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Archive for the ‘Os 5 melhores discos’ Category

Os 5 melhores discos de Francis Hime

Francis Ao Vivo (2005): Nesse show, gravado no SESC, Francis faz uma revisão, uma síntese de seu trabalho. Funcionaria mais ou menos como essas coletâneas: um pouquinho de cada época, um pouquinho de cada parceiro. É um ótimo disco para quem quer começar. Com piano, violão, baixo e bateria, Francis e sua banda conduzem um show muito animado, sem participações especiais.

Continência: A dor a mais.

Passaredo (1977): O repertório é formado pelas parcerias mais ilustres de Francis: Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Ruy Guerra, Paulo César Pinheiro e Olivia Hime, sua esposa. Participações vocais do Chico e da Olívia. Fora esses nomes conhecidos, entre os instrumentistas estão Chico Batera, Wilson das Neves, Danilo Caymmi, Nelson Angelo, Novelli e Altamiro Carrilho. Ou seja, junta uma porrada de craques no estúdio, mistura bem e tá feito o disco.

Continência: Luísa.

Brasil Lua Cheia (2003): Esse é um projeto espetacular do Francis. Estão envolvidos Lenine, Moraes Moreira, Olivia Hime, Paulinho da Viola e Adriana Calcanhotto, que nesse disco virou parceira póstuma de Vinicius de Moraes. Sim, como você conseguiu notar, o Francis tem esse negócio de só trabalhar com gente boa.

Continência: No parangolé do samba.

Essas parcerias (1984): Como o nome já diz, o disco é uma homenagem a todos os seus parceiros. Entre os compositores, além, é claro, de Francis, estão Cacaso, Gilberto Gil, Ivan Lins, Milton Nascimento, Abel Silva, Geraldo Carneiro, Fátima Guedes, Olivia Hime, Toquinho e Capinan. O time fica mais ainda diversificado quando Chico Buarque, Milton Nascimento, Gal Costa, Olivia Hime, Gilberto Gil e Elba Ramalho entram para as participações vocais. Talvez seja esse o meu preferido do Francis.

Continência: Parceiros.

Álbum musical (1997): “Álbum musical” é a tradução literal para “songbook”, e é esse o intuito do disco: reunir uma galera para interpretar suas músicas. O próprio Francis não aparece no disco, mas, para substituir sua ausência, ele escalou um time impecável. Lá vai: Milton Nascimento, Caetano Veloso, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Olivia Hime, Djavan, Maria Bethânia, Ivan Lins, Zélia Duncan, Miúcha, Gilberto Gil, Daniela Mercury, Leila Pinheiro, Zé Renato, Gal Costa, Beth Carvalho e João Bosco. Uau. Arranjos dos mestres Cristóvão Bastos e Marco Pereira. Sabe aqueles discos que não basta ter em mp3, você tem que comprar? Então, é esse aí.

Continência: A grande ausente.

Os 5 melhores discos de Edu Lobo

Corrupião (1993): Produzido pelo próprio Edu, não existe fã que fale mal deste disco. Ele reúne um time dos maiores expoentes da composição musical: Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Tom Jobim e Villa-Lobos. Sem participações especiais, chega a ser um disco mais íntimo que firma o artista entre os grandes da música brasileira.

Continência: Ave Rara.

Meia-noite (1995): Acho que é o melhor trabalho do Edu. Releituras de parcerias com Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Torquato Neto. Uma faixa instrumental com a nata musical desse país e participações especialíssimas de Dori Caymmi e Milton Nascimento. Sem contar que todos os arranjos são do craque Cristóvão Bastos.

Continência: Pra dizer adeus.

Camaleão (1978): Um dos discos mais característicos do Edu, marcado pelas parcerias com Cacaso e pela presença do grupo vocal Boca Livre. Participação também de Quarteto em Cy, MPB-4 e Wanda Sá, que foi casada com Edu e é mãe de seus filhos. Tem um arzinho interiorano, regional.

Continência: O trenzinho do caipira.

Limite das águas (1976): Um disco sério e profundo, segue a mesma linha que “Camaleão” no sentido do regionalismo marcado do Nordeste. Tem as palavras de Capinan, Cacaso e Guarnieri e a participação vocal de Joyce. Este disco foi relançado no mercado com o nome de “Mestres da MPB – Edu Lobo”.

