Arsenal de assuntos

O rei do inverno (Bernard Cornwell)

Artilheiro Colaborador: Taize Odelli

A Grã-Bretanha tem uma das maiores lendas de guerreiros e reis, e uma história farta de grandes batalhas que consagraram a literatura com as mais incríveis personagens. Infelizmente, a maior de todas essas pessoas é aquela sobre a qual menos sabemos. Incluindo a incerteza sobre sua existência. Trata-se do rei Artur, um homem que trouxe a paz na Grã-Bretanha através do seu bom caráter e da ajuda dos deuses pagãos. Suas narrativas apresentam um ambiente repleto de magia, e conforme o autor, pessoas presentes em sua vida são mais ou menos importantes.

Bernard Cornwell, renomado autor de romances históricos, fugiu um pouco da constante abordagem fantasiosa de Artur. Claro, ele pode simplesmente não ter existido, e sua história pode ser escrita com os exageros que lhe convém, mas ela é narrada aqui com certos aspectos realistas que fazem falta na maioria dos textos que exaltam as suas glórias. E é isso que Cornwell fez: tirou Artur dos contos-de-fada e o transportou para o mundo real. Na trilogia Crônicas de Artur, publicadas aqui pela Editora Record, o autor fala da mais enigmática personagem da Grã-Bretanha através do monge Derfel, ex-guerreiro que lutou ao lado de Artur.

O Artur de Cornwell nem mesmo é rei, mas sim um grande guerreiro que, durante um tempo, orientou a antiga Inglaterra e estabeleceu a paz. A narrativa de Derfel tem início no livro O Rei do Inverno, com o nascimento de Mordred, neto de Uther e futuro rei da Dumnonia. Com a morte do Grande Rei, um conselho é formado para governar as terras até que Mordred tenha idade suficiente para subir ao trono. Entre os conselheiros e guardiões do pequeno rei está Artur, filho bastardo de Uther e, já naquele tempo, um aclamado guerreiro.

Assim como Cornwell muda o estilo da lenda de Artur, o próprio texto do autor tem suas mudanças. Acostumada com grandes narrativas de batalhas atadas sempre aos fatos, com a violência exposta e os detalhes que só Cornwell consegue narrar, ver o autor falando de deuses, magia e religião foi algo novo para mim. Onde seus outros livros se atém à lógica das batalhas, aqui há uma pitada de místico, fator imprescindível nas histórias de Artur.

Uma analogia pode ser feita para entender melhor o livro. Nós somos Igrane, rainha que pede a Derfel que lhe narre os feitos de Artur. Uma pessoa que cresceu ouvindo relatos fantásticos sobre ele, assim como nós. E Cornwell é Derfel, que desmistifica a lenda, tornando-a mais palpável. Ao mesmo tempo, ele reafirma o caráter fictício de Artur. Todas as personagens envolvidas na trama foram humanizadas pelo escritor. Artur tem seus defeitos, assim como Morgana (feia), Lancelot (narcisita), Merlin (louco) e Guinevere (egoísta).

A narração de O Rei do Inverno pode às vezes pender mais para a história de Derfel. Isso porque o maior objetivo do livro é retratar a época em que Artur supostamente viveu, não necessariamente os seus feitos. Justifica-se então o grande espaço dado para batalhas e outros acontecimentos que não fazem parte das lendas de Artur, mas que tiveram importância para a Grã-Bretanha.

Rei do Inverno é bom não só por ser mais uma obra bem escrita de Cornwell, mas por dar aos leitores uma versão bem diferente daquilo que se conhecia sobre os anos arturianos. Ele deixa essa história ainda mais fascinante, mostrando ao mesmo tempo que ela é mágica, mas ao alcance do leitor como se ela realmente tivesse acontecido.

Sobre o Artilheiro Colaborador

Taize Odelli é estudante de jornalismo, escreve resenhas literárias para os sites Ambrosia,Amálgama, e seu blog, o r.izze.nhas. Pode ser encontrada no @TaIzze

Suprimento Semanal IV

Boa noite, Artilheiros. Em dia de #FF no twitter (aliás, já me segue? Sou o @lucasbaranyi!), chegou a vez do #SS no AC. Um livro, um filme, um álbum, pra que você não tenha desculpa na hora de falar que não tem “nada pra fazer” no final de semana. Bora?

O livro

Assombro (Chuck Palahniuk)

É através de Guts, conto que já fez pelo menos 73 pessoas desmaiarem, ao ser lido em uma exibição pública, que a maioria das pessoas conhecem esse livro. Algumas também acabam conhecendo, dessa forma, Chuck Palahniuk, responsável por Clube da Luta e muitos outros sucessos. A história? 18 escritores recebem a proposta de escreverem seus “melhores livros”. Conseguirão isso ao se isolarem da sociedade por três meses. O que eles não sabiam, é que o local cujo isolamento ocorreria seria um teatro abandonado. Ali, presos e alvos de uma macabra “experiência”, eles acabam por escrever contos e poemas, no mínimo, perturbadores. O livro carrega a linguagem ácida e inteligentíssima de Chuck, e o conto supracitado é um dos pontos altos da obra. Você pode lê-lo (e ter uma base do que te espera) clicando aqui.

O filme

Código de Conduta (F. Gary Gray)

Eu tinha uma porrada de filmes pra indicar pra vocês, como devem imaginar… Mas Código de Conduta foi o filme que prendeu minha atenção por seu roteiro interessante: um homem (Gerard Butler) perde sua esposa e sua filha, assassinadas em um assalto à sua casa. Seu advogado (Jamie Foxx, a cada filme mais sensacional) é seu advogado e, para evitar que seu nível de condenações abaixe, decide optar por uma estratégia mais segura no julgamento e faz um acordo com o assassino. Toda a história, então, gira no quão longe pode ir um homem que não tem absolutamente nada a perder.

Com boas cenas de ação e diálogos interessantes, Código de Conduta é o tipo de filme para se assistir em um final de semana, com muita coisa pra beliscar ao lado.

O disco

The Resistance (Muse)

Já resenhado no AC, um dos melhores álbuns de 2009 é o conjunto de gravações mais contraditórios da banda européia, por fugir de suas origens pesadas para mergulhar de cabeça em um rock com influências clássicas e, por que não, melódicas?

The Resistance é o meu álbum favorito da banda e, em muitas faixas, me faz lembrar de Queen. As faixas recomendadas pelo Artilheiro que vos escreve para ouvir primeiro são Uprising, The Resistance e Guiding Light (esta última, com um solo que lembra de maneira assustadora Brian May, guitarrista do Queen).

Especial Quentin Tarantino – Pulp Fiction

ATENÇÃO:

Se você nunca assistiu Pulp Fiction, eu aviso: essa resenha contém spoilers e está mais confusa do que ano eleitoral. Se, ainda assim, você optar por ler, sugiro que siga a ordem numérica estipulada abaixo. Isso também serve pra quem não quiser arriscar ler na ordem estipulada no post. Hoje, às 19h00, ocorrerá o sorteio dos dois ingressos para Death Proof. O resultado sairá no twitter do AC.

5

O plot? A gente pode resumir isso, né? Afinal de contas, somos todos íntimos de Pulp Fiction. Essa, vale comentar, é a primeira resenha que eu faço sem senso nenhum de ridículo e/ou estética. Estou me imaginando em uma mesa de bar, conversando sobre um dos meus filmes favoritos. E o quão sensacional é pensar que a maleta que rende 2/3 das desgraças que acontecem no filme saiu de Cães de Aluguel? E, melhor ainda… Nós não sabemos o que tem nela. Pessoas especulam que é a alma de Marsellus (o band-aid na nuca dele, um dos pontos mais importantes do corpo, poderiam confirmar isso), enquanto outros, mais céticos, dizem ser apenas diamantes (isso explicaria o reflexo que ela causa, quando aberta).O que importa é que você não vê isso em outro filme. Tá, a Marvel Studios ta fazendo crossovers entre os filmes, mas o ano era 1994, cara. É quase a continuação do filme. E vale lembrar que não é só isso que acontece. Paralelamente, temos a história de Butch (Bruce Willis), boxeador que tinha um acordo com Marsellus, ferra tudo e depois tem que tentar consertar a besteira (com uma Hattori Hanzo) pra não perder a vida. E no meio de tiroteios, diálogos ácidos e inteligentíssimos, nós só teremos uma conexão entre tudo isso perto do fim do filme. Que, na verdade, não é o fim e… ah, dane-se. Vocês entenderam.

