Archive for the ‘Música’ Category
A Vida Até Parece uma Festa
Legião Urbana, Barão Vermelho e Paralamas do Sucesso são bandas aclamadas por muitos como indispensáveis no cenário musical nacional. E eu respeito a opinião dessas pessoas, apesar de discordar enormemente. Concordo que há poesia nas letras de Renato Russo, e nunca duvidei da qualidade musical das músicas do Barão ou dos Paralamas. Meu veredito, porém, nunca irá mudar: pra mim, a melhor banda de rock nacional é – e sempre será – Titãs.
A Vida Até Parece uma Festa, documentário de 2008, traz 90 minutos que tentam contar, através de gravações de Branco Mello (um dos vocalistas) e arquivos de vídeo, toda a história da banda que tem quase 30 anos de existência.
Começamos a trajetória a partir do álbum Cabeça Dinossauro, provavelmente o melhor da banda – e o preferido da grande maioria dos fãs que conhecem a discografia do grupo -; os trechos da câmera de Branco gravam, em sua maior parte, a convivência do que é, sem sombra de dúvidas, a união de um grande grupo de amigos que tocam música pra viver. Eles não parecem ter a pretensão de ser a melhor banda de todos os tempos da última semana, apesar do nome pretensioso (Titãs, porra. Já parou pra pensar?). Eles só fazem música… E fazem música muito bem.
Na hora de editar o documentário (que reuniu mais de 300 horas de filmagem, antes da edição), nada foi escondido. Podemos assistir a participação da banda no Programa do Gugu, participando de uma brincadeira para salvar uma fã de uma “aranha assassina” (um pobre estagiário numa roupa imbecil de aranha, no alto de um guindaste), tanto quanto assistimos um comentário do Faustão sobre os “problemas judiciais” que Tony Belotto e Arnaldo Antunes encontravam-se. Esses problemas? Posse de heroína. Da mesma maneira que os Titãs nunca tiveram freios sociais para fazer música, e sempre se destacaram por isso, A Vida Até Parece uma Festa se destaca por sua extrema sinceridade para com o espectador. Mais que um documentário, o filme mais parece uma reunião de gravações de amigos que se encontram já com a vida feita, muitos anos depois de tudo o que foi vivido, para lembrarem do passado. É esse o próprio tom ditado pela película: uma diversidade magnânima de situações, sempre levadas por grandes sucessos da banda.
Momentos tristes não foram deixados de fora: a morte de Marcelo Fromer, integrante da banda, é mostrada através de trechos de declarações dos próprios integrantes. Vídeo em que Branco Mello lê uma declaração do grupo, no hospital onde Fromer havia falecido, é provavelmente o momento mais tocante de todo o documentário. Em seguida, podemos ver a gravação da música Epitáfio, que rendeu mais um estopim para os Titãs. Concomitantemente, trechos do clipe são exibidos, para depois os Titãs se despedirem de outro membro: Nando Reis. Em sua homenagem, foi composta a canção Isso, outra música belíssima.
Se você gosta de Titãs, gosta de música nacional ou simplesmente gosta de um documentário bem feito, A Vida Até Parece uma Festa é, provavelmente, a melhor indicação que eu posso te dar.
A Vida Até Parece uma Festa
Nota AC: 9,5
Direção: Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves
Elenco: Arnaldo Antunes, Branco Mello, Paulo Miklos, Nando Reis, Marcelo Fromer, Charles Gavin, Sérgio Britto, Tony Belotto
Duração: 90 min
Ano: 2008
Por trás da Música – Circuladô de Fulô
O Por trás da Música é uma coluna musical, mas já que estamos num site que trata de tudo que é peça, por que não mesclar um pouco de literatura no balaio?
Circuladô de Fulô
Compositor: Haroldo de Campos (poema do concretista)
Intérprete: Caetano Veloso
Disco: Circuladô – 1991
O poeta mais barroco entre os concretistas, Haroldo de Campos nasceu no 1929 de crise financeira no mundo e faleceu no 2003 numa São Paulo mais plena que nunca. Campos deixou um acervo considerável de poemas inspiradores. Sua peça mais conhecida, “Circuladô de Fulô” foi musicado por Caetano Veloso numa versão fascinante. O próprio cantor baiano gostou tanto da versão que acabou apresentando a canção em três de seus discos.
Confira abaixo, o poema da escola Concretismo na íntegra:
Circuladô de Fulô
circuladô de fulô ao deus ao demo dará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
circuladô de fulô e ainda quem falta me dá
soando como um shamisen e feito apenas com um arame
tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino
mas para outros não existia aquela música
não podia porque não podia popular aquela música se não canta não é popular
se não afina não tintina não tarantina
e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria
física e doendo doendo
como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão
coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro prego cego
durando na palma polpa da mão ao sol
circuladô de fulô ao deus ao demo dará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
circuladô de fulô e ainda quem falta me dá
o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro
da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia
azeitava o eixo do sol
circuladô de fulô ao deus ao demo dará
que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
circuladô de fulô e ainda quem falta me dá
e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie
desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe
me esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto que
no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me
reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se
verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz
cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que
me ensinou já não dá ensinamento
circuladô de fulô ao deus ao demo dará
que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
circuladô de fulô e ainda quem falta me dá
A versão apresentado por Veloso em seus discos, segue a risca a leitura concretista do poema de Haroldo. No mais, deve se fazer um comentário sobre a maneira sombria com que a música e expressada. A poesia me fala do povo, essencialmente do brasileiro, mas tem ainda várias outras interpretações. Paratanto, é assim que, em meio a dois artistas de segmentos distintos, perdidos em meio a prêmios Jabiti ou discos de platina que “Circuladô de Fulô” deve ser enxergada por detrás.
