Archive for the ‘Palavreado’ Category
Palavreado XVI – Além das revistas velhas
Nunca tive medo de ir ao dentista. Não exatamente medo – sei lá o que as outras pessoas sentem -, já vi casos de sujeitos que sentiam a anestesia nem bem entrando no consultório, mas disso culpo os purificadores de ar. Desconforto? Cadeiras reclináveis não só garantem o bem-estar do paciente como têm botõezinhos ao alcance de sua mão, para serem apertados e ajustados de acordo com a sua vontade enquanto o profissional se vira para procurar as luvas descartáveis. Nunca tive medo provavelmente porque nunca tive nenhuma experiência traumática em uma dessas cadeiras, e porque sempre ganhava sorvete depois da anestesia (nunca contei à minha mãe que o frio prolongava o efeito – ignorância às vezes faz bem). E porque, apesar do pavor que tinha – e tenho! – do algodão, gostava – e gosto – muito das salas de espera.
Esperar não é algo lá muito agradável em situação alguma. Ainda mais quando a expectativa é de passar a próxima hora exibindo a arcada dentária a alguém. Salas de espera não se resumem a consultórios odontológicos, obviamente, mas as outras não têm a mesma tensão no ambiente que estas – salvo os casos de oncologistas ou ginecologistas com o resultado do seu exame de gravidez. Há um clima quase de cumplicidade entre os freqüentadores. Sempre que a porta que leva até a fatídica saleta é aberta, todos elevam os olhos àquela pobre criatura que a atravessa, que até tenta sorrir, mas teme que um dente lhe escapule da boca. Ou que está séria, talvez finalizando um pensamento iniciado com o silêncio congelante do lugar, esporadicamente quebrado pelo barulho do metal encontrando outro. Nenhum conhece o tratamento do que senta no sofá ao lado, mas mudamente percebe, a cada vez que um novo nome é chamado, que o futuro próximo de todos os presentes é o mesmo. E assim, relutantemente, aceita o seu.
Afora o entendimento mútuo praticamente inalável, temos o café frio e fraco, a água quente, a revista Caras do ano passado e o disputadíssimo jornal a que você jamais disporia alguns minutos de vida se tivesse opção. Mas, com medo ou não, aproveitando a oportunidade para conhecer melhor a pessoa que geme de dor mais próxima ou atualizando-se sobre mudanças no cotidiano das celebridades, nenhum ambiente oferece uma demostração tão clara da compreensão humana frente ao sofrimento alheio, ainda que pequeno.
E eu fui ao dentista hoje, não sei o que fizeram comigo. Mas não gostei. Tudo bem, o senhor ao lado precisava extrair dois dentes do siso.
Palavreado XV – Opinião privada sobre os banheiros
Eu me lembro de ter lido, há um bom tempo, um post da Deborah Garcia sobre os banheiros masculinos. Isso me levou a pensar sobre os banheiros de modo geral: não te parece estranho termos em nossa casa um local destinado a despejar os despejos de nosso corpo? E pior ainda: a moça passa horas se embelezando no mesmo lugar em que defeca? É algo que vai contra à boa lógica, e para mim é tão contra-senso quanto um paulistano falar “tu”.
Mas tenho o maior respeito pelos banheiros. Sou, inclusive, mais um que passa um bom tempo em suas dependências, às vezes não fazendo nada além de se olhar no espelho. E não há nessa afirmação nenhum traço de vaidade, há somente o estranho hábito de se olhar e divagar sobre você mesmo: quem sou?, de onde vim? e para onde eu vou?. Aliás, o banheiro é naturalmente o cômodo mais propício às reflexões. Aposto que se fosse hoje em dia, a casa de Platão iria se resumir a um quarto, uma cozinha e quatro ou cinco banheiros. Ou quase isso. É debaixo do chuveiro, mesmo que num banho quente, que a cabeça se esfria e as idéias fluem melhor. O banho está para a solução de problemas assim como a caminhada, que é uma outra solução para a criação de projetos e idéias. Imagino que os melhores romances e filmes tenham tido seu primeiro indício de vida no banheiro.
Isso se explica talvez por ser um dos poucos momentos do dia em que nos encontramos com nós mesmos. Eu e o meu chuveiro, eu e a minha privada, eu e o meu espelho. E esse silêncio ao nosso redor é o primeiro passo para que os ruídos internos, os sons da mente ou da alma, queiram se manifestar.