3

Tarantino tem um talento que poucos diretores tem: ressuscitar atores. John Travolta era o cara do Grease e d’Os Embalos de Sábado à Noite, até aparecer em Pulp Fiction. Samuel L. Jackson não era ninguém. Falem o que falar, pra mim o melhor papel da carreira desses dois é Pulp Fiction. Jackson pode vencer qualquer discussão com aquela barba, e se começar a citar a Bíblia, é porque você perdeu feio. Travolta, então, não precisa fazer muito. Se dançar um pouco e enfiar uma injeção de adrenalina no peito de alguém, já ta de bom tamanho.

2

O que dizer de um filme que não tem começo, nem meio, nem fim? Ele não é dividido cronologicamente, como Bastardos Inglórios. Ele também não é “meio bagunçadinho”, como Reservoir Dogs. Pulp Fiction começa pela mesma cena que vai dar o fim ao filme, tem duzentas reviravoltas que não fazem sentido nenhum, e cenas antológicas o suficiente para quebrarem as pernas de qualquer filme que vocês colocarem na roda. Qualquer um. Sério. Eu conheço uma pessoa que não gosta de Tarantino, e a sorte dela é que ela é bonita, porque é meio complicado manter uma amizade com alguém desse tipo.

8

Por tudo isso que eu disse e por uma infinidade de motivos, Pulp Fiction pode ser considerado o filme de uma geração. O filme que representou os anos 90, e, principalmente, a grande obra-prima de Quentin Tarantino, que – com esse filme – conseguiu consolidar um estilo de filmagem, de diálogos, de roteirização… Seu próprio estilo, que é impossível de se copiar. Nenhum outro diretor teve tanto carinho com suas influências à ponto de homenageá-las em todos os filmes que realiza. Nenhum diretor teve tanta ousadia em misturar ultraviolência com roteiros inteligentes, não ao dosar as duas, mas criando uma overdose de todas as características que seus filmes carregam. Pulp Fiction é uma injeção de adrenalina direto no seu peito, fazendo efeito por 2 horas e 28 minutos. E, até hoje, é um dos melhores filmes já feitos.

4-6

Referências Tarantinescas. Você não tava esperando que isso fosse organizado como foi em Bastardos Inglórios, né? Estávamos na disciplina militar, lá. Aqui é terra de ninguém. Se você já assistiu Cães de Aluguel, deve ter percebido que Vic Vega, é irmão do personagem de John Travolta (Vincent Vega). E se você acha que Tarantino só deixou essa pista, olhe atentamente a cena em que o porta-malas do carro em que Jules e Vincent levantam o capô do carro, com o morto dentro. Ao lado dele, está o mesmo galão de gasolina usado por Blonde para colocar o policial de Reservoir Dogs em chamas. A ligação com Cães de Aluguel vai mais longe: Steve Buscemi é o garçom fantasiado de Buddy Holly que, quando interpretando Mr. Pink, recusava-se à dar gorjetas para garçonetes. Harvey Keitel tem sua participação em Pulp Fiction, como um enviado de Marsellus Wallace (o chefão da parada toda), para tentar dar um jeito no carro que Vega, ahm… Danificou.

Tá faltando referência, né? Vou fazer melhor do que deixar aqui. Nesse link você vai encontrar uma bíblia sobre Tarantino. Todas as referências legais, as curiosidades… Tudo bacana mesmo sobre o diretor e seus filmes encontra-se aí. Então eu não vou encher esse post com informaçõe sque você mesmo pode buscar; to aqui pra falar do que me dá tesão nesse filme.

E venhamos e convenhamos, algumas cenas são psicologicamente afrodisíacas. Sabe quando você tem um orgasmo mental? Foi isso que eu senti com o diálogo entre Travolta e Thurman na lanchonete.

Mia Wallace: Você não odeia isso?

Vincent: Odeio o que?

Mia: Silêncios desconfortáveis. Por que sentimos que é sempre necessário falar sobre qualquer merda para que possamos nos sentir confortáveis?

Vincent: Não sei. É uma boa pergunta.

Mia: É nessa hora que você sabe que encontrou alguém realmente especial: quando você pode simplesmente fechar a droga da boca por um minuto e, confortavelmente, compartilhar do silêncio.

Ou então a participação de Tarantino, como Jimmie, tendo que ajudar Jules e Vincent a darem um jeito no carro todo manchado de sangue e cérebro. Falando nisso, o quão genial é a cena de Travolta simplesmente explodindo os miolos do cara do banco de trás? Não faz sentido algum, e ao mesmo tempo, é de – com o perdão do trocadilho – explodir cabeças. E, se tudo isso ainda não mexeu com você, eu duvido que você não ficou tenso com a agulhada no peito de Thurman quando ela tem uma overdose de pó.

1

Entrar para a história é para poucos. Se você ver um imbecil andando com um capacete do Darth Vader por aí, como se não houvesse amanhã, você reconhecerá o personagem. Saberá, ao menos, de onde ele veio.

E agora eu tomo alguns segundos do caro leitor para perguntar: você sabia que na França, o Quarteirão com Queijo não é chamado assim? Porque lá eles não usam o sistema métrico, e tal. O lanche é entitulado Royale with Cheese. Cara, você pode pedir uma cerveja em um Mc Donalds na França. Já o Big Mac é simplesmente Le Big Mac.

É referência o suficiente pra você? E se eu citar Ezekiel 25:17? Ou, talvez, a música You Never Can Tell, de Chuck Berry? Talvez se eu dançar um pouco de twist?

Eu já discuti com vários de fãs de Tarantino sobre minha preferência por Cães de Aluguel… Mas, quando você assiste com atenção o suficiente, quando você para pra olhar… Pulp Fiction é uma obra prima. Pulp Fiction é o tipo de filme que tem seu próprio gênero. E esse gênero é bad motherfucker.

7

Como eu havia dito alguns posts atrás, aliás, Tarantino é mestre em matar personagens badass da maneira mais caricata possível. E como você já assistiu o filme – se não tivesse assistido, não chegaria até aqui -, você deve se lembrar da morte de Vincent. Pô, cara, o Butch mata o cara porque se assustou com uma torradeira. Ele descarrega uma sub-metralhadora num cara que acabou de sair do banheiro. E quando você pensa que o cara da loja de armas vai ligar pra polícia, o desgraçado é um maníaco sexual que decide estuprar Marsellus.

Literatura e cinema na internet

Se você é do tipo que gosta de fazer listas de filmes que você já viu ou livros que já leu, essa dica é especialmente para você. Pode aposentar o seu caderninho de anotações, a partir de hoje você fará seus censos online.

Embora não sejam sites muito novos, eles ainda não estão amplamente difundidos pela rede, e é por julgá-los úteis demais para mim que eu estou fazendo esse post. Estou falando do Skoob e do Filmow.

Skoob

Skoob, pra quem não se tocou, é books ao contrário. Você se cadastra e começa a botar na sua estante virtual os livros que você já leu, vai ler e os que você abandonou. Há, ainda, espaço para resenhas e comentários, fora as avaliações de 0 a 5 estrelas. Você pode escolher a edição que vai deixar em sua estante e marcar os seus favoritos, os que você realmente tem e os que você quer trocar – o sistema de trocas, no entanto, não é garantido pelo site, ficando por conta dos usuários envolvidos. Além disso, há uma ferramenta interessante, que é o paginômetro: ele soma todas as páginas dos livros que você cadastrou e te mostra a somatória, o que acabou causando o ponto mais negativo do site, na minha opinião: as pessoas que queriam aumentar o número de seu paginômetro para dizer “olha quantas páginas já li” começaram a cadastrar compulsivamente gibis e revistas – houve inclusive um caso da bula do Gardenal, que foi rapidamente resolvido. A equipe do site diz que em breve arrumará essa questão, mas até agora nada.