Ouça a musicalização:
Descontaço na compra da coleção Chico Buarque da Abril!
Os leitores do Artilharia Cultural foram contemplados com um presentaço da Editora Abril! Fechamos uma parceria e, em função disso, quem comprar o box completo pelo AC receberá 20% de desconto (no site, eles oferecem 15%), o que totaliza quase 60 reais a mais no seu bolso. Estive pessoalmente no prédio da Abril, vi cada CD e cada encarte para falar para vocês que realmente vale o preço. É uma coleção digna de se deixar à mostra na estante para causar invejinha. Abaixo, as informações do release da Abril:
A Abril Coleções apresenta a Coleção Chico Buarque, que reúne os 20 CDs mais representativos de sua carreira. Cada disco vem acompanhado de um livreto que reconta a vida e obra de um dos maiores compositores da MPB. Todos os livros-CD trazem as reproduções das capas originais dos LPs. E, nas 44 páginas do livreto, o leitor fica sabendo da história por trás de cada faixa, entende o contexto histórico em que o disco foi composto e descobre detalhes saborosos da vida de Chico Buarque. Além disso, intérpretes, músicos e parceiros, como Caetano, Toquinho, Francis Hime e Miúcha relatam, com exclusividade, episódios de sua convivência com o compositor.
A importância da coleção, um documento histórico imperdível para quem aprecia a boa música, justifica sua qualidade e seu acabamento. Todos os livros-CD têm capa dura e papel nobre. E um lindo box exclusivo pode ser comprado nas bancas para guardar a coleção. Para o assinante, a caixa vai grátis com o volume 1.
Os CDs
1 Chico Buarque | 1978
2 Construção | 1971
3 Meus caros amigos | 1976
4 Chico Buarque de Hollanda | 1966
5 Chico Buarque de Hollanda vol. 2 | 1967
6 Chico Buarque de Hollanda vol. 3 | 1968
7 Paratodos | 1993
8 Sinal fechado | 1974
9 Vida | 1980
10 Almanaque | 1981
11 Chico Buarque | 1984
12 Calabar | 1973
13 Chico Buarque | 1989
14 Ao vivo Paris – Le Zenith | 1990
15 Uma palavra | 1995
16 As cidades | 1998
17 Chico Buarque da Mangueira | 1997
18 Carioca | 2006
19 Francisco | 1987
20 Per un pugno di samba | 1970
Se ainda assim você não ficou feliz em pagar R$232 (em até 5x) por todos os CDs e mais a caixa, sugiro que você participe do concurso cultural: você grava um vídeo de até um minuto relatando uma experiência de sua vida que possa ser conectada às músicas do Chico. Dois felizardos serão presenteados com a CAIXA INTEIRA. Pra comprar, clica ali no banner. Fácil fácil.
Mais informações: www.colecaochico.com.br e @abrilcolecoes
Coleção Chico Buarque nas bancas em agosto!
Compre a coleção pelo site com 20% de desconto!
Nos mesmos moldes da coleção de Bossa Nova e de Raízes da MPB, a Abril lançará dia 27 de agosto uma coleção do Chico Buarque, um dos patronos do Artilharia. Serão 20 livros-CD, que reproduzirão os encartes originais dos LPs. Ao que parece, alguns volumes trarão o conteúdo integral do disco (como é o caso do primeiro volume, retratando o álbum de 1978) e outros serão coletâneas.
Para o consumidor não ficar em clima de “quero comprar mas é só mais do mesmo”, os livretos trarão histórias inéditas contadas por Miúcha, Caetano, Francis Hime e Toquinho, entre outros parceiros musicais.
Preparem os bolsos, porque o projeto está bonito. O primeiro volume sai por R$7,90, mas vai passando a vaselina que os próximos serão vendidos a R$14,90. Comprando semanalmente nas bancas, você gastará um total de R$291 – ouch! -, mas se comprar a coleção completa pelo site, você gastará algo em torno de R$247.
E fiquem atentos porque está rolando, também, uma promoção. Vejam: www.colecaochico.com.br
Já está anunciada, também, uma coleção do Tim Maia. É você, ouvinte da MPB, ficando pobre em prol da boa música.
Por trás da música – Chocolate
O Por trás da Música de hoje, é mais uma análise pessoal e intrigante de uma música que para muitos, até parece boba.
A cantora, intérprete e compositora Marisa Monte é, sem dúvida, uma das artistas mais estimuladas da MPB no Brasil nos dias de hoje. Tim Maia foi um dos grandes nomes do gênero. Carioca, multi-instrumentista, era conhecido por sua banda como o “síndico”, pela forma como colocava “a ordem na casa”.
A relação entre esses dois nomes se cruzam na canção “Chocolate” da década de 80. A composição de Tim tem uma intenção inocente e pouco enérgica.
Chocolate
Compositor: Tim Maia
Intérprete: Marisa Monte
Disco: Marisa Monte – 1988
Chocolate! Chocolate! Chocolate!
Eu só quero chocolate
Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná
Prá mim é chocolate
O que eu quero beber…(2x)Não quero chá
Não quero café
Não quero coca-cola
Me liguei no chocolate
Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná
Prá mim é chocolate
Que eu quero beber…Chocolate! Chocolate! Chocolate!
Chocolate! Chocolate! Chocolate!