Mas não me iludo pensando que somente existe filosofia e reflexão nesse ambiente de ladrilhos. Os públicos, principalmente, são um antro de sujeira. Não me entra na cabeça o que mijar para fora e cuspir no chão têm a ver com masculinidade, mas é assim que alguns machos se portam. Não quero sujar essa crônica como eles sujam e rabiscam as portas com telefones carentes e palavrões. Prefiro aliená-la quanto ao submundo dos sanitários e deixar sua latrina e seus ladrinhos limpos ao brilho do desinfetante moral.
Palavreado XIV – O tipo ideal
Estava com saudade de escrever pra você, leitor. E é engraçado como o Palavreado é a minha coluna favorita de todo o Artilharia Cultural e, ao mesmo tempo, a que me traz mais dificuldade na hora de escrever. Porque, venhamos e convenhamos… Ao resenhar um filme, que é o que eu mais faço por aqui, o trabalho já está metade feito: o filme já está pronto. Tudo que eu preciso fazer é comentar. Na hora de tentar trazer um pouco da minha realidade, do meu eu para você, a coisa complica. Afinal de contas, um bom jornalista não deveria ser conhecido: a partir do momento que ele torna-se conhecido, e não seus textos, tem algo errado. Vou aproveitar minha qualificação como mero estudante da área, então, e mergulhar de cabeça nesse Palavreado. Para essa semana, escolhi um tema que esteve em pauta nas últimas semanas – no twitter, na faculdade, nas minhas últimas DRs -; um assunto, na verdade, que nunca se esgota: a pessoa ideal.
“Qual é seu tipo favorito?”
Que atire a primeira pedra quem nunca teve que tentar montar a mulher ou homem ideal. E é aí que o problema começa: existe isso? Existe alguém que cumpra exatamente toda e qualquer característica que você já idealizou (e substituiu, com o passar do tempo)?
Sou o tipo de cara cujo destino adora pregar peças. Se eu falo pra um amigo que adoro mulheres morenas, inevitavelmente uma loira nota 10 vai passar do nosso lado, e eu vou ficar com cara de bunda. E é engraçado que, sempre na hora de montar meu “tipo”, eu acabo titubeando e, no fim das contas, não falo nada. Sai geralmente algo como: “Adoro as morenas… Mas as loiras tem algo de extrovertido (e, mulheres, não se enganem: extrovertido é eufemismo pra safada. Alguém precisava dizer isso), enquanto as ruivas são exóticas!”. Na hora de me decidir entre uma mulher alta ou baixa, lembro da minha primeira namorada (1,75) e da atual (1,54) e concluo que não tenho argumentos pra discutir altura. Apenas para finalizar a parte fútil do post, vale o comentário que eu sempre fui o tipo oposto à todas as garotas com quem já estive: cedo ou tarde, descobri que a preferência delas eram caras loiros de olhos claros. E o Artilheiro aqui exibe cabelos e olhos castanhos.
Sabe o que me irrita, leitor? O que me irrita mesmo? É gente que trata o perfil ideal apenas adequando o porte físico. E aí esquecem que daqui a 30 anos as chances do seu”homem ideal” estar com 70% menos cabelo do que hoje (isso pra não falar que ele pode estar careca) é grande! E aquela barriga tanquinho, com os 6 gominhos, podem transformar-se em um tanque de guerra russo. O corpo da sua”mulher ideal” pode estar mais comprometido que o futuro do país se a Dilma ganhar as eleições, em algum tempo.
Aliás, um comentário é cabível: eu não respeito mulher (nem homem) que fica com alguém única e puramente pelo físico. E não, não tô falando daquela pessoa que você nunca mais vai ver na vida. To falando da pessoa que, na hora de idealizar o guri incrível ou a menina dos sonhos esquece daquilo que realmente te faz querer estar com alguém. A Cléo Pires (prima de 13º grau do Artilheiro Marcel e atual sonho de consumo de 9 a cada 10 homens) pode aparecer do meu lado; ela não vai aguentar mais que 3 dias. No 4º, quando eu começar a falar de Star Wars, quando atirar com a minha Nerf na bunda dela e especialmente quando eu mostrar meu capacete do Darth Vader… As coisas vão pro ralo. Exagerei? Exagerei. Mas é nesse caminho que as coisas estão andando.
