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Na mira – Reinaldo José Lopes

O nosso entrevistado do mês de agosto é jornalista e já escreveu para as mais importantes revistas de ciências do país. Publicou ano passado o livro “Além de Darwin“, pela editora Globo, sobre Evolução (“o que sabemos sobre a história e o destino da vida”). Atualmente, mantém o blog Carbono 14 e é um dos cabeças do Valinor, o maior site brasileiro a respeito do professor J.R.R. Tolkien. Com vocês, Reinaldo José Lopes!

1. Perguntinha que costumamos fazer a todos os jornalistas: é possível fazer jornalismo com imparciabilidade?

Não, é impossível. Digo mais: não é desejável fazer jornalismo com “imparcialidade”, porque é uma espécie de 171 com o leitor, já que seres humanos (e, ouso dizer, outros bichos também) agem com base num sistema de valores, sempre, mesmo que queiram mascarar isso. O mero fato de eu, por exemplo, achar que uma sacanagem praticada pelo governo é pauta significa que estou escrevendo com base num sistema de valores, que está longe de ser imparcial. Acho mais negócio, e mais justo, deixar claro para o leitor qual o sistema de valores que você está usando.

Agora, o que é realmente necessário é tentar enxergar múltiplos ângulos de uma questão, e nunca ignorar fatos desconfortáveis na hora de escolher como você aborda uma questão. Mas isso está muito longe do ideal bobo da imparcialidade.

2. Sendo um membro dessa nova geração de jornalistas brasileiros, como você encara o atual cenário da profissão?

Bom, faço dez anos de carreira ano que vem, então pra muita gente eu já sou veterano, uma vez que jornalismo é profissão de moleque, hehehe…

Anyway, acho que estamos numa encruzilhada. O mercado de trabalho nunca esteve tão aquecido desde o ponto baixo no começo da década. Por outro lado, estamos vendo cada vez mais a ascensão dos veículos online (tipo o G1) em termos de número de leitores, enquanto os impressos parecem naufragar. E isso é trágico jornalisticamente, porque a cobertura na internet, voltada maciçamente para a audiência como é feita hoje, tende a se pautar pela produção de porcaria feita para agradar leitores que requisitam justamente porcaria, entretenimento tosco mal disfarçado de jornalismo.

Então, eu sou cautelosamente pessimista em relação à qualidade do jornalismo que conseguiremos produzir daqui pra frente, se as tendências atuais se mantiverem.

3. Você é, também, um expert em Tolkien. Como isso começou? O contato com a obra do Professor influenciou de alguma maneira seus escritos?

Começou quando ouvi falar pela primeira de Tolkien jogando RPG Gurps (é, eu sou vintage) no começo dos anos 1990. Em algum lugar do Gurps Modelo Básico dizia-se que, no fim do SdA [O Senhor dos Anéis], Merry e Pippin já eram personagens de 100 pontos. E eu doido pra ler SdA, sem nunca conseguir achar o livro (e sem grana pra comprá-lo, mesmo que o achasse).

Aí, em 1998, meu primeiro ano de faculdade na USP, um veterano, o saudoso Fábio Duracell, emprestou-me O Silmarillion em inglês. Li e gamei na hora. Daí pra ler os outros livros, sempre no original, e pra procurar grupos de discussão e sites na internet sobre Tolkien, foi um pulo. Juntei-me aos meus queridos amigos da Valinor já nessa época e desde então não paro de ler e escrever sobre Tolkien. Agora estou fazendo meu doutorado sobre a obra do professor.

Acho que Tolkien influenciou MUITO a minha maneira de escrever, em especial nos textos maiores e mais soltos (em jornalismo do dia-a-dia é mais difícil incorporar isso). É um jeito de dizer as coisas, uma certa predileção por alguns tipos de fraseado e, acredite se quiser, acho que a disposição ética em relação a muitos assuntos também.

4. Você encontrou algum tipo de resistência para a publicação de “Além de Darwin” [Leia a nossa resenha do livro aqui]? Qual o retorno que você recebeu, tanto do público quanto da crítica?