Eu só quero chocolate
Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná
Prá mim é chocolate
O que eu quero beber…(2x)Não quero chá
Não quero café
Não quero coca-cola
Me liguei no chocolate
Eu me liguei!
Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná
Prá mim é chocolate
O que eu quero beber…Chocolate! Chocolate! Chocolate!
-O Senhor aceita um cafezinho?
-Não! Eu quero chocolate!
Em 1989, o disco debutante de Marisa traria a canção de Maia com algumas alterações na letra.
Chocolate, chocolate, chocolate
Eu só quero chocolate….Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mimÉ chocolate que eu quero beber
Não quero pó, não quero rapé
Não quero cocaína, me liguei no chocolate
Eu me liguei, só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber
Chocolate, chocolate, chocolate
Eu só quero chocolate….Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber
Não quero chá, não quero café
Não quero coca-cola, me liguei no chocolate
Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber
Chocolate, chocolate, chocolate
Eu só quero chocolate…. ui ui éNão adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beberChocolate, chocolate, chocolate
Chocolate, chocolate, chocolate
chocolate, chocolate, chocolate
É proibido fumar, chocolate, ui, ui ui..
É proibido fumar
É proibido fumar
Particularmente, conheci a música através de uma amiga de escola no ensino fundamental. É claro que o apelo ao alimento desejado pelo sexo feminino dá uma visibilidade enorme para a canção. Mas a versão de Monte, talvez explicite o que Maia quis dizer em 80. Ou ainda, que ela use de uma canção famosa para uma mensagem um pouco diferente da original.
Não é fácil de notar, na faixa interpretada por Marisa, trechos em que a cantora diz “Legalize Marijuana” ou ainda “É proibido fumar”. Além do que, esses trechos não estão na letra assinada por Tim Maia juntamente com outros que está escrito “Não quero pó” ou ainda “não quero cocaína, me liguei no chocolate”.
A observação que fiz então, diz sobre o que é o chocolate para Tim não é o que é para Marisa. Enquanto a versão original do “síndico” fala da fascinação pelo chocolate, a de Monte pode estar tentando dizer algo a mais. Mas isso fica por conta do soldado.
Uma ajudinha?
“Legalize Marijuana”
“Não quero Rapé”
“Não quero Pó, cocaína”
Destruindo 10 mentiras sobre Chico Buarque
Aqui estou de novo para falar novamente sobre Chico Buarque – eu avisei, eu avisei. Como estou à frente de sua maior comunidade no orkut há alguns anos, vejo por lá muita gente falando besteira, passando adiante informações falsas tidas como verdadeiras, e poucas coisas me irritam tanto quanto o trânsito livre das mentiras. Algumas pérolas foram criadas por ignorância, falta de informação. Outras, no entanto, foram tiradas não sei de qual buraco para difamar. O que quero fazer aqui, então, é simples: mostrar dez mentiras que circulam pelo universo buarqueano e logo em seguida jogá-las nos confins de onde saíram para que você não pense, nem por um momento, que são verídicas. Vamos lá.
1. Chico Buarque não é tímido
Por começar muito sem jeito, com aquela imagem de bom moço, criou-se esse mito de que ele é tímido. Chico é uma pessoa extremamente humorada e vive fazendo traquinagens e malandragens – essas brincadeirinhas que não prejudicam ninguém. Por exemplo, no exterior, aproveitava-se de seu anonimato para apresentar-se sempre como jogador da seleção brasileira. Num hotel do interior paulista, decidiu registrar-se como sul-africano. A moça da recepção não acreditou, e para convencê-la, ele começou a falar um dialeto exótico inventado na hora. Uma vez, disfarçou-se de motoboy para entregar flores a uma amiga aniversariante. Não foi descoberto e recebeu gorjeta. Em 1967, Chico aproveitou uma temporada que Caetano Veloso passou fora para espalhar o boato de que ele havia ficado doido. Quase chorando, repetiu a Toquinho as palavras que o amigo teria dito à irmã Maria Bethânia quando esta fora o vistar no hospício: “sai, carcará!”. E em 1985, uma comitiva de 80 brasileiros ficaria hospedada aos pares num hotel de Cuba. Chico disse que se chamava Nélida Piñon, escritora que desistiu da viagem junto com seu par, e assim conseguiu um quarto só para ele.
Enfim, falei bastante sobre esse fato porque é a mentira mais dita por aí. Essa imagem de tímido convém ao Chico: assim ele consegue se esquivar de inúmeros convites indesejáveis, por exemplo. E só para ilustrar melhor, um vídeo de 30 segund0s:
2. A inspiração de Chico Buarque não acabou com o fim da ditadura militar
É um erro gravíssimo dizer que a inspiração de Chico acabou junto com a ditadura. Seus discos mais recentes, como “As Cidades” e “Paratodos” estão marcados por canções lindíssimas, muito bem trabalhadas. As pessoas costumam dizer que os clássicos de Chico são quase todos da época da ditadura, e, bem, isso é verdade. Mas vamos considerar que ele era mais novo, a música fervilhava mais em seu corpo e ao seu redor, pois ver gente compondo é um grande estímulo para compor também. As pessoas não entendem que ao longo do tempo é natural e saudável que se mudem as temáticas das músicas, e tudo influencia nesse processo: experiência de vida, ambiente, sociedade. Pense por exemplo, que se você acaba de ter um filho, sua criação pode girar ao redor disso, mas depois o filho cresce e você procura outra coisa. É ridículo cobrar de alguém que se estanque no tempo e que escreva sobre as mesmas coisas que todo mundo já escreveu.