Eu não quero alguém que seja só aparência. Não quero uma boneca pra ficar observando. Quero alguém que tenha sonhos como eu, e lute por eles. Que ria de mim e, mais, que ria de si própria. Que se divirta com as minhas imbecilidades e saiba perdoar meus erros. Não me importo com olhos castanhos ou azuis… Me importo com a ternura que esses olhos vão ter ao pousarem seu olhar em mim. No fim das contas, é isso que importa. Importa o quanto aquela pessoa faz bem pra você, e não o quanto faz bem pro seu ego estar com ela.
Deixo para vocês uma das minhas poesias favoritas, de um dos meus autores prediletos: Pablo Neruda.
Me Encante
Me encante da maneira que você quiser, como você souber
Me encante, para que eu possa me dar
Me encante nos mínimos detalhes
Saiba me sorrir: aquele sorriso malicioso,
Gostoso, inocente e carente
Me encante com suas mãos,
Gesticule quando for preciso
Me toque, quero correr esse risco
Me acarinhe se quiser
Vou fingir que não entendo,
Que nem queria esse momento
Me encante com seus olhos
Me olhe profundo, mas só por um segundo
Depois desvie o seu olhar
Como se o meu olhar
Não tivesse conseguido te encantar
E então, volte a me fitar
Tão profundamente, que eu fique perdido
Sem saber o que falar
Me encante com suas palavras
Me fale dos seus sonhos, dos seus prazeres
Me conte segredos, sem medos,
E depois me diga o quanto te encantei
Me encante com serenidade
Mas não se esqueça também
Que tem que ser com simplicidade
Não pode haver maldade
Me encante com uma certa calma,
Sem pressa. Tente entender a minha alma
Me encante como você fez com o seu primeiro namorado
Sem subterfúgios, sem cálculos, sem dúvidas, com certeza
Me encante na calada da madrugada,
Na luz do sol ou embaixo da chuva
Me encante sem dizer nada, ou até dizendo tudo
Sorrindo ou chorando. Triste ou alegre
Mas, me encante de verdade, com vontade
Que depois, eu te confesso que me apaixonei
E prometo te encantar por todos os dias
Pelo resto das nossas vidas.
Palavreado XIII – Coisas que não valem muito a pena dizer
Geralmente, antes de iniciar uma conversa eu penso duas vezes: valerá a pena? Terei que me explicar depois, terei que ouvir uma tese, terei que perder muito tempo? Evito esses diálogos de elevador que começam e acabam sempre em coisas inúteis como o clima ou a vida do síndico. Aprendi que tempo é um negócio muito precioso, e de tanto ver gente jogando seu tempo fora com coisas que não valem muito a pena dizer, fiz essa croniqueta e a ofereço neste Palavreado.
- Alô.
- Fala, Jorge. É o Saulo.
- Opa.
- Tá sabendo da nova?
- Não, digaí.
- Tá dando pra ver Júpiter. Olha o céu pra você ver.
- Hm. Cadê?
- Tá vendo esse ponto mais brilhante?
- Tô.
- Então, cara. É Júpiter!
- Mas é igualzinho a uma estrela comum.
- Eu sei, mas é Júpiter.
- Você tem certeza? Pra mim parece só uma estrela.
- Tenho, sim. Absoluta. Só te liguei pra falar isso.
- Ah, tudo bem então. Obrigado por se lembrar de mim.
- Aproveita, cara, que não vai ficar por muito tempo não! Abração!
- Outro.
x
- Ôô, Mariana! Como você está?
- Ooi, Paulinho! Tudo certinho graças a Deus, e aí?
- Beleza. Eu te vi esses dias aí no calçadão.
- Eu no calçadão? Quando?
- Acho que foi na terça. Ou na quarta, não me lembro bem.
- Terça eu fiquei no consultório o dia inteiro. Quarta… que horas foi?
- Olha, foi na parte da tarde. Talvez umas quatro.
- Quarta às quatro? Não sei, acho meio difícil.
- Mas eu tenho certeza que era você.
- Ah! Será que não foi na quinta-feira?