Continência: Limite das águas.

Edu e Tom (1981): Acho besteira perder tempo tentando falar sobre esse disco. São dois monstros da linha direta de Villa-Lobos, não tem como dar errado. Alguns autores que compõem o repertório, além, é claro, de Tom e Edu: Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Paulo César Pinheiro, Torquato Neto e Marino Pinto. Com a produção de Aloysio de Oliveira, me espanta esse disco não ser considerado um top10 nessas listas que fazem por aí.

Continência: Vento Bravo.

Os 5 melhores discos de Chico Buarque

As cidades (1998): extremamente sutil e leve, brinda o romântico com canções sem compromisso com o social ou com a política. Acho o melhor e o mais pessoal trabalho de Chico. Participação vocal de Branca Lima e Cristina Buarque e instrumental de Guinga e Dominguinhos. Os arranjos, extremamente delicados sem ser piegas, ficam por conta de Luiz Cláudio Ramos.

Continência: Injuriado.

Construção (1971): divisor de águas na obra de Chico, marca o início de um compositor maduro e engajado. Como foi lançado após seu retorno do auto-exílio na Itália, as canções têm uma base social e política, uma espécie de denúncia. Apesar disso, não deixa de lado o lirismo e o popular. Indicado pela Roling Stones como o número um dos discos brasileiros.

Continência: Construção.

Meus caros amigos (1976): aclamado por unanimidade como um dos mais finos álbuns de Chico, traz alguns de seus maiores clássicos. Os arranjos de Francis Hime embalam um disco extremamente  íntegro, com um repertório harmônico. Participação vocal de Milton Nascimento. Parcerias com Ruy Guerra, Augusto Boal e o próprio Francis.

Continência: Corrente.

Uma palavra (1995): este disco nasceu porque Chico quebrou a perna jogando futebol, e, de cama, sentiu vontade de revisar seu próprio trabalho. Sem nenhuma música inédita, ele recria suas próprias composições como quem encontra seus amigos sumidos. O repertório diversificado é um apanhado do sumo de outros discos seus. Em uma das músicas, Chico chegou a reescrever um trecho da letra.

Continência: Quem te viu, quem te vê.

Paratodos (1993): um disco sobre o tempo. Músicas que falam sobre música, sobre o ato de compor. Isso se dá porque Chico havia abandonado a música para se dedicar ao seu primeiro romance, Estorvo. Depois de lançar o livro, o artista sentiu a necessidade de redescobrir o violão. E assim nasceu o repertório: algumas inéditas, algumas regravações. Sublime. Participação vocal de Gal Costa. Como curiosidade, as fotos de Chico na capa foram feitas em sua adolescência, não por um fotógrafo, mas por policiais, para sua ficha criminosa – Chico e um amigo haviam roubado um carro em São Paulo e passaram a noite na prisão.

Continência: Choro bandido.

Os 5 melhores discos de Tom Jobim

Stone flower (1973): produzido em Nova York, é, para mim, um dos melhores discos do mundo. Mesmo com o repertório quase que inteiro de sua autoria – exceto duas parcerias com Chico Buarque e uma com Vinicius de Moraes -, Tom decidiu homenagear Ary Barroso gravando sua versão para “Aquarela do Brasil”. O disco tem uma cadência própria, mesclando ritmos nordestinos com jazz, por exemplo.

Continência: Quebra-Pedra.

Urubu (1976): fruto do casamento da influência erudita com as pesquisas profundas sobre a cultura brasileira. É juntar Villa-Lobos com Debussy, botar um teco de Mario de Andrade e rechear tudo com algumas letras próprias de Tom.

Continência: Correnteza.

Matita perê (1973): na mesma linha de “Urubu”, um lado extremamente maduro de Tom. Erudição nas músicas instrumentais, sem ser maçante. Em contrapartida, traz uma das canções mais populares, a famosa “Águas de março”. É altamente recomendável que você escute esse disco se tem a idéia de que Tom Jobim é só um compositor de Bossa Nova.

Continência: Matita Perê.