Recentemente o Skoob sofreu um update e agora o lado social do site está melhorado. Antes, você só adicionava as pessoas, trocava recados e via a compatibilidade de leituras com seus amigos. Agora, o site conta com comunidades e perfis dos autores (uma espécie de orkut).

Experimente: www.skoob.com.br

E faça parte do grupo do Artilharia Cultural por lá, também!

Filmow

Funciona mais ou menos como o Skoob, só que com filmes. Você se cadastra e vai procurando pelos filmes que já viu, podendo, também, botar os que você quer ver, os que você não quer e os seus favoritos. Em seguida, você os classifica de 0 a 10 e pode também comentá-los – alguns desavisados se esquecem de botar o aviso de spoiler, por isso não recomendo que você leia os comentários de um filme que você quer muito ver. Também pode adicionar amigos e ver a sua compatibilidade cinéfila, que é baseada nas avaliações que as duas pessoas fizeram. Há um espaço para álbum de fotos, o que me parece meio inútil, e você também pode marcar os seus ídolos entre os artistas. Dizem que em breve eles também disponibilizarão uma somatória de todas as horas que você já gastou em filmes – o que vai servir pra gente ver quanto tempo perdemos com porcarias.

Experimente: www.filmow.com.br

Por trás da música – O Mestre-sala dos Mares

This video was embedded using the YouTuber plugin by Roy Tanck. Adobe Flash Player is required to view the video.

Em 1910, o militar Hermes da Fonseca foi eleito para a presidência. Nessa época, o Brasil era a terceira maior potência naval do mundo. Embora a escravidão já tivesse terminado havia algumas décadas, os trabalhadores dos navios eram em sua maioria negros que recebiam constantemente punições corporais, como se as péssimas condições a que se submetiam já não fossem suficientes. O uso da chibata já fora proibida em um dos primeiros atos do regime republicano, mas continuava sendo usado ilegalmente pelos oficiais. O marinheiro João Cândido Felisberto, analfabeto e filho de escravos, organizava uma revolta que pusesse fim à humilhação quando uma seção de tortura particularmente cruel apressou seus planos. Oficiais e comandantes são mortos, seis navios estão tomados pelos marinheiros e cerca de oitenta canhões estão apontados para o Palácio do Governo no Rio de Janeiro, ameaçando a cidade e o poder do presidente recém eleito. O episódio ficou conhecido como a Revolta da Chibata, que até atingiu seus objetivos, mas recebeu a resposta do governo logo depois com a perseguição desenfreada aos marinheiros. Somente João Cândido e João Avelino sobreviveram à prisão. Cândido, o líder, acabou internado em um hospício e morreu de câncer, esquecido pelo mundo, em 1969.
E foi dessa história que surgiu a canção O Mestre-sala dos mares, inicialmente intitulada Almirante Negro.

O mestre-sala dos mares

Compositores: Aldir Blanc e João Bosco

Intérprete: João Bosco / Elis Regina

Ano:  1973

Disco: Caça à raposa / Elis 1974

A letra original foi censurada, como explica o próprio Aldir Blanc:

Almirante Negro

(Letra original)

Há muito tempo nas águas da Guanabara

O dragão do mar reapareceu

Na figura de um bravo marinheiro

A quem a história não esqueceu

Conhecido como o almirante negro

Tinha a dignidade de um mestre sala

E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas

Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas

Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas jorravam das costas

dos negros pelas pontas das chibatas

Inundando o coração de toda tripulação

Que a exemplo do marinheiro gritava então

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias

Glória à farofa, à cachaça, às baleias

Glória a todas as lutas inglórias

Que através da nossa história

Não esquecemos jamais

Salve o almirante negro

Que tem por monumento

As pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo.

“Tivemos diversos problemas com a censura. Ouvimos ameaças veladas de que o CENIMAR não toleraria loas e um marinheiro que quebrou a hierarquia e matou oficiais, etc. Fomos várias vezes censurados, apesar das mudanças que fazíamos, tentando não mutilar o que considerávamos as idéias principais da letra. Minha última ida ao Departamento de Censura, então funcionando no Palácio do Catete, me marcou profundamente. Um sujeito, bancando o durão, ficou meio que dando esporro, mãos na cintura, eu sentado numa cadeira e ele de pé, com a coronha da arma no coldre há uns três centímetros do meu nariz. Aí, um outro, bancando o ‘bonzinho’, disse mais ou menos o seguinte: ‘Vocês não então entendendo… Estão trocando as palavras como revolta, sangue, etc. e não é aí que a coisa tá pegando…’ Eu, claro, perguntei educadamente se ele poderia me esclarecer melhor. E, como se tivesse levado um telefone nos tímpanos, ouvi, estarrecido a resposta, em voz mais baixa, gutural, cheia de mistério, como quem dá uma dica perigosa:

‘O problema é essa história de negro, negro, negro...

Eu havia sido atropelado, não pelas piadinhas tipo tiziu, pudim de asfalto etc, mas pelo panzer do racismo nazi-ideológico oficial. Decidimos dar uma espécie de saculejo surrealista na letra para confundir, metemos baleias, polacas, regatas e trocamos o título para o poético e resplandecente ‘O Mestre-Sala dos Mares’, saindo da insistência dos títulos com Almirante Negro, Navegante Negro, etc. O artifício funcionou bem e a música fez um grande sucesso nas vozes de Elis Regina e João Bosco. Tem até hoje dezenas de regravações e foi tema do enredo ‘Um herói, uma canção, um enredo – Noite do Navegante Negro’, da  Escola de Samba União da Ilha, em 1985.

Orgulho-me de, por causa deste samba, ter recebido a Medalha Pedro Ernesto, com João Bosco e o próprio Edmar Morel – infelizmente também já falecido – na presença dos filhos de João Cândido.”

O mestre-sala dos mares

(Letra após a censura do regime militar)

Há muito tempo nas águas da Guanabara

O dragão do mar reapareceu

Na figura de um bravo feiticeiro

A quem a história não esqueceu

Conhecido como o navegante negro

Tinha a dignidade de um mestre sala

E ao acenar pelo mar na alegria das regatas

Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas

Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas jorravam das costas

dos santos entre cantos e chibatas

Inundando o coração do pessoal do porão

Que a exemplo do feiticeiro gritava então

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias

Glória à farofa, à cachaça, às baleias

Glória a todas as lutas inglórias

Que através da nossa história

Não esquecemos jamais

Salve o navegante negro

Que tem por monumento

As pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo

OK Computer – Radiohead

Artilheiro Colaborador: Matt Idioteque

A história musical pode ser dividida entre antes e depois de alguns artistas. Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin, Radiohead e alguns outros. Sim, você leu certo, Radiohead. Thom Yorke, Jonny Greenwood, Ed O’Brien, Colin Greenwood e Phil Selway fizeram algo que nenhum (eu disse NENHUM) outro grupo dos anos 90 fez: música nova e de boa qualidade. Nem as bandas Grunges, nem o britrock, nem o inicio do renascimento do rock americano chegaram perto disso.

Com letras depressivas e uma melodia que deixaria para baixo o mais feliz dos mortais, Thom Yorke e sua turma conquistaram seu sucesso no inicio dos anos 90, com o lançamento do Pablo Honey, em 1993, álbum onde está a faixa Creep, provavelmente a mais famosa da banda. Em 1995, o Radiohead lançou The Bends, onde são encontrados algumas das melhores canções da banda, como Fake Plastic Trees, High and Dry e Just.

Mas foi em 1997, com o Ok Computer que a banda marcou o seu nome, completando assim uma das melhores trilogias de discos de todos os tempos (na minha opinião, só não consegue superar o Pink Floyd com Dark Side of the Moon, Wish You Were Here e Animals) com a sua obra-prima, a cereja do bolo ou seja lá como você queira chamar o melhor álbum dos anos 90.

O Ok Computer é daqueles discos que você ouve a primeira vez e se sente sem ar, sem acreditar que aquilo aconteceu. Aí ouve mais uma vez e se apaixona.
Então, para começar a ler esse texto, coloque o Ok Computer para tocar, prenda a respiração e viva esses 53 minutos de pura genialidade.