- Até que pode ser.
- Então foi isso. Quinta às quatro eu estava indo buscar meu filho no judô.
- Viu só! Sabia.
- É, então tá bom. Um beijo, viu?
- Se cuida! Tchau tchau!
Palavreado XII – Ode ao miojo
Quando fico muito tempo sem escrever nada, preciso dar uma de Vinicius de Moraes, sentar na em frente à máquina e dar um jeito de sair alguma coisa. Chega um momento que você se desespera, pensando que sua veia artística, que já é pequena, tenha truncado. Aí é hora de apelar, olhar para os lados e aceitar qualquer coisa como tema. Na dificuldade de elaborar um conto para narrar a trajetória de uma panela, passeio novamente meu olhar pela cozinha em busca de um tema, e é com o garfo já na boca que encontro a solução no meu prato: o macarrão instantâneo.
Interrompo a mastigação para pensar na metafísica do macarrão. Não tenho problemas psíquicos, se é isso que você está pensando agora, mas analise a situação comigo: o macarrão instantâneo já fez tanto pela gente que talvez fosse a hora de retribuirmos. Quantos dias você chegou atrasado em casa, com o estômago em 4 pontos na escala Richter e foi salvo pelo miojo? Quantos galhos gastronômicos ele já não quebrou? E quantos reais você não poupou simplesmente porque escolheu lotar sua despensa com macarrão instantâneo?
É por isso que sou favorável a fazermos uma ode ao miojo. Aqui perto de casa, por exemplo, desenharam o Woody Allen no muro, mas o que o Woody Allen já fez por mim, além, é claro, de uma porção de filmes? Entre o Woody Allen e o miojo, você fica com o miojo: seja honesto com você mesmo. Se fosse eu o prefeito de minha cidade, por certo eu nomearia uma Rua do Miojo, ou Avenida do Macarrão Instantâneo, ou Praça Pronto Em Três Minutos. O miojo, tão íntimo da estudantada que não tem vez, deveria, mesmo, ocupar um espaço especial entre as crônicas, os poemas e as músicas populares. Mas nunca vi ninguém falando do macarrão. É mais ou menos como um grande amigo, que está sempre ali para te ajudar, mas você não se lembra de agradecê-lo. E quando bate uma dorzinha na consciência, você corre pro abraço e diz um “obrigado por tudo”. É disso que o miojo precisa. Afinal, não importa a marca ou o sabor, não importa nem mesmo se ele está cru, o miojo sempre estará a três minutos de me saciar, e é por isso que eu me ajoelho, levanto os braços para o céu e digo para quem quiser ouvir: obrigado, miojo, por existir.
Palavreado XI: Envelhecendo
Em algum momento da vida, aos trinta ou aos setenta anos, você vai parar, encarar uma situação como se ela fosse algo que cheira muito mal e chegar à inevitável constatação: estou ficando velho.
Estava eu, hoje, dando aulas de Português a uma adorável garotinha cujas habilidades lingüísticas são praticamente nulas quando me dei conta do terrível fato. Envelheci. E minhas costas ainda nem doem tanto assim. A tarefa que lhe designei era muito simples: criar personagens, escolher um cenário, criar um enredo e desenvolvê-lo. E, pelamor, tentar fazer algum sentido. Fui questionada se ela poderia usar o nome e as características de uma pessoa real. Desviei o olhar do dicionário para admirar minha aluna com certo carinho: o que ela me pedia permissão para fazer era uma fanfiction. Coisa do meu tempo, fiz muito isso. Que orgulho.
“Quem será o protagonista?” Perguntei, ligeiramente mais interessada na criança.
“Ah… Acho que… Justin Bieber!”
Um minuto.
“Quem?”
“Justin. Justin Bieber.”
Certo. O orgulho explodiu e saiu rodopiando até o teto. Ainda lutei tentando persuadi-la a criar um simpático personagem chamado Douglas, mas ela recusou. Nada feito, seria Justin. Justin Bieber. Você disse que podia, tia.
O primeiro sinal de que se está ficando velho é ouvir alguém lhe chamando de tia(o) e não achar isso nem minimamente estranho.
Eu ainda tentava convencê-la de que havia, sim, uma pequena diferença entre um verbo e um adjetivo quando percebemos que a estória precisava de mais personagens. Justin Bieber não dá conversa sozinho. E eis que a eleita é Selena Gomez.
