra do que supõe nossa vã filosofia
Hunter Stockton Thompson, o jornalista considerado apenas escritor por alguns, quando chegou com seu pequeno foguete ao Paraíso (ou inferno, como queiram!), encontrou-se com Kant, o filósofo alemão. Precisava desabafar a sua presença terrena incompreendida e fez os ouvidos do filósofo de penico.
Reclamou de seu trabalho de copiador da revista Time, de free-lancer na América Latina e das publicações de seus romances medíocres. Sem contar as inúmeras lágrimas que derramou por sua vida pessoal e seu casamento em 1963.
Mencionar a década de 1960 foi como mágica; o descontentamento de Thompson transformou-se em felicidade e, eufórico como um jornalista que ganha o prêmio Pulitzer, começou a discorrer sobre os fatos vividos nesse período.
Dizia a Kant que a partir de 1965 começou a se realizar profissionalmente e, nesse período, conheceu os membros da Hell Angels, uma gang de motociclistas. A experiência de conviver por um ano com esses motoqueiros resultou em um livro, seu primeiro sucesso.
Thompson continuava falando. Contou que também havia se envolvido com uma comunidade hippie e diversos tipos de drogas.
As experiências que o jornalista vivia serviam de base para matérias desenvolvidas por ele. Por exemplo: se a pauta era sobre o efeito que a droga X causava no organismo humano, ele vivenciava a situação, experimentando o produto do qual falaria antes de escrever.
Explicou para Kant que esse seu modo de vida havia dado origem a um novo estilo de jornalismo, o “Gonzo”, o qual dependia das experiências do jornalista para se concretizar.
Pensando filosoficamente os relatos de Thompson, Kant o indagou: “Para você, o bom jornalista depende apenas das experiências vividas? As idéias inatas não são relevantes quando se trata de colocar no papel informações para o interesse do público?”
O jornalista coçou a cabeça e disse: “A essência do bom jornalismo é a busca pela imparcialidade, deixando as idéias inatas de fora”.
Com um sorriso sarcástico estampado no rosto, o filósofo constatou: “Então as experiências vividas no decorrer do tempo não influenciam o autor do texto e o público tem em mãos um exemplar de imparcialidade.”
Sentindo-se ofendido com a ironia de Kant, Thompson franziu o cenho e ralhou com o filósofo: “Não me venha querendo usar de dialética para que eu caia em contradição. Sócrates e Platão é que sabem aproveitar esse método como se deve, também não recrimine minha forma de agir e pensar o jornalismo, a incompreensão de alguns já é o bastante.”
Kant, assustado com a rispidez de Thompson, pediu calma. “Eu só queria encaixar minha filosofia dentro das experiências que você relatou de modo que passasse pelo racionalismo, idéias inatas, antes de chegar ao empirismo e enriquecer minhas teorias segundo seus depoimentos”, disse.
Thompson conhecia as teorias do filósofo e, envergonhado com a explosão desnecessária, desculpou-se dando início a um novo diálogo, quando, com uma referência ao próprio Kant, concordou com ele: “não resta dúvida de que todo o nosso conhecimento começa pela experiência.”
Sobre a Artilheira Colaboradora
Lívia é uma estudante de jornalismo que não sabe se definir. Talvez seja apenas uma história contada, não um caso acontecido. Assim como Holden Caulfield, se comporta como se fosse alguém mais velho (às vezes), mas ai acha que ninguém repara. Como diz o anti-herói, ninguém repara nunca em nada.
Bombardeio XIII – Sessão da tarde
A Sessão da Tarde é praticamente um ícone cult entre os jovens que viveram nos anos 80 e 90. O programa da TV Globo é exibido, até hoje, após o Vale a Pena Ver de Novo e sempre trazia altas confusões, com uma turminha da pesada. Pois hoje foi a vez dos artilheiros Tauil, Lucas e Marcel mais os nossos convidados Alex e Matt embarcarem num papo do barulho sobre um dos programas mais marcantes de suas vidas. É diversão pra ninguém botar defeito!
Alex (Artilheiro Colaborador)
Olá turminha do barulho, estou aqui para aprontar altas confusões e…
Opa, acho que me empolguei. Mas é uma boa empolgação, porque tenho certeza que frases como essa marcaram cada fase do crescimento de quem aqui lê.
Para nós, cinéfilos, ou até mesmo quem não é, a vida foi bela e doce em frente à TV. As tardes sempre foram recheadas de filmes que nos fizeram, rir, emocionar e sonhar.