Airbag

Airbag, a primeira faixa, com seu ritmo cru e com os já conhecidos vocais arrastados de Thom, mostra em seus primeiros acordes o que o grupo queria fazer. A letra faz uma analogia entre o airbag de um carro e as chances que a vida nos dá, e no melhor verso da música: “… I’m amazed that I survived / An airbag saved my life”, a voz de Thom, combinada com uma melodia perfeita, faz qualquer um se apaixonar pela banda e ter vontade de continuar a ouvir o cd.

9,5/10

Paranoid Android

Logo a seguir, vem aquela que certamente é a obra máxima de Thom Yorke, a faixa que deve ser colocada em qualquer lista das 20 melhores século, Paranoid Android.
Paranoid Android começa leve e vai mostrando sua genialidade ao decorrer dos seus 6 minutos, fazendo com que você queira se agarra a qualquer coisa pela frente enquanto Thom grita “What’s that…?” e uma voz suave e robótica no fundo avisa: “I may be paranoid, but not an android”
Logo após, a canção segue em uma cadência contagiante, até a virada, onde os vocais gritam “You don’t remember / You don’t remember / Why don’t you remember my name?” e o ritmo violento junto a guitarra de Greenwood soam como um soco no estômago. Um agradável soco no estômago.
Na terceira parte, que é a minha favorita, a batida antes perturbadora se transforma em algo melancólico, com Thom Yorke quase chorando nos vocais e um sentimento de profunda angústia é sentido por quem estiver ouvindo. Nos últimos versos, quando Thom canta “The panic, the vomit / The panic, the vomit / God loves his children / God loves his children, yeah!” e mais uma vez uma guitarra pesada invade a faixa e a termina, fazem você perceber que acabou de ouvir uma obra perfeita.

11/10 (Isso mesmo, 11)

This video was embedded using the YouTuber plugin by Roy Tanck. Adobe Flash Player is required to view the video.

Subterranean Homesick Alien

Após Paranoid Android, qualquer coisa deveria parecer medíocre, porém Subterranean Homesick Alien consegue dar a continuidade perfeita ao álbum. A letra, que fala sobre uma abdução alienígena, pode ser entendida como uma analogia a fuga de alguém da cidade grande, isso é percebido no verso “I live in a town / where you can’t smell a thing / you watch your feet / for cracks in the pavement.”, onde a insatisfação com os problemas da cidade é mostrada.
Mais uma vez Yorke mostra seu completo domínio vocal, carregando a música perfeitamente e adicionando o toque de loucura certo para ela.

9/10

Exit Music (for a film)

Exit Music (For a Film) é a consagração da música downer. Apesar do próprio Yorke não gostar nem um pouco desse rótulo, é impossível não ficar abalado. Essa faixa tem um sentido especial para mim, então, do primeiro ao último acorde, da primeira à última palavra, é impossível não sentir o choro preso na garganta. A vontade de morrer a cada verso fica mais forte quando Thom diz “Breathe, keep breathing / don’t lose your nerve. / Breathe, keep breathing / I can’t do this alone.” e explode no final, com o sufocante verso “we hope that you choke / that you choke”.

9,5/10

Let Down

Minha resenha sobre Let Down seria completamente diferente da que farei agora, por nunca ter sido uma das minhas favoritas. Mas quando comecei a ouvi-la em loop por algumas horas, percebi o erro que cometeria, deixando passar mais uma obra-prima de Thom Yorke.
Musicalmente, Let Down se encaixa muito bem no cd, mas não chega a ser perfeita. O que se destaca nessa canção é a letra: poética, profunda, intensa, ou seja lá como você queira chamar.
Falando sobre sentimentos sem controle, a música carrega um dos melhores versos da banda: “the emptiest of feelings / disappointed people, clinging on to bottles / and when it comes it’s so, so, disappointing”.

9,5/10

Karma Police

Depois de cinco faixas incontestavelmente sensacionais, chegamos a Karma Police, o hit do cd, e junto com Creep, a música mais conhecida da banda. Karma Police tem o feeling exato do Ok Computer, explicitando todo o sentimento do disco. Exatamente por ser um hit, tem uma levada mais pop, mas sem abandonar o estilo melancólico, próprio do Radiohead.

A música transmite a mensagem de que tudo que vai, volta, e que a “Karma Police” sempre estará lá para se certificar de que isso realmente irá acontecer. A própria melodia da música é concebida nessa ideia de vai e volta, indo de uma nota até voltar a ela novamente. Também pode-se perceber uma inclusão do próprio Thom, referindo a si mesmo como uma pessoa que sempre erra e acaba atingido pelo carma: “I’ve given all I can/It’s not enough/I’ve given all I can/But we’re still on the payroll”, levando a crer que não adianta o quanto você tente fugir a “Karma Police” sempre chegará em você.

9/10

Fitter Happier

Fitter Happier é a faixa mais genial desse álbum. Obviamente não falo do lado musical, já que a música é composta apenas por uma base de piano e um sintetizador de voz do Mac, mas sim pela mensagem que ela passa. Sua letra é composta por regras sociais que levariam a felicidade, e no encarte do cd, é a única que está escrita corretamente e em ordem. Tudo isso é feito para mostrar que as máquinas são perfeitas, diferente dos humanos, que não conseguiriam manter essa perfeição, já que estamos suscetíveis a erros a cada segundo de nossas vidas.

10/10

Electioneering

Electioneering é uma música completamente diferente do resto do disco, diria eu que se parece muito mais com qualquer coisa do Queens Of The Stone Age do que com algo do Radiohead. Mas a voz de Yorke, como sempre, consegue dar o diferencial perfeito junto as guitarras arranhadas. Com uma letra quase auto-crítica, a propaganda eleitoral é uma metáfora para as obrigações com shows que a banda deve cumprir.

9/10

Climbing up the walls

Quase chegando no fim do álbum, encontramos Climbing Up the Walls, mais uma das obras-primas do Radiohead. Acho que nem Thom Yorke conseguiria dizer sobre o que essa música fala. Um monstro invisível? Uma perseguição? Uma doença mental? Ela chega a incomodar, por parecer tão assustadora e irreal. A orquestra que a acompanha, unida aos sons eletrônicos faz tudo parecer mais perturbador, principalmente quando o vocalista diz: “And either way you turn/ I’ll be there / Open up your skull / I’ll be there / Climbing up the wall”. Não sei se o problema sou eu, mas olhe para a sua cabeça agora:

Ele está lá.

10/10

No surprises

E seguindo perfeitamente o álbum, após uma música perturbadora, vem No Surprises: uma música que chega a parecer infantil, com a introdução em um xilofone e um vocal suave, mas que vai amadurecendo durante os seus 4 minutos. O espetacular alcance vocal de Yorke fica explicito nessa música, que mesmo já sendo muito boa, fica perfeita graças a sua entonação completamente emocionante. Sua letra fala de alguém que não aguenta mais sua vida cansativa e procura descanso. Ela pode ser entendida como a busca de uma vida feliz, uma aposentadoria e uma velhice confortável, mas na minha opinião, a letra está diretamente ligada a morte e ao paraíso prometido após ela.
Independente disso, o refrão “No alarms and no surprises / no alarms and no surprises /  no alarms and no surprises, please.”, mesmo sendo muito simples, contagia e emociona.

10/10

Lucky

Ao chegar na décima primeira música, é impossível não repetir os elogios. Mas Lucky é mais uma das obras perfeitas desse disco. Tecnicamente completa, ela foi toda composta em cima do riff que a introduz, fazendo assim uma faixa sem nenhum erro, mais uma vez sendo melhorada por Thom Yorke, que nesse momento já deixou maravilhado qualquer um que esteja ouvindo-o. A letra é incrivelmente feliz e encorajadora, e a vontade de mudar e alcançar a felicidade a define, como em “It’s gonna be a glorious day! / I feel my luck could change.”