Passarim (1987): extremamente leve e alegre, certamente você não irá ouvir esse disco se estiver em um dia rock ‘n’ roll. “Passarim” marca o início da parceria de Tom com a Banda Nova, que nasceu da união entre as famílias Jobim, Caymmi e Morelenbaum – e mais alguns músicos de fora da parentada. Uma grande família extremamente talentosa não pode dar errado.

Continência: Anos Dourados.

Passarim (1987): extremamente leve e alegre, certamente você não irá ouvir esse disco se estiver em um dia rock ‘n’ roll. “Passarim” marca o início da parceria de Tom com a Banda Nova, que nasceu da união entre as famílias Jobim, Caymmi e Morelenbaum – e mais alguns músicos de fora da parentada. Uma grande família extremamente talentosa não pode dar errado.

Continência: Anos Dourados.

Os 15 melhores álbuns de Martinho da Vila

Artilheiro Colaborador: Gabriel Deslandes

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Me  pediram para enumerar os melhores álbuns de Martinho. Segue a listagem, salientando ainda aquilo que há de mais marcante em cada. Também cito as minhas respectivas faixas favoritas, para as quais sou obrigado a bater continência ao Sargento Ferreira. Desfrutem ainda das belíssimas capas desenhadas com esmero pelo mestre Elifas Andreato:

Martinho da Vila (1969): O primeiro disco, como já foi dito, se baseia no resgate do partido-alto dos terreiros para as rádios. “O pequeno burguês”, “Pra que dinheiro”, “Casa de bamba”, “Quem é do mar não enjoa” e “Yayá do cais dourado” são os clássicos dos clássicos. Em “Brasil mulato”, Martinho projeta uma visão futurista do Brasil, cujo povo se miscigenou tanto a ponto de tornar-se inteiramente mulato. Há ainda os sambas-canções “Grande amor” e “Amor, pra que nasceu?”, este último um poema imortalizado na voz de Carmen Costa.

Bato continência: “Tom maior”, uma ode de sutileza ímpar a todas as futuras mães que sonham em um país melhor para seus filhos.

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Meu laia-raiá (1970): O disco de 1970 toma o rumo inverso em relação ao anterior. Rildo Hora ousa ao misturar o requinte de uma orquestra de cordas aos batuqueiros de seu conjunto. Além disso, a maioria do repertório consiste em sambas mais românticos, como a faixa-título, 7ª colocada no V FIC do mesmo ano. Martinho se demonstra um cronista do cotidiano suburbano em “Volta pro morro”, “Samba da cabrocha bamba” e na eufórica “Madrugada, carnaval e chuva”. É filosófico em “Ninguém conhece ninguém”, folclórico em “Folia de reis” e autobiográfico no calango “Linha do ão”. Ainda há a simplicidade instigante de “Vamos viver” e da onomatopéica ”Plim plim” (recentemente regravada por Ovídio Brito). A única bola fora é o tal “Samba do paquera”, música completamente nonsense.

Bato continência: “Melancolia”, metaforizando de forma dramática as desilusões amorosas com uma tempestade. Coisa fina.

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Memórias de um sargento de milícias (1971): Primeiro álbum em que Martinho canta sambas de outros compositores, o que inclui a faixa-título, único samba-enredo de Paulinho da Viola para sua Portela (de 1966). Outro fato interessante é a versão de “O nosso olhar”, de Sérgio Ricardo, sendo a primeira vez em que um sambista de morro grava algo do repertório bossanovista. Também passeia pelas obras de sambistas como Candeia, Ataulfo Alves, Cabana, Darcy da Mangueira, Geraldo Babão e Xangô da Mangueira. Entre suas músicas, estão as moralizantes “Quem pode, pode” e “Segure tudo”, a elegante capoeira “Camafeu” e “Menina moça”, samba que o lançou no III Festival da Record.

Bato continência: pot-pourri de partido-alto. É impossível não se deixar levar.

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Batuque na cozinha (1972): Álbum que tem como sustentáculo a recriação de “Batuque na cozinha”, clássico antiguíssimo de João da Baiana. Martinho referencia a ala de compositores de sua escola em “Quem lhe disse”, samba de Antônio Grande. Demonstra ainda bom humor em seu frevo “Na outra encarnação”, em que apregoa querer voltar mulher em sua próxima vida simplesmente para não trabalhar. O disco ainda conta com as dolentes “Marejou”, “Saudade e samba” e “Jubiabá”, primeira música intitulada com o nome de um pai-de-santo. O partido-alto mostra sua cara em “Balança povo” e em uma seleção de sambas-de-roda.