Resistência para a publicação em si, ou seja, para o livro ser aceito para publicação, se é isso o que você quer dizer, apenas a usual de convencer os editores de que o projeto valia a pena.

O retorno da crítica foi praticamente nulo – infelizmente resenhistas dos grandes jornais e revistas basicamente ignoraram o livr0. Mas o do público tem sido bastante positivo, dada a falta de divulgação que o livro teve, com exceção da minha aparição no Programa do Jô. Muita gente blogou a respeito, escreveu para elogiar, quis comprar o livro autografado diretamente comigo. Aliás, quem quiser fazer isso com desconto a coisa ainda está valendo!

Já cientistas-blogueiros falaram bastante do livro. A maior parte das críticas veio de quem não gostou da minha abordagem conciliadora em relação à religião. Faz parte.

5. Como explicar para o leitor de “Além de Darwin” que um cientista como você é religioso? Para você, ciência e religião podem andar juntas calmamente?

Vamos deixar as coisas claras: sou jornalista de ciência, um entusiasta da ciência, creio que compreendo bem o método científico e sei muito sobre biologia — mas não sou cientista nem de formação nem de profissão.

Isso posto, acho que há muita mistificação quando se fala da suposta briga entre religião e ciência. A maioria dos historiadores da ciência concorda, só pra começar, que a ciência moderna só pôde nascer porque o monoteísmo judaico-cristão popularizou a ideia de que o Universo foi dotado de leis claras pelas mãos de um Criador. A ciência, em outras palavras, nasceu como tentativa de entender a mente de Deus, em certo sentido.

De lá para cá é fato que essas coisas ficaram descoladas uma da outra – embora até físicos ateus gostem de usar a metáfora da mente de Deus. Mas o que nós descobrimos é que existem coisas que o método científico é incapaz de apontar com clareza — do tipo como devemos viver nossas vidas. No mínimo, as religiões têm insights valiosos a oferecer nesse sentido. Portanto, desde que você não queira transformar sua crença religiosa num statement científico, e desde que você não falseie o que sabemos sobre o mundo só pra corroborar o que a sua fé diz, as coisas podem, e até devem, conviver.

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6. E quais são os seus projetos futuros? Podemos esperar algo no campo da lingüística? Ou falar inglês, espanhol, italiano, francês, grego e élfico é só um hobbie?

Eu adoraria escrever uma história natural da linguagem humana e da evolução das línguas, mas acho que não tenho bala na agulha pra isso ainda ;-) Meu interesse por línguas é em larga medida estético: é o prazer de encontrar novas associações entre significante e significado.

Projetos futuros de longo prazo não faltam, o duro é o tempo de executá-los. Entre eles: um romance de fantasia; um livro sobre a história dos 300 de Esparta, que foi meu TCC, está “pronto”, mas precisa ser muito revisado; um livro que explique os achados mais recentes da arqueologia e da crítica histórica sobre o surgimento do monoteísmo.

7. Tornou-se polêmica a sua crítica apontando os erros do bestseller “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, de Leandro Narloch. Como biólogo, quais são as piores besteiras que você vê sendo reproduzidas por aí como verdades? Por exemplo, a história do aquecimento global.

Again, não sou biólogo. O aquecimento global é um mau exemplo de cascata sendo reproduzida acriticamente — na verdade a ciência por trás da conclusão de que o homem está ajudando a mudar o clima é muito, muito sólida. Se eu fosse pegar um elemento da minha seara no livro, acho que o pior é manter a distinção estanque entre homem, “animal racional”, e os demais seres vivos. Essa distinção é muito, muito menor do que qualquer visão clássica sobre a humanidade deixa entrever.

8. O que você tem lido, ultimamente?

Bilhões de coisas. Fora Tolkien, ando relendo Baudolino, do Umberto Eco, começando A Jangada de Pedra e O Cavaleiro Inexistente e lendo a excelente coletânea sobre o Brasil Holandês organizada pelo Evaldo Cabral de Mello.

9. Como nosso site engloba outras áreas da cultura, pedimos que você cite os três livros, os três filmes e os três discos que mais te marcaram.