Acredito que falo por mim e por uma grande quantidade de gente, quando confesso que após chegar da escola, almoçar uma comidinha deliciosa e assistir a um clássico na telinha da Globo, eu ficava me sentindo o protagonista do filme, e passava o restinho da tarde brincando de sonhar. Já fui o Dragão Branco, já fui um Exterminador, já nadei na Lagoa Azul, já pude voar e dançar, já fui fantasma, fui bandido… bandido legal, aquele que se redime. Já fui um Goonie, já tive mãos de tesoura. Hoje sou adulto, tenho obrigações e compromissos maiores, que não me permitem sentar e apreciar uma bela e antiga obra de arte, mas conheço minhas origens e sei exatamente o que meus filhos vão assistir quando chegarem cansados da aula.
Tauil
Minha infância teve muitos pilares. Um dos mais sólidos, sem sombra de dúvida, foi a Sessão da Tarde. Eu me lembro com saudades do tempo que eu voltava da escola a pé, almoçava e ia fazer a minha árdua tarefa, para depois ficar com a tarde livre. A tarefa geralmente era ligar os pontos de um coelho ou representar as barras de chocolate em fração, o que me tomava muito tempo e energia de raciocínio. Para compensar esse gasto, quase que num ritual, findas as lições eu sempre embalava num filme. E aí não tem Cinema em casa que aguente: é Sessão da Tarde na cabeça. E eu não estava nem aí se a programação era fraca ou repetitiva - aliás, eu até gostava de assistir um mesmo filme várias vezes -, eu só queria ver o meu filme em paz. E se o filme fosse ruim, eu simplesmente tirava um cochilo, de modo que não havia nunca uma possibilidade negativa para as minhas tardes. Dentre os meus clássicos favoritos da Sessão da Tarde estão Um passe de mágica (aquele que a menininha recebe como fada madrinha um atrapalhado inexperiente), Guerreiros da virtude (o dos cangurus lutadores!) e Matilda (bruce!, bruce!, bruce!).
Lucas
Os jovens de hoje reclamam que não tem nada pra fazer, que estão entediados, que a tarde tá um saco. Pois eu concluo: quanto mais opções você tem, mais entediado você fica. Na minha época – puta que pariu, eu sempre quis falar isso -, quando a internet só podia ser usada sábado, depois das 14h00, e domingo até 00h00, a semana pós-aula não exibia muitas opções. Era a TV ou alguns jogos imbecis de computador. Na maioria das vezes, eu escolhi a TV. Não cheguei a pegar a fase gloriosa d’A Lagoa Azul, mas Curtindo a Vida Adoidado e Os Caça Fantasmas com certeza foram filmes que fizeram a minha tarde. Se hoje em dia o espírito nostálgico fosse resgatado pelos responsáveis da Sessão, voltaria a dedicar parte da minha tarde recordando traços da minha infância, sem sombra de dúvida.
Matt Idioteque (Artilheiro Colaborador)
Uma das coisas que mais me incomoda em ter 15 anos é não poder ser nostálgico sem soar idiota, mas é inevitável essa associação da Sessão da Tarde com a infância. E eu falo de filmes que até hoje estão na minha lista de favoritos. Pensar em Sessão da Tarde é pensar em Ferris Bueller, Cameron, McFly, Doc e outros personagens sensacionais. Ok, também é pensar na Brooke Shields sem roupa. Várias vezes. E em meninos reunidos em clubes onde meninas não entram. E no primeiro amor. E em filmes de macacos jogando hóquei. E em uma rainha das trevas que alimenta a imaginação de todo adolescente. E em filmes de bebês inteligentes lutando contra o crime. Tudo com uma narração clichê. Mas sinceramente, tudo isso era MUITO divertido quando se tinha 7 anos e as únicas preocupações com o mundo eram ver um filme legal e fazer a lição de casa, não?
Marcel
Você, com certeza se recorda de “A Lagoa Azul”, “Curtindo a vida adoidado”, “De volta para o futuro”, não é? E “Os Trapalhões”, “Xuxa e…”,“A Lagoa Azul 2 – a volta”, “Menino Maluquinho”, “Os caça fantasmas”, “Esqueceram de mim” (e quase que eu esqueço de novo), “O Máscara”, “Ace Ventura”, “A Família Adams”, “Flinstones”, “Um amigo da pesada”, “Uma turma da Pesada”, “Família Buscapé”, “Os Batutinhas”, “Um doutor Aloprado”, “Querida, encolhi as crianças”, “K-12”, “Uma babá quase perfeita”, “Duas babás quase perfeitas”, “Junior”, “Edward Mãos de Tesoura”, “O Mentiroso”, “Beethoven”, “Dr. Dolittle”? Pronto, fechamos um mês de nostalgia. E pode apostar que, qualquer palavra que eu escrevesse aqui não daria conta de elucidar tanto a sua juventude ociosa da qual você sente tanta saudade. Então minha missão já foi cumprida.





