3. Chico Buarque não é autor de “Solidão”
Este poema que circula pela internet porcamente digitado no paint com a foto do Chico tomando um cafezinho, saiba, não é do Chico. Se você é um admirador de sua obra, imagino que dentro de você deva ter nascido a chama da dúvida ao ler “Solidão”. Se você achou que realmente era dele e encaminhou a corrente para mais uma caralhada de e-mails, pode ir trocar seus discos num sebo (quem sabe por uma Barsa), porque você ouviu todas essas músicas mas não entendeu ainda como o jogo funciona. Chico não faz poemas, ele faz música (fez um, em 1966, para não mentir). Chico jamais usaria esta construção de palavras e nem soaria tão cafona assim. O poema, na verdade, é de Fátima Irene Pinto. Veja:
Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo… Isto é carência!
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar… Isto é saudade!
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes para realinhar os pensamentos… Isto é equilíbrio!
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente… Isto é um princípio da natureza!
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado… Isto e circunstância!
Solidão é muito mais do que isto…
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.
4. Chico Buarque nunca foi exilado
Existe um mito que diz que Chico foi um dos artistas que mais sofreu durante a ditadura militar brasileira. Eu não concordo, e combato essa idéia sempre que tenho a oportunidade. Por exemplo, Chico nunca foi exilado. O que ele viveu na Itália foi um auto-exílio: em 1969 já tinha eventos marcados pela Europa e vendo que a situação no Brasil não ia nada bem, resolveu ficar. Já foi ameaçado e intimado a prestar depoimentos, sim, mas jamais foi torturado, nunca apanhou e nota-se que também não sumiu, como muitos outros artistas. Não estou dizendo que Chico não merece essa medalha, mas com certeza ele não seria o patrono do clube da resistência. Ao estudar a música de protesto nessa época ficamos muito presos aos mesmos autores, mas se formos mais afundo conheceremos gente como Geraldo Vandré, Taiguara, Sérgio Sampaio, Torquato Neto etc., esse sim, talvez tenham sofrido um tiquim mais.
5. Chico Buarque não é autor de tudo que canta
Uma vez, li alguém dizendo que o Chico não cantava música dos outros. Achei aquilo uma besteira, fui pesquisar e encontrei mais ou menos 100 registros de interpretações de Chico para músicas de outros compositores. É verdade que ele não as canta muito por aí, mas ele é também um intérprete. Seu disco de 1974, o “Sinal Fechado”, é composto só de músicas que não são suas – devido à perseguição da Censura. Algumas confusões comuns:
- “Sem compromisso”, que ele sempre junta com “Deixa a menina”, é de Nelson Trigueiro e Geraldo Pereira.
- “Sinal fechado” é do Paulinho da Viola.
- “Copo vazio” é do Gilberto Gil.
- “Festa imodesta” é do Caetano Veloso.
- “Lígia”, embora ele tenha feito alguns versos e aparado alguns parafusos, é do Tom Jobim.
6. Chico Buarque não é filho do Aurélio
Todo mundo já ouviu falar em Aurélio Buarque de Holanda, é só olhar para sua estante de livros que você verá o dicionário que levou seu nome. No entanto, nem todo mundo conseguiu entender que Chico Buarque não é filho nem sobrinho nem neto do Aurélio. Eles são remotamente aparentados, como explica Humberto Werneck em sua reportagem biográfica “Tantas Palavras”, e até que ponto esse parentesco se faz, ainda não consegui descobrir. Já vi fontes dizerem que na verdade o Aurélio casou-se com uma Buarque de Holanda e tomou o sobrenome para si, para embarcar na fama do historiador Sérgio Buarque de Holanda (esse sim, pai do Chico). Não sei se isso procede, nem se cronologicamente faz sentido, mas é uma explicação curiosa.
7. Chico Buarque não tem orkut, twitter, myspace etc.
Essa mentira seria fácil de ser quebrada não fosse o homem tão amigo assim da ignorância e da inocência. Eu sei que a mulherada gostaria muito de ter o Chico no orkut, mas, gente, ele não tem orkut. Nem twitter, nem myspace. Em suma, ele não participa de nenhuma rede social e por isso não se engane achando que o Chico Buarque te respondeu no twitter, porque não é ele e nem sua equipe. Na verdade, ele mal sabe mexer no computador. Eis a prova:
8. Chico Buarque não é parente de Eduardo Campos
Essa é mais para os nordestinos. Mais especificamente ainda para os pernambucanos. O atual governador de Pernambuco, Eduardo Campos, não tem nenhum parentesco com o Chico, apesar de dezenas de pessoas dizerem que ele é filho do compositor – talvez pela semelhança da cor dos olhos. O mito está tão difundido que eu já ouvi várias versões que explicam o filho perdido de Chico. A mais interessante é a que durante a ditadura, ele foi se refugiar em Recife, pulou a cerca e nasceu o dito cujo. Seja lá qual for a versão que um dia aparecer em sua frente, chute-a sem dó porque é mentira – melhor seria chutar a pessoa quem falou uma merda dessas, mas evite confusões.