Livros: O Silmarillion (Tolkien), O Nome da Rosa (Umberto Eco), The Third Chimpanzee (Jared Diamond).

Discos: The Dark Side of the Moon (Pink Floyd), Help (The Beatles), The Joshua Tree (U2).

Filmes: Contato, Inteligência Artificial, Wall-E.

10. É padrão do Artilharia encerrar as entrevistas com o Tiro Certeiro e a Medalha de Honra. Explicamos: o Tiro Certeiro você dá para alguma coisa, subjetiva ou não, que você acha que vai de mal a pior (ex.: fulano de tal, política, educação, editoras etc.), e a Medalha de Honra é a mesma coisa, só que pro lado positivo (algo que merece seus aplausos).

Tiro certeiro: Jornalismo online no Brasil.

Medalha de honra: Movimento dos open courses nas universidades americanas, que permite que qualquer um possa a assistir a um semestre de aula no MIT ou em Yale.

Para sintonizar com Reinaldo, siga-o no twitter @reinaldojlopes. Se você se interessou pelo livro, envie um e-mail ao autor [reinaldojoselopes@hotmail.com] para comprá-lo autografado e com um ótimo desconto – eu recomendo fortemente, foi uma das minhas melhores leituras de 2009.

Na mira: Antônio Xerxenesky

Não se sinta culpado se você nunca ouviu falar em Antônio Xerxenesky. Apesar do nome assustar algum leitor desatento, Antônio é ainda uma novidade nas prateleiras de literatura – mas não por muito tempo. Além de sua participação em algumas coletâneas, já publicou um livro de contos e um romance, o Areia nos dentes. Este último está sendo muito discutido na internet. Por quê? Oras, porque é um romance inovador, que mescla zumbis e faroeste! Antes de você ler a entrevista com Antônio, sugiro ler a resenha que a Anica, nossa colaboradora e valiosa aliada, fez para o romance, clicando aqui. Além de escritor, ele é também editor da Não Editora. Agora, com vocês, Antônio Xerxenesky, que gentilmente cedeu essa entrevista para provar a nossa tese de que a literatura no Brasil não morreu, ela só está escondida – e muito bem escondida.

1. Antônio, você, como escritor, já publicou um livro de contos, o Entre, e um romance, o Areia nos dentes. Como foi aceita essa temática de zumbis mesclados com o velho oeste? Seus leitores são essencialmente jovens? E, caso sejam, isso te incomoda de alguma maneira?

Foi bem aceita, no geral. Meus leitores são de todas as idades, gênero, estilo. Quando escrevi o livro, pensei que o romance agradaria apenas pessoas como eu, nerds recém ingressando na vida adulta. Que nada, recebo e-mails das mais diversas pessoas… Foi uma surpresa e uma alegria.

2. Além de escritor, você é também editor. Quais os critérios de uma editora para a publicação de algum autor novo? O mercado está de olho em quê?

Não posso falar do mercado em geral, apenas da Não Editora. A Não Editora procura o diferente e se orgulha justamente de não ter um eixo temático definido. Publicamos de contos de ficção científica até um romance mais tradicional, passeando pela poesia. É engraçado: não sei dizer como é um “não-autor”, mas ao ler um texto, sinto se ele tem ou não a “cara da Não Editora”.

3. A Não Editora recebe muitos originais para publicação? Muita gente nova? O Humberto Werneck disse, em entrevista pra gente, que estamos vivendo “um saudável estouro da boiada” porque com a internet todo mundo pode “pôr no ar a sua palavra”, mas que haverá, em breve, uma seleção natural do que realmente presta. Como você vê essa situação, como editor?

Recebíamos, quando estávamos abertos para isso. O problema é que tem tanta gente escrevendo que é impossível para uma editora conseguir ler todos os originais que chegam. Ainda mais quando é uma editora independente, quando fazemos isso no tempo livre por amor à camisa.

Seja como for, vejo com bons olhos essa situação. Tem muita gente publicando, é quase impossível acompanhar todos os lançamentos, verdade… Mas os livros realmente bacanas acabam se sobressaindo. A literatura brasileira está passando por uma excelente fase.