10/10

The tourist

E chegamos ao final. Aquela sensação de que você está completo já toma conta, mas The Tourist ainda está ali, para fazer o papel mais importante: deixar a última impressão. E consegue fazer isso impecavelmente. Uma música calma, que consegue tirar toda a tensão do disco, e que nos faz refletir sobre tudo aquilo que acabamos de ouvir. Certamente, a letra, escrita por Jonny Greenwood e que fala sobre as coisas que um turista deixa passar enquanto observa algo mais importante, fica em segundo plano, quando ouvimos pela última vez Thom Yorke cantar: “Hey man, slow down, slow down / idiot, slow down, slow down.”, os últimos acordes são tocados e se ouve um triângulo encerrando a música. Se o Ok Computer fosse um filme, nesse momento todos levantariam da cadeira e aplaudiriam, emocionados.

10/10

O Radiohead mostrou que é possível escrever uma obra magistral com 12 músicas e pouco menos de uma hora. E que não é preciso de técnica completamente apurada ou membros perfeitos para isso.
Agora solte a respiração. Valeu a pena? Se você é fã de Radiohead, ouça o Ok Computer até cansar, mas se não é: baixe-o ou compre-o. Agora.

(Agradecimentos ao @seubrownie e ao @ravifreitas, que me deram uma força aqui)

OK Computer

Artista: Radiohead

Nota Colaborador: 10

Gravadora: Parlophone Records e Capitol

Ano de Lançamento: 1997

Sobre o Artilheiro Colaborador

Mateus Alves é estudante, tem 15 anos (sim, 15!) e é um apaixonado por Radiohead, Elliott Smith e Tarantino. Carioca, futuro estudante de jornalismo e em busca de qualquer coisa que se pareça com música, ele pode sempre ser encontrado no @mattidioteque.

Toy Story 3

Artilheiros Participantes: Lucas, Tauil, Nathália Bettoni e Larissa Gould

Para resenhar o capítulo final de Toy Story, houve um impasse. Primeiro, ficou certo de que o artilheiro Lucas faria a postagem. Depois, o artilheiro Tauil também foi ao cinema e ficou com vontade de falar sobre. Em seguida, Nathália Bettoni e Larissa Gould, que entraram como artilheiras colaboradoras, também manifestaram vontade de participar. A partir disso, pensamos: por que não inovar o método das resenhas? Por que não experimentar uma nova fórmula para escrever? Pensando nisso, decidimos que resenharíamos esse filme a oito mãos. A gente se reuniu para uma conversa no MSN e o resultado, um tanto quanto colorido, está aqui. Venha conosco: ao infinito, e além!

Atenção: este artigo contém spoilers

Nostalgia

Tauil: Acho que o grande lance do Toy Story é a identificação que temos com a história. Por exemplo, O Rei Leão: perfeito, mas meu tio nunca tentou matar meu pai e meus amigos não comem insetos. É uma coisa distante da realidade.

Nathália: Essa situação de identificação é inquestionável. Pra mim isso é nostalgia pura, principalmente quando me lembro de assistir o Toy Story 1 em VHS.

Larissa: Ai, pegar aquela caixinha azul e tirar a fita verde, empurrá-la vídeo cassete abaixo e sentar no tapete da sala, junto aos meus brinquedos, olhando para cima (meio rá-tim-bum) enquanto eu via o Mickey feiticeiro fazer a abertura! É uma representação nítida de boa parte da minha infância.

Nathália: Isso foi em 1995, hoje já dá pra ver o filme até em 3D.

Tauil: Estamos ficando velhos. A geração dos anos 90 está repleta de Andys, né.

Nathália: Ou de Daisys. Que menina, no meu caso, nunca desejou uma casa pra sua Barbie, como a que o Ken mora no filme? E aquelas roupas de coleção? Como eram caras, minha mãe nunca quis comprar uma daquelas…

Lucas: Sejamos filhos únicos ou com irmãos (meu caso é o primeiro, apenas a título de curiosidade), nossa infância não existiria sem nossos brinquedos.

Larissa: É… é emocionante. Eu cresci com Toy Story, vivi aquilo, ainda tenho alguns brinquedos em cima do guarda-roupa na casa dos meus pais, embora eu tenha abandonado meus brinquedos e minha infância. Chorei muito no filme.

Tauil: Eu me livrei de todos já, menos um gorila de pelúcia que está comigo há mais de uma década.

Lucas: Pera aí, meninas. Momento masculino da conversa: Tauil, me atire uma pedra se você nunca amarrou sacolas de supermercado nos seus G.I Joe’s e jogou para cima, transformando soldados de terra em para-quedistas.

Tauil: Já fiz sim, muito! Eu morava em prédio, daí jogava da janela e perdia um monte que caía nos terrenos vizinhos.

Nathália: Então, essa que é a grande jogada da Pixar. Quem nunca brincou daquele jeito? Quem nunca teve um baú de brinquedos? Muita gente da geração de 90 está agora indo pra facul, bate aquela coisa, impossível não se comover. E pra quem não se comoveu, meu pêsames, pois estes nunca tiveram a divertida idéia de voltar correndo e olhar pela fechadura pra checar se seus brinquedos já ganharam vida ou não.

Personagens

Nathália: As personagens deste filme, do núcleo de sempre, nos dão a leve impressão de estarmos cada vez mais velhos e ranzinzas, porque apesar de terem se passado em média 7 anos, eles estão como novos, ali, esperando por uma brincadeira.

Larissa: Ah, em toda a trilogia o meu preferido é o Woody. Ele é mágico, ele é seu melhor amigo, aquele brinquedo muito antigo que todos guardamos e não queremos nos desfazer; mais do que isso, ele é o líder inabalável, sabe sempre o que dizer, e como o Andy nos lembra no filme, o Woody nunca te abandona, ele nunca desiste.

Lucas: É difícil elencar um favorito, considerando as peculiaridades de cada um. A ironia do Porco, a inocência do T-Rex, a falsa-arrogância de Buzz e o companheirismo do Woody são elementos que trazem à tona todo o profissionalismo da Pixar no que se diz em criação de personagens.

Tauil: Putz, pra mim ninguém pode com aqueles ETs do Pizza Planet! Sensacionais! Ooooh! Achei as participações do Palhaço e do Carrinho de telefone muito boas, também. Personagens pequenos, mas marcantes. Agora, se tem algum personagem detestável, é o Bebê. Assustador. Terrível.

Larissa: De detestável eu acho que é o Lotso. Ele conseguiu despertar em mim o que eu tenho de pior, cumpre muito bem seu papel. Ele é o único vilão de má índole em toda a trilogia.

Nathália: O meu preferido é o Sr. Cabeça de batata. Ele tá hilário nesse filme. O Rex também tá tão fofinho!

Tauil: Mimimi…

Larissa: Olha, o Ken e a Barbie foram uma sacada genial, grande parte da comédia do filme é mérito deles. A Disney promoveu um dos maiores encontros da história.

Nathália: Verdade, ri demais com os dois.

Tauil: Mas eu ainda prefiro os ETzinhos.

Nathália: Mimimi…

Trilha sonora

Tauil: Sobre a música eu não tenho muito a dizer. As trilhas da Disney são sempre espetaculares, e as adaptações pro português estão sempre no mesmo nível.

Larissa: Eu, particularmente, nunca ouvi as versões americanas das músicas, mas sou muito feliz com as versões nacionais. Apesar de que, neste terceiro filme, não houve nenhuma música realmente marcante. Toda emoção fica por conta do clássico “Amigo estou aqui” que é cantada no inicio do filme, e que marca o fim da infância de Andy.

Nathália: Verdade. A música “When she loved me”, do Toy Story 2, ganhou até Grammy. No primeiro filme, a trilha era quase que só instrumental, no segundo e no terceiro isso já mudou, o que é uma boa jogada, porque a música cantada fica muito mais na cabeça.

Tauil: “Amigo estou aqui” é o toque do meu celular. Nem dá vontade de atender…

Lucas: “You Got  a Friend in Me” é sensacional, mas “Amigo, Estou Aqui” é um deleite para os ouvidos. Essas e todas as outras versões em português são deliciosas de se escutar. Uma viagem de volta à infância.