9. Chico Buarque não é deus. Ele tem parceiros – e muitos!
De todos os problemas aqui listados, o que mais me irrita é o fato de que as pessoas supervalorizam Chico e simplesmente excluem seus parceiros. A letra de Beatriz, por exemplo, é sim lindíssima, mas é necessário entender que aquelas palavras que estão ali são submissas aos acordes que o Edu Lobo fez. A letra é como se fosse água, ela irá se adaptar conforme o recipiente – no caso, a música. Sendo a melodia o guia das palavras, é de me contorcer o intestino quando vejo mestres como Edu, Francis Hime, Tom Jobim, Toquinho etc. serem jogados fora. E ainda poderia abordar parceiros de texto, como Augusto Boal, Ruy Guerra e Paulo Pontes, mas não vou aumentar ainda mais esse desabafo, uma vez que a idéia de que seus parceiros são fundamentais já está clara. E se quiserem uma dica, pesquisem sobre esses parceiros, porque se é parceiro do Chico, é bom – faria uma exceção pessoal ao Ivan Lins, mas deixa pra lá.
10. É de Hollanda, com l duplo
Chico Buarque de Hollanda, com dois Ls. Essa, na verdade, foi só pra fazer a lista ficar com dez porque gosto de números redondos, mas não deixa de ser um erro comum propagado por aí.
Espero ter conseguido algum progresso com esse post. Bota aí nos comentários suas sugestões e suas críticas, se ainda assim você achar que uma dessas informações contestadas são realmente verídicas – vai saber, né, tem cada louco por aí. E Chico, depois você deposita na minha conta, conforme o combinado.
33 anos da morte de Elvis Presley
Eu nunca fui de ligar muito para datas bizarras, tal qual o “aniversário de morte” de algum artista. Mas Elvis Presley não é apenas um artista. Sem questionar suas qualidades – que são praticamente indiscutíveis – e seu talento, é preciso lembrar do mito. Talvez Elvis esteja junto dos Beatles como a figura musical mais conhecida de todos os tempos. Seja pelo topete e costeletas, o queixo quadrado, as maçãs do rosto saltadas ou a voz grave e doce ao mesmo tempo, Elvis sempre arrastou uma legião de fãs por onde passou e ainda tem fiéis seguidores. Alguns, mais devotos, clamam que o Rei ainda está vivo, escondido em algum lugar. É o que resta para uma geração que viveu a febre do verdadeiro Rei do Rock. Ele é o artista com mais hits em paradas mundiais e o campeão absoluto de vendagem de discos, com mais de um bilhão e meio de álbuns vendidos em todo o mundo.
É praticamente impossível encontrar alguém que nunca tenha dançado ao som de Elvis, ou cantarolado uma de suas canções. Falar do Rei, aliás, chega a ser dispensável, quando não há nada a ser dito, e apenas apreciado. É por isso que finalizo esse post por aqui, deixando vocês com uma das minhas músicas favoritas, interpretadas por ele.
Elvis Aaron Presley
08/01/1935 – 16/08/1977
Bombardeio XII – Sertanejo Universitário
A moda de viola e a música sertaneja sempre estiveram muito presentes no cenário popular brasileiro. A música vinda dos interiores, feita por gente de lá e vestida para montaria já revelou grandes artistas consagrados, como Daniel, Leonardo e Sérgio Reis. No entanto, nos últimos anos aconteceu uma reformulação no gênero sertanejo: é o chamado Sertanejo Universitário que já revelou artistas jovens como Victor e Léo, Cesar Menotti e Fabiano, João Bosco e Vinícius e até o artista popular Luan Santana. Dessa forma, a viola sertaneja – que agora pode ser substituída pela guitarra elétrica, vem soando para fora de alto falantes das principais capitais do país.
Colocamos os artilheiros para ouvir um pouco do Sertanejo Universitário. Nessa edição, contamos com mais uma participação especial dos colaboradores @gabriel_veit e @bielabagacera.
Marcel:
Nem bem vão para o sucesso e muitos artistas do sertanejo universitário simplesmente desaparecem. Aliás, o nome Sertanejo Universitário me é engraçado. Acho que pelo apelo que faz ao público jovem. Mas, na maioria das vezes, as duplas simplesmente não dão em nada. Isso é evidente quando é mais que uma tentativa triste de ter fama. Se eu anotasse os nomes das duplas sertanejas que surgiram nessa nova fase do gênero, teríamos uma lista cheia de nomes e de decepções. O investimento mercadológico de grandes produtoras para aproveitar o majestoso sucesso da popularização da música sertaneja me lembra o fervor que houve nos EUA para com o Rap e Black nos anos 2000. É claro que é preciso considerar o nascimento de excelentes duplas como Victor e Léo e ainda João Bosco e Vinicius. As canções são cada vez mais padronizadas e pouco contundentes: sempre esnobando ou sendo esnobado pela garota que freqüenta as festas de peão. E sejamos realistas em dizer que quem mais perde com essas canções desprovidas de espírito é a própria moda sertaneja que ainda é a maior representante que conservamos da sonoridade do sudeste brasileiro.
Lucas:
Na sexta-feira eu tive uma conversa com um grande amigo, sobre grandes produtoras e as novas modas musicais do cenário nacional. É engraçado como tudo acabou tornando-se um ciclo vicioso: bandas/artistas crescem com algumas influências, produtores moldam o objeto até ele tornar-se superficial e o entregam, como que em caixinhas de plásticos, para as fãs. Tenho certeza que os integrantes do Cine tem influências musicais tão boas quanto eu tive no decorrer da minha vida, considerando que nossa diferença de idade não é tão grande (acredito que eles devem ter entre 20 e 23 anos)… Mas o caminho mais rápido para alcançar o sucesso é fugir do que é bom e partir para o que é fácil. Caras como o Rick Bonadio são craques em fazer isso.