Bato continência: “Onde o Brasil aprendeu a liberdade”, samba-enredo da Vila, de 1972, quase censurado pelo regime militar. Em minha opinião, trata-se da música mais bonita já composta por Martinho. A riqueza poética, melódica e harmônica é um absurdo.

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Origens (1973): Disco conhecido pela versão de “Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, primeiro samba gravado, pelos idos de 1917. Em um pot-pourri, Martinho também presta um tributo a Monsueto Menezes, gênio do samba. Na mesma linha classuda, porém cômica, de Monsueto, está “O caveira”, de Martinho, comparando ironicamente seus credores a assombrações. Ainda merecem destaque “Beto Navalha”, de João Nogueira, retratando uma briga de malandros; “A hora e a vez do samba”, de Gemeu; e o sucesso “Tudo, menos amor”, de Monarco e Walter Rosa.

Bato continência: “Fim de reinado”, regravado por Roberto Silva e Beth Carvalho. Martinho descreve, de forma singela, a aurora das manhãs.

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Canta, canta minha gente (1974): Primeira vez, depois de anos, que Roberto Carlos é ultrapassado no número de cópias vendidas. A causa foi este elepê, do qual saíram as famosíssimas faixa-título e “Disritmia”, talvez a declaração de amor mais popular da história da MPB. É romântico no animado “Dente por dente” e no samba-canção “Viajando”. Regrava a espetacular “Malandrinha”, de Freire Júnior, levanta a moral de sua escola, quase rebaixada em 1974, em “Renascer das cinzas”, glorifica seu time de coração em “Calango vascaíno” e louva Nanã, Ogum, Exus e caboclos em “Festa de umbanda, pot-pourri de pontos de macumba.

Bato continência: “Patrão, prenda seu gado”, versão da obra-prima de Pixinguinha, Donga e João da Baiana

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Maravilha de cenário (1975): O disco, marcando o primeiro trabalho do Martinho com o arranjador e clarinetista Paulo Moura, é aberto por “Aquarela brasileira”, de Silas de Oliveira, pérola do nosso cancioneiro. Em seu “Cresci no morro”, Martinho baixa a elegância de Noel Rosa, retrato fiel da malandragem da década de 70. Torna-se parceiro de Paulinho da Viola em “Maré mansa”, relembra seu samba-enredo de 1970 em “Glórias gaúchas” e causa polêmica em “Você não passa de uma mulher”, brincadeira que deixou as feministas possessas. Registra, de forma imprescindível, o batuque “Lá na roça” (Candeia), o frevo “Hino dos Batutas de São José” (João Santiago) e o “Andando de banda” (Rildo Hora e Sérgio Cabral).

Bato continência: “Se algum dia”, extraordinário samba-canção em que Martinho prova também ser um harmonizador impressionante.

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Rosa do povo (1976): Inspirado na obra homônima de Carlos Drummond de Andrade, este disco é o ápice da carreira de Martinho. É impecável tanto nos arranjos de Paulo Moura e Rosinha de Valença, quanto no sofisticado repertório. João Nogueira participa na faixa “João e José”, crônica-parceria sui generis, no qual ambos idealizam a volta de São João Baptista a Terra. Em “Claustrofobia”, Martinho roga à sua própria inspiração para desaprisione suas músicas ainda não-compostas. Referencia os sambas-falados de Vinícius de Moraes na rebuscada “Não tenha medo, amigo” e a Vila Isabel dos anos 30 em “Ai, que saudades que tenho”, rememora grandes sambas-enredo (“História da liberdade no Brasil”, do Salgueiro de 1967, e “A invenção de Orfeu”, da Vila de 1976) e grava seu primeiro samba – ”Piquenique” – e “Choro chorão”, único choro que já compôs.

Bato continência: Escolher uma só é difícil, porém merece atenção “Chorar não cabe agora”, parceria com Leci Brandão.