4. Mexer com livros no Brasil… vale a pena? Dá dinheiro?

Dinheiro? Não. Se é dinheiro que o escritor busca, que procure outro ofício. Qualquer outro. O mesmo acontece com uma editora independente como a Não. Dinheiro e lucro nunca foram nossos objetivos, e isso tem seu lado bom e ruim.
Agora, “valer a pena” implica outras coisas. Dá prazer mexer com livro no Brasil? De vez em quando. Escrever é completamente abominável, mas se no final relemos o texto e não sentimos uma profunda vergonha por aquilo, até bate um certo prazer. E quando um leitor, no meio da semana, manda um e-mail dizendo como o livro que você escreveu foi importante para ele, leitor, também temos a sensação de que vale a pena.

5. Você sofreu alguma influência direta para o Areia nos dentes?

Duas influências ridiculamente diretas, eu diria. Against the Day, do Thomas Pynchon e Onde os velhos não têm vez, do Cormac McCarthy. Pynchon foi quem me ensinou tudo que sei sobre narrador inconfiável, o cruzamento de linguagens e a mescla entre alta e baixa cultura. McCarthy, por sua vez, me ensinou que ainda é possível escrever um faroeste no século XXI.

6. As editoras estão preparadas para encarar a digitalização do livro? Isso é uma ameaça?

O livro digital, no Brasil, ainda não é uma realidade. Eu, que conheço dezenas de leitores, escritores e editores, nunca vi um leitor de e-books! Não tenho nada contra o livro digital, pelo contrário, adoraria ter minha biblioteca em formato digital, ocuparia bem menos espaço, apesar de todo o fetiche do livre impresso que tenho. A verdade é que não me sinto bem para fazer qualquer afirmação sobre mercado editorial e e-books no momento. Ninguém sabe o que vai acontecer. Falar qualquer coisa é especular sobre o futuro, coisa que não estou com vontade de fazer. Não hoje.

7. Pergunta da leitora Izze: “aproveitando o andamento do gauchão de literatura, como você avalia os ‘jogos’ até agora?” Já no gancho dessa pergunta, o que você acha desses eventos literários que têm brotado por aí, como a FLIP e outras feiras? [O campeonato gaúcho de literatura é um evento que confronta livros de contos publicados em 2008 e 2009 por escritores gaúchos]

Uma de cada vez.

Izze: o Gauchão trouxe jogos divertidíssimos. Muitos me convenceram a não ler os livros resenhados, mas me fizeram aplaudir o resenhista. Acredito que o potencial de concursos como esse é descobrir ótimos livros perdidos no meio do ruído branco causado por tantos lançamentos, tanta gente publicando. O Gauchão, assim como a Copa de Literatura, tem uma função muito importante, em minha opinião.

Quanto às feiras, aplaudo com vigor eventos como a FLIP. A FLIP aproxima nós, leitores, de autores que, de longe, parecem semideuses. Caminhando pelas ruas de Paraty podemos ver McEwan bebendo cachaça e Coetzee dançando um sambinha. Como não aprovar isso? Muitos reclamam de uma suposta “glamourização” da literatura. Ora, parem de reclamar! Além de desenhar o ato de ler como algo “bacana” de se fazer, mostra que até os grandes autores são pessoas normais…

8. Cá entre nós: como você vê essa deturpação dos monstros atuais? Zumbis que correm, vampiros que brilham, lobisomens depilados etc.?

Não me afeta em nada. Sério mesmo. Nunca assisti a um filme da série Crepúsculo, não vi os últimos filmes de lobisomem, não li esses livros… Zumbis que correm? Se for bem dirigido, que mal tem? Basta lembrar “Extermínio”, do Danny Boyle.

9. E o que você tem lido, ultimamente?

Tenho lido com paixão dois escritores: o suíço Robert Walser, um contista maravilhoso que permanece injustamente inédito no Brasil, e Javier Marías, um romancista espanhol com uma prosa de ser ler em voz alta, parando de cinco em cinco páginas para gritar para os céus: “gênio”.