Tratando-se de Sertanejo Universitário, o caminho é esse. Usa-se um sufixo que remete à juventude – assim como usou-se no Forró Universitário – para atrair um determinado nicho, e aproveita-se a segunda fase do sertanejo (composições românticas geralmente sobre amores perdidos) para, nessa coqueluche, criar um ritmo que agrade a juventude. Artistas – e eu coloquei no plural porque acredito que deve existir outro além do Luan Santana, apesar de só conhecer este pela música do meteoro – que não fazem diferença nenhuma e não agregam nada ao ritmo. Ao contrário: acaba prejudicando ainda mais um estilo de música característico de nosso país que é vítima de um preconceito sem sentido algum.
Gabriel (Artilheiro Colaborador):
Alguns anos atrás seria difícil pra mim, falar sobre isso – era do tipo que vivia do famoso rock’n roll. Mas felizmente resolvi tirar os fones de ouvido e ouvir o que o mundo exterior estava ouvindo e cantando. Com isso, descobri que existe vida além do, hoje em dia, maltratado rock brasileiro e acabei chegando ao mundo dos rodeios. Musica boa pode ser feita por apenas dois homens, pois musica é algo que agrade nossos ouvidos não importando se é lenta, rápida, suave ou pesada. Estas novas duplas que vêm surgindo nos trazem um leque quase que infinito de maneiras de tratar o mesmo assunto, o amor. Muitos reclamam do sertanejo exatamente por este fato, mas a meu ver, a maioria dos estilos tem este mesmo caráter, seja com os rebeldes sem causa, os críticos que ficam sentados em suas cadeiras reclamando de tudo e até aqueles que só querem trazer o terror e a brutalidade. Muitas duplas se perdem ao longo da estrada, mas isto é normal, pois é a lei da selva, a lei do mais forte. Então cá entre nós, essa é a melhor das atuais modinhas, assim sendo vamos sentar, ouvir estes homens cantar e pensar em nossos amores sejam perdidos, futuros, momentâneos ou reais.
Gabriela (Artilheira Colaboradora):
Como todo estilo musical muito popular, pra se gostar de sertanejo universitário você precisa analisá-lo sob um contexto. O novo sertanejo não é o tipo de música que tenha uma boa letra e se fizer algum sentido, já é um grande negócio. As melodias tendem a ser um tanto repetitivas, embora o sucesso recente do estilo musical tenha feito com que as duplas se esforcem mais pra se diferenciar das milhares que existem por aí. Sertanejo universitário não é algo que você ouve em casa ou que te faça pensar. Não é poesia. Sabendo disso, você tem uma chance de começar a gostar. Falando pelo ambiente que vivo – apesar de ser do interior de Goiás, moro em Goiânia há alguns anos – o sertanejo é principalmente, um meio de interação social. As baladas sertanejas são sempre animadas e as músicas fáceis de decorar colaboram para que todos cantem as músicas juntos. Isso une as pessoas de uma forma assustadora. Todo mundo fica de pé, canta em voz alta, ergue o caneco de cerveja e isso acaba facilitando a conversação entre mesas. Além do mais, a maioria das músicas são dançantes e o melhor de tudo: Dança a dois.
Eu gosto. Não exijo aquilo que esse tipo de música não vai oferecer. O sertanejo universitário foi criado pra isso: ser dançante, animado e fácil. Deve caber em um grupo de amigos, em uma dor de cotovelo, em um momento em que você quer cantar todas as superficialidades do mundo em voz alta. A quem não gosta, peço que dêem uma chance se puderem. Pode não ser tão ruim como pensam.
(P.S.: Conselho de caipira: Se querem escutar algo que faça mais sentido, escutem moda de viola das antigas. São histórias contadas em música, muito mágico.)
Por trás da música – Ideologia
A década de 80, para a música nacional foi toda feita de tumultos. Novos ícones no pop, novas influências sobre o rock. Entre esse fervor existia um garoto que “iria mudar o mundo”, um carioca que nunca ficava “em cima do muro”. Agenor de Miranda Araújo Neto ou Cazuza como era mais conhecido mostraria ao mundo uma das canções mais ácidas e amarguradas que a música nacional já fez. No final da década de 80, “Ideologia” ficaria nas principais paradas de sucesso e, apesar de nenhum dos artilheiros fosse nascido na época, não fica difícil entender do que se trata a peça que virou símbolo e hino de uma geração.
Compositor: Cazuza
Intérprete: Cazuza
Ano: 1988
Disco: Ideologia 1988
Em 1985 – dois anos antes do lançamento do disco que continha “Ideologia” “Brasil” e “Faz parte do meu show” – Cazuza descobriria seu real estado de saúde. A reação do cantor ao saber que era portador do vírus HIV foi suficientemente preocupante para que seus pais o levassem para um tratamento nos Estados Unidos. Dois anos depois, já de volta ao país, Cazuza começaria a gravação do disco Ideologia.
Ideologia – Cazuza
Meu partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato
Que eu nem acredito
Ah! eu nem acredito…Que aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Frequenta agora
As festas do “Grand Monde”…Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Eu quero uma pra viver…O meu tesão
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs
Não tem nenhum rock ‘n’ roll
Eu vou pagar
A conta do analista
Pra nunca mais
Ter que saber
Quem eu sou
Ah! saber quem eu sou..Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro
Em cima do muro…Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Pra viver…Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro
Em cima do muro…Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Eu quero uma pra viver..
Ideologia!
Pra viver
Ideologia!