Mas eu não sabia quem era Selena Gomez.
Justin Bieber eu sabia, aquela menina que fica repetindo “baby” na minha televisão enquanto eu durmo, mas Selena Gomez era novidade pra mim. Cheguei em casa e imediatamente liguei meu computador, na vã esperança de encontrar uma foto da criatura e dizer “mas é claro, como pude me esquecer?”
Mas a verdade é que eu nunca tinha visto a fuça de tal espécime antes. Estamos na era da internet, globalização e inclusão estão aí, as informações correndo por todos os lados, todo mundo conhece todo mundo – e eu, aqui, do fundo de um quarto escuro e cheirando a café e incensos, não sabia quem diabos era Selena Gomez.
Há outros indícios da velhice iminente, como a utilização frequente de expressões como “Cuidado, pode pegar no seu olho”, “Você ainda não era nascido”, “No meu tempo sim que era legal”, “Na sua idade, eu (…)” e tantas outras.
No meu tempo, sim, que era legal. Eu cresci em uma fazenda, quase ninguém acredita nisso. Cresci segurando chaves de fenda, subindo em árvores, correndo atrás de ovelhas, jogando jogos educativos (Mortal Kombat) e assoprando meus cartuchos de Super Mario World. Quando eu tinha a idade dela, Disney era só o que vinha escrito na caixa dos vídeos cassetes de desenhos animados. E ninguém escrevia contos eróticos com os seus personagens.
Todo mundo está crescendo e evoluindo e você aí, se decompondo. O mundo está se tornando um lugar muito agradável de se viver, onde ter opiniões formadas sobre um assunto, conhecer filmes lançados antes de 1980, discutir política e ouvir bandas cujos integrantes já foram devorados por vermes significa estar velho. E, não, você não tem o direito de acompanhar o processo. Você não sabe quem é Selena Gomez, meu caro. Ninguém contrata alguém assim. Ninguém se importa com as pessoas dessa laia. Admita o fato, compre um rolos de lã e aprenda tricô. Vá ler o jornal do ano passado.
Talvez o sinal mais alarmante seja se dar conta de que se está ficando velha antes de completar duas décadas de vida. As coisas mudaram tanto assim? Eu perdi alguma coisa por não saber quem era a nova estrela da Disney? Já posso ir ao banco e escolher a fila dos aposentados? Sinto meus ossos estalarem.
Palavreado X – O impedimento e as mulheres
Eu tentei. Meu sonho de fazer minha namorada explicar o impedimento para meus amigos não deu muito certo. Tá, você vai dizer que é machismo meu, que a mulher vem ganhando um mercado incrível nos últimos anos, e eu não vou discordar porque tenho olhos. Tirando também a questão de eu parecer mais machista ainda ao fazer minha namorada pagar esse mico, resolvi abrir uma discussão séria e comum: por que a mulher do século XXI não entende o impedimento?
Vou tentar ser sucinto ao máximo.Vejamos:
Lá estão, no campo, 22 homens correndo atrás da bola e tentando fazê-la chegar à rede adversária… Mas calma lá! Não é tudo simples assim. Você, com certeza, pensou com toda sua sagacidade: Ah, então vou ficar lá perto do gol do adversário esperando a bola. E é ai que você vai se dar mal. Por quê? Por causa do impedimento, mulher! O bandeirinha que corre na lateral com uma visão precisa do posicionamento traça uma linha limite entre o último homem defensivo do time adversário, e se você estiver mais perto do gol que ele – logo, em vantagem, no momento do lançamento -,você estará impedido de jogar!
Não entendeu nada? A Clara te explica:
(ATENÇÃO: SÓ ASSISTA OS PRIMEIROS 30 SEGUNDOS. DEPOIS DESSE TEMPO, NÃO GARANTO A DEVOLUÇÃO DE SEUS MINUTOS DE VIDA DESPERDIÇADOS)
Outras explicações, se você ainda não entendeu:
(…) “O intuito da regra é evitar que um, ou mais atacantes permaneçam em frente ao gol do adversário, esperando pela bola, sem participar ativamente da partida.”