10. Como nosso site engloba outras áreas da cultura, pedimos que você cite os três livros, os três filmes e os três discos que mais te marcaram.

Livros: “Dom Quixote” (Miguel de Cervantes), “O Arco-Íris da Gravidade” (Thomas Pynchon) e “2666” (Roberto Bolaño).

Filmes: “Três Homens em Conflito” (Sergio Leone), “Suspiria” (Dario Argento), “Anjos Caídos” (Wong Kar-Wai)

Discos: “Lift Your Skinny Fists Like Antennas To Heaven” (Godspeed You Black Emperor), “Come On Die Young” (Mogwai) e “Ys” (Joanna Newsom)

11. É padrão do Artilharia encerrar as entrevistas com o Tiro Certeiro e a Medalha de Honra. Eu explico: o Tiro Certeiro você dá para alguma coisa, subjetiva ou não, que você acha que vai de mal a pior (ex.: fulano de tal, política, educação, editoras etc.), e a Medalha de Honra é a mesma coisa, só que pro lado positivo (algo que merece seus aplausos).

Tiro certeiro: pro cinema independente americano, que está em uma péssima fase.

Medalha de honra: pras cervejas artesanais gaúchas.

Para sintonizar com Antônio, você pode segui-lo no twitter, aqui no @xerxenesky

Na mira: Humberto Werneck

Humberto Werneck é um múltiplo. Você deve conhecê-lo como jornalista, afinal, são mais de quarenta anos assinando textos em grandes veículos como Playboy, IstoÉ, Veja, Jornal da Tarde etc. Não te soou familiar o nome? Então, talvez você o conheça como escritor – “O pai dos burros“, “O desatino da rapaziada“, “Pequenos fantasmas“? Nada? Você já deve ter lido algum livro prefaciado e organizado por ele – “Boa companhia: crônicas” ou “Ivan Angelo: coleção melhores crônicas“? Não ajudou? Deixe-me ver. Quem sabe você o conheça como biógrafo – “Tantas Palavras“, a respeito de Chico Buarque, e “O Santo Sujo“, sobre Jayme Ovalle? Ou, ainda, como participante de dois anos consecutivos da Festa Literária Internacional de Paraty, a famosa FLIP?

Se ainda assim você acha que nunca ouviu esse nome, essa entrevista é uma oportunidade de conhecê-lo e, mais do que isso: acompanhá-lo. Atualmente, Werneck publica uma crônica semanal no caderno Outlook do jornal Brasil Econômico. Nós, do Artilharia Cultural, garantimos a qualidade.

1. A pergunta é clichê, mas precisa ser feita: a convergência de novas mídias e a importância com que a informação se espalha, hoje, na internet, é o primeiro real risco para os impressos (que sobreviveram ao rádio e TV)?

Tenho pouca paciência com os arautos do apocalipse. Essa gente para quem é tudo como numa partida de futebol, em que para entrar um jogador algum outro tem que sair. Para insistir na imagem, não considero a hipótese de expulsão. A menos que a mídia impressa não saiba se adaptar ao novo ambiente. O que provavelmente acontecerá se não se voltar à razão de ser do jornalismo, que é a busca de informação de primeira mão e de primeira ordem. Leia-se: voltar à reportagem, hoje tão negligenciada. Imagino que o jornalismo tenha nascido no dia em que numa comunidade primitiva o pessoal pediu a um camarada para ir verificar que barulho era aquele no outro lado da montanha. O ofício se sofisticou, claro, acrescentou outras preocupações, mas fundamentalmente continua sendo isto: ir ali para ver o que se passa. E não se está indo. O jornalismo impresso estará ameaçado, além disso, a informação bem apurada não for bem tratada, sob a forma de um texto que além de substancioso e rigoroso tenha a capacidade de seduzir. Seduzir não é fazer charme, é estratégia de sobrevivência. Aquela história do sapo: ele salta não é por boniteza, mas por precisão, para não ser comido pela cobra. Já que o leitor é esquivo e volátil, quem quer ser lido tem que seduzir. Simplesmente jogar garrafa ao mar não funciona. Eu não tenho religião, mas tenho padroeira: Sheerazade, aquela moça que salvou o pescoço ao longo de 1.001 noites, não só com a qualidade de suas histórias, mas também com a maneira de contá-las ao sultão, com a magia do seu relato. Se alguém deixa pelo meio a leitura de um texto meu, significa que fui decapitado.