Eu quero uma pra viver…
A primeira faixa do disco tinha 4 minutos de um Cazuza nunca antes visto.”Ideologia” tem uma letra ácida e irônica. Duas características que são explicadas pelo estado frágil que Cazuza se encontrava. A aversão ao governo Sarney que foi de 85 até noventa e a mágoa de ser visto com preconceito por ser soropositivo por seus próprios irmãos brasileiros deram ao disco todo um teor de protesto. E numa escala, Ideologia é a canção que mais toca fundo na ferida.
Para explicar o pouco que fica sem explicação, eu deixo o soldado por conta de um texto escrito pelo próprio Cazuza.
“Ideologia, eu quero uma pra viver”
Cazuza sobre a sua Ideologia.
“A minha ideologia é a da mudança. Nada de partido político. É a coisa de mudar o Brasil, em qualquer dimensão. Eu não tenho Partido, sério. Mas estou com as pessoas que podem mudar alguma coisa, dou a maior força. Sou socialista por vocação, por natureza, por amor mesmo. Porque acho que o socialismo está no meio, está entre o comunismo ditatorial e o capitalismo selvagem, num ponto onde a iniciativa privada pode dar alguma coisa também. “
“Quando fiz “Ideologia”, nem sabia o que isso queria dizer, fui ver no dicionário. Lá estava escrito que indica correntes de pensamentos iguais e tal… A música, por sua vez, é muito pessimista, porque, na verdade, é a história da minha geração, a de 30 anos, que viveu o vazio todo. É meio amarga porque a gente achava que ia mudar o mundo mesmo e o Brasil está igual; bateu uma enorme frustração. Nos conceitos sobre sexo, comportamento, virou alguma coisa, mas deixamos muito pelo caminho. A gente batalhou tanto e agora? Onde chegamos? Nossa geração ficou em que pé? “
“Antes de mais nada, mudou o patriotismo. Pra mim, o patriotismo não é essa coisa símbolos, como a bandeira. Mexe muito mais com o sentimento. Quando me enrolei na bandeira, no Rock in Rio, eu estava acreditando. A coisa de cuspir na bandeira, três anos depois, foi contra aquele ato teatral do espectador. Eu estava cuspindo no símbolo, na bandeira que simboliza mesmo é a família Orleans e Bragança. Acho que não é hora de teatro com bandeira. O momento é de criticar, de virar a mesa, de sair da merda. Antes eu me enrolei foi aquele clima de Tancredo Neves. Eu estava, como todo povo, inebriado por um sentimento de mudança, de esperança. A coisa do vai-pra-frente, algo lindo, um movimento sincero que se esvaziou por erro dos políticos. No Rock in Rio, cantei por dez minutos com a bandeira, sonhei, acreditei. Quando eu era adolescente, também acreditava. A gente não tinha descoberto a vaselina, o conchavo. Entrava com garra mesmo. Nem sei mais se essa garra existe hoje com os novos adolescentes. “
“o meu prazer, agora é risco de vida”
Cazuza sobre a AIDS
“De qualquer maneira, a Igreja e a direita estão com a faca e o queijo na mão. Já nem acho que tenha sido a CIA que botou o vírus da AIDS no mundo. Eles simplesmente usaram a doença. Botam na tevê que a AIDS mata para as pessoas ficarem horrorizadas com aquilo. É tudo um complô mesmo. Tanto que, na Europa, a coisa é tratada diferente, sem esse moralismo medieval. Mas aqui eles usam a coisa legal mesmo. Usaram, mas não conseguiram. Eu vejo as pessoas se amando muito, está todo mundo ótimo, com camisinha ou sem camisinha. Eles não venceram, não. E isso é luz. No disco que vou lançar, as músicas são assim, muito felizes, muito pra cima, cheias de luzes.”
“meus inimigos estão no Poder”
Cazuza sobre o governo Sarney e o fim do regime militar de 89.
“Aquele show no Palace foi uma coisa muito louca, porque eu acho que ele foi histórico para São Paulo… Teve as eleições de 15 de novembro e no primeiro de dezembro eu estava lá. E tinha aquele clima de euforia, as pessoas querendo acreditar novamente que tudo vai mudar, que pode mudar… Tanto que eu considero ‘Ideologia’ , ‘Brasil’, e ‘O tempo não pára’ uma trilogia de Sarney ao PT no poder. É uma trilogia de esperança… Eu nunca tive medo de falar quando eu estava de baixo astral. Acho que a gente não pode ficar ‘tudo bem’ o tempo todo: o mundo é ruim, as pessoas são ruins, o mal sempre vence, então tem esse lado forte. Mas agora estou numas da corrente do bem. Tô nessa e acho genial. Tudo bem: o mal tá lá, as pessoas ruins estão lá, pessoas mesquinhas, mas não vão me atrapalhar mais. Não vou mais sofrer por causa delas”.
Conheça Maynard
por Marcel
Maynard James Keenan é um dos símbolos do rock atual. Um dos grandes símbolos ao lado de Trent Reznor, Jack White e etc. O vocalista, compositor, intérprete e produtor musical é líder de duas bandas que valem o disco de platina: Tool (1993) e Perfect Circle (1999). Talvez conheça o por tal título ou por ter esbarrado em alguma das mega bandas citadas. Mas Keenan é muito mais incomum que aparenta, acredite.
Em 1964, na cidade de Raveena no estado de Ohio nasceria James Herbert Keenan, filho de Judith e Micheal Loren. Logo cedo, Keenan sofreu com a separação de seus pais em 1968. Em pouco tempo, os intervalos que o garoto via o Sr. Loren eram maiores e seu pai começou a ser substituído com o novo marido de sua mãe, personagem este que Maynard alega tê-lo sufocado por sua maneira rude. Apenas com treze anos já seria surpreendido pelo sofrimento novamente: sua mãe sofreria uma paralisia devido ao aneurisma cerebral e com muito pesar, convenceu o filho de ir morar com o pai quase desconhecido em Michigan.