Simples não? E tem mais:
(…)”Até hoje, o jogador não está em impedimento se estiver na sua metade do campo.”
Tá, dessa nem eu sabia.
O esquema de tira-teima (que é uma palavra tosca quando se observa) sempre ajuda Galvão Bueno e o Arnaldo (ah, só pra não deixar passar: #CALABOCAGALVÃO). Então vamos ao tal esquema bem explicadinho:
(…) Para quem não sabe, a atual lei do impedimento diz que, quando um jogador recebe a bola no campo de ataque, é preciso haver pelo menos dois adversários entre ele e a linha de fundo. Como o jogador mais recuado em geral é o goleiro, isso significa o goleiro e mais um.
http://super.abril.com.br
É assim desde 1925. Até então, era preciso haver três jogadores. Mudou-se a regra porque os técnicos deixavam um zagueiro adiantado e outro na sobra. Se o atacante evitasse o impedimento, o segundo zagueiro matava o lance. As partidas concentravam-se no meio-campo e os jogos acabavam sem chutes a gol, a não ser em cobranças de falta. A alteração teve dois efeitos. Primeiro, o placar das partidas engordou. No primeiro jogo sob a regra nova, na Inglaterra, o Aston Villa marcou dez gols no Burnley. O outro efeito foi desafogar o meio-campo: provocar o impedimento com um só jogador ficou arriscado e a zaga foi recuada.
O miolo do gramado virou lugar de craques. É ali que, trocando passes ou driblando, os bons jogadores avançam com a bola sob controle até o bote final: um chute à distância ou a penetração de um atacante por trás da defesa até o gol.
Voltando à conversa
É tempo de Copa, o futebol está em alta. Nada mais bonito que aprender agora porque aquele gol da seleção não valeu, né? O futebol nem tem lá muitas regras. Pode ser essa a razão pela qual o impedimento é tão complexo e cheio de ramificações. Não sou especialista em futebol, nem em mulher, mas a dúvida ainda paira no ar. O que é que existe entre a lei do “fora-de-jogo” e o cérebro feminino?
Ainda quando as “Belas na rede” me fizeram o favor de explicar o impedimento e outras regras do esporte eu me perguntava – elas estão mesmo lendo isso? Mecanimente diziam o que seus redatores homens haviam escrito. Aí voltaríamos ao debate cruel:
- Sim @noduro, existem bandeirinhas mulheres! E aí? Sai dessa!
- Mas por que o homem – no geral – entende com mais facilidade?
Você diria que é pelo interesse. E eu discordaria, conheço muita mulher intressada pelo futebol, seja para sacanear o marido, o ex-namorado, ou ainda aquela que tem coragem de bater no peito e dizer:
- Sou CORINTIANA!
- Tá. Mas como é que funciona o impedimento?
- Não sei.
- Tá vendo?
Tô vendo, tô vendo e espero não ser linchado pelo público feminino, e menos pelo masculino que defenderá as donzelas.
Linchado serei com a mesma duvida do começo do post: o que teria entre o impedimento e a mulher?
Mas se você é o leitor que entende o artilheiro em sua agonia de não compreender um fato social tão enigimático me ajude: vamos iniciar um projeto de pesquisa que pode nos trazer essa resposta sobre o segredo que esse simples fato esconde. Ou só esqueça que leu tudo isso.
Só não esqueça de ser feliz.
Palavreado IX: A Nostalgia de um Gamer
Eu voltei, galera. Eu sei que a saudade tava batendo forte, e vocês já estavam indo afogar as mágoas num belo whisky… Mas o Artilheiro favorito de vocês (depois do Marcel, do Tauil e da queridíssima Alice) está de volta, para mais um Palavreado. E hoje não vamos debater sobre nenhum tema, não iremos falar de política, tampouco da minha mãe. Hoje eu quero contar uma história pra vocês. A história de como, no fundo, nós acabamos nos rendendo à infância. Sempre.
Eu comprei um Playstation 3 há algumas semanas. Um tesão, caros leitores. Um tesão. Os novos consoles, Playstation 3 e Xbox360, te dão a mesma sensação de ter a Scarlett Johansson e a Megan Fox, respectivamente, te esperando para desfrutar de tudo o que elas tem a oferecer.