2. Especula-se muito sobre a imparcialidade do Jornalismo, o que, para muitos, é um mito. É possível fazer jornalismo imparcial?

A imparcialidade, assim como a objetividade, é algo que jamais se alcançará, já que tudo de nós vem filtrado pela subjetividade. O mesmo fato acontecido diante dos meus olhos e dos seus será contada de maneira diferente por um e por outro. Mas nem por isso um jornalismo deve desistir de buscar, o tempo todo, a imparcialidade e a objetividade. Quanto mais perto delas chegar, melhor – mais bem servido estará o leitor, o ouvinte ou o telespectador, que nos delegou a tarefa de lhe trazer as novidades. E não custa lembrar que é ele – e não o dono do jornal, nem o anunciante – que paga o salário do jornalista.

3. Qual a visão de um profissional que está há 40 anos na área (é isso, Humberto?) tem do atual panorama jornalístico brasileiro?

Já são 42 anos de jornalismo, pois comecei no emblemático maio de 68. Sem nostalgia, me preocupam duas coisas em especial. Uma é o abandono da reportagem, de que já falei. Deixou de ser obrigação o repórter ir à rua, ao mundo, às pessoas, aos fatos. Por comodismo, preguiça ou alegada falta de meios materiais, muita gente prefere se bastar com a internet, no bem-bom refrigerado da redação. A internet é uma ferramenta maravilhosa, mas apenas isto, ela não pode ser tomada como um Bezerro de Ouro. Já propus dar o próximo Prêmio Esso de Reportagem ao Google… Outra coisa que me inquieta é a crescente partidarização no jornalismo, o uso da mídia para vender como informação o que na verdade é opinião. Por mais nobre que seja a causa, isso não é jornalismo, é propaganda.

4. A internet democratizou a escrita. Hoje, com a facilidade dos blogs, todos podem publicar seus textos. Se por um lado podemos encontrar escritores medíocres que nem revisam ou peneiram seus textos, do outro despontam novos talentos. Qual sua opinião sobre isso?

Estamos assistindo a um saudável estouro da boiada. Em princípio, é muito bom que cada um possa escrever e pôr no ar sua palavra. Mas começo a me perguntar: quem lê tanto blog? O possível leitor talvez não esteja lendo, já que está, ele mesmo, escrevendo no seu blog… Falta leitor para tanto escritor. Até por isso, vai chegar um momento, se é que já não chegou, em que toda essa produção terá de passar por uma peneira, por um teste de qualidade – e não é difícil saber que bem pouca coisa vai resistir. Sempre foi assim, muito antes da internet. Drummond disse melhor do que eu, claro: “Passam gênios talvez sob as acácias…”

5. Momento Caras: dentre todas as pessoas que você já entrevistou, existe alguma que te surpreendeu com alguma sabedoria? Alguma que, depois da conversa, te fez parar para pensar.

Várias. Gilberto Gil, por exemplo. Além de músico excepcional, é um sábio.

6. Ainda na linha dos entrevistados, que não foram poucos, qual te fez passar o pior sufoco?

Houve uns tantos. Por exemplo, um pedagogo mundialmente conhecido – não vou citar o nome, porque está morto. Ele ignorou quase todas as minhas perguntas, porque tinha pronta na cabeça uma entrevista, que foi desfiando, com voz mansa, episcopal, durante mais de duas horas, numa demonstração de que a arrogância pode se fingir de doçura. E eu estava numa situação em que não poderia me levantar e ir embora.

7. Ultimamente as pessoas têm discutido sobre uma possível regulamentação da profissão de escritor. O que você acha disso?