Na década de 80, Maynard começou a pensar em sua carreira artística. Um dos personagens de Bill Murray num filme da época, o incentivou (e inspirou) a conseguir um titulo de veterano do exército americano, o que lhe concederia o chamado G.I Bill que se trata de um empréstimo para ex-soldados. Foi aí que realizou seu sonho de se matricular numa escola de arte. No fim da década ele se mudaria para a grande Los Angeles e lá, guiado por sua paixão por animais e arte, começaria uma carreira de designer de interior de pet-shops. Mas o que importa é que enquanto isso, durante os 80’s, ele começava sua carreira musical em duas bandas independentes. No Tex.Ans tocava contrabaixo enquanto cantava na Children of the Anachronistic Dynasty (participação esta que vocês podem conferir no registro-queima-filme abaixo que a biblioteca do Artilharia Cultural ainda guarda)
Adam Jones (outro personagem que merece uma postagem completa como esta) ouviu e se impressionou com o poder nos vocais de Keenan. No fim da década eles se encontrariam e em 1990 o Tool estava formado.
Maynard e o Tool
Em 1993 veio Undertow onde Maynard mostrou que não depende de um penteado de 80’s para liderar uma grande banda. Como letrista, Maynard impressionou, as letras da maioria das músicas não têm versão oficial, portanto, tudo que há por aí é interpretação de alguém. Tool entragava no seu primeiro disco uma sonoridade grunge. A postura de Keenan parecia se encaixar perfeitamente a musicalidade que banda fazia. O que antes parecia ser ataques epiléticos no palco, logo se tornaram parte da maneira caricata do vocalista nos palcos.
Prision Sex foi o single e recebeu o primeiro vídeo de uma série de outros trabalhos dirigidos por Jones. Confira a agressividade dos vocais de Keenan e os efeitos que depois se tornaram marca registrada na identidade da banda.
No fim dos ano de 1996 foi a vez do disco Ænima. O disco rendeu a Keenan e sua banda a notoriedade suficiente para que ele começasse a ser compreendido por seu jeito excêntrico no palco. O single, mais uma vez foi censurado pelo conteúdo explícito tanto no vídeo de Jones quanto na letra de Keenan.
Depois de tornar conhecido o nome da banda que já era ouvida ao redor do mundo, com multidões de fãs o Tool entrou em hiato. Maynard já em férias alegaria, sobre a revolução da internet na industria fonográfica que “existem outras grandes empresas que devem ser destruídas, não essa (…) quem se machuca com os mp3 não são as grandes corporações e sim, as pessoas que vivem escrevendo música.” Cinco anos depois, James Keenan traria ao mundo vocais sombrios e distorcidos em Lateralus, o terceiro disco da banda.
Lateralus é o primeiro disco depois que Keenan largaria de vez as críticas ao cristianismo, levando a sonoridade já conhecida da banda a discutir outras crenças em suas letras sombrias e seu vocal poderoso. O flerte com o ocultismo e as Leis de Thelema são evidenciados por quase todas as músicas.
Quinze anos se passariam desde a formação da banda quando 10,000 Days seria lançado. O disco mostra uma viagem pessoal e obscura na vida, decepções e mudanças de Keenan. As músicas são todas de inspiração na vida do autor além de que os 10 mil dias, que dão nome ao álbum e um single, corresponderiam ao tempo em que Judith Marie, a mãe de Kennan havia falecido.
Maynard e o A Perfect Circle
Durante um ensaio do Tool, Billy Howerdel convidou Maynard para participar de um projeto seu. Nasceria o APC com uma sonoridade diferente do Tool.
Maynard, durante todo um longo período de apresentações com o A Perfect Circle fez uso de uma peruca para não influenciar na escolha do público por ser quem era. Só meses depois Keenan assumiu a verdadeira identidade, mesmo que tenha conseguido enganar poucas pessoas com a iniciativa.
A discografia da banda foi um sucesso em vendas. Ouça qualquer um dos três discos para encontrar outra sonoridade e um Maynard mais “audível”.
Os outros projetos de Maynard
O Puscifer, mais recente trabalho musical de Maynard, agrada alguns fãs. A música eletrônica com letras cheias de acidez para falar da cultura de massa e, é claro, do mitificação de Jesus Cristo lembra os dark times do NIN. Os lançamentos de disco são atrelados à marca de roupa a qual Maynard é dono. Entre os integrantes da banda, que não são fixos estão desde o ex-Tool: Danny Carey até a atriz da franquia de Resident Evil: Milla Jovovich que participa dos vocais de REV 22:20
Como ator, ele já foi de Charles Manson até Satã:
Recentemente, Keenan vive num rancho no qual produz suas próprias marcas de vinho: Merkin Vineyards e Caduceus Cellars, ambas do Arizona. O artista foi convidadado para documentar um filme sobre o afazer ao lado de um dos maiores especialistas no assunto em “Blood Into Wine”.
Enquanto Maynard cuida de seus vinhos e de seu filho Devo H. Keenan de 15 anos os fãs esperam que a frase mais conhecida de Mainárdo (apelido que os fãs brasileiros o deram) faça sentido: “Faremos música juntos, até um de nós morrer”.






