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Tendinha (1978): A ausência deste aqui é inviável na coleção de qualquer bom partideiro. O álbum inteiro, sob a regência caprichada de Rildo Hora, encarna o clima suburbano de um verdadeiro terreiro e todo o repertório consiste em sambas de partido-alto. Martinho homenageia compositores consagrados do gênero, porém pouco conhecidos, como Cabana, Sidney da Conceição, Gracia do Salgueiro, Paulo Brazão, Noca da Portela, Marinho da Muda e Nilton Santa Branca. São de sua autoria as nostálgicas “Minha comadre”, “Trepa no coqueiro”, “Que pena, que pena” e “Nem a lua”.

Bato continência: “Amor não é brinquedo”, parceria de Martinho com Candeia, repleta de paranomásias.

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Terreiro, sala e salão (1979): O repertorio é definido pelo próprio título do disco, pois perpassa pelo partido-alto (terreiro), sambas-canção (sala) e uma seleção de marchinhas de carnaval históricas (salão). “Deixa fumaça entrar”, divertido partido clamando pelos poderes místicos do defumador, abre o elepê. Martinho brinca com o verbo “desquitar” em “Diz que tamos”, lista uma série de queixas a Deus em “Assim não, Zambi” e celebra um preito a Candeia, então recém-falecido, na emocionante “Eterna paz”, composto com a viúva do próprio. Ainda enamora uma rara e privilegiada parceria com Paulo César Pinheiro em “Saideira” e “Ou tudo, ou nada”.

Bato continência: “Pensar”, samba-canção de letra lhana e estruturado em mudanças de compasso inesperadas.

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Verso e reverso (1982): Trabalho voltado, em especial, para questões sociais e ambientais sem acerbo, apatia ou fingimento. Nesta linha, estão “Efeitos da evolução” (Aluízio Machado), crítica sagaz ao uso das ciências para a guerra, e “Reversos da vida” (do próprio Martinho) ornada com imagens da miséria africana. Também revela sua primeira parceira com Hermínio Bello de Carvalho em “Lua de fustão”, pintando o ambiente de uma seresta ao luar. Letra “Silk Stop”, de João Donato, transformando-se em “Gaiolas abertas”. Regrava “Cravo branco” (Paulo Vanzolini) e “Mãe solteira” (Wilson Batista), demonstra sua verve voluptuosa em “Festa para os olhos” e homenageia os jangadeiros na belíssima “Cirandar”.

Bato continência: “Pensando bem”, intrépida parceira com o João de Aquino, clímax do álbum e concorrente no Festival MPB Shell 82 (Rede Globo). O samba exala exatamente a sensibilidade requisitada pelo tema.

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Martinho da Vila Isabel (1984): Martinho dedica um elepê completo a sua escola de samba. Seguindo uma estirpe velha-guardista, o bairro é aludido em clássicos de Noel Rosa (“Minha viola”), Ataulfo Alves (“Fala mulato”) e Dunga (“Vila Isabel”). As exaltações à agremiação estão em “Santo Antônio Padroeiro” (Rodolpho de Souza), no qual a escola é personificada em um depoimento apaixonado, e “Flor dos tempos” (Nei Lopes), um tour pelo Boulevard. O bom humor reina em “Na aba” (Paulinho Corrêa), protesto contra patifes aproveitadores, e “Rivalidade” (Jorge King), um triângulo amoroso de um sambista, sua mulher e a escola. Entre obras de Martinho, estão alguns de seus sambas de quadra e dois sambas-enredo – “Sonho de um sonho” (1980) e “Pra tudo se acabar na quarta-feira” (1984), inspirados, respectivamente, no poema homônimo de Drummond e nos versos de “A felicidade”, de Tom e Vinícius.

Bato continência: “Sempre a sonhar”, parceria com Ruy Quaresma, em que Martinho idealiza as comemorações que faria quando a Vila fosse campeã do carnaval. Tal acontecimento somente viria em 1988.