É falta de assunto. Coisa de burocratas. Se bobear, vem aí um ISPL (imposto sobre a produção literária).

8. Embora seu livro de contos não esteja no mercado, você recentemente publicou uma coletânea de crônicas, “O espalhador de passarinhos”. Quais as dicas que você passa pros jovens que gostariam de seguir essa trilha literária?

As mesmas dicas que, já burro velho, preciso dar a mim mesmo todos os dias. Algumas delas: aguçar a capacidade de ver o mundo, as pessoas, as pessoas e a vida com os cinco sentidos, e não só com o intelecto. Confiar na intuição. Desconfiar da inspiração e investir sempre na construção. Confiar no taco, mas desconfiar da facilidade diarréica com que as palavras tendem a escorrer de nossos dedos. Deixar que as coisas venham, sem matá-las no ar, mas não economizar no uso da tecla “delete”. Exigir que cada palavra, cada vírgula posta na tela e no papel seja capaz de justificar presença: “Eu estou aqui por isto e por aquilo, porque sou indispensável”.

9. E o que você tem lido, Humberto?

Acabo de ler duas ótimas biografias curtas, de Arthur Rimbaud e Marcel Proust, por Edmund White. Pela enésima vez, releio a poesia de Mário Faustino. Aliás, o que mais leio, cada vez mais, é poesia.

10. Como nosso site engloba de tudo um pouco, gostaríamos que você listasse os 3 filmes, os 3 discos e os 3 livros que te marcaram profundamente.

Filmes: “Cidadão Kane”; “Amarcord”; “Nós que nos amávamos tanto”

Discos: “Ballads” (John Coltrane) ; “Transa” (Caetano Veloso); os “Noturnos” (de Chopin, por Nelson Freire). Mais unzinho? Aquele Gilberto Gil gravado em Londres no começo dos anos 70

Livros: “O encontro marcado” (Fernando Sabino); “O estrangeiro” (Albert Camus); “Claro enigma” (Carlos Drummond de Andrade).

11. É padrão do Artilharia encerrar as entrevistas com o Tiro Certeiro e a Medalha de Honra. Eu explico: o Tiro Certeiro você dá para alguma coisa, subjetiva ou não, que você acha que vai de mal a pior (ex.: fulano de tal, política, educação, editoras etc.), e a Medalha de Honra é a mesma coisa, só que pro lado positivo (algo que merece seus aplausos).

Tiro Certeiro: Até para rimar, tiro certeiro em herdeiro que explora mercenariamente a obra de um artista, interpondo-se entre ela e o público. A mesma bala fará o favor de ricochetear e atingir também os personagens e parentes que dificultam o trabalho dos biógrafos.

Medalha de Honra: Medalha de honra para umas empadinhas de galinha que a gente só encontra no eixo Rio-Belo Horizonte.

Na mira: Andreas Kisser

Para dar início à nossa coluna mensal de entrevistas, temos a honra de anunciar que nosso primeiro alvo foi Andreas Kisser, músico e compositor. Além de ser o guitarrista do Sepultura, iniciou há pouco sua carreira solo. A entrevista foi gentilmente cedida por e-mail. O Artilharia Cultural agradece a disponibilidade do Andreas.

1. Acompanha o cenário musical brasileiro da atualidade? O que você teria a dizer a respeito?

Acho o cenário sempre muito diversificado e sempre tem alguma coisa nova acontecendo. Eu gosto muito da música instrumental brasileira, principalmente um grupo que conheci há pouco tempo, o “6 com casca“.

2. Você é um músico extremamente versátil, tendo tocado com Caetano Veloso, Chitãozinho e Xororó, Zé Ramalho, Nando Reis, Paralamas, Marina de la Riva etc. Como os fãs do Sepultura vêem essas participações especiais? Alguma ameaça xiita?

Não sei como eles vêem isto, cada um tem uma opinião, teria que perguntar a eles. Respeito a opinião de todos. Alguns apóiam, outros não, é normal. Não quero agradar todo mundo, mesmo porque isto não existe, mas estas experiências são fantásticas. Eu aprendo muito tocando com grandes mestres da música, independente do estilo.