História

Larissa: O filme todo é uma metáfora do abandono, da rejeição, do medo de envelhecer e de não ser mais útil. A história em si fala de amizade, um clichê, mas é tratada com uma sutileza tão grande e de uma maneira tão íntima, que é impossível não se envolver.

Tauil: Achei que foi um desfecho perfeito pra história. Sem muito nhenhenhé, sem muito melodrama. Com humor e emoção na medida certa. Nada muito previsível, tirando o fato de que é um filme feliz e portanto você já sabe o final.

Lucas: Nossa geração é abençoada por ter a chance de participar desse acontecimento. Andy tem mais ou menos a nossa idade (entre 7-8 no primeiro filme) e agora, como muitos de nós, está ingressando na faculdade. São as piadas e referências feitas para nós, é o humor para o jovem adulto, ou o velho adolescente… Entenda como quiser. O clima do filme chega a ser dark em alguns instantes, sempre ressaltando a transição de fase que Andy passa e, consequentemente, todos os brinquedos.

Dublagem

Tauil: Tenho asco de filmes dublados. Mas desenhos, em geral, só vejo dublado. Acho bem melhor.

Larissa: O melhor das dublagens é que elas aproximam a realidade dos personagens à nossa realidade, as piadas, os trejeitos. Tudo adaptado para a nossa cultura. Odeio não entender uma piada, ou entender e não achar graça.

Nathália: Os dubladores têm muito mérito. No original, eles têm as vozes do Tom Hanks e do Tim Allen, por exemplo. Acaba chamando gente pra ver.

Tauil: Aqui a gente nem conhece os dubladores. Só a voz. Os caras andam anônimos por aí.

Lucas: Mais ou menos, Tauil. Guilherme Briggs interpreta Buzz, enquanto Marco Ribeiro é Woody. Não temos nomes conhecidos como no exterior, é verdade, mas o Briggs acaba sendo uma exceção: ele é a verdadeira “celebridade” no meio da dublagem, sempre tendo um papel importante em grandes filmes e franquias.

Ou seja

Tauil: E pra fechar, falamos o quê?

Nathália: Que é pro leitor ir correndo ver Toy Story 3?

Larissa: Mas isso é óbvio demais, né, gente.

Lucas: É óbvio, mas não custa reforçar: se você, leitor, ainda não foi prestigiar Toy Story nos cinemas, corra! Antes que saia de cartaz. E vale a pena fazer uma sessãozinha “relembrar é viver”, revendo os outros dois filmes.

.

Sobre os Artilheiros Colaboradores

Larissa Gould é estudante de jornalismo e nas horas vagas, discute política com estranhos. É apaixonada (e viciada) em leitura. Costuma se envolver muito com filmes e principalmente livros, chegando por diversas vezes a mudar traços de sua personalidade e adotar o de personagens. Teimosa, dificilmente sai de uma discussão sem perder ou usar todos seus argumentos. Acredita que se sua vida tivesse trilha sonora, certamente, seria em ritmo de samba. Você pode encontrá-la no twitter no @larissagould.

Nathália Bettoni é pseudo-estudante, dona de três adoráveis cães e duas pacatas tartarugas, amante de fotografia e cidadã italiana. Odeia café e derivados do milho. É a entregadora oficial do correio elegante todos os anos na festa junina. Sua atual meta de vida é passar numa federal e viver de festas para contar para as suas netinhas. Seu twitter: @nathyb_.

Especial Quentin Tarantino – Inglourious Basterds

A primeira coisa que alguém descobre sobre mim, quando falamos de cinema, é que eu sou apaixonado por filmes de guerra. Dentre elas, minhas duas favoritas são, em ordem de importância: a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnam. A segunda coisa que alguém descobre sobre mim, ao falar do assunto supracitado, é que meus diretores favoritos são, sem preferência definida: Quentin Tarantino, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola. Desses três diretores, até o ano passado, apenas um tinha feito um filme de guerra. Apocalypse Now, de Coppola, é – até hoje – um dos melhores longas do gênero, que conta com Marlon Brando (lembre desse nome), Martin Sheen (pai de Charlie Sheen, que atuou em Platoon) e até o Morpheus moleque, Laurence Fishburn. E por que diabos eu estou falando disso? Porque em 2009, Quentin Tarantino nos entregou um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos: Inglourious Basterds, ou, se vocês preferirem: Bastardos Inglórios.

O Mito

Quentin Tarantino demorou praticamente uma década para finalizar o roteiro de Bastardos Inglórios. Muita gente chegou a duvidar que o filme realmente seria feito um dia, mas o problema não era esse. Sabe quando você escreve alguma coisa, e isso tá muito bom, mas você sente que pode ficar melhor? Provavelmente o americano estava assim com relação à Bastardos. Ele sabia que aquela poderia ser sua obra prima, seu filme de maior sucesso, mas algo lhe dizia que faltava algo. E mais alguma coisa. E um toque de sangue ali. E um diálogo ácido acolá. E, em meio à diversas mudanças, ideias e planejamentos, o filme que era anunciado ano após ano finalmente teve suas filmagens iniciadas. Todos ficaram perplexos quando o roteiro vazou meses antes do filme estreiar, e ficou disponível para quem quisesse ler.

Eu comprei um livro com o roteiro original do filme. E, sabe, ler roteiro é uma coisa meio estranha. É totalmente diferente de ler uma história. Mas você consegue enxergar a alma do filme ali. E, como vocês puderam perceber… Ele não estava errado em ter demorado tanto tempo pra fazer a história.

Os Bastardos

Uma vez meu pai me disse: “filho, nunca discuta com uma mulher. De um jeito ou de outro, você vai perder”, e eu não ouvi. Talvez, exatamente por isso, eu sempre trave discussões sobre os mais variados assuntos com uma garota em particular. E essa garota odeia o Brad Pitt. Eu não entendo como alguém pode odiar o Tyler Durden e, mais que isso, o Lt. Aldo Rayne (homenagem ao ator e ex-veterano da 2ª guerra Aldo Ray). Pitt me lembrou, invariavelmente, Marlon Brando (eu falei pra você lembrar dele) durante diversas cenas, seja pelo rosto propositalmente estufado ou pelo jeito durão e imponente. Ele é o tipo de ator que não pode ser considerado “um dos melhores da sua geração”, mas ele é o tipo de cara que escolhe os melhores papéis para sua carreira (12 Macacos, Clube da Luta, Seven e o filme que estamos falando agora não me deixam mentir) e rouba a cena em quase todos eles.

Existem dois outros Bastardos que merecem destaque: Eli Roth, como o Sargento Donny Donowitz, não precisa atuar de maneira brilhante: ele é o Urso Judeu, temido por todos os nazistas que já ouviram falar dos Inglórios, tem apenas uma missão: ser brutal. E é isso que ele faz.

Já o alemão Til Schweiger recebeu uma missão mais dura: ser o Mr. Blond. Antes que você corte minha orelha fora, eu explico: Mr. Blond é o personagem turrão, que fala pouco e é, invariavelmente, o mais badass do grupo. A cara de mal de Schweiger, junto à cenas do loiro matando oficiais da Gestapo com uma narração de Samuel L. Jackson ao fundo são elementos que tornaram essa tarefa praticamente um passeio no parque, para o ator.

Existe um ator, porém, que merece um subtópico só para si: Christopher Waltz.

Hans Landa

Quando eu disse, três parágrafos acima, que Brad Pitt roubava a cena em quase todos os bons filmes que fazia, a explicação encontra-se no ator alemão que deu vida à um dos melhores vilões desde Darth Vader e Hannibal. Christopher Waltz é tão brilhante no papel do comandante da SS que nós torcemos para que ele apareça mais e mais. Nós torcemos para que existisse um filme só dele, com todas as suas crueldades, seus comentários insanos e suas demonstrações impressionantes de inteligência. Como o próprio diz, ele é um detetive. Um homem inteligentíssimo, que não admite derrotas. E como todo grande vilão tem um detalhe característico (Darth Vader tinha sua vestimenta especial, enquanto Hannibal era aprisionado à uma máscara), Tarantino deu à Hans Landa um enorme cachimbo, que causa risos à plateia quando retirado do bolso do comandante, naquela que é uma das melhores cenas de abertura da história do cinema moderno.