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Criações e recriações (1985): Elepê de ar urbanizado, estruturado sobre “Recriando a criação”, com Zé Katimba, narrando, em alta poesia, o primeiro ato sexual de um casal adolescente. Aliás, o disco é uma coletânea de parcerias de Martinho com grandes nomes da MPB, a começar por João Donato, com o qual assina a “Muita luz”. Hermínio Bello de Carvalho flerta “Retrós e linhas”, um paralelo ousado entre o corte e costura e a falsidade feminina. Com Rosinha de Valença, compôs “Semba dos ancestrais”, ritmo de origem africana “diagnosticando” o êxtase absoluto de um estrangeiro ao chegar a de Angola. Martinho ainda regrava “Carnaval de ilusões”, seu primeiro samba-enredo para a Vila (1967), e “Traço de união”, sua com João Bosco em parceria concretizada a pedido de Beth Carvalho e que resultou em uma amizade perduradoura até hoje.

Bato continência: “Odilê odilá”, segunda parceria com João Bosco e o auge da trajetória de Martinho como letrista. Composta por ambos durante uma noite de porre em São Paulo, a obra é um verdadeiro sincretismo afro-brasileiro.

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Voz e coração (2002): Único álbum totalmente de intérprete de Martinho e seu último na Sony, findando de modo tardio o pior período de sua carreira. O repertório relembra pérolas de Ismael Silva (“Antonico”), Dolores Duran (“Por causa de você”), “Volta” (“Lupicínio Rodrigues”), João da Baiana (“Cabide de molambo”), Adoniran Barbosa (“Apaga o fogo, Mané”), João Nogueira (“Minha missão” e “O poder da criação”) e Silas de Oliveira (“Heróis da liberdade”), entre outros. Nos arranjos, há o requinte de Cristóvão Bastos, Naná Vasconcelos, Leandro Braga, Paulo Moura e Maurício Carrilho.

Bato continência: “Sonata sem luar”, de Vinícius de Carvalho e Fred Chateaubriand, recriação do sucesso de Maysa, com direito a piano e violoncelo.

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Conexões (2003): O ingresso de Martinho a MZA Music se resume na tentativa de mostrar que, contrariando Noel, “o samba tem tradução no idioma francês”. Voltado para o mercado europeu e com apoio do professor Tex Tekadiomona, trajou trechos de seus sambas mais populares para a língua de Jeanne Moreau. No caminho oposto, verteu “La bohème”, de Charles Aznavour, para o português. Todavia, tudo isso, do ponto de vista artístico, não passa de uma bobagem. O CD merece atenção pelas músicas inéditas, as quais surpreendem pela qualidade muito superior ao dos anos anteriores. “Minha amiga” narra com garbo o cruel sentimento de um indivíduo se apaixonar por sua melhor amiga. Em “Vila Isabel”, parceria com Moacyr Luz, descreve sua escola pelos olhos do portelense Monarco. Martinho ainda relata um sonho de carnaval no frevo “Brinquei demais” e conta com a participação de camaronesa Sally Nyolo no zouk “Ó nega”.

Bato continência: “Nem réu, nem juiz”, comparação perspicaz de um amor platônico com o encarceramento e a servidão.

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Disponibilizo para download o volume 39, referente a Martinho da Vila, da coleção “Nova História da MPB”, lançada entre 1977 e 1979. O álbum traz oito composições de Martinho em sua voz e na de outros grandes intérpretes (para baixar, basta clicar na foto da capa):

1 – Menina moça (Martinho da Vila)
2 – O pequeno burguês (Isaura Garcia)
3 – Tom maior (Roberto Silva)
4 – Quatro séculos de modas e costumes (Martinho da Vila)
5 – Yayá do cais dourado (MPB-4)
6 – Folia de reis (Martinho da Vila)
7 – Linha do ão (Martinho da Vila)
8 – Amor, pra que nasceu? (Carmen Costa)

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Sobre o Artilheiro Colaborador

Gabriel Deslandes, morador da Região Serrana do Rio e estudante da 3ª série do Ensino Médio, é um admirador dos gêneros musicais brasileiros, em especial o samba e o choro. Violonista e cavaquinista, começou a se interessar pela cultura popular graças às letras dos grandes sambas-enredo e, hoje, escreve ocasionalmente artigos para o site Sambario. Tem interesses centralizados na preservação da música popular brasileira e, principalmente, pelo resgate da verdadeira poesia dos subúrbios, oriunda dos ditos excluídos. Apesar de todas as inversões de valores, acredita seriamente que, em um país tão carente de leitores, as escolas de samba possuem um papel histórico irrepreensível de divulgação da literatura nas camadas mais baixas da sociedade.