O que importa é que a nova geração de consoles é simplesmente sensacional. Indescritível. Incomparável. Insuperável (até que a nova geração venha, e assim consecutivamente). Eu estava maravilhado com o PS3, até que algo inusitado (para usar um belo eufemismo) ocorreu.
Estava eu na casa de uma amiga (@larissagould), conversando sobre uma infinidade de coisas, até que eu soltei uma frase que nem precisa ser dita para muitos que convivem comigo há anos: mulher que é mulher joga videogame! Rindo, ela começou a mexer embaixo da cama e puxou uma caixa. O conteúdo da caixa era como aquela de Pandora. Era como o auge de tudo. Era atingir o inatingível. Dentro daquela caixa, jazia um Super Nintendo.
UM SUPER FUCKING NINTENDO.
Pensei em bater com a caixa na cabeça dela e, enquanto ela se recuperava do baque, fugir. Preferi partir para o diálogo e depois de implorar algumas dezenas de vezes, ela me emprestou o console. Quando eu fui olhar as fitas (FITAS!), fiquei com os olhos quase marejados. Dentre elas, estava Super Mario World e o principal motivo de pesadelos aos meus 7 anos e meio de idade: Mortal Kombat 3.
Não é por nada não, mas… Nostalgia é uma das coisas mais gostosas desse mundo. Porque aqui ta o Playstation, com suas infinidades de demos, com rede para jogar online com meus amigos, com gráficos fuderosos e tudo mais que um console next-gen deve ter. Mas meu irmão… Só no Super Nintendo você assopra a fita.
Sem mais.
IMPORTANTE!
O Artilheiro amado de vocês mudou de twitter. Sigam-me de novo, no atual: @lucasbaranyi
Palavreado VIII – Discutir política é cool
Acho que nunca se falou tanto em política no Brasil. Pelo menos, no meu insignificante tempo de vida, me lembro de somente um momento de discussões sobre política: aquele tal referendo do desarmamento. Lembra-se? Tudo bem se você disser que não – o brasileiro é, ainda, um ser despolitizado. Começo a perceber, no entanto, que isso está começando a mudar.
A política invadiu os veículos da mídia, e também as redes sociais. Eu sei, meu bem, que sempre existiu notícia sobre política nos jornais e na TV, mas agora é moda estar por dentro. Ou será que todos os quatro milhões seguidores do Obama no twitter realmente estão interessados em saber como anda a Casa Branca? Não havia, antes, nenhum meio de estar tão próximo dos representantes do povo. Agora, os políticos têm site, blog, twitter – acho que tudo isso começou com a própria campanha do Obama, pois dizem que sua eleição só foi possível através da internet.
Veja os presidenciáveis, por exemplo. Serra, Dilma, Marina. Todos têm twitter e blog porque finalmente entenderam que o eleitor hoje está na internet. Conquista-se os jovens e daí, tchum. Eles, inflamados por natureza, vão sair por aí discursando sobre o porquê de seus candidatos serem melhores. E ai de quem disser não.
Isso é mais facilmente notado se analisarmos os programas de humor. Tudo se iniciou com o CQC, que começou a abordar os políticos. Não me recordo de nenhum outro humorístico de grande porte que dedicasse tanto tempo da programação para isso. Esses quadros fizeram tanto sucesso que a concorrência, o Pânico na TV!, resolveu fazer o mesmo. Tô mentindo? A Sabrina Sato ganhou um quadro também lá no Senado. Tão engessado e sem-graça que se não fosse aquele par de coxas douradas, acho que teria sido riscado. E outra: desde quando um canal como a MTV teria blogs para tratar exclusivamente dos nossos excelentíssimos?
O que estou querendo dizer é que existe hoje uma enorme modinha ao redor da política. É cool saber das coisas, ter opiniões sobre os candidatos e se manifestar, fazer passeata “Fora Sarney” com um bigode grudado na cara, jogar panetone na casa do Arruda. As modinhas geralmente são detestáveis, mas taí um movimento que eu dou meu apoio. Afinal, quanto mais se discutir por aí, melhor pra gente – é o fim do mundo ouvir “política não se discute”. Não sei como até hoje não apareceu nenhum grupo guerrilheiro que eliminasse um a um essas figuras de terno, ao melhor estilo de V de Vingança.
Para acabar, uma música amorosa dos Titãs.