E é nessas horas que o destino mostra-se gentil com obras primas como esta. A primeira opção de Quentin Tarantino para o papel do comandante era Leonardo DiCaprio. Independente das qualidades de atuação do ator (as quais eu admiro)  é certo que nenhum outro ator cairia tão bem como Waltz. Se o prêmio de melhor ator no festival de Cannes (2009), o Globo de Ouro (2010) e o Oscar (2010) por melhor ator coadjuvante não te dão certeza disso, as palavras de Tarantino talvez surtam algum efeito: segundo o diretor, Waltz “deu o filme de volta à Tarantino”. A explicação para essa frase é simples; Hans Landa, segundo Quentin, foi o melhor personagem que ele já inventou em toda sua vida. Até o austríaco aparecer, porém, era o tipo de papel que parecia impossível de se atuar. Podemos considerar que, se não fosse o ator, o filme talvez nunca tivesse saído do papel.

O ponto alto de Hans Landa, talvez, seja o fato do personagem não flertar com as ideias nazistas. Fica claro, durante o filme, que apesar de usar as roupas de um nazista, ele não flerta com sua ideologia. O Caçador de Judeus, como ele se auto-intitula, tem como prazer mostrar que é o melhor no que faz. E nós sabemos que essa é a mais pura verdade.

The Tarantino Way

Existe algo em filmes de guerra que é consideravelmente desagradável: nazistas falando inglês. Franceses falando inglês. Russos falando inglês. Diretores deviam saber que não adianta você obrigar um cara a falar inglês com um sotaque soviético: vai continuar sendo inglês. Mas nós não estamos falando de um diretor qualquer, aqui: estamos falando de Tarantino. E qual é seu modus-operandi? Traduzindo em bom português: se vai fazer, faz direito. E ele fez, de novo.

Na cena inicial, na qual Hans Landa interroga um fazendeiro francês que esconde vizinhos judeus em seu sótão, o diálogo inicial entre o nazista e o dono da propriedade é travado em francês. À pedido do personagem de Waltz, eles começam a conversar em inglês. O melhor: com um motivo. O palpite de Landa é que os vizinhos, fugitivos, não sabiam falar inglês. E, de fato, não sabiam.

Hitler e os oficiais alemães falam, graças à Deus, alemão. Uma cena memorável do filme (apesar que todas o são) mostra um diálogo entre Aldo Rayne e um oficial alemão que não fala inglês, precisando, então, da necessidade de um tradutor (um dos Bastardos, alemão). A opção por utilizar o inglês (ou simplesmente eliminar essa cena), que salvaria minutos de filme, foi ignorada pura e simplesmente para manter uma semelhança com a realidade.

Vale lembrar, igualmente, da cena que passa-se em uma taverna, depois de um jogo de adivinhações entre os Bastardos, Bridget von Hammersmark (Diane Krueger) e oficiais da Gestapo. O motivo que desencadeia uma sequência de ação só poderia sair da cabeça de Tarantino. E já que falamos nisso, a ultraviolência está lá, como não poderia faltar. Seja na execução de um oficial nazista com um taco de baseball (nota do artilheiro: na terceira vez que fui ao cinema para assistir Inglórios, procurei algumas pessoas que também assistiam o filme, com os cantos dos olhos, nas cenas de maior violência. Poucos olharam durante o tempo todo a execução do alemão ou o método de persuasão que Aldo Rayne usou em Mimieux) ou na apresentação de Hugo Stiglitz, Tarantino mostra que não perdeu a mão.

Once Upon a Time, in a Nazi Occupied France…

Soldados americanos (e judeus) são largados na França, como civis, com uma única missão: matar o máximo de nazistas que puderem. Não existe uma missão explanada, complexa, que possa ser interferida por militares do alto escalão, em uma mirabolante rede de intrigas: os Bastardos devem aterrorizar os nazistas, e destruir o máximo de oficiais alemães que conseguirem. Dentre seus métodos, o escalpelamento é, sem sombra de dúvidas, o mais criativo. Mais que uma missão de encontrar e destruir, os Inglórios sempre deixam um soldado vivo, para voltar ao Fuhrer e contar a história.

Durante duas horas e meia, temos a chance de observar Quentin Tarantino reescrever a história, usando suas inúmeras referências (é quase desnecessário comentar o quão incrível é que o plot todo da história acabe por girar na exibição de um filme de guerra em uma sessão que abrigará todo o grande comando nazista, e a possibilidade de matar todos ali mesmo) e utilizando diversos estilos de se fazer cinema para criar, como sempre, o seu próprio.

O artilheiro que vos escreve preferiu não falar de Melanie Laurent, que interpreta a judia Shosanna Dreyfus, porque não quero me apaixonar de novo.

Para mandar os soldados de volta para Hitler, como já mencionado aqui, Aldo Rayne lhe desenha uma suástica, talhando o desenho na testa do nazista com uma faca. Ao fazer isso novamente, na cena final do filme, Danny Donowitz olha para seu comandante e diz as seguintes palavras: acho que o senhor acabou de fazer sua obra-prima. Essa cena, rodada com a marca registrada de Tarantino, a “tomada do porta-malas”, na qual os atores olham para baixo, me deu a nítida impressão que esse foi um recado direto de Tarantino para nós. Bastardos, junto com Cães de Aluguel, é considerado a obra-prima do diretor. E, apesar de – por motivos pessoais – preferir Cães de Aluguel, Inglórios está na minha lista definitiva dos meus 10 filmes favoritos de todos os tempos. E se não está na sua, ainda, tá na hora de assistir de novo.

Curiosidades:

  • Adam Sandler foi sondado para interpretar Danny Donowitz; devido à problemas na agenda, o papel ficou com Eli Roth.
  • Hugo Stiglitz é o nome real de um ator mexicano.
  • Eli Roth ganhou 15kg para interpretar o Urso Judeu
  • Michael Madsen (Mr Blond) participaria do filme como Babe Buchinsky; nem Madsen, nem o personagem aparecem no filme.
  • Tarantino é o primeiro soldado nazista a ser escalpelado pelos Inglórios
  • Harvey Keitel (Mr White) é quem faz a voz do negociador que tenta um acordo com Hans Landa

Referências:

  • Once Upon a Time in West, filme com Henry Fonda e Charles Bronson, foi a inspiração de Tarantino para o primeiro capítulo do longa.
  • Na cena do tiroteio no cinema, Donny Donowitz está intencionalmente na mesma posição e com a mesma expressão de Tony Montana (Al Pacino) em Scarface.
  • “Duas batidas: eu te bato, você bate no chão”, frase que Donowitz profere, foi retirada do filme O Clube dos Cinco.
  • Existe uma alusão ao Clube da Luta quando Brad Pitt diz: “Você sabe, lutar em um porão oferece muitas dificuldades. A número um é, você está lutando em um porão.”

Não se esqueça de participar da nossa promoção À Prova de Morte, que vai te dar dois ingressos pra qualquer cinema Playarte que esteja exibindo o último filme de Tarantino lançado no Brasil! Basta dar RT nesse tweet e seguir o AC!

Especial Artilharia Cultural – Admirável Som Novo (Parte III)

Novos sons

por Marcel

Bem vindo à última parte do especial Admirável Som Novo concedido exclusivamente aqui no Artilharia Cultural.

Prometi trazer aos leitores, boas indicações musicais que nasceram nesse novo século. Mas antes de simplesmente citar os grupos que merecem atenção é preciso fazer uma ressalva a como eles, habitualmente chegam lá.

Como já dito na primeira parte,  a inclusão digital de boa parte do mundo virou a indústria fonográfica de penas para o ar. Contando que o pólo era dominado por corporações graúdas como Sony e Warner. Logo, na segunda parte, falamos desse novo terreno, a demanda musical aumentou e até o usuário dos sites de música, ou os que simplesmente baixavam músicas, evoluiu. E como resultado de toda essa ebulição, ganhamos muito, no que se diz em variedade.