3. De acordo com o myspace do Sepultura, vocês têm muito mais shows marcados na Europa que no Brasil. Existe algum motivo para isso?

No ano passado nós fizemos uma grande tour pelo Brasil junto com o Angra, ficou faltando algumas cidades que pretendemos fazer este ano. Quando vamos pra Europa, ficamos por dois meses tocando praticamente todos os dias. Aqui no Brasil só rola show de fim de semana, é outro circuito, as turnês são bem diferentes.

4. Você é tímido musicalmente? Para compor precisa estar sozinho ou prefere o clima de estúdio com outros músicos?

Sempre estou compondo, não importa onde. O que vale é a idéia, o resto é só o arranjo e o desenvolvimento do tema.

5. Você também é conhecido por criar projetos paralelos à banda, como por exemplo o “Brasil Rock Stars” e o “Andreas Kisser Embromation Society”. Para este ano, os fãs podem esperar alguma coisa do tipo?

Estou sem tempo para estes projetos mas eles estão vivos ainda. Eu curto muito isso, de voltar aos tempos de garagem e tocar os meus ídolos. É muito saudável. Espero que no segundo semestre eu tenha tempo de fazer algumas jams.

6. Por que você começou a sua carreira solo? Expandir horizontes, necessidade de expressar algo incompatível com a banda?

Eu sempre componho muito, principalmente no violão. Tive uma oferta da gravadora Mascot Records, da Holanda, e fiz o meu disco. Foi uma bela experiência.

7. Sobre seu disco, então, “Hubris” (que quer dizer “orgulho excessivo, violência gratuita”): por que esse título? Teria algo a ver com a mescla de ritmos que você faz?

Tem a ver com o espírito do ser humano, a arrogância de se sentir melhor do que tudo na natureza, de voar sem asas, de se achar um deus, no caso dos reis e papas, entre outros absurdos humanos.

Pergunta dos leitores:

8. “Existe alguma possibilidade dos novos lançamentos do Sepultura serem mais técnicos do que o que vem sido lançado?” (Dário Neves e Ambrósio Amélio)

Não sei o  que você quer dizer com “técnico”, mas sempre temos o nosso passado como influência na música que fazemos, sempre procuramos algo novo, sem copiar nós mesmos.

9. “Qual a possibilidade da banda lançar um documentário no estilo ‘comemorativo’, que nem o esquema da Cerveja dos 25 anos da banda? Será que você acharia uma boa fazer uma parceria com jovens produtores, universitários, para produzir tal documentário?” (Thiago Hanneman)

Sim, com certeza. O meu primeiro clip solo foi feito por estudantes da faculdade Metodista em São Bernardo, SP, e ficou um trabalho excepcional.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=VrZ9oyxf7Lg]

Temos muito material para um filme, é um plano que estamos preparando há algum tempo, vamos continuar filmando os shows que acontecerão este ano.

10. Como o nosso site engloba outras áreas da cultura, pedimos que você liste três obras que te marcaram bastante.

Cinema: “Laranja mecânica” (Kubrik), “Guerra nas estrelas” (George Lucas) e qualquer filme do Woody Allen

Música: “A night at the opera” (Queen), “Ride the lightning” (Metallica) e ”Black Sabbath” (Black Sabbath)

Literatura: “Tratado teológico-político” (Spinoza), “O príncipe” (Maquiavel) e “Einstein: a life” (Denis Brian)

11. Para terminar, é padrão do Artilharia perguntar ao entrevistado uma coisa que ele gostaria de dar um headshot, um tapa na orelha (tiro certeiro); e outra que para a qual ele bate palma (medalha de honra). Pode ser uma pessoa ou algo subjetivo, tanto faz.

Tiro certeiro: Não acho que a violência resolva nada, não tenho vontade de atacar ninguém nem nada em específico. Políticos são todos iguais no mundo, educação é uma piada e as gravadoras estão falindo, pagando pela própria ganância e arrogância.

Medalha de honra: Para a consciência ecológica que estamos tendo neste novo milênio, espero que não seja tarde demais.

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