E inté semana que vem!
Palavreado VII – Twitter e as contra indicações
A simplicidade ganhou forma e cara na web 2.0. O Twitter – que é o famoso “pio” dos passarinhos em inglês - tornou-se corpulento com uma rapidez digna dos grandes inventos. Vimos em 2009 a consagração da ferramenta que adentraria 2010 com uma inesperada importância na mídia.
Os meios de comunicação, das mais variadas vertentes, viram no Twitter uma forma esplendorosa de se aproximar dos espectadores. Os produtos seguem seus clientes, literalmente. E os fãs do – inexplicável – fenômeno Justin Bieber disseminam seus dizeres para os quatro cantos do universo em uma questão de piscadelas. Logo, somos todos tuiteiros felizes e informados.
Veja bem, raro leitor, não sou um tuiteiroPRO como nosso grande @lukebaranyi – quem eu vos indico a seguir – ou @tauiltter e seus sábios dizeres e conversas com o Senador Cristovam Buarque. Sou apenas um usuário teimoso que vê fascinado o funcionamento da ferramenta.
Antes de tudo, explico-lhes que minha concepção de Twitter é simples: nostálgica. Eu escrevo para guardar momentos. O que me tira da grande massa que usa a ferramenta com inteligência de divulgar idéias, dicas e até mesmo vagas de emprego. É certo que o passarinho como forma de divulgação é incrivelmente eficaz e satisfatório, tanto a quem lê, para quem divulga. Quem lê, seleciona antes: seus seguidos. Quem divulga/escreve tem seu público alvo todo mapeado: seus seguidores.
Assim, falado resumidamente de como vejo a nova maior e indispensável rede social, direi o que me preocupa: O Twitter vicia. Não só vicia seus dias, frente a uma tela de computador a contar do estado do seu cãozinho que voltou do veterinário ou confirmar aquela coletiva de imprensa importante que você dará. O vício ao Twitter vai para além do desuso de sua lifetime.
Um psiquiatra, militante do LSD e crítico a hegemonia dos meios de comunicação chamado Timothy Leary alertou certa vez que o telespectador, habituado à programação da televisão em horário nobre, testado sobre sua concentração na leitura, quebrava o fluxo de foco em 20 minutos. 20 minutos é o que, exatamente, se configurava o tempo da programação de televisão até o primeiro comercial. Ou seja: depois de 20 minutos, o sujeito desconcentrava-se da tarefa que fosse, pois seu cérebro estava acostumado a dar sua atenção numa parcela segmentada de tempo até que desligaria por completo durante os comerciais.
O uso do Twitter deve ser cauteloso no que diz respeito a esse vício mental. Vêem-se pilhas e pilhas de jovens desconcentrados e de idéias sofríveis, sem argumentos. E o próprio mecanismo do Twitter aponta para isso, não como culpado, mas como cúmplice: sucinto, rápido, dinâmico e obsoleto. Os próprios dizeres se desvalorizam tantas vezes. O que tende em – uma possibilidade que parece apocalíptica, mas que não é tão distante – tornemo-nos cada vez mais resumidos, menos aprofundados. A geração dos 140 caracteres.
Assim, logo a juventude que tinha de meter-se entre bons romances – independente de sua espessura física de páginas – para entender da profundidade das coisas, conta caracteres para que caibam seus feitos cotidianos.
O Artilharia Cultural, junto a outros bons veículos do público jovem, sugere justamente uma descoberta de um mundo cultural. A humilde opinião em sugestões literárias, cinematográficas, musicais e etc é uma proposta do jovem para o jovem. Mesmo assim, com todas essas análises com até cinco, ou seis mil caracteres, usamos o Twitter. É evidente a já falada eficácia da ferramenta. Existe sim o que pode ser dito em 140 caracteres, ou até menos. Vejamos as manchetes jornalísticas: tantas interessantes, inteligentes e insinuantes com muitas vezes menos que isso. Mas as manchetes informam? Não.
A ferramenta é sim magnífica e útil. Mas toda benção vem próxima a maldição ou, metaforizando ainda mais citando Tio Ben de Peter Parker: Super ferramentas trazem super responsabilidades.
Por isso, usem-na com consciência, jovens e sejam felizes.