Assim, a Arte ficou mais disputada pelos novos gêneros, os modismos pré-estabelecidos pegavam cada vez menos. A recente corrente emocore, foi absolutamente disseminada por bandas novas, em suas páginas em sites de relacionamento como Purevolume e só depois incorporados pelas grandes empresas com contratos e tudo mais. Assim, a moda que envolve a música parou de ser uma exclusividade das grandes empresas já que o ouvinte pôde optar melhor.

As mudanças no mundo da música ainda não cessaram, nem ao menos adaptamo-nos as primeiras mudanças e novidades surgem por todos os cantos. O especial cuidou de falar do que está mais latente e talvez você não conhecia. Mas no fim das contas o ouvinte que tem um leque quase infinito de títulos e gêneros para escolher, merece saber que existe sim, coisa melhor do que aparece nos grandes veículos.

O que há de fresco:

Começamos falando de Rock, e terminaremos falando de Rock…

No País da Rainha

A banda Arctic Monkeys formada em 2002 representa bem as diversas outras bandas de valor que surgiram com o que há de recente no rock britânico. Se você já conhece e gosta, tem mais indicações aqui: Kaiser Chiefs, Franz Ferdinand, e Editors.

This video was embedded using the YouTuber plugin by Roy Tanck. Adobe Flash Player is required to view the video.

Nos EUA

Amem ou odeiem Kings of Leon é um dos maiores achados do rock dos Estados Unidos nesses últimos anos. A banda mistura bem a vocalização forte que embalou o blues com as guitarras e efeitos do que há de mais moderno. Ainda existem outras indicações vindas do país do Tio Sam depois da era digital: 30 seconds to mars, Incubus, Fall Out Boy, The Killers e The Black Keys.

This video was embedded using the YouTuber plugin by Roy Tanck. Adobe Flash Player is required to view the video.

Brazucas – O que há de novo aqui

Os anos 90 foram inesquecíveis para o gênero aqui no Brasil. Nasceram hits de Raimundos, Charlie Brown Jr., Nação Zumbi e O Rappa. Isso fez com que muitos afirmassem que o estilo decairia com a internet que espalharia tudo o que é bom por aí. O tempo passou e realmente pouca coisa boa apareceu. Entre os sucessos dividiram prêmios de revelação bandas como Pitty, Fresno, Nx Zero e Cine. Mas a única das supracitadas que o artilheiro indica pela evolução em qualidade é a banda gaúcha liderada por Beto Bruno. Portanto, se ainda não ouviu os últimos trabalhos do Cachorro Grande, procure mais, principalmente o disco Todos os Tempos. Ainda cito entre as indicações duas bandas fresquinhas que andam dando ar para o gênero: Sabonetes e Vivendo do ócio.

This video was embedded using the YouTuber plugin by Roy Tanck. Adobe Flash Player is required to view the video.

Mais indicações do Artilharia para todos os gostos além do Rock?

Conheça a coluna Com vocês.

Eu fico por aqui, foi um prazer. Comentem e sugiram mais.

Let’s Dance to Joy Division

Artilheiro Colaborador: Matt Idioteque

Sufocante.  Se o Joy Division precisasse ser definido em uma única palavra, certamente seria essa (favor ignorar o trocadilho com a morte do vocalista Ian Curtis, que se enforcou).

Com forte influência do punk rock (Ian Curtis conheceu os membros da banda em um show dos Sex Pistols) e da corrente do rock britânico no final dos anos 70, o Joy Division surgiu de um encontro entre os talentosos (há quem discorde disso) Bernard Sumner, Peter Hook, Stephen Morris e o louco e problemático Ian Curtis, formando assim a maior banda proveniente de Manchester (palavras de um fã de Oasis e Smiths).

Ian Curtis

Falar de Ian Curtis em um parágrafo seria praticamente impossível e um texto seria pouco para descrever seu estilo. Sombrio, depressivo e com uma doença que marcaria especialmente a sua carreira (a epilepsia), Curtis, que tinha 20 anos no inicio da banda, deixou seu nome na história da música com suas canções que abordavam temas decorrentes em sua vida, como o sofrimento, as dores emocionais e a epilepsia.

No palco, desenvolveu seu próprio modo de se apresentar quase que involuntariamente: as fortes luzes sempre presentes nos shows e a música provocavam ataques de epilepsia enquanto ele cantava, provocando um efeito hipnotizador nele e em seu público.

This video was embedded using the YouTuber plugin by Roy Tanck. Adobe Flash Player is required to view the video.

Após 4 anos de banda, com o fim de seu casamento e sem suportar mais sua doença, Ian cometeu suicídio, no dia 18 de maio de 1980, deixando assim um legado que durou (e ainda dura) décadas.

A música

Devido à morte precoce de seu vocalista, o Joy Division só teve 2 álbuns oficiais lançados:  Unknown Pleasure (de 1979), e Closer (álbum póstumo, de 1980). Mais algumas compilações com músicas inéditas em seus álbuns, incluindo Love Will Tear Us Apart, seu maior sucesso, foram lançadas após o fim da banda.

Unknown Pleasures

Em 1979, a banda lançou seu primeiro álbum, Unknown Pleasures, onde a banda mostrou todo seu potencial, com suas letras angustiantes e seu ritmo . Até hoje, ele é considerado um dos melhores álbuns de estreia.

O lado A começa com Disorder, uma música que, nos primeiros segundos, marca a batida que consagrou a banda. Logo depois vem Days of the Lords, canção que carrega um peso maior e que causa uma sensação de angústia típica do Joy Division.
O disco continua nesse ritmo, até chegar o lado B onde, a meu ver, estão 2 das melhores músicas da banda: She’s Lost Control e I Remember Nothing.
A primeira, que fala sobre a epilepsia, é a minha preferida da banda, onde tudo parece estar perfeitamente arrumado com a voz de Curtis; já I Remember Nothing, com um ar sombrio, que chega a provocar um certo medo em quem a ouve, perfeito para terminar o disco, é uma canção que soa diferente do que o Joy Division fazia, e por isso é uma das músicas que mais gosto deles.

Closer

Closer, segundo e último álbum da banda, foi lançado como álbum póstumo, já que Curtis se suicidou dois meses antes do lançamento do mesmo.
Mais animado que o primeiro disco, ele mostra uma evolução musical muito grande dos membros da banda, ao mesmo tempo que as letras e os vocais mostravam um Ian Curtis mais depressivo, condição que acabaria levando-o ao, já citado, suicídio.

Esse disco tem músicas menos expressivas do que seu antecessor, mas entre as que se destacam posso citar: Twenty Four Hours, Isolation e The Eternal.

Singles e Compilações

Muitas músicas do Joy Division não foram lançadas em álbum, mas em singles e em algumas compilações.

Love Will Tear Us Apart, o hit mais conhecido, é a obra máxima da banda, onde Curtis deixa uma mensagem curta e verdadeira, que foi gravada em sua lápide.

This video was embedded using the YouTuber plugin by Roy Tanck. Adobe Flash Player is required to view the video.

Transmission e Atmosphere, duas músicas que não estão em nenhum disco mas foram single, também merecem uma atenção especial.

O fim da banda e a influência

Após o fim da banda, Sumner, Hook e Morris se juntaram à Phil Cunningham e Gillian Gilbert e criaram o grupo de música eletrônica New Order, que está ativo até hoje.
O Joy Division foi, e é, influência para grandes bandas do cenário alternativo, como Interpol, The Editors, Franz Ferdinand e The Killers (que gravaram um cover de Shadowplay para um de seus álbuns).

Ian Curtis e cia., mesmo com o pouco tempo que tiveram para isso, marcaram seu nome na história por serem como a vida: sombria e depressiva mas ao mesmo tempo alegre. Complexa. Intrigante.
Sufocante.

Para ver: Control, 2007 – Cinebiografia sobre a vida do Ian Curtis
24h Party People, 2002 – Filme que mescla elementos reais e fictícios sobre a Factory Records, gravadora do Joy Division.

Sobre o Artilheiro Colaborador

Mateus Alves é estudante, tem 15 anos (sim, 15!) e é um apaixonado por Radiohead, Elliott Smith e Tarantino. Carioca, futuro estudante de jornalismo e em busca de qualquer coisa que se pareça com música, ele pode sempre ser encontrado no @mattidioteque.